Papo com Legenda Episódio 04 – Consultoria em Audiodescrição

Transcrição: Ana Laura Dias, Daniela Souza, Letícia Santos, Luiza Hidalgo

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao quarto episódio do nosso podcast “Papo com Legenda”. Eu sou Lucinea Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Estou sentada em frente à mesa de meu escritório, gravando em meu notebook.  

ANIELE:

E eu sou a Aniele, sou uma mulher de 27 anos de 1,65 de altura cabelos cacheados acima dos ombros na cor castanha e olhos também da cor castanha e estou no meu quarto na frente do notebook.

LUCINEA:

No episódio anterior, tivemos um papo super interessante com as nossas convidadas Mônica Moura docente do curso de Design da UNESP de Bauru e Sara Cristina, uma voluntária do projeto “Lembrei de Você” que tem 9 anos de idade e vai ganhar o seu coração.


ANIELE:

Muito bem lembrado, Lucinéa! O episódio 3 foi muito legal e não só a Mônica, mas também a Sara são super carismáticas e nos rendeu um papo muito construtivo e interessante. A Sara realmente ganhou meu coração!

No episódio de hoje, vamos falar sobre a acessibilidade pela perspectiva do usuário.

LUCINEA:

Esse tema é muito importante porque a acessibilidade não deve ser vista como algo “opcional”. Para existir uma autonomia efetiva do usuário, os recursos acessíveis têm que ser encarados como essenciais.

Por isso, o nosso convidado de hoje é o Rafael Braz, uma pessoa com deficiência visual, que faz uso dos recursos de acessibilidade e também presta consultoria para audiodescritores.

ANIELE:

O Rafael será o nosso entrevistado do segundo bloco, mas antes disso vamos a alguns dados que você precisa saber. Legenda aí pra mim!

ANIELE:

Segundo o CENSO de 2010, no Brasil há cerca de 6,5 milhões de pessoas cegas ou com baixa visão e 506 mil pessoas têm cegueira total. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a cegueira afeta 39 milhões de pessoas em todo o mundo e que 246 milhões sofram de perda moderada ou severa da visão. Só na China, 72 milhões de pessoas possuem alguma deficiência visual grave. Outro dado importante: segundo o Instituto Britânico Royal Institute for Blind, todos os dias 250 pessoas começam a perder a visão.

A autonomia para as pessoas com deficiência visual é imprescindível para que possam conviver com igualdade de direitos em nossa sociedade. Alguns recursos comunicacionais e tecnológicos que fazem parte do nosso dia a dia promovem autonomia às pessoas com deficiência visual como: smartphones, tablets e computadores. Todos os sistemas operacionais possuem ferramentas de acessibilidade. Algumas dessas ferramentas são: voice over, modo fala do conteúdo da tela, modo escuro e adaptações na tela, zoom, ajustes de fonte e lupa, assistentes de voz e as funções de reconhecimento de voz e ditado. Existem outros equipamentos como as smart tvs, ou seja, os aparelhos de tv que possuem recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual: guia de voz e a audiodescrição.

Além desses recursos em aparelhos, nós podemos garantir a acessibilidade através das leis. Como por exemplo, a lei brasileira de inclusão da pessoa com deficiência, aprovada em 2015, determina que as salas de cinema devem oferecer, em todas as sessões, recursos de acessibilidade para as pessoas com deficiência. Sabemos que, com a pandemia do corona vírus no início de 2020, essa exigência foi adiada, mas podemos dizer que é um marco histórico na conquista de igualdade das pessoas com deficiência.

LUCINEA:

Apesar de todas essas possibilidades, esses recursos ainda limitam a pessoa com deficiência em seu espaço doméstico. Embora seja necessária a acessibilidade nos lares das pessoas com deficiência visual, a autonomia completa se dá quando as pessoas saem de suas bolhas e convivem externamente com todos os outros cidadãos. Ou seja, todos os contextos externos, sejam públicos ou privados, devem também estar equipados para que as pessoas com deficiência visual circulem sem obstáculos e desfrutem dos conteúdos ali disponíveis.

ANIELE: 

Com certeza, é muito importante que todos tenham acesso a esses recursos, como é previsto legalmente. Infelizmente ainda não vemos os resultados dessas leis aplicados no dia a dia. É preciso de muito avanço nesse aspecto para exigir que elas sejam executadas.  

LUCINEA: 

Então que tal ouvir quem sente na pele a falta desses recursos? No próximo bloco, vamos receber o Rafael Braz, para uma conversa.

ANIELE: 

Vamos para um breve intervalo e voltamos já com a entrevista.

NARRADOR:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINÉA: Rafael, eu agradeço muito a sua participação no nosso episódio do Papo com Legenda. Você pode se audiodescrever e contar um pouco sobre você.

RAFAEL: Obrigado pelo convite, Lucinéa! Meu nome é Rafael Braz, tenho 42 anos, sou branco, tenho cabelos castanhos, cacheados e compridos, um pouco abaixo dos ombros, e os meus olhos são azuis. Estou vestindo um casaco de lã cinza e uma calça jeans escura. Estou sentado na minha poltrona azul, que é onde faço os meus trabalhos, as oficinas de audiodescrição e as lives das quais tenho participado nesse período de pandemia. É, também, onde faço os meus atendimentos clínicos, porque eu sou psicólogo, trabalho com clínica psicanalítica e, atualmente, especialmente com a pandemia, a maior parte dos atendimentos tem sido on-line. Tem alguns atendimentos que eu vou pessoalmente à clínica para fazer, mas no momento é mais em casa.

LUCINÉA: Perfeito! Obrigada, Rafael! Então, vamos começar. Neste episódio do Papo com Legenda, estamos tratando do acesso da pessoa com deficiência visual aos conteúdos audiovisuais acessíveis e, em geral, da autonomia do usuário que tenha deficiência visual a conteúdo que seja de entretenimento, informativo ou jornalístico. É essa nossa temática e nossa preocupação neste episódio.

Mas, antes de abordarmos sobre as suas experiências de acesso ao audiovisual no Brasil, eu queria que você falasse um pouquinho de si mesmo, como pessoa que tem deficiência visual, e nos relatasse as dificuldades que você tem enfrentado, ou já enfrentou, na rotina doméstica. Acho que isso seria algo importante para dizer a quem nos ouve. E, também, falar sobre a sua vida acadêmica, quais eram as dificuldade ou se não as tinha, como era o acesso que tinha dentro do seu ambiente acadêmico, que fica na cidade onde você mora, a capital de Porto Alegre. Então, conte um pouco sobre isso e depois passamos para a questão do audiovisual.

