Festival Assim Vivemos On line

Descrição da imagem: convite de divulgação com fundo cor de vinho. À esquerda em letras amarelas e brancas: 10 a 14 de abril. Assim Vivemos Online – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência http://www.assimvivemos.com.br . À direita, foto de uma mulher negra em uma cadeira de rodas com um sorriso largo. Ela é calva e usa óculos. Está com o braço esquerdo ao longo do corpo e o direito apoiado no braço da cadeira. Usa vestido amarelo com estampa de flores cor de laranja e azuis e bijuterias douradas. Abaixo da foto, escrito em branco: Mona Rikumbi é atriz, dançarina, enfermeira e ativista. Na parte de baixo do convite: Produção: Cinema Falado. Apoio: Centro Cultural Banco do Brasil e Anaísa Raquel Produções. Patrocínio: Secretaria de Cultura e Economia Criativa , Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Pátria Amada Brasil – Governo Federal.

O Blog MATAV colabora com a divulgação do Festival Assim Vivemos on Line. Seguem as informações enviadas pelos organizadores do evento.

Histórias de vidas, de amores, dúvidas, aceitações e frustrações. Trajetórias que perguntam, que buscam pertencimento, soluções, espaços e trocas. O Festival Assim Vivemos Online apresenta um conjunto de filmes e debates transformadores. Uma experiência marcante que propõe a reflexão sobre a riqueza e a beleza da diversidade humana. Um lugar de propostas para a construção de uma sociedade mais diversa, compartilhada e interessante.

Nesta edição, que conta com recursos da Lei Aldir Blanc, serão exibidos filmes de diversos países, que marcaram as edições anteriores do Festival, além de dois filmes brasileiros inéditos. Um mosaico abrangente e rico de como as questões são abordadas em diferentes contextos e culturas. A programação ainda conta com debates e materiais didáticos divididos em quatro temas: Arte e Diversidade, Escola e Vida Independente, Vida Amorosa e Autonomia e Autismo e Neurodiversidade. Toda a programação conta com recursos de acessibilidade comunicacional, nesta edição que permitirá a ampliação do Assim Vivemos para pessoas de todos os lugares.

Realizado desde 2003, o Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência, é o mais importante festival de cinema sobre o tema e foi o primeiro a disponibilizar o recurso da audiodescrição para pessoas cegas e de baixa visão no Brasil. Acontece de forma presencial no Centro Cultural Banco do Brasil, trazendo o melhor da produção audiovisual mundial e nacional sobre o tema, com a primordial participação de pessoas com deficiências em debates e oficinas.

Toda a programação no link https://assimvivemos.com.br/2021/online/

Junho com Arte Acessível

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As férias de inverno estão quase chegando e para quem mora em algumas cidades do estado de São Paulo há boas oportunidades para assistir espetáculos com acessibilidade.

Encontrar uma peça ou exposição acessível tornou-se uma tarefa mais fácil nos sites brasileiros de divulgação cultural, basta prestar atenção em Tags ou ícones que indicam os recursos de Audiodescrição ou Libras, por exemplo.

No site do Itaú Cultural, para todos os eventos anunciados há as indicações dos recursos oferecidos para as pessoas com deficiência auditiva ou visual. Outro diferencial é a acessibilidade em LIBRAS que está disponível em todos os conteúdos da homepage por meio do aplicativo ProDeaf. A pessoa surda poderá entender todas as matérias em LIBRAS, basta clicar no ícone do aplicativo e, em seguida, selecionar trecho a trecho do texto e uma intérprete virtual traduz em Língua Brasileira de Sinais o conteúdo que está em português.

O MATAV indica duas peças com recursos de acessibilidade que estarão em cartaz em junho e que são produzidas com apoio do Itaú Cultural.

https://www.itaucultural.org.br/

Chiquita Bacana no Reino das Bananas

Fotografia colorida de cena da peça Chiquita Bacana no Reino das Bananas. Na imagem, atores a atoras vestem preto. Colocam as mãos cruzadas sobre o próprio peito e olham para o lado.

