Junho com Arte Acessível

Resultado de imagem para audiodescrição

As férias de inverno estão quase chegando e para quem mora em algumas cidades do estado de São Paulo há boas oportunidades para assistir espetáculos com acessibilidade.

Encontrar uma peça ou exposição acessível tornou-se uma tarefa mais fácil nos sites brasileiros de divulgação cultural, basta prestar atenção em Tags ou ícones que indicam os recursos de Audiodescrição ou Libras, por exemplo.

No site do Itaú Cultural, para todos os eventos anunciados há as indicações dos recursos oferecidos para as pessoas com deficiência auditiva ou visual. Outro diferencial é a acessibilidade em LIBRAS que está disponível em todos os conteúdos da homepage por meio do aplicativo ProDeaf. A pessoa surda poderá entender todas as matérias em LIBRAS, basta clicar no ícone do aplicativo e, em seguida, selecionar trecho a trecho do texto e uma intérprete virtual traduz em Língua Brasileira de Sinais o conteúdo que está em português.

O MATAV indica duas peças com recursos de acessibilidade que estarão em cartaz em junho e que são produzidas com apoio do Itaú Cultural.

https://www.itaucultural.org.br/

Chiquita Bacana no Reino das Bananas

Fotografia colorida de cena da peça Chiquita Bacana no Reino das Bananas. Na imagem, atores a atoras vestem preto. Colocam as mãos cruzadas sobre o próprio peito e olham para o lado.

#paraCegoVer #paraTodosVerem (descrição da imagem) Foto colorida de atores do grupo Folias d’Arte. Todos os atores estão vestidos de preto, eles estão em pé em um círculo. Na frente da foto está uma atriz de cabelos curtos, de cor avermelhada, ela usa óculos e está com os braços e mãos cruzados cobrindo seu peito. A foto tem fundo preto. (fim da descrição)

A peça de Reinaldo Maia apresenta a história de uma menina que é acusada de comer uma banana no Reino das Bananas.  O reino, que é comandado pelo Rei Leonino e por seu grupo de girafas e gorilas, possui outros animais que estão perdendo suas funções sociais. O desfecho da peça é decidido pelo público.

O grupo Folias d’Arte foi formado em 1997 e seus espetáculos tratam dos problemas da sociedade contemporânea. O grupo já recebeu cerca de 50 prêmios, incluindo os prêmios Shell, APCA e Molière.

Serviço: Chiquita Bacana no Reino das Bananas [com interpretação em Libras e audiodescrição].

Itaú Cultural São Paulo

Endereço: Avenida Paulista 149 São Paulo SP – [Estação Brigadeiro do metrô]

Sábados 22 e 29 e domingos 23 e 30 de junho de 2019 às 15h [nos dias 29 e 30, o espetáculo conta com audiodescrição] [duração aproximada: 60 minutos] Sala Multiúso (piso 2) – 70 lugares

 

Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

#PraCegoVer #PraTodosVerem. (descrição da foto) Fotografia colorida com quatro atrizes encostadas na frente de um fusca branco em uma praça. Elas vestem vestidos rosa, amarelo, azul e laranja e seguram uma faixa longa feita de tecidos coloridos. Sorriem para a câmera. (fim da descrição)

Um projeto itinerante de contação de histórias que usa como base de transporte e fonte de causos um tradicional Fusca branco de 1978, chamado Joaquim. Assim é “Joaquim, o Fusca que Contava Histórias”,  projeto criado pelo gRUPO êBA!, que de 9 a 11 de junho irá percorrer as cidades de São Luiz do Paraitinga, Taubaté e São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba.

A intervenção consiste na apresentação de um espetáculo inédito, A Menina das Meias Vermelhas, seguida de um convite para que o espectador entre no Fusca e, sentado no banco do motorista, compartilhe a própria história, protesto ou o que tiver vontade de contar. A equipe artística é composta de três contadoras de histórias ouvintes que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de uma contadora surda. Todo o espetáculo será acompanhado por elementos percussivos e visuais, e narrado em Libras e português simultaneamente.

Serviço: Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

domingo 9 de junho de 2019 às 14h30
Largo do Rosário [apresentação aberta ao público]
São Luiz do Paraitinga, SP

segunda 10 de junho de 2019 às 14h
Emief Anna dos Reis Signorini [apresentação fechada para alunos]
Jardim Jaraguá, Taubaté, SP

terça 11 de junho de 2019 às 15h30
Emef Profa Maria Aparecida dos Santos Ronconi [apresentação fechada para alunos]
R. Ana Gonçalves da Cunha, 400, Jardim Jussara, São José dos Campos, SP

[livre para todos os públicos]

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“O Milagre de Anne Sullivan” e a descoberta da linguagem Filme da década de 60 conta a infância

Filme da década de 60 conta a infância da escritora surdocega

Resenha de João Batista Signorelli

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#ParaCegoVer: Foto em preto e branco de Helen Keller. Ela é uma senhora branca, de cabelos grisalhos curtos. Está em pé e olha para frente. Seu braço direito segura um livro grande em braile e com os dedos da mão esquerda lê uma palavra. Helen veste uma blusa preta com detalhes bordados na gola e usa um colar. Na parede, atrás de Helen, há uma estante com vários livros grandes e alguns enfeites decorativos.