RAFAEL: Eu tenho deficiência visual há cerca de 30 anos. Desde o início da minha adolescência eu tenho baixa visão. Então, até mais ou menos os meus 30 anos, eu tinha um nível de baixa visão em que eu tinha mais autonomia, no sentido de não precisar usar a bengala para me deslocar. E, a partir de então, perto dos meus 30 anos, eu tive catarata, fiz cirurgia e não precisei usar mais óculos para miopia que eu usava desde criança, que era algo adicional, para além da deficiência visual. Isso mudou bastante a minha referência visual, a acuidade diminuiu e eu fui buscar fazer terapia ocupacional, aulas de orientação e mobilidade, e comecei a usar a bengala. Já faz uns 11 anos que eu tenho baixa visão e sou auxiliado pela bengala.

Então, o que acontece? Pensando um pouco nisso que você traz sobre a faculdade, esse é um ponto que, por exemplo, quando estava na minha adolescência, no final dos anos 90, eu terminei o ensino médio, fiz um curso técnico de eletrônica e, na época, não consegui trabalhar na área por falta de acessibilidade. Naquela época eu julgava que era em razão da deficiência visual, mas hoje está claro que era por falta de acessibilidade, ainda que a deficiência visual traga alguma limitação.

No fim, eu fui trabalhar, fiz concurso público, trabalhei em call center de empresa pública aqui no Rio Grande do Sul e busquei esse caminho de vagas reservadas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho, justamente por falta de oportunidade e de acessibilidade ligadas à época. E foi só depois de, aproximadamente, seis ou sete anos concursado que resolvi fazer faculdade.

Fui para a universidade perto dos meus 30 anos cursar psicologia, justamente quando eu já tinha mais possibilidades de acessar através da acessibilidade comunicacional e tecnológica, e de ter um computador com leitor de telas e celular com uma tecnologia assistiva mais apropriada para cursar. E, claro, também ter condições para pagar por isso, porque a acessibilidade é cara. A gente tem internet, tem o acesso um pouco mais democratizado, mas ela é cara. Então, nos últimos 10 anos isso já está melhor, mas até os meus 30 anos já era mais complicado.

Com relação à rotina doméstica, que você perguntou, eu moro sozinho e é bem tranquilo, mas isso também passa pela questão da acessibilidade: fazer compras por aplicativo de celular; chamar um carro por aplicativo para eu poder me deslocar. Tudo isso ajuda a facilitar. Sem esses recursos isso certamente seria bem mais complicado, porque eu precisaria contar muito mais com a acessibilidade atitudinal, ou seja, com as pessoas em geral. Eu conto com esse tipo de acessibilidade, mas a tecnologia assistiva acaba resolvendo muita coisa.

LUCINÉA: Rafael, você tocou em um ponto muito importante: a acessibilidade também toca no socioeconômico. O próprio uso que você teve dentro da Academia, da universidade, precisaria ter esse respaldo financeiro para você ter um computador, os aplicativos. Às vezes a instituição está preparada, mas o cidadão não tem a autonomia financeira para isso.

RAFAEL: Exatamente! Essa questão socioeconômica atravessa muitas das experiências ligadas à universidade. Por exemplo, eu cursei em uma universidade privada na Grande Porto Alegre e eu pagava um transporte privado, uma Van, para me deslocar à universidade. Ou seja, se eu fosse usar o transporte público, eu já não teria a segurança de estar com o celular e com o notebook no trem, no ônibus e em tudo, porque tem risco de assalto e até de segurança, visto que as calçadas são ruins e não tem uma boa infraestrutura, além de ser muito longe. Então, isso quer dizer que o socioeconômico vai longe. Eu estava trabalhando há um tempo e tinha condições de dar conta disso financeiramente: de cursar a universidade e de pagar a universidade, o transporte e a tecnologia assistiva. Mas são poucas as pessoas com deficiência nesse país que tem condições de fazer isso.

LUCINÉA: Exatamente! O democrático perpassa isso. Focando agora na questão do audiovisual acessível, eu gostaria de saber sobre a sua experiência como consumidor a partir do momento que você já não era vidente – o seu consumo na TV, no cinema, nas plataformas de streaming. A gente queria te ouvir nesse sentido. Você sempre foi autônomo para decidir usar o equipamento? Porque acho que vai desde o uso do controle remoto até a escolha de conteúdo de sua preferência, certo? E se nesse acesso você tem frustrações ou são mais satisfações nesse consumo do audiovisual?

RAFAEL: É, eu sempre consumi muito audiovisual, desde a minha infância, quando eu não tinha deficiência visual. Por isso, eu tenho uma construção e referências de um mundo imagético bem importante. Ao longo da minha adolescência, até os meus vinte e poucos anos, quando eu passei a ter baixa visão que ainda me permitia ver bem filmes, séries de TV e ir ao cinema. Se a gente pensar em língua estrangeira, criança vê muito conteúdo dublado, porque não tem a velocidade necessária para ler legendas, já na adolescência isso muda. Quando eu comecei a ter uma leitura mais dinâmica, eu já estava no início da baixa visão, então eu não tive uma experiência com leitura de legenda de forma eficiente e segui consumindo conteúdos dublados. Com o passar do tempo, ao aprender espanhol, pude ampliar para conteúdos em espanhol, além do português, o que é muito bom e agrega bastante na audiodescrição, porque tem bastante produção da Espanha e do México. Também assisto bastante conteúdo em espanhol nas plataformas de streaming.

Pensando em satisfações e frustrações, no que diz respeito à tecnologia, eu tenho muita facilidade com o celular e o computador. No trabalho, preciso dar conta de baixar um arquivo, ou, às vezes, mudar o formato, extrair o áudio. Tudo isso para mim é bem tranquilo, tendo leitores de telas e softwares acessíveis. Quando se trata da televisão, existem aparelhos que têm o leitor de telas, meu irmão, por exemplo, que tem baixa visão tem uma e ele usa super bem. Como eu não vejo muita TV e nem tenho muito tempo para isso, não investi. Eu tinha uma Smart TV que não tinha, então eu abria um vídeo no YouTube e clicava em transmitir e ele localizava a TV que estava no ambiente pelo mesmo Wi-Fi. Mas era tudo pelo iPhone, então o que me deu acesso não foi a televisão e nem o controle remoto, que é uma incógnita, já que não tem um padrão e isso é um problema para quem tem deficiência visual.

