Junho com Arte Acessível

Resultado de imagem para audiodescrição

As férias de inverno estão quase chegando e para quem mora em algumas cidades do estado de São Paulo há boas oportunidades para assistir espetáculos com acessibilidade.

Encontrar uma peça ou exposição acessível tornou-se uma tarefa mais fácil nos sites brasileiros de divulgação cultural, basta prestar atenção em Tags ou ícones que indicam os recursos de Audiodescrição ou Libras, por exemplo.

No site do Itaú Cultural, para todos os eventos anunciados há as indicações dos recursos oferecidos para as pessoas com deficiência auditiva ou visual. Outro diferencial é a acessibilidade em LIBRAS que está disponível em todos os conteúdos da homepage por meio do aplicativo ProDeaf. A pessoa surda poderá entender todas as matérias em LIBRAS, basta clicar no ícone do aplicativo e, em seguida, selecionar trecho a trecho do texto e uma intérprete virtual traduz em Língua Brasileira de Sinais o conteúdo que está em português.

O MATAV indica duas peças com recursos de acessibilidade que estarão em cartaz em junho e que são produzidas com apoio do Itaú Cultural.

https://www.itaucultural.org.br/

Chiquita Bacana no Reino das Bananas

Fotografia colorida de cena da peça Chiquita Bacana no Reino das Bananas. Na imagem, atores a atoras vestem preto. Colocam as mãos cruzadas sobre o próprio peito e olham para o lado.

#paraCegoVer #paraTodosVerem (descrição da imagem) Foto colorida de atores do grupo Folias d’Arte. Todos os atores estão vestidos de preto, eles estão em pé em um círculo. Na frente da foto está uma atriz de cabelos curtos, de cor avermelhada, ela usa óculos e está com os braços e mãos cruzados cobrindo seu peito. A foto tem fundo preto. (fim da descrição)

A peça de Reinaldo Maia apresenta a história de uma menina que é acusada de comer uma banana no Reino das Bananas.  O reino, que é comandado pelo Rei Leonino e por seu grupo de girafas e gorilas, possui outros animais que estão perdendo suas funções sociais. O desfecho da peça é decidido pelo público.

O grupo Folias d’Arte foi formado em 1997 e seus espetáculos tratam dos problemas da sociedade contemporânea. O grupo já recebeu cerca de 50 prêmios, incluindo os prêmios Shell, APCA e Molière.

Serviço: Chiquita Bacana no Reino das Bananas [com interpretação em Libras e audiodescrição].

Itaú Cultural São Paulo

Endereço: Avenida Paulista 149 São Paulo SP – [Estação Brigadeiro do metrô]

Sábados 22 e 29 e domingos 23 e 30 de junho de 2019 às 15h [nos dias 29 e 30, o espetáculo conta com audiodescrição] [duração aproximada: 60 minutos] Sala Multiúso (piso 2) – 70 lugares

 

Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

#PraCegoVer #PraTodosVerem. (descrição da foto) Fotografia colorida com quatro atrizes encostadas na frente de um fusca branco em uma praça. Elas vestem vestidos rosa, amarelo, azul e laranja e seguram uma faixa longa feita de tecidos coloridos. Sorriem para a câmera. (fim da descrição)

Um projeto itinerante de contação de histórias que usa como base de transporte e fonte de causos um tradicional Fusca branco de 1978, chamado Joaquim. Assim é “Joaquim, o Fusca que Contava Histórias”,  projeto criado pelo gRUPO êBA!, que de 9 a 11 de junho irá percorrer as cidades de São Luiz do Paraitinga, Taubaté e São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba.

A intervenção consiste na apresentação de um espetáculo inédito, A Menina das Meias Vermelhas, seguida de um convite para que o espectador entre no Fusca e, sentado no banco do motorista, compartilhe a própria história, protesto ou o que tiver vontade de contar. A equipe artística é composta de três contadoras de histórias ouvintes que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de uma contadora surda. Todo o espetáculo será acompanhado por elementos percussivos e visuais, e narrado em Libras e português simultaneamente.