Ela era escritora e ativista política. Escreveu 12 livros e diversos artigos e obteve um diploma de Bacharelado em Artes nos Estados Unidos. Helen Keller viajou o mundo, ministrou centenas de palestras, lutou pelos direitos das mulheres, dos trabalhadores e dos deficientes, foi surda e cega desde os 19 meses de idade.

O início de sua impressionante trajetória foi contado no cinema sob a direção de Arthur Penn (de“Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”) e com Patty Duke interpretando a protagonista em sua infância e Anne Bancroft como Anne Sullivan, tutora de Helen. O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker no original) de 1962 foi uma adaptação de uma peça de teatro com a mesma dupla nos papéis principais. Vale ressaltar que ambas atrizes receberam o Oscar de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante respectivamente. Houve ainda outras duas versões produzidas diretamente para a televisão, uma de 1979 e outra de 2000, mas ainda assim a versão de 1962 permanece sendo considerada como a versão definitiva da infância de Helen Keller.

Trata-se de uma obra prima imensurável, um filme rico em emoções, transmitidas sem cair em artifícios formulaicos de superação típicos de filmes com essa mesma temática.

A trama acompanha Anne Sullivan, uma jovem professora parcialmente cega, em sua tentativa de educar a menina Helen Keller. É por vezes uma obra incômoda e ao mesmo tempo bela, uma vez que é capaz de transmitir tanto o horror de estar no mundo, mas não estar consciente disso, quanto a beleza de descobri-lo.

O filme se inicia com os pais de Helen descobrindo a sua surdocegueira. Logo de início, a natureza incômoda se instaura, com interpretações sem nenhum tipo daquela elegância tão presente em Hollywood poucos anos antes, abraçando uma tendência mais realista e incorporada. Essa natureza crua, quase agressiva se faz presente ao longo do filme, expressa principalmente na própria Helen, que tendo crescido em absoluta escuridão e silêncio, comporta-se violentamente para com as pessoas à sua volta e vaga pela casa quase como um animal.

Os créditos de abertura devem ser analisados minuciosamente, pois já servem para estabelecer situações difíceis constantes no cotidiano da protagonista. Logo na abertura (e que se repetirá ao longo do filme),  a trilha sonora inquietante cria uma atmosfera digna de um filme de terror e a fotografia em preto-e-branco realça as sombras e a escuridão sempre que necessário, tudo com a intenção fazer o espectador sentir desta forma a situação angustiante de Helen.

No início, garota já tem desenvolvida uma linguagem bastante rudimentar, que se limita a gestos de sim e não feitos com a cabeça e sentidos com as mãos, quando realizados por outras pessoas, além de sinais se referindo a suas principais necessidades, como aquele que utiliza para se referir à sua mãe.

Com a intenção final de fazer Helen compreender o mundo por meio da linguagem, Anne, a recém chegada professora faz sua aluna sentir, através do tato, os gestos do alfabeto de sinais, que ela se mostra capaz de reproduzir, mesmo sem atribuir aos gestos significado algum. Porém, ela encontra um difícil contratempo neste processo: o comportamento de Helen. Esta, além agir como animal, é extremamente mimada por sua mãe. Dessa maneira, o primeiro desafio da professora é ensinar a menina a se comportar. Anne Sullivan se revela como a pessoa ideal para realizar tal desafio, pois teve uma infância árdua ao lado de seu irmão paraplégico e é constantemente atormentada por memórias e sonhos retratados no filme pela sobreposição de imagens em flashback que são quase borrões.

É em uma tentativa de “domesticação” e de reversão da educação mimada que Helen recebeu que entra a famosa cena de estafantes, porém fascinantes 8 minutos em que Anne literalmente luta contra a menina para que ela comesse diretamente de sua colher, pois ela sempre havia se alimentado com as mãos. Nessa cena, a ausência de trilha sonora destaca o cansaço da situação e colabora na construção de tensão, além dos próprios sons produzidos pelas personagens como a respiração progressivamente mais acelerada de Anne, os grunhidos de defesa de Helen, os passos e golpes apreensivos e os pratos se quebrando de maneira quase estridente reafirmam a natureza animalesca de Helen e o esforço insistente de Anne para revertê-la.

A partir do momento que o comportamento de Helen passa a ser mais controlado, torna-se então mais fácil para que a professora possa se dedicar a ensiná-la a língua de sinais. A família se dá por mais que satisfeita: Helen se demonstra calma e obediente, menos agressiva e capaz de se servir e comer como uma pessoa comum. Enquanto os pais se demonstram alegres com a melhora da filha, Anne não se dá por satisfeita: “obediência não é o suficiente”. A tutora quer que a menina surdo-cega possa se comunicar e entender o mundo através da linguagem, que ela seja autônoma e não apenas um animal com comportamento condicionado.