Porém, penso que a maior frustração está na falta de conteúdos audiodescritos. Esses dias eu estava assistindo a um filme nacional de comédia com uma amiga que também tem deficiência visual, chamado “A Guerra dos Rocha”, que não tem audiodescrição. Eu já tinha visto esse filme na época em que foi lançado há uns dez anos, quando eu tinha mais visão e por isso lembrava de muita coisa. A gente assistiu no Youtube e algumas cenas eu precisava lembrar e descrever para ela, senão ficava sem entender, não tinha nexo. Em outra ocasião assistimos juntos a um filme nacional sem audiodescrição, o qual eu não tinha visto, e tinha algumas cenas que não tinha o que se fazer. Quem tem baixa visão pode se aproximar um pouco da tela e tentar entender essas partes cruciais, mas e quem tem deficiência visual? Tem muito pouco conteúdo audiodescrito e isso é muito frustrante.

LUCINÉA: Você, na verdade, audiodescreveu a partir da sua memória aquele filme. O que é errado, porque você poderia não ter isso.

RAFAEL: Exatamente! A grande maioria dos filmes eu vejo pela primeira vez e sem audiodescrição. No meu trabalho como audiodescritor, quando me perguntam a respeito do consumo de produtos audiovisuais, eu sempre digo que se a gente for esperar para consumir só com audiodescrição, vamos ter poucas experiências e referências. Então eu assisto aos filmes mesmo sem audiodescrição, porque isso acaba enriquecendo a experiência, inclusive, de trabalhar para traduzir.

LUCINÉA: Hoje você é consultor e eu fiquei sabendo que já está locutando. Como foi a sua primeira experiência como usuário e depois sua formação como consultor, as etapas e as funções que você tem desempenhado na audiodescrição?

RAFAEL: Eu trabalho com audiodescrição por cerca de seis anos. Comecei a consumir aos poucos. Eu lembro que os primeiros contatos foram por volta de 2007 e 2008. Tinha uma propaganda da Natura, eu acho, e depois vinha o filme “O Ensaio sobre A Cegueira”, o primeiro com audiodescrição, um clássico. Depois muito aos poucos, eu não lembro muito, mas acho que foi uma exposição aqui em Porto Alegre já com a Mimi Aragón e a Keni Oshiro fazendo descrição ao vivo ao longo da visitação, sem equipamento. Foi então que eu passei a me envolver bastante com a audiodescrição, principalmente em exposições com obras de arte, cerâmica, com os próprios artistas conversando sobre a obra.

Depois veio o cinema, em sessões específicas com AD aberta para chamar o público. Hoje acontece uma vez por mês, mas em 2013 era uma a cada semestre. Uma delas ocorreu no shopping, com o filme “Em Teu Nome”, da Accorde filmes da Marilaine, sobre a época da ditadura militar aqui no Rio Grande do Sul, muito interessante. Nesse momento, eu comecei a tomar contato com o pessoal que produz audiodescrição, dentre eles o Felipe Mianes e a Mimi.

Ainda em 2013 e meados de 2014, já comecei a frequentar teatro com audiodescrição e foi então que conheci a Kemi e me aproximei mais da Mimi. Em 2015, eu participei como usuário de uma pesquisa de doutorado do meu amigo Eduardo Cardoso, arquiteto e professor da UFRGS, que se especializou em AD. A tese se desenvolveu num museu de Porto Alegre, Joaquim Felizardo, com maquetes táteis e descrição de lugares da cidade. Visitei a exposição, depois houve uma entrevista e a partir disso nos aproximamos. Foi muito legal. Antes disso, eu já estava lendo por conta artigos sobre audiodescrição em e-books, numa experiência autodidata, visto que eu gosto muito de ler e de escrever, e que desde a psicanálise eu já estava imerso nisso. A Mimi acompanhou a pesquisa e percebeu meu envolvimento com o trabalho do Eduardo. Ela me chamou para uma experiência de consultoria em uma peça de teatro, um projeto no qual estavam trabalhando, e me convidou para participar do grupo, qualquer dúvida que eu tinha levava para eles. Foi assim que eu comecei: primeiro veio o estudo por conta, depois a prática e só então comecei a fazer capacitações, cursos, assistir palestras e outras atividades. Foi uma formação muito híbrida.

No início de 2016, teve um monólogo muito interessante do Cássio Scapin chamado “Eu Não Dava Praquilo”, trazendo a história da Miriam Muniz. Este foi o meu primeiro trabalho em AD. Depois de trabalhar com a Mimi, passei a trabalhar com a Letícia, a Liliana e fui fazendo outros cursos de curta e longa duração, além de assistir a defesas de Mestrado e Doutorado, que também são aulas.

No início deste ano eu fiz um curso de locução em AD, com o Charleston, no Ceará. Eu entrei para essa formação por conta da consultoria, não tinha a pretensão de gravar. Eu faço a consultoria prestando atenção em cada detalhe e etapa, não é só validar, tem toda a estética da AD. Ao fazer a gravação, me disseram que eu poderia locutar. São esses caminhos da audiodescrição se ampliam para a gente. Esse ano também tive as formações com a Eliana Franco, a gente tem feito oficinas e ministrado cursos, e também tivemos uma oficina com a Mimi na semana passada. A audiodescrição tem esse universo vasto.

LUCINÉA: Você acredita que a audiodescrição é um caminho de autonomia para tornar a acessibilidade mais democrática aos deficientes visuais, permitindo que eles tenham acesso não apenas aos recursos audiovisuais, mas também ao contexto cultural, como teatro e museu?

RAFAEL: Sim, desde que seja feita com a consultoria de um profissional com deficiência visual, e isso é fundamental, pois existem muitos trabalhos de AD sem consultoria e que não geram autonomia. Nesse caso, segue-se a premissa de que quem enxerga sabe o que precisa ser visto e como deve ser visto por quem não enxerga. E isso não funciona. Não é autonomia. É algo imposto. Não é feito o percurso necessário para construir a AD e a autonomia.

LUCINÉA: Na verdade, seria a audiodescrição na perspectiva do vidente e não o contrário. Aproveitando esta questão tão importante que destacou a respeito da consultoria, temos AD feita por inteligência artificial ou automaticamente, como recursos do Facebook que fazem a descrição automática de imagem. O que você pensa a respeito disso, ou seja, sobre estes recursos utilizados em textos, que não possuem uma preparação prévia ou um roteiro para a edição da AD?

RAFAEL: A inteligência artificial é algo fantástico e existem excelentes aplicativos de celular. Há poucos dias, estava em Gramado e queria pedir comida no quarto do hotel. Então, com o uso do aplicativo, eu direcionava e tirava fotos do cardápio. Ele, então, reconhecia os caracteres e lia para mim todo o cardápio. Com isso, podia selecionar o que queria antes de interfonar e fazer o pedido. É fantástico!