Serviço: Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

domingo 9 de junho de 2019 às 14h30
Largo do Rosário [apresentação aberta ao público]
São Luiz do Paraitinga, SP

segunda 10 de junho de 2019 às 14h
Emief Anna dos Reis Signorini [apresentação fechada para alunos]
Jardim Jaraguá, Taubaté, SP

terça 11 de junho de 2019 às 15h30
Emef Profa Maria Aparecida dos Santos Ronconi [apresentação fechada para alunos]
R. Ana Gonçalves da Cunha, 400, Jardim Jussara, São José dos Campos, SP

[livre para todos os públicos]

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Bauru terá feira voltada à troca de informação sobre pessoas com deficiência

Em maio, SESI-Horto abrirá seu espaço para workshops, estandes e oficinas

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#ParaCegoVer: Na imagem, a logo da REAB. Temos um origami de tsuru desenhado e, embaixo, as letras R, E, A e B – respectivamente nas cores ciano, vermelho, laranja e roxo. 

A 1ª Feira de Reabilitação de Bauru (REAB) acontecerá no fim de semana dos dias 17, 18 e 19 de maio. Ela será no SESI-Horto, que fica no mesmo quarteirão do Horto Florestal: Rua Professora Zenita Alcântara Nogueira, 1-67.

O evento, que promete ser bienal, será um ponto de convergência para pesquisadores, profissionais e todo mundo que se interessa pelas pessoas com deficiência. Além de contribuir para a formação e atualização de gente envolvidas na área, o REAB contribuirá para o debate sobre acessibilidade e a conscientização sobre o assunto no interior paulista.

A cerimônia de abertura será no dia 17, das 19h30 às 22h. Nos dias 18 e 19, os portões estarão abertos para o público das 8h30 às 18h. A programação do evento está abastecida com dezenas de atividades como palestras, workshops e oficinas. Também haverá estandes de produtos e serviços espalhados pelo SESI ao longo de todo o evento.

É possível se inscrever pelo Sympla, site especializado em eventos. A entrada é franca, mas para retirar o ingresso é preciso doar ou um quilo de alimento não perecível ou um “kit higiene”, composto por uma escova e uma pasta de dentes.

O esplendor do cinema

Filme japonês revela a sensibilidade na audiodescrição

Matéria: Bruna Tastelli

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#ParaCegoVer: Foto colorida apresenta uma sala com cerca de vinte carteiras escolares. Há vários jovens sentados, alguns estão olhando para uma tela de projeção de filmes, outros conversam descontraídos. Uma das jovens entrega um saco de pipoca de embalagem vermelha para sua colega. Ela está vestida com uma camiseta preta com a logomarca do MATAV e shorts.

No dia 10 de abril, o CineMatav exibiu o filme Esplendor (2017) na sala de projeção da biblioteca da Unesp Bauru. Com muita pipoca e olhares atentos, os alunos que compareceram puderam adentrar no universo da audiodescrição, tema central do filme de Naomi Kawase.

O longa se inicia com uma narração em off que descreve as cenas de uma típica cidade grande: muita agitação nas ruas, carros barulhentos e pessoas seguindo o fluxo cotidiano. A narradora é a audiodescritora Misako Ozaki (Ayame Misaki), que faz consultoria com grupos de deficientes visuais para avaliar o seu trabalho. Misako tem um olhar atencioso a tudo que a cerca na tentativa de descrever o mundo com precisão para aqueles que não podem enxergar. No entanto, tal precisão é questionada por Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase), um fotógrafo que frequenta o grupo e está perdendo sua visão gradativamente.

O que incomoda Masaya é a suposta interferência pessoal de Misako na audiodescrição de um filme durante uma sessão-teste, como se ela estivesse forçando sensações nos ouvintes por meio de uma percepção particular das emoções dos personagens. Em meio a críticas do fotógrafo, que está frustrado com a cegueira cada vez mais próxima, a audiodescritora busca aprimorar seu trabalho enquanto lida com a mãe que precisa de cuidados especiais. A relação entre os dois protagonistas sustenta a narrativa até o fim, desencadeando em um romance pouco convencional.