Para que isso seja possível, na visão de Anne, o primeiro passo para Helen seria entender que as coisas existentes no mundo têm nome. Essa visão é certamente condizente com os pensamentos sobre Linguagem na época: ainda faltavam alguns anos para que fosse publicado o Curso de Linguística Geral de Ferdinand Saussure. Nele, Saussure vai além da visão de que a Linguagem se resume a dar nome às coisas existentes no mundo, pois nos signos linguísticos existe uma relação mais complexa entre um conceito e uma “imagem acústica”, um Significante e um Significado. Apesar de Anne não se utilizar deste vocabulário, em uma análise mais contemporânea poderia-se dizer que Helen mais do que apenas entender que as coisas têm nome, precisa compreender as coisas ao seu redor como conceitos, e relacioná-los a significantes, no caso dela não se tratando de “imagens acústicas” pois estas não seriam possíveis no Universo de compreensão dela. Criar um termo como “imagem gestual” neste caso poderia ser mais adequado.

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#ParaCegover: Cena do filme em preto e branco “Milagre de Anne Sullivan”.  A garota Helen e sua professora Anne estão em frente de uma bomba d´água no quintal de uma de casa de fazenda. A mão esquerda de Helen está posicionada debaixo da torneira e sua mão direita toca o rosto de Anne, que segura a alavanca da bomba d´água.

Por vezes Anne sente-se frustrada, como se não tivesse sido capaz de realizar o seu trabalho. A menina parece ser um caso perdido, mas no final do filme nos surpreendemos com sua desenvoltura.

Ao relembrar do passado, de quando ainda não era surdocega e estava começando a desenvolver seu vocabulário, Helen consegue finalmente entender a relação entre o mundo e os gestos tantas vezes replicados. Trata-se de uma conclusão inesquecível, é uma experiência catártica, que alivia toda a tormenta presenciada durante a projeção, quando finalmente a aluna de Anne Sullivan experimenta sensações jamais previstas pela sociedade.

O filme não se esforça por contar mais da vida de Helen Keller, sequer traz qualquer informação seu futuro. Não faria sentido, pois o filme está preocupado em contar a história do processo de descoberta da linguagem de Helen e não criar um retrato de sua vida. Não é difícil procurar um livro ou buscar na internet para conhecer um pouco mais dessa vida fascinante. Certamente, o filme desperta bastante curiosidade e acerta ao contar apenas o essencial para sua narrativa. Narrativa que pode se enquadrar no seleto grupo de filmes que de alguma forma mudam a nossa forma de ver o mundo, iluminando e clareando a nossa visão, assim como foi para Helen. Para mim, ao menos, foi assim.

O esplendor do cinema

Filme japonês revela a sensibilidade na audiodescrição

Matéria: Bruna Tastelli

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#ParaCegoVer: Foto colorida apresenta uma sala com cerca de vinte carteiras escolares. Há vários jovens sentados, alguns estão olhando para uma tela de projeção de filmes, outros conversam descontraídos. Uma das jovens entrega um saco de pipoca de embalagem vermelha para sua colega. Ela está vestida com uma camiseta preta com a logomarca do MATAV e shorts.

No dia 10 de abril, o CineMatav exibiu o filme Esplendor (2017) na sala de projeção da biblioteca da Unesp Bauru. Com muita pipoca e olhares atentos, os alunos que compareceram puderam adentrar no universo da audiodescrição, tema central do filme de Naomi Kawase.

O longa se inicia com uma narração em off que descreve as cenas de uma típica cidade grande: muita agitação nas ruas, carros barulhentos e pessoas seguindo o fluxo cotidiano. A narradora é a audiodescritora Misako Ozaki (Ayame Misaki), que faz consultoria com grupos de deficientes visuais para avaliar o seu trabalho. Misako tem um olhar atencioso a tudo que a cerca na tentativa de descrever o mundo com precisão para aqueles que não podem enxergar. No entanto, tal precisão é questionada por Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase), um fotógrafo que frequenta o grupo e está perdendo sua visão gradativamente.

O que incomoda Masaya é a suposta interferência pessoal de Misako na audiodescrição de um filme durante uma sessão-teste, como se ela estivesse forçando sensações nos ouvintes por meio de uma percepção particular das emoções dos personagens. Em meio a críticas do fotógrafo, que está frustrado com a cegueira cada vez mais próxima, a audiodescritora busca aprimorar seu trabalho enquanto lida com a mãe que precisa de cuidados especiais. A relação entre os dois protagonistas sustenta a narrativa até o fim, desencadeando em um romance pouco convencional.

A diretora Naomi Kawase utiliza a câmera em primeiro plano na maioria das cenas, de forma que o espectador veja detalhes importantes que passariam despercebidos em um plano mais aberto. Ela também acertou em cheio nas cenas em que a perspectiva utilizada foi a da câmera Rolleiflex que o fotógrafo Masaya manuseava, fazendo dela seus olhos e seu coração.

Conhecida por trazer sensações e emoções em seus filmes, Kawase concretiza a experiência de Esplendor com uma trilha sonora impecável e um jogo de luzes muito presente – como o reflexo de um prisma ou o do sol forte que ilumina o rosto de Misako e sua mãe –, o que explica o nome do filme.