Essa questão da descrição das imagens nas redes sociais é muito importante, mas sempre gosto de fazer uma diferenciação que, para mim, não se trata de uma descrição da imagem, mas sim informações sobre a imagem. O que é diferente, pois para se descrever uma imagem é preciso passar por esse processo, como acabamos de comentar. Porém, na rede social isso não é possível. Há uma profusão de imagens e uma grande velocidade e quantidade. Então, precisamos da inteligência artificial para não ficarmos sem guias.

Dessa forma, se o conteúdo me interessar, vou investigar mais, procurar um audiodescritor, um colega vidente para descrever a imagem, ou seja, é um outro caminho que pode ser filtrado. Portanto, inteligência artificial não substitui, porque ela não descreve. Ela apenas identifica, informa, elenca.

Dias atrás, participei de uma pesquisa universitária em que a pesquisadora trazia um termo, o qual não me recordo agora, mas eram tags. As imagens tinham tags que eram palavras identificadas pela inteligência artificial. Então, ela me falava sobre a imagem e fazíamos uma comparação da pesquisa entre o que pensamos em termos de descrição e identificação em tags daquela imagem.

Portanto, para mim, são duas formas diferentes de lidar com o conteúdo imagético.

LUCINÉA: Pois bem, esses recursos não são excludentes, acredito que sejam complementares. E faço, também, um paralelo com a questão do uso do Google Tradutor, pois quando damos aula de idiomas, falamos para os alunos usarem esse recurso. Mas, em uma situação mais específica, precisamos desse profissional que fará uma boa contextualização desse texto, já que as palavras têm múltiplos sentidos. Contudo, se estiver na Rússia, por exemplo, e não houver ninguém para me ajudar, posso usar o Google Tradutor.

RAFAEL: Com certeza! Na Rússia, com certeza!

LUCINÉA: Rafael, acho importante pensarmos no lado positivo que a AD já alcançou no Brasil. Acredito que nos últimos 10 anos houve avanços em várias áreas e ela tem se firmado no seu status em nossa nação. Porém, temos um país muito discrepante e fico pensando nas pessoas que ainda consomem conteúdo informativo, como a notícia, com informações bastante relevantes para a vida do cidadão, além do entretenimento, como a novela. Enfim, tudo isso. Uma grande parte das pessoas com deficiência visual que vivem aqui, ainda consome esses conteúdos como uma mídia sonora, como se estivessem ouvindo um rádio e sem nenhuma descrição de imagem. Acredito que 85% da produção do conteúdo da Rede Globo ainda não tem audiodescrição. Isso ainda é uma realidade triste. Então, gostaria que você comentasse como essa realidade pode ser mudada e se você vê uma luz no fim do túnel para essa situação no Brasil.

RAFAEL: É uma situação muito complexa. Eu acredito avançamos muito. A AD em nosso país é uma das mais avançadas e desenvolvidas. Não tenho um vasto conhecimento sobre anda a audiodescrição em outros países, mas sempre estamos em contato com os colegas, e um deles que é de Buenos Aires, comenta que na Argentina estão ampliando a AD, mas nem tanto como no Brasil. A própria Eliana Franco, na Europa, sempre traz notícias sobre isso. Em suas publicações, destaca que o Brasil é referência da audiodescrição.

Mas, quando pensamos em veículo de massa, sinto que não temos como descolar essa análise do viés comercial e, talvez, até político, no sentido dos interesses, e comercial, no sentido do que vai para a massa.

Já comentei sobre a questão de filmes legendados e dublados. Se pensarmos que os filmes que passam na Globo, por exemplo, na Sessão da Tarde, no Supercine, na Tela Quente são filmes sempre dublados. Não temos a cultura de filmes legendados como na TV fechada. Isso acontece porque se construiu essa cultura ao longo dos anos. Temos uma população que, por diferentes motivos não quer, não tem essa vivência ou não tem esse acesso. É mais fácil e cômodo. E se adaptaram ao longo dos anos com a questão da dublagem. Portanto, para as empresas de televisão aberta, vale a pena investirem em dublagem. E existem muitas empresas de dublagem, aliás, o Brasil é uma referência, especialmente o Rio de Janeiro, que é o polo. Portanto, existem milhões de pessoas que se interessam por filmes dublados.

Já a audiodescrição, temos um contingente e um recorte com pessoas deficientes visuais bem menores. E o número daqueles que conhecem e exigem a AD é bem menor ainda. Então, se começarem a exibir filmes legendados na Globo, provavelmente vai cair muito a audiência.

Para assistirem aos filmes sem audiodescrição, as pessoas com deficiência visual ainda precisam de um familiar que lhes conte, e mesmo perdendo algumas informações importantes, acompanham do jeito que dá. Então acredito que tenha uma questão inegável de quantidade. Uma questão de massa.

E, claro, que se tem o viés político, temos a LBI (Lei Brasileira de Inclusão) e é um direito, mas existem as questões das barreiras da acessibilidade. Então, vejo que a lei é um dos poucos caminhos que temos para conseguirmos ampliar.

E temos o nosso trabalho. Nós, que trabalhamos com acessibilidade, que conversamos com produtores, que fazemos roda de conversa, que discutimos sobre os espaços para inserir a AD. Enfim, são esses caminhos, mas que são muito lentos. O famoso “trabalho de formiguinha”. E somos nós, profissionais, que fazemos essa ponte.

Mesmo por força de lei, ainda nos deparamos com outra barreira, pois temos a audiodescrição, mas tem-se o argumento de que se produz e investe em AD e quase ninguém assiste. Devemos lembrar que a AD não é um favor, deve estar disponível. Um filme dublado, por exemplo, pode ser passado no cinema para três ou quatro pessoas. Então, é uma questão cultural muito forte e levará muito tempo ainda. Mas, temos que continuar trabalhando.

LUCINÉA: Sim, a gente segue! Acho que sempre leva uma geração para que o conhecimento faça parte de uma comunidade mais ampla. Também acho que isso acontece por meio da educação, pois um aluno que é educado e entende que a audiodescrição e a legenda para surdos e ensurdecidos deve fazer parte do conteúdo audiovisual acaba exigindo isso, mesmo que não seja para ele.