A diretora Naomi Kawase utiliza a câmera em primeiro plano na maioria das cenas, de forma que o espectador veja detalhes importantes que passariam despercebidos em um plano mais aberto. Ela também acertou em cheio nas cenas em que a perspectiva utilizada foi a da câmera Rolleiflex que o fotógrafo Masaya manuseava, fazendo dela seus olhos e seu coração.

Conhecida por trazer sensações e emoções em seus filmes, Kawase concretiza a experiência de Esplendor com uma trilha sonora impecável e um jogo de luzes muito presente – como o reflexo de um prisma ou o do sol forte que ilumina o rosto de Misako e sua mãe –, o que explica o nome do filme.

A coordenadora do Matav, Lucinéa Villela, conta que a escolha do filme para a primeira sessão do CineMatav do ano foi para mostrar esse mundo tão pouco explorado no cinema, mas ao mesmo tempo tão próximo: “A maneira como a protagonista é retratada é muito fiel ao ofício de audiodescrição. De fato, os audiodescritores trabalham com consultoria em instituições de pessoas com deficiência visual”, comenta Lucinéa.

Costumo anotar algumas frases dos filmes que vejo e a frase mais impactante de Esplendor foi dita por uma das integrantes do grupo de deficientes visuais: “O cinema ‘vive’ em um mundo vasto e frente a essa vastidão nossas palavras são pequenas, mas não devemos desprezá-las”.

Nem toda bengala é branca

Bengalas verdes tiram as pessoas com baixa visão da invisibilidade

Uma mulher britânica está parada no meio de uma calçada com uma bengala branca. Ela olha a tela de seu celular. Uma matéria da BBC conta como essa imagem circulou em janeiro pelas redes sociais, com a legenda: “Se você consegue ver o que está errado, diga que viu o que é.” Espocaram comentários maldosos sobre a contradição de uma pessoa supostamente cega estar utilizando um telefone celular.

#ParaCegoVer: Foto de mulher negra em uma calçada, ela está em frente à uma loja com porta e vitrines de vidro. A foto está com a imagem borrada na parte do rosto e do cabelo da mulher. Ela veste um casaco de inverno rosa, calça jeans e carrega no seu braço esquerdo uma bolsa estampada. Na sua mão direita carrega uma bengala de alumínio. A mulher está com a cabeça abaixada, olhando para seu celular que está em sua mão esquerda.

A viralização da imagem causou revolta na comunidade de deficientes visuais: uma mulher fora exposta para milhares de pessoas, tendo sua deficiência ridicularizada – por pura ignorância. Mesmo que a mulher fosse cega, ela ainda poderia utilizar um celular, pois hoje em dia os smartphones possuem diversos recursos de acessibilidade, como o Talkback (Android) e o VoiceOver (iOS). Mas pode ser que ela enxergasse, sim – o bastante para ler a tela de um celular, mas não para se locomover sem o auxílio de uma bengala. Pode ser que ela tivesse baixa visão.

A publicitária brasileira Raquel Lima, 50, nasceu com miopia congênita, e há 7 anos teve catarata. Depois da cirurgia, sua acuidade visual piorou: “Perdi a visão periférica e, como antes da cirurgia eu só tinha visão no olho esquerdo, me sobrou apenas 15% da visão.”

Ela passou a se encaixar na classificação de baixa visão, que engloba pessoas com menos de 30% da visão no melhor olho e/ou campo visual menor que 20° – mesmo com intervenções cirúrgicas e o uso de óculos. No Brasil, mais de 6 milhões de pessoas têm baixa visão, segundo site da Fundação Dorina Nowill (cerca de 500 mil são cegas). Há muitas causas da baixa visão e para cada pessoa ela se manifesta de forma diferente: alguns têm perda de visão periférica, outros de visão central; a claridade em excesso, ou a falta dela, pode atrapalhar o desempenho visual da pessoa etc.

