Entrevista com Fernando Botelho

Criador da organização F123, Fernando trabalha em função da inclusão dos deficientes visuais por meio da tecnologia

Fernando perdeu a visão ainda na adolescência e teve o privilégio de estudar sociologia nos Estados Unidos. No Brasil, criou uma empresa que produz software de baixo custo para pessoas cegas, contribuindo para a inclusão digital e social destas pessoas.

fernando

Juliana Gonzalez: Ao ler artigos sobre acessibilidade e tecnologia, esbarrei no termo “desigualdade social no acesso à informação”. Isto é uma realidade no Brasil?

 Fernando Botelho: Existe sim uma consequência grande da maior dificuldade de acesso à informação, porque a informação é importantíssima hoje em dia em todo contexto, desde a educação até o trabalho e a vida social. No caso específico das pessoas com deficiência, os fatores que contribuem para a perpetuação desse sistema desigual é incluir com um menor nível educacional. Na média, pessoas com deficiência têm uma menor escolaridade e, como consequência, menor qualificação para os ambientes de trabalho e afeta o sucesso profissional do indivíduo.

 Juliana Gonzalez: Quais fatores você acredita que perpetuam a exclusão digital, principalmente nos âmbitos comunicacionais como no jornalismo?

Fernando Botelho:  Dificuldades em acessar a informação devido à falta de tecnologia apropriada como leitores de tela para pessoas cegas, dificuldades pelo design inapropriado de páginas web e outros meios de comunicação que criam barreiras ao acesso a toda informação disponível. Então, mesmo quando a pessoa tem um leitor de tela, muitas vezes esse leitor de tela não consegue ler a informação pela forma com que foi desenhado o site. A complexidade dessas tecnologias é um impedimento também para essas pessoas.

Juliana Gonzalez: Quais mudanças você acredita que precisam ser feitas para que exista uma igualdade nesse sentido?

Fernando Botelho: Existem muitas coisas que poderiam ser mudadas e melhoradas, mas o principal seria exigir a acessibilidade na forma com que os conteúdos são criados na internet. Não é financeiramente  oneroso fazer com que todos os sites sigam as regras de acessibilidade da W3C , mas isso cria um impacto grande, porque tanto os leitores de tela mais simples, quanto os leitores mais caros poderiam ler de forma eficiente as informações nas páginas WEB. Hoje isso ainda é um problema sério.

Juliana Gonzalez: Qual a importância das Tecnologias Assistivas neste cenário?

Fernando Botelho: Tecnologias Assistivas são essenciais, elas têm que estar disponíveis. É necessário que exista competição nesse mercado, que existam várias opções, que existam versões gratuitas para que o usuário possa escolher a que se encaixa melhor nas condições e necessidades da pessoa. O governo tem que incentivar, no sentido de exigir que quem produz e quem divulga a informação cumpra com requisitos mínimos de acessibilidade. Porque, a partir daí, o resto do trabalho de disponibilizar isso fica a cargo de quem elabora as Tecnologias Assistivas. Pelo menos uma base mínima de acessibilidade tem que existir na mídia. Nesse sentido, não estou falando só de quem é cego, mas com qualquer tipo deficiência.

Anúncios

Entrevista com Maurício Santana

fotoMauricio

Este mês o blog do MATAV Unesp publica a entrevista realizada com Maurício Santana, profissional da área de Publicidade e Rádio e TV, Diretor da empresa Iguale Comunicação de Acessibilidade. Na entrevista, Maurício conta um pouco de sua formação e carreira e nos relata os bastidores das tentativas de implantar acessibilidade nas salas de cinema brasileiras por meio do aplicativo Movie Reading.

MATAV: Conte um pouco de sua formação e de sua atuação profissional.

MAURÍCIO SANTANA: Sou da área de Comunicação. Formado em Publicidade, já atuei por muitos anos como monitor/técnico de laboratório de RTV do curso de Comunicação Social da UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba). Trabalhei em algumas emissoras de rádio e TV do interior de São Paulo e, posteriormente, atuei como docente da mesma universidade e também de outras instituições. Voltei pra São Paulo em 2007/2008 para o desafio de criar a Iguale e trabalhar com acessibilidade comunicacional.

MATAV- Quem criou o aplicativo Movie Reading e como e quando ele foi adotado no Brasil?