RAFAEL: Exato! Esse ponto que você toca é fundamental! Eu não citei, mas em relação à educação, tanto nos níveis fundamental e médio, tem crescido o número de pessoas que buscam nós, audiodescritores, para fazer capacitações. A Letícia e eu estamos conversando com um pessoal lá do Pará que está interessado e quer que a gente faça um curso para os professores da rede pública, de modo que eles tenham os conhecimentos básicos de audiodescrição, principalmente para a sala de aula com alunos com deficiência visual da rede. Então, eu acho que isso é multiplicador para todo mundo, com e sem deficiência visual.

Na Academia, isso também é fundamental, como o trabalho de vocês. Aqui na UNIPAMPA eu tenho um amigo, que é o Marco Bonito, que faz pesquisas na área de Comunicação e tem alunos e orientandos sem deficiência visual produzindo conteúdos e pesquisando. Tem uma mestranda dele que está fazendo um trabalho bem interessante sobre “Meteorologia com audiodescrição”. E são multiplicadores, né? É um outro caminho também.

LUCINÉA: Já para falar sobre educação e formação, a gente tem aqui, até mesmo nessa sala, alunos da área de produção audiovisual que estão em uma escola de Rádio, TV e Internet que a gente tem aqui na UNESP de Bauru, e outros que também estão nos ouvindo e são futuros profissionais nessa área. Quais dicas você daria para que eles pensem nesse mundo mais acessível, com uma produção democrática, inclusiva e acessível?

RAFAEL: Bom, quando você me perguntou antes se a audiodescrição era mesmo o caminho para essa autonomia, eu falei que desde que tenha consultoria, e eu vou mais ou menos por esse caminho também. Eu penso que quem está pesquisando, estudando e produzindo na Academia também precisa buscar essas referências de audiodescrição, por exemplo, aquelas produzidas por profissionais que trabalham com profissionais com deficiência visual, consultores em audiodescrição e até mesmo o público, que são usuários de audiodescrição. É necessário fazer pesquisa, mas não só aquela pesquisa que circula em grupos de Whatsapp e que são muitos distanciadas, pois são preparadas já com uma distância da realidade. Então, eu penso que uma aproximação ideal seja através de associações, instituições ou grupos. Hoje em dia, com a internet, existem redes sociais como Facebook e Whatsapp que possibilitam se aproximar com abertura de pessoas com deficiência visual e conhecer a realidade dessas pessoas no que diz respeito ao consumo de notícias, filmes, documentários e do máximo de produções audiovisuais. E caso esses produtos não tenham audiodescrição, como que essas pessoas fazem? Ou quando tem audiodescrição, o que essas pessoas esperam da audiodescrição? Estar atento a isso é importante para poder aprender a ver aquilo que a visão não deixa ver. Eu penso que isso é um papel da pessoa com deficiência visual e, especialmente, do audiodescritor consultor: poder ajudar o profissional vidente a ver aquilo que a visão não deixa ele perceber, além do óbvio. Porque com a visão, às vezes, você fica muito no óbvio, sendo coisas do tipo “está pronto, é instantâneo, está explicado”, mas não está explicado, não é instantâneo e não é obvio. Às vezes é aquém do obvio. Então, só quem tem deficiência visual que pode fornecer essas experiências para quem está trabalhando ou pesquisando. A dica principal para mim é essa, é pesquisar sim produções com audiodescrição, mas também se aproximar desse público.

LUCINÉA: Eu acho perfeito isso que você falou, que combina com uma terminologia que essa geração dos nossos alunos tem usado muito e eu acho importantíssima, que é o “lugar de fala”, né? É exatamente isso, não só aprender mas aprender junto com essa pessoa que vai precisar, que vai consumir e que vai poder orientar melhor esses futuros profissionais. É bem bacana!

Rafael, eu adorei o nosso papo e esse encontro, que é a distância e que inclui muita gente. Essa também é a ideia desse podcast, poder divulgar conhecimento para não ficar só em uma bolha e, nesse sentido, eu agradeço muito a sua participação.

RAFAEL: Também agradeço muito! É muito interessante essa troca. Ela sempre produz algo novo e que a gente leva para a nossa trajetória, para o nosso trabalho e nossa experiência, não é? Com certeza, tendo algum questionamento ou alguma contribuição, a gente vai conversando.

LUCINÉA: Então, Rafael, um super obrigado e até breve. Que a gente troque mais figurinhas!

RAFAEL: Com certeza, fico sempre à disposição de vocês para a gente seguir com essas trocas, porque com toda essa tecnologia nós conseguimos estar juntos mesmo com a geografia dizendo que não! 

LUCINÉA: Perfeito, obrigada gente!

RAFAEL: Um abração para vocês! Tudo de bom.

ANIELE:

Bom, e depois dessa entrevista do Rafael vamos chegando ao fim do nosso episódio. Mas pra você que está chegando e quer conhecer um pouco mais do “papo com legenda”, pode conferir nossos episódios anteriores.

LUCINEA:

É isso aí, Aniele! Esse foi o nosso quarto episódio, mas se você ainda não ouviu os anteriores corre para sua plataforma de podcast preferida e ouça já!

E para ficar por dentro de tudo o que o Rafael nos contou, nos siga nas nossas redes sociais @papocomlegenda e para conhecer mais sobre o trabalho de consultoria de audiodescrição do nosso entrevistado, siga @rafael_braz_psi

Narrador:

O “Papo com Legenda” é um podcast original do MATAV, o grupo de pesquisa mídia acessível e tradução audiovisual. Para ficar por dentro dos nossos lançamentos e demais novidades, acompanhem o nosso Instagram @papocomlegenda

Papo com Legenda Ep. 03 – Lembrei de Você

Transcrição: Ana Laura Dias, Letícia Santos, Luiza Hidalgo

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao terceiro episódio do nosso podcast Papo com Legenda. Eu sou Lucinea Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Estou sentada em frente à mesa de meu escritório, gravando em meu notebook.

ANIELE:

E eu sou a Aniele, uma mulher de 26 anos, cabelos cacheados e curtos da cor castanho escuro. Eu visto uma camisa azul listrada e estou no meu quarto, sentada à frente de meu notebook.  

LUCINEA:

No episódio anterior falamos um pouco sobre a história da dublagem com o queridíssimo Vitor Mello! Foi uma conversa bem legal, e se você ainda não ouviu, corre lá e confira na sua plataforma digital favorita, mas só depois que esse acabar, hein?

ANIELE:

No episódio de hoje, vamos acrescentar mais um elemento à nossa jornada pelo universo da acessibilidade. Diferente dos episódios anteriores, hoje não vamos abordar um recurso de acessibilidade específico, mas sim um projeto que vem fazendo muita diferença no contexto da pandemia. Estou falando do projeto Lembrei de Você.