A coordenadora do Matav, Lucinéa Villela, conta que a escolha do filme para a primeira sessão do CineMatav do ano foi para mostrar esse mundo tão pouco explorado no cinema, mas ao mesmo tempo tão próximo: “A maneira como a protagonista é retratada é muito fiel ao ofício de audiodescrição. De fato, os audiodescritores trabalham com consultoria em instituições de pessoas com deficiência visual”, comenta Lucinéa.

Costumo anotar algumas frases dos filmes que vejo e a frase mais impactante de Esplendor foi dita por uma das integrantes do grupo de deficientes visuais: “O cinema ‘vive’ em um mundo vasto e frente a essa vastidão nossas palavras são pequenas, mas não devemos desprezá-las”.

Nem toda bengala é branca

Bengalas verdes tiram as pessoas com baixa visão da invisibilidade

Uma mulher britânica está parada no meio de uma calçada com uma bengala branca. Ela olha a tela de seu celular. Uma matéria da BBC conta como essa imagem circulou em janeiro pelas redes sociais, com a legenda: “Se você consegue ver o que está errado, diga que viu o que é.” Espocaram comentários maldosos sobre a contradição de uma pessoa supostamente cega estar utilizando um telefone celular.

#ParaCegoVer: Foto de mulher negra em uma calçada, ela está em frente à uma loja com porta e vitrines de vidro. A foto está com a imagem borrada na parte do rosto e do cabelo da mulher. Ela veste um casaco de inverno rosa, calça jeans e carrega no seu braço esquerdo uma bolsa estampada. Na sua mão direita carrega uma bengala de alumínio. A mulher está com a cabeça abaixada, olhando para seu celular que está em sua mão esquerda.

A viralização da imagem causou revolta na comunidade de deficientes visuais: uma mulher fora exposta para milhares de pessoas, tendo sua deficiência ridicularizada – por pura ignorância. Mesmo que a mulher fosse cega, ela ainda poderia utilizar um celular, pois hoje em dia os smartphones possuem diversos recursos de acessibilidade, como o Talkback (Android) e o VoiceOver (iOS). Mas pode ser que ela enxergasse, sim – o bastante para ler a tela de um celular, mas não para se locomover sem o auxílio de uma bengala. Pode ser que ela tivesse baixa visão.

A publicitária brasileira Raquel Lima, 50, nasceu com miopia congênita, e há 7 anos teve catarata. Depois da cirurgia, sua acuidade visual piorou: “Perdi a visão periférica e, como antes da cirurgia eu só tinha visão no olho esquerdo, me sobrou apenas 15% da visão.”

Ela passou a se encaixar na classificação de baixa visão, que engloba pessoas com menos de 30% da visão no melhor olho e/ou campo visual menor que 20° – mesmo com intervenções cirúrgicas e o uso de óculos. No Brasil, mais de 6 milhões de pessoas têm baixa visão, segundo site da Fundação Dorina Nowill (cerca de 500 mil são cegas). Há muitas causas da baixa visão e para cada pessoa ela se manifesta de forma diferente: alguns têm perda de visão periférica, outros de visão central; a claridade em excesso, ou a falta dela, pode atrapalhar o desempenho visual da pessoa etc.

A partir daí, Raquel teve dificuldades para se locomover com autonomia. Para se adaptar, ela teve aulas de mobilidade na Fundação Dorina Nowill para Cegos, em São Paulo, onde aprendeu a usar a bengala nos diferentes ambientes.

Raquel conta que é constantemente confundida com uma pessoa cega, mas ressalta que isso decorre da falta de informação sobre a baixa visão: “As pessoas acham que se você usa bengala é cego.” Isso melhorou quando, há três anos, começou a usar a bengala verde.

#ParaCegoVer: Imagem de uma pessoa caminhando em uma calçada com uma bengala verde com suporte preto. A pessoa veste calça verde e uma botina preta.
(Foto: Reprodução YouTube/Perla Mayo)

Origem

A educadora uruguaia Perla Mayo, que lecionava em uma escola argentina de educação especial, notou que os alunos com baixa visão tinham vários problemas particulares. Muitos se recusavam a usar a bengala branca ou fingiam ser cegos para evitar a discriminação. Ela conta uma história de 1996, quando bolou uma solução para ajudar uma garota chamada Analía: “A aluna tinha problemas de baixa visão, usava uma bengala branca e tinha certificado de deficiência visual, mas quando chegava na sala e pegava seu celular e seus livros didáticos, as pessoas perguntavam o quanto ela enxergava ou a censuravam dizendo que não era cega de verdade. Quando ela me disse que não queria mais usar a bengala branca porque era muito agredida, tive a ideia de pintar a bengala com uma tinta spray verde.”

A escolha da cor acabou assumindo vários significados: além de verde ser a cor da esperança, também vale o jogo de palavras: “ver-de novo” ou “ver-de outra maneira”. A bengala verde se torna uma nova forma de “ver” o mundo.