A partir daí, Raquel teve dificuldades para se locomover com autonomia. Para se adaptar, ela teve aulas de mobilidade na Fundação Dorina Nowill para Cegos, em São Paulo, onde aprendeu a usar a bengala nos diferentes ambientes.

Raquel conta que é constantemente confundida com uma pessoa cega, mas ressalta que isso decorre da falta de informação sobre a baixa visão: “As pessoas acham que se você usa bengala é cego.” Isso melhorou quando, há três anos, começou a usar a bengala verde.

#ParaCegoVer: Imagem de uma pessoa caminhando em uma calçada com uma bengala verde com suporte preto. A pessoa veste calça verde e uma botina preta.
(Foto: Reprodução YouTube/Perla Mayo)

Origem

A educadora uruguaia Perla Mayo, que lecionava em uma escola argentina de educação especial, notou que os alunos com baixa visão tinham vários problemas particulares. Muitos se recusavam a usar a bengala branca ou fingiam ser cegos para evitar a discriminação. Ela conta uma história de 1996, quando bolou uma solução para ajudar uma garota chamada Analía: “A aluna tinha problemas de baixa visão, usava uma bengala branca e tinha certificado de deficiência visual, mas quando chegava na sala e pegava seu celular e seus livros didáticos, as pessoas perguntavam o quanto ela enxergava ou a censuravam dizendo que não era cega de verdade. Quando ela me disse que não queria mais usar a bengala branca porque era muito agredida, tive a ideia de pintar a bengala com uma tinta spray verde.”

A escolha da cor acabou assumindo vários significados: além de verde ser a cor da esperança, também vale o jogo de palavras: “ver-de novo” ou “ver-de outra maneira”. A bengala verde se torna uma nova forma de “ver” o mundo.

Essa diferenciação ajudou Analía a se sentir mais confortável com sua identidade e ampliou a compreensão das pessoas sobre sua condição. Desde então, a bengala verde percorreu um longo caminho. Ela se tornou lei na Argentina, legitimando seu uso por pessoas com baixa visão e firmando um compromisso do Estado de educar a população sobre a importância desse instrumento. A bengala verde também foi adotada em diversos outros países.

#ParaCegoVer: Foto de dezenas de pessoas em uma passeata na Avenida Paulista em São Paulo. Alguns manifestantes carregam bengalas verdes e usam óculos pretos. Na frente da imagem, três mulheres e um homem carregam uma faixa com os dizeres: “Bengala Verde: queremos que você nos veja””. No canto esquerdo da faixa, há a logomarca do movimento: um olho com traço na cor preta e ao lado um traço verde, abaixo dele cinco traços pretos em semicírculo representando cílios pretos.
(Foto: Hélcio Nagamine)

No Brasil, o movimento da bengala verde chegou em 2014, em campanha do grupo “Retina São Paulo”. Já foram instituídas leis similares à da Argentina, em municípios como Juiz de Fora (MG) e Campo Grande (MS). Em agosto de 2018, aconteceu a Caminhada Bengala Verde, na Avenida Paulista, em São Paulo. O evento reuniu mais de 400 pessoas, trazendo inclusão e visibilidade para as pessoas com baixa visão. Houve distribuição de bengalas verdes e até a própria Perla Mayo apareceu.

E as bengalas verdes seguem caminhando a todo gás.

Desfiles no Anhembi têm camarote com recursos de acessibilidade

Evento conta com audiodescrição e interpretação
dos sambas de enredo em LIBRAS.