LUCINEA:

O projeto é coordenado pela professora Mônica Moura, do departamento de design da Unesp de Bauru, que aceitou o convite para agregar ao nosso papo no episódio de hoje. Quem também aceitou nosso convite foi uma voluntária muito querida! A Sara Cristina Gimenez de Faria, que vai conversar um pouquinho com a gente!

ANIELE:

Mas antes de chamar a entrevistada, vamos aprender um pouco sobre a origem e a importância do projeto no nosso quadro Legenda aí pra Mim.

Criado em junho de 2020, pela professora Mônica Moura, o “Lembrei de Você” é um projeto que tem como objetivo criar uma rede de comunicação para ajudar no fortalecimento da autoestima e promover a Inclusão social de minorias. O projeto age por meio de uma rede de voluntários, que organizam a leitura e produção de áudios que são enviados via WhatsApp a ouvintes idosos e pessoas com deficiências visuais, explorando as possibilidades da criação de imagens mentais por meio da ação da linguagem oral.

Isso ajuda também no despertar de memórias afetivas, que trazem bem-estar e qualidade de vida, ajudando no combate à solidão e atendendo ao escopo do Design Inclusivo no contexto da pandemia de COVID-19.

Lucinéa: Realmente, Aniele. A pandemia tem trazido à tona essa problemática do isolamento social, principalmente em relação às pessoas idosas e as pessoas com deficiência visual. Além de não serem incluídas na nossa sociedade no cotidiano, ainda sofrem com a solidão que é reflexo do distanciamento social.

ANIELE:

Com certeza, Lucinéa! A gente trouxe nos episódios anteriores a história e a atuação de recursos audiovisuais acessíveis, mas o “Lembrei de Você” vem para nos mostrar que a acessibilidade está para além do recurso. Um projeto como o da professora Mônica Moura ressalta que só existe acessibilidade quando as pessoas são incluídas. E por isso, a partir desse episódio nosso foco será o usuário desses recursos.

No próximo bloco, conversaremos com a professora Mônica e traremos mais legenda para esse papo.

WALESSON:

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LUCINÉA: Estamos de volta para o nosso segundo bloco. No bloco anterior, aprendemos um pouco mais sobre a história do projeto “lembrei de Você”, da professora Mônica Moura. Mas agora aprofundaremos nosso debate sobre acessibilidade, falaremos com a docente que é idealizadora do projeto. Antes de começar, professora Mônica, você poderia se apresentar e audiodescrever para o nosso ouvinte?

MÔNICA: Lucinéa, eu que quero agradecer o convite, estou muito feliz de poder participar com você. É um prazer e uma honra, ainda mais para falar de um projeto que a gente tem tanto carinho. Eu sou uma mulher de estatura baixa, sou morena, mas tenho cabelos ruivos e eu uso óculos. Eu sou gordinha, tenho olhos castanhos e hoje eu estou aqui, sentada em frente ao meu computador, no meu escritório, na minha casa. Eu estou usando uma camiseta azul e branca e uma saia cinza.

LUCINÉA: Mônica, você poderia contar para a gente como que surgiu o “Lembrei de Você”?

MÔNICA: O “Lembrei de Você” surgiu no ano passado, depois da fase de isolamento social e, por volta do dia 20 de junho, foi realizada a distância a defesa de uma tese, com o título “Design inclusivo na contemporaneidade: diretrizes ao desenvolvimento de materiais didáticos acessíveis a crianças cegas e com baixa visão”, que foi desenvolvida pelo Márcio Soares Guimarães sob minha orientação e coorientação da professora Cássia Carrara. Essa defesa foi resultado de cerca de quatro anos de pesquisa e foi a primeira pesquisa que orientei especificamente destinada ao público com deficiência visual.

A partir disso, organizamos uma mesa redonda sobre design inclusivo com o título de “Design, Educação e Inclusão” e participaram dessa mesa pesquisadores e professores que trabalham com inclusão e educação e também convidamos designers que atuam nessa área. A mesa foi muito rica, produtiva e muitas pessoas assistiram. Após isso, ficamos mais um pouquinho conversando e eu questionei ao grupo e a mim mesma: “É tudo muito bonito, a defesa de tese foi ótima, o resultado foi maravilhoso e essa mesa redonda foi incrível. Mas o que nós, que estamos envolvidos com isso, estamos fazendo para o público com o qual trabalhamos e que é fonte da nossa pesquisa? O que estamos fazendo por eles nesse momento da pandemia? Como designers, precisamos projetar alguma coisa”. Afinal, o design, principalmente o contemporâneo, não se fixa só em produção de coisas, artefatos, objetos ou de peças de comunicação e informação, ele também se destina ao desenvolvimento de ações. A partir desse momento começamos a conversar e nisso surge o projeto “Lembrei de Você”.

LUCINÉA: Mônica, quem deu o nome “Lembrei de Você”? Houve outras propostas de nome?

MÔNICA: Vários nomes foram elencados, na verdade, alguns nomes davam impressão de ser uma cantada. Às vezes ficava parecendo um nome de um filme, como “Tão Longe e Tão Perto”. Não poderíamos usar o título de um filme. Por fim, eu acredito que foi o Márcio que falou para iniciarmos a mensagem com “Lembrei de Você” e todo mundo gostou muito. Fomos ver se já existia algum nome registrado ou algo parecido nesse aspecto e não encontramos nada, então adotamos esse nome e eu acho que foi um nome muito feliz.

LUCINÉA: É lindo! Mônica, com esse sucesso e esse alcance tão grande, vocês acham que ele pode se tornar um projeto a longo prazo?

MÔNICA:  Então queremos sim dar continuidade. Inclusive o projeto que enviamos para o CNPq e tem a validação da bolsa PQ (Pesquisa Qualificada), se aplica a pessoas com deficiência visual, mas não só a elas. Há também pessoas videntes que estão em estado de solidão, temporário por conta da pandemia ou mais prolongado, pois moram ou se veem sozinhas. Também se aplica a pessoas que não estão em nenhum desses casos, porque temos muitos ouvintes que não são pessoas acometidas por alguma deficiência, mas também não estão em estado de solidão, porém, gostam muito de receber os áudios e fazem parte de um dos grupos de ouvintes. Então, na verdade, esse projeto tem como proposta abraçar diversos públicos, até porque, depois que nos aprofundamos no estudo a esse respeito, nós vimos também que essa possibilidade de levar textos de literatura, poesia, música ou relatos de vida, também possibilita uma ampliação do repertório estético e cultural às pessoas.