Essa diferenciação ajudou Analía a se sentir mais confortável com sua identidade e ampliou a compreensão das pessoas sobre sua condição. Desde então, a bengala verde percorreu um longo caminho. Ela se tornou lei na Argentina, legitimando seu uso por pessoas com baixa visão e firmando um compromisso do Estado de educar a população sobre a importância desse instrumento. A bengala verde também foi adotada em diversos outros países.

#ParaCegoVer: Foto de dezenas de pessoas em uma passeata na Avenida Paulista em São Paulo. Alguns manifestantes carregam bengalas verdes e usam óculos pretos. Na frente da imagem, três mulheres e um homem carregam uma faixa com os dizeres: “Bengala Verde: queremos que você nos veja””. No canto esquerdo da faixa, há a logomarca do movimento: um olho com traço na cor preta e ao lado um traço verde, abaixo dele cinco traços pretos em semicírculo representando cílios pretos.
(Foto: Hélcio Nagamine)

No Brasil, o movimento da bengala verde chegou em 2014, em campanha do grupo “Retina São Paulo”. Já foram instituídas leis similares à da Argentina, em municípios como Juiz de Fora (MG) e Campo Grande (MS). Em agosto de 2018, aconteceu a Caminhada Bengala Verde, na Avenida Paulista, em São Paulo. O evento reuniu mais de 400 pessoas, trazendo inclusão e visibilidade para as pessoas com baixa visão. Houve distribuição de bengalas verdes e até a própria Perla Mayo apareceu.

E as bengalas verdes seguem caminhando a todo gás.

Audiodescrição de Flutua é apresentada em Barcelona.

 

 

#paracegover Fotos de um auditório com um palco em forma de semicírculo na frente. Em cima do palco há um púlpito à esquerda, no centro há uma mesa retangular. Lucinéa Villela está em pé no púlpito, olhando para a tela do computador à sua frente. Ela é morena, de estatura baixa e tem cabelo castanho longo. Veste uma blusa de manga longa preta.

#paracegover Na segunda foto, além do púlpito com Lucinéa em pé,  há três mulheres sentadas na mesa, duas estão olhando para a palestrante e a outra para o monitor com a apresentação. Uma tela projeta um slide em fundo branco com um texto em inglês. No topo da tela há legendas em amarelo com tarja preta.

O que é ARSAD?

O Advanced Research Seminar on Audio Description (ARSAD) é considerado o principal evento sobre audiodescrição realizado na Europa. Neste ano, o Seminário ocorreu em Barcelona entre 19 e 20 de março e o MATAV esteve representado por sua coordenadora, Profa. Dra. Lucinéa Villela, que apresentou o trabalho intitulado “Audio description of music video Flutua: a mix of gender fluid, transgender and transrespect”.

Em sua fala, a pesquisadora brasileira contextualizou o cenário brasileiro de violência contra homossexuais e transgêneros. O videoclipe Flutua, produzido por Johnny Hooker com participação especial da Liniker, é considerado por Villela um manifesto e um pedido de transrespeito para a sociedade em geral.

cenabalada

#paracegover Foto de dois homens olhando-se no espelho de uma balada. A foto é escura com luzes vermelhas refletindo nos rostos dos rapazes e no espelho. O rapaz de bigode está em frente ao espelho, possui cabelos crespos e curtos. Veste uma jaqueta esportiva com listras brancas na altura de seu peito. O outro rapaz está atrás do rapaz de bigode, ele tem barba e cabelo curto. A palavra FLUTUA está escrita em picho com batom vermelho no espelho.

ARSAD 2019

A primeira edição do ARSAD aconteceu em 2007 em Barcelona e, desde então, a cada dois anos os pesquisadores, profissionais e interessados em geral pela temática de audiodescrição reúnem-se na capital da Catalunha para trocar experiências sobre as inovações em acessibilidade para pessoas com deficiência visual.

Segundo seus organizadores: “O ARSAD é e continuará a ser o fórum onde todas estas novas pesquisas, avanços industriais e tecnológicos são discutidos” (nossa tradução).

Na sua 7ª edição, os participantes do ARSAD só tiveram motivos para celebrar. Houve sete painéis sobre tópicos bem distintos e extremamente relevantes:

Novos conceitos e metodologias; Análise da audiodescrição; Treinamento; Pesquisa de Recepção: envolvendo o usuário final; Inovação e tecnologia; Audiodescrição de eventos ao vivo e Práticas de audiodescrição.

Foram quase cinquenta apresentações, mais de noventa inscritos: membros de diversos países da Europa, participantes da indústria de entretenimento do Canadá e dos Estados Unidos, representantes de Hong Kong, além de profissionais da Austrália. Como única representante da América do Sul e do Brasil, o ARSAD contou com a pesquisadora Lucinéa Villela.

Legendagem ao vivo

Pela primeira vez, o ARSAD teve legendagem ao vivo em todas as suas sessões, executada pela empresa Àgilis. O projeto contou com uma equipe de legendistas espanhóis que faziam legendas em inglês de todos os painéis e debates.

Acompanhamos na cabine dos legendistas uma sessão inteira de 40 minutos do ARSAD e pudemos conversar com eles para saber dos desafios desta tarefa tão difícil e gratificante.