MAURÍCIO SANTANA- O MovieReading foi criado na Itália pela UMA (Universal Multimedia Access) e em 2014, depois de algumas negociações, nos tornamos representantes no Brasil e América do Sul. Fizemos muitos testes e somente em 2015 começamos a divulgar e publicar os primeiros títulos. Posteriormente, negociamos também a representação para o México e USA, mercados que ainda não iniciamos um trabalho efetivo e nem divulgação.

MATAV- Segundo a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (2015), sabemos que as salas de cinema brasileiras têm que oferecer três recursos de acessibilidade aos usuários com deficiência auditiva e visual: audiodescrição, legenda descritiva e libras. Qual a previsão de encontrarmos salas com os três recursos?

MAURÍCIO SANTANA- Não só a LBI, mas também a Instrução Normativa (IN) nº. 128, de 13 de setembro de 2016, regulamentam a oferta da acessibilidade pelas salas de exibição e a obrigatoriedade do distribuidor de filmes produzir os três recursos, e, portanto, acredito que realmente teremos esses três recursos sendo oferecidos. O problema é: quando?

 A Instrução Normativa da ANCINE já foi adiada uma vez e agora tem seu prazo para início em novembro de 2018, mas a LIBRAS ainda é um problema tecnológico a ser resolvido pelas empresas que querem ofertar comercialmente as tecnologias para os cinemas. A dificuldade é que, até novembro de 2017, data em que deveria ser iniciada a oferta de acessibilidade nas salas de cinema, apenas o MovieReading e mais outra tecnologia, também baseada em nuvem, estavam aptas a distribuir os três recursos. Porém, uma comissão da Digital Cinema Iniciative /Motion Pictures Association of America (DCI/MPAA), vinda dos USA, interferiu no processo brasileiro e sugeriu que os aplicativos não fossem adotados como tecnologia assistiva para esse fim, e que toda a distribuição de arquivos relacionados com o filme acontecesse apenas por meio do Digital Cinema Package (DCP).

Essa recomendação nos colocou fora da lista de possíveis fornecedores, mesmo sendo os únicos que poderiam imediatamente atender a Lei e incluir o público com deficiência, que já estava utilizando o MovieReading em algumas iniciativas pontuais, como o filme da Lara Pozzobom, por exemplo, “Mulheres no Poder”[1], que foi assistido com acessibilidade no país inteiro.

A proposta técnica desse grupo (DCI/MPAA), formado por representantes das Majors da indústria cinematográfica mundial, é de que se converta o arquivo de vídeo LIBRAS em um arquivo de áudio para ser inserido no DCP, já que este por formatação, só aceita um arquivo de vídeo que no caso é o próprio filme. Em seguida, um equipamento que deve ser instalado nas salas de cinema reconverta esse arquivo em vídeo para ser disponibilizado para o público.

Hoje, pelo menos que eu tenha conhecimento, existe em desenvolvimento/teste um equipamento de uma empresa do Sul, que tem a proposta de distribuir os recursos por meio de sinal de infravermelho dentro da sala, mas não sei como está esse processo de conversão.

Uma outra proposta absurda e desrespeitosa com o público é uma solução com a LIBRAS sendo realizada por AVATAR, ou seja, uma tradução produzida por um banco de dados. Na minha opinião, como se fosse a legenda do filme sendo feita pelo Google Tradutor, e lembremos que este já tem mais de 11 anos de desenvolvimento e não está nem perto de poder ser utilizado para esse fim.

MATAV- Quais são os maiores usuários do Movie Reading no Brasil?

MAURÍCIO SANTANA- Hoje temos cerca de seis mil downloads de conteúdos realizados e a audiodescrição tem sido o recurso mais procurado.

MATAV- Como vocês conseguem divulgar o aplicativo?

Maurício Santana- Estávamos com algumas estratégias sendo desenhadas para esse momento da implementação da acessibilidade nas salas de cinema, mas tivemos que abortar, como expliquei. Fizemos algumas ações em redes sociais, muitas demonstrações para distribuidores e produtores de filmes (todos ficaram bem impressionados com o MR) e também tivemos um stand na EXPOCOM 2016. Agora, estamos estudando um novo direcionamento para outras possibilidades, outras janelas de exibição, como festivais e mostras de cinema, Videos on Demand (VOD) e até a exibição em TVs (aberta e fechada), já que a potencialidade e eficácia do MovieReading, já foi testada e aprovada pelo público com deficiência.

MATAV: Os leitores interessados em saber mais sobre os projetos da Iguale Comunicação de Acessibilidade e detalhes sobre o Movie Reading podem acessar o site https://iguale.com.br/ ou https://iguale.com.br/moviereading/

[1]O filme  Mulheres no Poder pode ser visto com os recursos de acessibilidade do Movie Reading no Now.