No caso das pessoas com cegueira, você também possibilita o desenvolvimento de imagens mentais. Claro que não são todas as pessoas cegas que continuam com a criação de imagens mentais, com forma e cor. Às vezes são só imagens de luzes, sombra ou sem cor, mas grande parte das pessoas cegas continuam com as suas imagens mentais e o fato delas ouvirem histórias diferentes, por meio dos áudios, possibilita isso.

LUCINÉA: Mônica, vocês têm uma noção de quantos usuários dos áudios vocês alcançaram que têm deficiência visual, que a gente chama de pessoas cegas ou de baixa visão, e quantos idosos?

MÔNICA: Nós temos um número aproximado. Não temos ainda essa separação, esse número exato entre cegos e baixa visão, mas sabemos que hoje o projeto atende 678 pessoas. Entre essas pessoas, temos por volta de 150 pessoas que são deficientes visuais, temos um número de idosos próximo a 50 pessoas e, por fim, temos pessoas de outras idades ou outras pessoas com baixa visão que não temos conhecimento, pois algumas não declaram.

LUCINÉA: Mônica, para terminar, eu queria que você falasse de um ou dois relatos dos usuários do Lembrei de Você que tenha te marcado.

MÔNICA: Tenho vários relatos que me marcaram de forma muito sensível e emotiva. Eu ouço todos os áudios, até porque trabalhamos em um grupo para podermos fazer a divisão desses áudios, para verificarmos se tem algum ruído ou problema neles e para classificá-los.

Então, nesse sentido de tocar, em termos de emoção, nós temos vários áudios, mas também temos situações muito engraçadas. Temos uma voluntária que se chama Patrícia e, na pandemia, ela foi para uma casa do interior e, pelo que ela contava, a gente entendia que era como um sítio ou uma casa de campo. E aí, ela não tinha nenhum livro ou revista, porque ela não levou. Então, ela contava histórias dela, coisas que aconteciam lá. Vou falar duas histórias dela que são muito engraçadas.

Primeiro, um dia ela achou um pão caseiro inteiro na porta de sua casa de presente, mas ela não descobriu quem era. Então, ela foi contando a história e a gente imaginou que nos próximos áudios ela iria contar para a gente quem deixou o pão. E a gente começou a imaginar falando: “Nossa, será que é alguém que está apaixonado por ela? Quem será?” E até hoje a Patrícia não descobriu quem foi que deixou o pão lá.

Outra história dela foi a dos lagartos. Sabe aqueles lagartos grandes, que vivem em pedras? Então, ela viu dois lagartos que ficavam pelo seu quintal e resolveu começar a alimentar eles com ovo e tudo mais. Um dia, os lagartos entraram na casa e foram para debaixo da cama dela. Então esse foi outro áudio muito divertido.

E uma coisa que também me emocionou muito, por uma questão muito pessoal, é que a Sara, com quem vocês acabaram de fazer a entrevista, é filha de uma ex-aluna minha, que também foi minha monitora e estagiária. Então, eu fui ao casamento da Débora, vi ela grávida, conheci a Sara bebê e depois nunca mais tive oportunidade de encontrar. Por isso, quando ela enviou o primeiro áudio, foi uma surpresa e, também, uma alegria muito grande em todos os sentidos: como a gente pode estabelecer esses vínculos emocionais, afetivos, e como essas coisas também podem se propagar muito além de nós. Então a gente lança uma pequena sementinha e, olha que bonito, o fato de uma mãe, ao exercitar essa questão de uma doação de tempo, de voz e de vontade, influencia a sua filha. Para mim, isso foi muito bonito.

LUCINÉA: Parabéns, Mônica! É um projeto muito lindo e desejamos um sucesso a longo prazo e que continuem alcançando mais pessoas. Parabéns pelo projeto!

MÔNICA: Eu agradeço muito! E, como essa entrevista é também uma forma de divulgação para o projeto, se alguém tiver interesse eu peço para entrar em contato via Instagram, no canal do Lab Design Contemporâneo. A pessoa pode comunicar se quer participar ou como um voluntário ou como ouvinte – seja um ouvinte individual (pessoa física) ou uma instituição – e a gente entra em contato.  

ANIELE: Gente, esta foi a primeira parte da entrevista. E vamos agora para um breve intervalo.

No próximo bloco, continuaremos nossa entrevista com a Sara Cristina Gimenez de Faria.

WALESSON: Para acompanhar nossos textos sobre acessibilidade e as transcrições dos episódios Papo com Legenda, acesse o blog matavunesp.wordpress.com

LUCINÉA: Estamos de volta e para dar prosseguimento a esse episódio especial. Conversaremos agora com a Sara, que é voluntária do projeto Lembrei de Você. Sara, você poderia se apresentar e se audiodescrever?

SARA: Oi! Meu nome é Sara Cristina Gimenez de Faria. Eu sou baixa, tenho 9 anos, uso óculos e tenho um cabelo marrom meio escuro meio claro. Uso saia e blusa azul com flamingo.

LUCINÉA: Sara, a gente entrou em contato com o projeto e tivemos acesso às suas locuções, e eu queria entender um pouquinho. Primeiro, eu queria saber quantos anos você tem e por que você aceitou ser voluntária nesse projeto, que é o Lembrei de Você. Conta um pouco para a gente como que foi que você começou a ajudar as pessoas por meio do Lembrei de Você.

SARA: Bom, eu tenho 9 anos e eu comecei a querer participar quando vi a minha mãe fazendo os áudios para gravar histórias; eu fiquei com vontade e pedi para participar. E foi aí que eu comecei a fazer os áudios. Na segunda à noite eu e a minha mãe sempre gravamos os áudios.

LUCINÉA: Entendi, então tem um dia da semana que vocês escolhem para fazer e aí vocês mandam, é isso?

SARA: Isso.

LUCINÉA: Perfeito! Sara, e como você escolhe o tipo de gravação que vai enviar? São coisas que você gosta de ler? São contos, poesias, histórias? Fiquei sabendo que você canta também… Então como que é? Você e a sua mãe que decidem juntas o que você vai mandar ou você pede para gravar as coisas que você mais gosta?

SARA: É, eu escolho por meio do que eu gosto. E aí eu leio histórias, poesias e uma vez eu cantei.

LUCINÉA: Foi lindo! Você sabe que eu ouvi uma música com os meus pais, que são bem velhinhos, e eles gostam. Eu coloquei para eles e eles adoraram!

SARA: E, também, a mamãe me ajuda a escolher o livro, porque às vezes ele é grande e a minha mãe já leu.