Matéria: Bruno Ferreira
Entrevista: Lucinéa Villela

#ParaCegoVer: Na foto, as audiodescritoras Lívia Motta e Marisa Pretti estão em uma cabine de vidro no Camarote da Cidade, no Sambódromo do Anhembi. As duas estão com camisetas pretas com logotipo laranja no peito esquerdo, em forma de peão. Há um microfone e um computador à frente de cada uma. As duas olham atentamente para fora da cabine. Lívia aponta com o dedo chamando a atenção de Marisa. (Foto: Raoni Reis)

Nos dias 1 e 2 de março, as empresas “Ver com Palavras” e “As Meninas dos Olhos” se uniram numa parceria para audiodescrever os desfiles das escolas de samba em São Paulo, no Sambódromo do Anhembi. Os profissionais fizeram a audiodescrição dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial — que, em uma analogia com o futebol, é a “Série A” do Carnaval paulistano.

Os recursos de acessibilidade ficaram disponíveis no Camarote da Cidade, por meio da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED). Para os surdos, havia um telão projetando a interpretação em LIBRAS dos sambas de enredo. As pessoas com deficiência visual, por sua vez, receberam aparelhos receptores de áudio e fones de ouvido, por onde escutavam a audiodescrição. Os aparelhos funcionavam em todo o perímetro do camarote, de modo que seus usuários pudessem transitar livremente pelo espaço. A audiodescrição ainda foi transmitida ao vivo pelo Facebook, na página da SMPED, permitindo que pessoas do Brasil inteiro tivessem acesso ao desfile.

O blog do MATAV entrevistou Lívia Motta, diretora da empresa “Ver com Palavras”. Ela explica que não basta reunir profissionais experientes no dia do evento, porque a audiodescrição envolve muito mais do que simplesmente articular em palavras o que veem os olhos. É preciso um preparo especial: “O Carnaval é um evento vibrante e intenso, que, tal qual um musical ou uma ópera, exige um conhecimento específico, um mergulho no enredo de cada escola para a elaboração dos roteiros. O acesso às informações, entretanto, torna-se mais difícil devido à confidencialidade, à necessidade de absoluto sigilo. Também o dinamismo e estruturação da apresentação de cada escola impõem um ritmo diferenciado à elaboração de roteiros e narração. Com relação à narração, destacamos a importância de se colocar entusiasmo na voz para estar dentro do clima deste gênero de apresentação.”

A equipe, composta por seis audiodescritores e um consultor com deficiência visual, se empenhou em levantar informações sobre cada uma das catorze escolas que desfilariam nas noites de sexta e sábado. Eles tiveram cerca de quinze dias para ver os ensaios no sambódromo, falar com os dirigentes e componentes das escolas, estudar a história e a terminologia do Carnaval. A empresa “As Meninas dos Olhos” fez a audiodescrição do Carnaval nos dois últimos anos e o consultor Laercio Santanna já havia assistido ao Carnaval com acessibilidade no ano anterior, o que foi fundamental nesse estágio.

#ParaCegoVer: No Camarote da Cidade, quatro pessoas com deficiência visual estão sentadas, vestidas com camisetas amarelas e usando aparelhos receptores e fones de ouvido. Da esquerda para a direita, estão um homem sorridente de barba grisalha pressionando o fone sobre a orelha com uma das mãos, uma senhora de cabelos castanhos, um homem de boina e uma moça de tiara amarela. (Foto: Raoni Reis)

Lívia Motta relatou que este ano houve menos ingressos para o Camarote da Cidade, apenas 20 convites foram disponibilizados para as pessoas com deficiência visual: “Contamos com a presença de aproximadamente 15 pessoas com deficiência visual no primeiro e no segundo dia de desfile”, afirma a audiodescritora.

Mesmo assim, a recepção pelo público tem sido animadora. Alessandro Silva, jovem com deficiência visual, é ritmista e desfilou na bateria da Acadêmicos do Tucuruvi, na sexta-feira. Na noite seguinte, no sábado, ele esteve no Camarote da Cidade, para assistir pela primeira vez a um desfile com audiodescrição. Ele assistiu o tempo todo com o recurso e adorou. “Não sabia nem que existia isso,” disse animado. Alexandre Toco, administrador de empresas, também se empolgou com a audiodescrição: “É minha primeira experiência de muitas,” ele diz. “Totalmente diferente assistir o Carnaval aqui, é outra energia e a gente viaja com a audiodescrição. Tomara que todo mundo possa ter essa experiência. Vale a pena demais.”