O legendistas sempre trabalham em dupla. A cada apresentação de 15 minutos eles se revesam. Pudemos perceber que um deles transcreve rapidamente tudo o que os palestrantes falam, para tanto usa o fone de ouvido que se conecta como microfone do palestrante.  Algumas correções sempre são necessárias e, a seguir,  automaticamente as legendas aparecem na tela do auditório.

Ao seu lado, seu parceiro/sua parceira checa os slides da apresentação que foram enviados anteriormente pelos autores. Os slides auxiliam principalmente em situações em que os nomes de autores mencionados são difíceis de serem transcritos, como nomes poloneses, russos, tchecos, chineses e mesmo nomes próprios em português.

Outro facilitador dos slides é a checagem de algumas citações. Quando o palestrante está lendo uma citação, os legendistas optaram por colocar na legenda: “leitura de citação”.

Contudo há muita improvisação, devido a situações que envolvem, por exemplo, pessoas que falam muito rápido e com diversas pronúncias da língua inglesa. Nem todas as falas foram legendadas no ARSAD, mas é possível compreender quase tudo pelo contexto geral apresentado no conjunto da legendagem.

O trabalho de um legendista que trabalha ao vivo é extremamente desgastante e requer muita concentração, poder de concisão e conhecimento linguístico múltiplo.

Curiosidade: O padrão adotado pela empresa Àgilis foi de legendas em cor amarela com tarja preta, elas foram posicionadas no topo da tela do slide e adotaram legendas de no máximo duas linhas.

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#paracegover Foto do auditório do ARSAD. Uma mulher branca, de estatura mediana e cabelo claro está em pé no púlpito. Ela veste um blazer amarelo. Há três mulheres sentadas na mesa. O auditório possui cadeiras azuis e há diversas pessoas sentadas assistindo à apresentação. Uma tela projeta um slide em fundo branco com sua apresentação em inglês. No topo da tela há legendas em amarelo com tarja preta. Na parte superior e esquerda do auditório há duas cabines fechadas com janelas de vidro.

Tecnologia assistiva em AD

Houve várias apresentações no ARSAD que demonstraram como as novas tecnologias têm auxiliado no recurso de audiodescrição.

Na palestra de abertura cujo tema foi “Information and Communication in the Service of Accessible Tourism for All”, o britânico Ivor Ambrose (European Network for Accessible Tourism) demonstrou as ações desenvolvidas em diversos países europeus para tornar o turismo acessível para todos, incluindo para os turistas idosos que cada vez mais são vistos passeando em diversos ambientes culturais da Europa graças a estruturas arquitetônicas mais acessíveis e a recursos de acessibilidade sensorial (legendagem, braile e audiodescrição) em diversos espaços (museus, montanhas, praias, cinemas etc).

A pesquisadora chinesa Xiaochun Zhang (University of Bristol, UK) apresentou sua proposta de ensino de audiodescrição por meio de atividade de gamificação (Applying gamified situated learning approaches in audio description training).

Representando também o continente asiático, Dawning Leung, diretora executiva da Audio Description Association de Hong Kong, mostrou em sua apresentação uma pesquisa feita com os usuários da audiodescrição em sua cidade e as preferências que eles apresentaram no estudo de recepção.

Uma apresentação que gerou grande polêmica foi da especialista em Gerenciamento de Mídias Eveline Ferwerda. A profissional holandesa apresentou a plataforma revolucionária Scribit-Tv.

A plataforma é gratuita e permite que a audiodescrição de vídeos do YOUTUBE seja feita de forma colaborativa por voluntários de diversos países. Alguns profissionais e pesquisadores presentes no ARSAD questionaram a palestrante sobre a automatização do processo de audiodescrição, mas Ferwerda apresentou vídeos com depoimentos de usuários que comprovam a satisfação com o produto final.

A seguir o vídeo com informações do Scribit-Tv

scribittv

https://www.youtube.com/watch?v=s0xh6UYnYOs

A próxima edição do ARSAD será em 2021 e o MATAV espera novamente fazer parte desta comunidade global que inova cada vez mais em audiodescrição.

 

Desfiles no Anhembi têm camarote com recursos de acessibilidade

Evento conta com audiodescrição e interpretação
dos sambas de enredo em LIBRAS.

Matéria: Bruno Ferreira
Entrevista: Lucinéa Villela

#ParaCegoVer: Na foto, as audiodescritoras Lívia Motta e Marisa Pretti estão em uma cabine de vidro no Camarote da Cidade, no Sambódromo do Anhembi. As duas estão com camisetas pretas com logotipo laranja no peito esquerdo, em forma de peão. Há um microfone e um computador à frente de cada uma. As duas olham atentamente para fora da cabine. Lívia aponta com o dedo chamando a atenção de Marisa. (Foto: Raoni Reis)

Nos dias 1 e 2 de março, as empresas “Ver com Palavras” e “As Meninas dos Olhos” se uniram numa parceria para audiodescrever os desfiles das escolas de samba em São Paulo, no Sambódromo do Anhembi. Os profissionais fizeram a audiodescrição dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial — que, em uma analogia com o futebol, é a “Série A” do Carnaval paulistano.