LUCINÉA: Ah, então ela ajuda para não ler inteiro. E Sara, uma última pergunta: você fica feliz em ajudar as pessoas, ou as que são idosas e mais velhas, ou as que não enxergam? Porque a gente sabe que tem pessoas cegas que ouvem esses áudios. Então eu queria saber se você fica feliz, porque a sua voz dá um conforto para essas pessoas?

SARA: Ah, eu fico feliz, porque eu ajudo as pessoas, elas se divertem e aprendem, e assim eu me sinto útil.

LUCINÉA: Ah, que legal! E você quer sempre continuar com esse projeto?

SARA: Sim, eu sempre quero continuar com esse projeto.

LUCINÈA: Então, parabéns pela colaboração! Eu tenho acompanhado os seus áudios e eles são muito confortáveis para quem está do outro lado te ouvindo!

SARA: Muito obrigada!

LUCINÉA: Parabéns, Sara!

ANIELE: Bom, e depois dessa entrevista da Sara, estamos chegando ao fim deste episódio. Mas para você que está chegando e quer conhecer um pouco mais do papo com legenda, pode conferir nossos episódios anteriores.

LUCINÉA: É isso aí, Aniele. Este foi nosso 3º episódio, mas se você não ouviu os anteriores, corre na sua plataforma de podcast favorita e ouça já. Para ficar por dentro de tudo o que a Profa. Mônica nos contou e ficar sabendo ainda mais sobre Design Inclusivo, não deixe de seguir @labdesigncontemporaneo

ANIELE: Como é importante o projeto Lembrei de Você, ainda mais no contexto de pandemia que ainda estamos passando. O trabalho da Profa. Mônica é essencial para amenizar os efeitos do isolamento e solidão dos idosos com deficiência visual e também dos idosos videntes. É claro que teria que virar um episódio. O programa de hoje fica por aqui.

WALESSON: O Papo com Legenda é um podcast original do MATAV, o Grupo de Pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual. Para ficar por dentro dos lançamentos e demais novidades acompanhe o nosso Instagram @papocomlegenda

Lançamento do Podcast Papo com Legenda

Imagem com fundo azul claro, o logo do Papo com Legenda está no centro da imagem. O logo é composto pela letra P, que tem a cor amarela, seu formato é semelhante a um ícone de balão de fala. No centro da letra P há uma vírgula de cor azul clara. No centro da imagem, ao lado do logo, está escrito em letras brancas Papo com Legenda. No canto superior e inferior da imagem há linhas variando entre as cores verde, rosa, azul e amarelo. 

Nosso grupo de pesquisa MATAV vai lançar em 30 de setembro o podcast sobre acessibilidade audiovisual Papo com Legenda. A ideia de entrar para o universo das mídias sonoras surgiu no início de 2021, a partir da necessidade de divulgarmos para um público mais amplo as ações desenvolvidas pelo MATAV, especificamente nas temáticas que envolvem a produção audiovisual acessível para pessoas com deficiência visual e auditiva.

Em 2020, com a quarentena em todo país, realizamos diversas Lives e o alcance do público foi além de Bauru e do estado de São Paulo, conseguimos entrevistar uma audiodescritora brasileira que mora no Canadá. Percebemos, então, que o podcast teria ainda mais eficácia, pois além de ser um meio que pode ser acessado no momento que o usuário quiser, será um inventário de nossas produções. O conteúdo fica armazenado e podemos sempre usar.

Legenda para quem não ouve

Um grande diferencial do Papo com Legenda é que todo o conteúdo dos episódios será publicado no blog do MATAV, pois pensou-se também no acesso da pessoa com deficiência auditiva. Ou seja, haverá legenda para todos e todas. Basta a pessoa entrar no blog do Matav e acessar o menu Papo com Legenda

Quem faz o Papo com Legenda?

O podcast é coordenado pela líder do Grupo MATAV, Profa. Dra. Lucinéa Marcelino Villela, Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC/SP) e Pós Doutora em Tradução Audiovisual (Universidade Autônoma de Barcelona), e as diversas funções são desempenhadas por uma equipe de alunos do Curso de Rádio, Televisão e Internet da UNESP/Bauru, além de outros voluntários do Curso de Design e deTradução da UNESP e ainda há profissionais das áreas de Letras e Tradução.

Pesquisa e Produção: Profa. Dra. Lucinéa Marcelino Villela

Roteiro: Gabriel H. Leite de Souza (RTVI/FAAC), Julia Ferreira da Silva (RTVI/FAAC), Natália Fernandes de Sena (RTVI/FAAC) e Walesson Almeida dos Santos (RTVI/FAAC).

Edição som: Gabriel H. Leite de Souza (RTVI/FAAC)

Apresentação: Lucinéa Marcelino Villela e Aniele de Macedo Estevo (Design/FAAC)

Trilha sonora: João Batista de Carvalho e Silva Signorelli (RTVI/FAAC)

Comunicação: Luiza Hidalgo (Tradutora/UNISAGRADO), Walesson Almeida dos Santos (RTVI/FAAC), Natália Fernandes de Sena (RTVI/FAAC) e Isabeli Bovério dos Santos (Tradutora/UNISAGRADO)

Transcrição: Ana Laura Dias (Tradução/IBILCE), Luiza Hidalgo (Tradutora/UNISAGRADO), Letícia Santos (Mestranda PPGEL/IBILCE) e Daniela Carvalho Souza (Licenciada em Letras)

A primeira temporada do podcast será composta por episódios sobre audiodescrição, dublagem, web acessível e mídia sonora acessível. As temáticas serão desenvolvidas por meio de uma introdução histórica e conceitual e, no segundo bloco, haverá entrevistas a especialistas e profissionais de cada área. Contaremos também com um episódio com participação de uma pessoa com deficiência visual, que atua em Porto Alegre como consultor em audiodescrição. Ele relatará, na perspectiva do usuário, as experiências de acesso ao audiovisual.

Os episódios serão lançados às quintas-feiras, a partir de 30 de setembro, e o episódio piloto será sobre audiodescrição (AD). Foram entrevistadas duas pioneiras em AD no Brasil que compartilharão com os ouvintes as etapas de produção de AD no Carnaval no Rio de Janeiro e São Paulo.

Dia do Tradutor: 30 de setembro

O lançamento ocorrerá no Dia do Tradutor, data comemorada em todos os países ocidentais, em homenagem a São Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim. As modalidades de audiodescrição e legendagem para surdos são estudadas dentro da área de Tradução Audiovisual e a líder do grupo MATAV é formada em Tradução pela UNESP, no IBILCE em São José do Rio Preto.

Instagram @papocomlegenda

https://matavunesp.wordpress.com/