Bauru recebe exposição itinerante do Memorial da Inclusão

Com o tema “Cultura Popular e Diversidade Corporal no Folclore Brasileiro” a exposição fica na Biblioteca Municipal “Rodrigues de Abreu” até o dia 5 de julho

    Segundo a Secretaria do Estado de São Paulo, desde 2010, o Memorial da Inclusão conta com duas versões itinerantes. Compostas por painéis interativos, a exposição viaja pelo interior paulista e também pelo Brasil afora. No dia 7 de junho, a exposição itinerante “Cultura Popular e Diversidade Corporal no Folclore Brasileiro” chegou à cidade de Bauru, interior do Estado de São Paulo, como uma parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura e a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, através do Memorial da Inclusão.

LRM_EXPORT_20180703_163741

#Pracegover: No centro da imagem encontramos os dizeres “Cultura Popular e Diversidade Corporal no Folclore Brasileiro”. Ao fundo da foto estão quatro painéis da exposição voltados para o centro formando um quadrado. No centro, uma árvore de madeira com vários post-it verdes colados em sua copa.

    Essa exposição busca interpretar a diversidade corporal dos personagens do folclore permitindo uma interação sensorial com o visitante, despertando a sua curiosidade para uma exploração das percepções corporais. Ela traz as lendas do Saçi-pererê, Curupira, Iara, Mula Sem-Cabeça, A lenda da Mandioca e O Nascimento da Noite. Com um painel interativo, onde o visitante pode tocar e sentir a obra, ele possui uma caixinha onde as pessoas podem colocar a mão e sentir diferentes texturas e formatos que se relacionam com as histórias contadas.

LRM_EXPORT_20180703_163623.jpg

#Pracegover: Na imagem, um homem de blusa azul está na frente do painel com a obra “Curupira”. Ele está usando fones de ouvido para ouvir a audiodescrição da lenda folclórica e em sua frente encontra-se um tablet que indica a opção em libras.

    Para retratar as lendas folclóricas brasileiras, a exposição traz acessibilidade sensorial também através de painéis com desenhos dos personagens em xilogravuras. As obras contam também com a audiodescrição das histórias e uma tela com libras para trazer a reflexão sobre a importância da acessibilidade sensorial em uma celebração da cultura popular brasileira em união com a proposta de uma sociedade mais inclusiva.

    Voltada para o público em geral, a exposição não limita os visitantes por idade, sendo muito frequentada por crianças, com visitas das escolas municipais da cidade de Bauru. A exposição também foi visitada pelo Lar Santa Luzia Para Cegos. Josiane, de 25 anos, é deficiente visual e frequentadora do lar, ela declara que a audiodescrição é muito boa porém, para ela, a xilogravura deixou a desejar. “O áudio deu para entender bem, mas o desenho em si do painel não deu muito bem para perceber”, comenta. Sua obra favorita foi a lenda de Iara, a sereia.

LRM_EXPORT_20180703_163649

#Pracegover: Na foto, uma menina com blusa azul está de frente para o painel com a obra “Iara”. Ela toca o desenho de xilogravura da sereia, enquanto usa fones de ouvido para ter acesso à audiodescrição da lenda.

    A exposição também possui uma árvore cenográfica ao centro, onde os visitantes podem deixar o seu recado e contar como foi a experiência. A entrada é gratuita e as obras permanecerão em Bauru até o dia 5 de julho, na Biblioteca Municipal “Rodrigues de Abreu”, localizada no prédio do Centro Cultural e Teatro Municipal, Avenida Nações Unidas 8-9, nos horários de segunda a sexta das 8h às 18h e aos sábados das 9h às 12h. Para maiores informações, (14) 3232-4343.

LRM_EXPORT_20180703_163756

#Pracegover: Na imagem a árvore de mdf com vários post-it verdes com recados dos visitantes. No seu tronco temos a figura ilustrada dos personagens folclóricos Saçi-pererê e Curupira.

LRM_EXPORT_20180703_163725

#Pracegover: Na imagem uma foto aproximada de um post-it verde escrito “Show de Acessibilidade 10/10”. No canto inferior direito da imagem também aparece outro recado “Bem legal e muito criativo” com o desenho de um coração. Ao fundo da foto aparece o painel com a história “Nascimento da Noite” com as cores roxo e branco.