#ParaCegoVer: Na foto, sete pessoas abraçadas posam sorridentes para a câmera. Elas estão no Sambódormo do Anhembi. Da esquerda para a direita: Fátima Angelo, Rosângela Fávaro, Marisa Pretti, Andréia Paiva, Laercio Santanna, Lívia Motta e César Tunas. Laercio, o consultor da equipe, usa uma camisa polo vermelha com listras horizontais brancas. Os demais integrantes do grupo usam uniforme preto com logotipo laranja em forma de peão no peito esquerdo. (Foto: Raoni Reis)

Segue o depoimento completo de Alexandre Toco:

Matav se apresenta aos calouros da Unesp

Alunos são vendados e têm experiência imersiva
com a audiodescrição

Na última quinta-feira, dia 21/02/2019, o Matav realizou uma apresentação do projeto para os calouros da Unesp de Bauru, a fim de recrutar interessados em participar. Eles foram chegando aos poucos, achando seus lugares em carteiras dispostas em um semicírculo de frente para a tela de projeção. O curso de RTVI (Rádio, TV e Internet) foi representado em peso, com dezessete primeiranistas presentes. Uma única caloura de Jornalismo compareceu. Jorge Salhani, ex-aluno de Jornalismo, também marcou presença. Ele entrou no projeto em 2013, quando o Matav estava apenas começando.


#ParaCegoVer: Na foto, uma sala de aula com chão, cortinas e paredes brancas. Há estudantes sentados em carteiras dispostas em um semicírculo voltado para a lousa. Todos olham enquanto, no centro, a professora Lucinéa expõe algum assunto.

Lucinéa Villela, coordenadora do Matav, deu início à apresentação explicando os objetivos e área de atuação do Matav. Falou também de projetos já realizados pelo Matav, como a adiodescriçao e legendagem da websérie #E_VC?, legendagem de eventos de colação de grau na universidade, uma série de minidocumentários sobre estudantes deficientes na Unesp, entre outros.

A seguir, foi feita uma mostra de propagandas audiodescritas, como as da Natura. Por lei, as emissoras públicas de televisão precisam aumentar progressivamente seu conteúdo com audiodescrição: até 2020, todas as emissoras precisam ter 20h de sua programação com opção de audiodescrição. Embora as empresas privadas não tenham a mesma obrigação, elas têm se atentado cada vez mais ao público de pessoas com deficiências. Estima-se que haja cerca de 3,5% de brasileiros com deficiência visual, e 1,1% com deficiência auditiva. É uma fatia enorme do mercado que acaba sendo perdida, simplesmente porque as mensagens publicitárias não conseguem atingir esse público. Segundo Lucinéa, as propagandas acessíveis deverão ser um dos focos de estudo do Matav em 2019. 


#ParaCegoVer: Na foto, estudantes sentados em carteiras dentro de uma sala de aula. Eles usam máscaras cirúrgicas descartáveis cor-de-rosa para vendar os olhos. As luzes estão acesas, e alguns ainda não puseram as vendas, esperando o videoclipe audiodescrito começar.

A seguir, o Matav proporcionou uma experiência imersiva aos calouros. Foram distribuídas máscaras cirúrgicas descartáveis para que fossem usadas para vendar os olhos, e Lucinéa pôs para rodar uma versão audiodescrita do videoclipe “Flutua” (de Johnny Hooker e Liniker), produzida pelo Matav ao longo de 2018. A professora Suely Maciel emprestou sua voz para a produção, aproveitando os silêncios da música para encaixar uma narração do que era visto em tela. Sua voz se adequava ao ritmo e ao sentimento de ambas as narrativas, a lírica e a visual, se mesclando ao produto sem atrapalhá-lo. E, mesmo para aqueles que viam o videoclipe pela primeira vez, a visão acabou não fazendo falta. Suely nos conduziu pela história de um casal gay de surdos sinalizantes que, após uma noite de diversão com os amigos, acabam sofrendo uma violência movida pelo preconceito (uma forma de cegueira às vezes mais obstinada que a física). O medo da violência levou o casal a se afastar, mas acabam se reencontrando e se beijando, vencendo o medo e o ódio, sob o coro de Johnny Hooker e Liniker: Ninguém vai poder querer nos dizer como amar…