Os recursos de acessibilidade ficaram disponíveis no Camarote da Cidade, por meio da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED). Para os surdos, havia um telão projetando a interpretação em LIBRAS dos sambas de enredo. As pessoas com deficiência visual, por sua vez, receberam aparelhos receptores de áudio e fones de ouvido, por onde escutavam a audiodescrição. Os aparelhos funcionavam em todo o perímetro do camarote, de modo que seus usuários pudessem transitar livremente pelo espaço. A audiodescrição ainda foi transmitida ao vivo pelo Facebook, na página da SMPED, permitindo que pessoas do Brasil inteiro tivessem acesso ao desfile.

O blog do MATAV entrevistou Lívia Motta, diretora da empresa “Ver com Palavras”. Ela explica que não basta reunir profissionais experientes no dia do evento, porque a audiodescrição envolve muito mais do que simplesmente articular em palavras o que veem os olhos. É preciso um preparo especial: “O Carnaval é um evento vibrante e intenso, que, tal qual um musical ou uma ópera, exige um conhecimento específico, um mergulho no enredo de cada escola para a elaboração dos roteiros. O acesso às informações, entretanto, torna-se mais difícil devido à confidencialidade, à necessidade de absoluto sigilo. Também o dinamismo e estruturação da apresentação de cada escola impõem um ritmo diferenciado à elaboração de roteiros e narração. Com relação à narração, destacamos a importância de se colocar entusiasmo na voz para estar dentro do clima deste gênero de apresentação.”

A equipe, composta por seis audiodescritores e um consultor com deficiência visual, se empenhou em levantar informações sobre cada uma das catorze escolas que desfilariam nas noites de sexta e sábado. Eles tiveram cerca de quinze dias para ver os ensaios no sambódromo, falar com os dirigentes e componentes das escolas, estudar a história e a terminologia do Carnaval. A empresa “As Meninas dos Olhos” fez a audiodescrição do Carnaval nos dois últimos anos e o consultor Laercio Santanna já havia assistido ao Carnaval com acessibilidade no ano anterior, o que foi fundamental nesse estágio.

#ParaCegoVer: No Camarote da Cidade, quatro pessoas com deficiência visual estão sentadas, vestidas com camisetas amarelas e usando aparelhos receptores e fones de ouvido. Da esquerda para a direita, estão um homem sorridente de barba grisalha pressionando o fone sobre a orelha com uma das mãos, uma senhora de cabelos castanhos, um homem de boina e uma moça de tiara amarela. (Foto: Raoni Reis)

Lívia Motta relatou que este ano houve menos ingressos para o Camarote da Cidade, apenas 20 convites foram disponibilizados para as pessoas com deficiência visual: “Contamos com a presença de aproximadamente 15 pessoas com deficiência visual no primeiro e no segundo dia de desfile”, afirma a audiodescritora.

Mesmo assim, a recepção pelo público tem sido animadora. Alessandro Silva, jovem com deficiência visual, é ritmista e desfilou na bateria da Acadêmicos do Tucuruvi, na sexta-feira. Na noite seguinte, no sábado, ele esteve no Camarote da Cidade, para assistir pela primeira vez a um desfile com audiodescrição. Ele assistiu o tempo todo com o recurso e adorou. “Não sabia nem que existia isso,” disse animado. Alexandre Toco, administrador de empresas, também se empolgou com a audiodescrição: “É minha primeira experiência de muitas,” ele diz. “Totalmente diferente assistir o Carnaval aqui, é outra energia e a gente viaja com a audiodescrição. Tomara que todo mundo possa ter essa experiência. Vale a pena demais.”

#ParaCegoVer: Na foto, sete pessoas abraçadas posam sorridentes para a câmera. Elas estão no Sambódormo do Anhembi. Da esquerda para a direita: Fátima Angelo, Rosângela Fávaro, Marisa Pretti, Andréia Paiva, Laercio Santanna, Lívia Motta e César Tunas. Laercio, o consultor da equipe, usa uma camisa polo vermelha com listras horizontais brancas. Os demais integrantes do grupo usam uniforme preto com logotipo laranja em forma de peão no peito esquerdo. (Foto: Raoni Reis)

Segue o depoimento completo de Alexandre Toco:

Matav se apresenta aos calouros da Unesp

Alunos são vendados e têm experiência imersiva
com a audiodescrição

Na última quinta-feira, dia 21/02/2019, o Matav realizou uma apresentação do projeto para os calouros da Unesp de Bauru, a fim de recrutar interessados em participar. Eles foram chegando aos poucos, achando seus lugares em carteiras dispostas em um semicírculo de frente para a tela de projeção. O curso de RTVI (Rádio, TV e Internet) foi representado em peso, com dezessete primeiranistas presentes. Uma única caloura de Jornalismo compareceu. Jorge Salhani, ex-aluno de Jornalismo, também marcou presença. Ele entrou no projeto em 2013, quando o Matav estava apenas começando.