#ParaCegoVer: Na foto, o ambiente é uma sala de aula escura, exceto pela luz que penetra as frestas abertas da cortina e pela luz de um projetor. À esquerda, há vários alunos sentados em carteiras, com os olhos vendados. À direita, há uma tela onde é projetado o videoclipe audiodescrito da música “Flutua”. No momento da foto, o videoclipe mostra um close da cantora andrógina Liniker.

Com o fim do videoclipe, os alunos foram aos poucos tirando as vendas. Algumas estavam úmidas, e uma caloura admitiu estar emocionada. “Xiii”, alguém disse ao escutar a garoa lá fora. Nossos ouvidos ainda estavam aguçados. A chuva engrossou enquanto os presentes trocaram impressões sobre a experiência. A maioria dos calouros desconhecia a importância da acessibilidade para conteúdos audiovisuais. Jorge Salhani, que anda ocupado com a conclusão do mestrado, não tem podido participar ativamente do Matav, mas contou como sua passagem pelo projeto ajudou em sua formação humana e profissional, ampliando sua percepção sobre a comunicação. “Quando a gente fala de acessibilidade, geralmente se pensa sobre a estrutura dos espaços físicos, das ruas, dos transportes públicos”, comenta, “mas às vezes nos esquecemos de como os produtos culturais também devem ser acessíveis.”

Ter participado do Matav também foi um diferencial para que Jorge fosse selecionado para cobrir os Jogos Paralímpicos no Rio em 2016, como repórter dos jogos. Também despertou a sensibilidade para o assunto: conversou com os locutores da audiodescrição ao vivo e experimentou escutá-la ele mesmo. Também foi atrás de curiosidades sobre os recursos de acessibilidade no evento esportivo. Descobriu, por exemplo, que no goalball, esporte praticado por pessoas com deficiência visual, cerca de 70 dispositivos de áudio eram distribuídos a cada partida, para que o público cego pudesse ter a mesma experiência e emoção das pessoas videntes.

Finda a apresentação, os calouros e veteranos do Matav se dividiram em rodinhas para conversar, enquanto esperavam a chuva estancar. Eram conversas íntimas e agradáveis, de gente que acabara de se conhecer, e quem olhasse de fora poderia dizer que estávamos flutuando. 

DESEJOS PARA 2019!

O grupo MATAV continuará a defender em 2019 o direito ao acesso irrestrito e igualitário a todo conteúdo audiovisual para pessoas com deficiências visuais e auditivas.

Nossa forma de RESISTÊNCIA contra o preconceito, ignorância e intolerância sempre será produzir cada vez mais legendas descritivas, audiodescrições e diversas formas de acessibilidade para nossos usuários e parceiros.

Desejamos a todos um Novo Ano repleto de coragem, alegria e disposição para tornar o mundo audiovisual cada vez mais inclusivo.

 

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#PraCegoVer: Na primeira fotografia colorida há oito membros do MATAV no meio do palco do Teatro Municipal de Bauru. Todos estão vestidos com camisetas pretas de manga curta com a logomarca do MATAV no centro da camiseta. O grupo todo sorri e olha para frente. À direita da imagem há uma cortina preta e no fundo, à direita do grupo, aparecem alguns instrumentos de percussão.
Na segunda fotografia colorida há nove jovens com vendas pretas que sorriem para fazer pose para uma selfie. Eles estão em pé, alguns gesticulam as mãos para a câmera em uma sala de aula com paredes brancas e carteiras ao fundo.