#ParaCegoVer: Na foto, uma sala de aula com chão, cortinas e paredes brancas. Há estudantes sentados em carteiras dispostas em um semicírculo voltado para a lousa. Todos olham enquanto, no centro, a professora Lucinéa expõe algum assunto.

Lucinéa Villela, coordenadora do Matav, deu início à apresentação explicando os objetivos e área de atuação do Matav. Falou também de projetos já realizados pelo Matav, como a adiodescriçao e legendagem da websérie #E_VC?, legendagem de eventos de colação de grau na universidade, uma série de minidocumentários sobre estudantes deficientes na Unesp, entre outros.

A seguir, foi feita uma mostra de propagandas audiodescritas, como as da Natura. Por lei, as emissoras públicas de televisão precisam aumentar progressivamente seu conteúdo com audiodescrição: até 2020, todas as emissoras precisam ter 20h de sua programação com opção de audiodescrição. Embora as empresas privadas não tenham a mesma obrigação, elas têm se atentado cada vez mais ao público de pessoas com deficiências. Estima-se que haja cerca de 3,5% de brasileiros com deficiência visual, e 1,1% com deficiência auditiva. É uma fatia enorme do mercado que acaba sendo perdida, simplesmente porque as mensagens publicitárias não conseguem atingir esse público. Segundo Lucinéa, as propagandas acessíveis deverão ser um dos focos de estudo do Matav em 2019. 


#ParaCegoVer: Na foto, estudantes sentados em carteiras dentro de uma sala de aula. Eles usam máscaras cirúrgicas descartáveis cor-de-rosa para vendar os olhos. As luzes estão acesas, e alguns ainda não puseram as vendas, esperando o videoclipe audiodescrito começar.

A seguir, o Matav proporcionou uma experiência imersiva aos calouros. Foram distribuídas máscaras cirúrgicas descartáveis para que fossem usadas para vendar os olhos, e Lucinéa pôs para rodar uma versão audiodescrita do videoclipe “Flutua” (de Johnny Hooker e Liniker), produzida pelo Matav ao longo de 2018. A professora Suely Maciel emprestou sua voz para a produção, aproveitando os silêncios da música para encaixar uma narração do que era visto em tela. Sua voz se adequava ao ritmo e ao sentimento de ambas as narrativas, a lírica e a visual, se mesclando ao produto sem atrapalhá-lo. E, mesmo para aqueles que viam o videoclipe pela primeira vez, a visão acabou não fazendo falta. Suely nos conduziu pela história de um casal gay de surdos sinalizantes que, após uma noite de diversão com os amigos, acabam sofrendo uma violência movida pelo preconceito (uma forma de cegueira às vezes mais obstinada que a física). O medo da violência levou o casal a se afastar, mas acabam se reencontrando e se beijando, vencendo o medo e o ódio, sob o coro de Johnny Hooker e Liniker: Ninguém vai poder querer nos dizer como amar…


#ParaCegoVer: Na foto, o ambiente é uma sala de aula escura, exceto pela luz que penetra as frestas abertas da cortina e pela luz de um projetor. À esquerda, há vários alunos sentados em carteiras, com os olhos vendados. À direita, há uma tela onde é projetado o videoclipe audiodescrito da música “Flutua”. No momento da foto, o videoclipe mostra um close da cantora andrógina Liniker.

Com o fim do videoclipe, os alunos foram aos poucos tirando as vendas. Algumas estavam úmidas, e uma caloura admitiu estar emocionada. “Xiii”, alguém disse ao escutar a garoa lá fora. Nossos ouvidos ainda estavam aguçados. A chuva engrossou enquanto os presentes trocaram impressões sobre a experiência. A maioria dos calouros desconhecia a importância da acessibilidade para conteúdos audiovisuais. Jorge Salhani, que anda ocupado com a conclusão do mestrado, não tem podido participar ativamente do Matav, mas contou como sua passagem pelo projeto ajudou em sua formação humana e profissional, ampliando sua percepção sobre a comunicação. “Quando a gente fala de acessibilidade, geralmente se pensa sobre a estrutura dos espaços físicos, das ruas, dos transportes públicos”, comenta, “mas às vezes nos esquecemos de como os produtos culturais também devem ser acessíveis.”

Ter participado do Matav também foi um diferencial para que Jorge fosse selecionado para cobrir os Jogos Paralímpicos no Rio em 2016, como repórter dos jogos. Também despertou a sensibilidade para o assunto: conversou com os locutores da audiodescrição ao vivo e experimentou escutá-la ele mesmo. Também foi atrás de curiosidades sobre os recursos de acessibilidade no evento esportivo. Descobriu, por exemplo, que no goalball, esporte praticado por pessoas com deficiência visual, cerca de 70 dispositivos de áudio eram distribuídos a cada partida, para que o público cego pudesse ter a mesma experiência e emoção das pessoas videntes.

Finda a apresentação, os calouros e veteranos do Matav se dividiram em rodinhas para conversar, enquanto esperavam a chuva estancar. Eram conversas íntimas e agradáveis, de gente que acabara de se conhecer, e quem olhasse de fora poderia dizer que estávamos flutuando.