#paraCegoVer #paraTodosVerem (descrição da imagem) Foto colorida de atores do grupo Folias d’Arte. Todos os atores estão vestidos de preto, eles estão em pé em um círculo. Na frente da foto está uma atriz de cabelos curtos, de cor avermelhada, ela usa óculos e está com os braços e mãos cruzados cobrindo seu peito. A foto tem fundo preto. (fim da descrição)

A peça de Reinaldo Maia apresenta a história de uma menina que é acusada de comer uma banana no Reino das Bananas.  O reino, que é comandado pelo Rei Leonino e por seu grupo de girafas e gorilas, possui outros animais que estão perdendo suas funções sociais. O desfecho da peça é decidido pelo público.

O grupo Folias d’Arte foi formado em 1997 e seus espetáculos tratam dos problemas da sociedade contemporânea. O grupo já recebeu cerca de 50 prêmios, incluindo os prêmios Shell, APCA e Molière.

Serviço: Chiquita Bacana no Reino das Bananas [com interpretação em Libras e audiodescrição].

Itaú Cultural São Paulo

Endereço: Avenida Paulista 149 São Paulo SP – [Estação Brigadeiro do metrô]

Sábados 22 e 29 e domingos 23 e 30 de junho de 2019 às 15h [nos dias 29 e 30, o espetáculo conta com audiodescrição] [duração aproximada: 60 minutos] Sala Multiúso (piso 2) – 70 lugares

 

Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

#PraCegoVer #PraTodosVerem. (descrição da foto) Fotografia colorida com quatro atrizes encostadas na frente de um fusca branco em uma praça. Elas vestem vestidos rosa, amarelo, azul e laranja e seguram uma faixa longa feita de tecidos coloridos. Sorriem para a câmera. (fim da descrição)

Um projeto itinerante de contação de histórias que usa como base de transporte e fonte de causos um tradicional Fusca branco de 1978, chamado Joaquim. Assim é “Joaquim, o Fusca que Contava Histórias”,  projeto criado pelo gRUPO êBA!, que de 9 a 11 de junho irá percorrer as cidades de São Luiz do Paraitinga, Taubaté e São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba.

A intervenção consiste na apresentação de um espetáculo inédito, A Menina das Meias Vermelhas, seguida de um convite para que o espectador entre no Fusca e, sentado no banco do motorista, compartilhe a própria história, protesto ou o que tiver vontade de contar. A equipe artística é composta de três contadoras de histórias ouvintes que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de uma contadora surda. Todo o espetáculo será acompanhado por elementos percussivos e visuais, e narrado em Libras e português simultaneamente.

Serviço: Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

domingo 9 de junho de 2019 às 14h30
Largo do Rosário [apresentação aberta ao público]
São Luiz do Paraitinga, SP

segunda 10 de junho de 2019 às 14h
Emief Anna dos Reis Signorini [apresentação fechada para alunos]
Jardim Jaraguá, Taubaté, SP

terça 11 de junho de 2019 às 15h30
Emef Profa Maria Aparecida dos Santos Ronconi [apresentação fechada para alunos]
R. Ana Gonçalves da Cunha, 400, Jardim Jussara, São José dos Campos, SP

[livre para todos os públicos]

Entrevista com Bruno Fagundes

O Blog MATAV apresenta o último post da série de três sobre a Peça Tribos. Segue a entrevista realizada pela estudante de Jornalismo Ana Raquel Mangiili. Ana Raquel já publicou sua resenha no Blog MATAV com relatos interessantes sobre sua experiência de surda oralizada e espectadora teatral.

Entrevista com Bruno Fagundes

O ator interpreta o personagem Billy na peça Tribos

Entrevista: Ana Raquel Périco Mangili

Transcrição: Laiza Castanhari

Revisão: Profa. Dra. Lucinéa Marcelino Villela

 

Após se apresentar em Bauru, no dia 20 de fevereiro (veja a matéria sobre a peça aqui), Bruno Fagundes, da Equipe Tribos, concedeu uma entrevista exclusiva para o Blog MATAV e para a ADAP.

Além do protagonista da peça, conheci Maíra Dvorek (que interpreta a personagem Ruth), Guilherme Magon (Daniel) e Antonio Fagundes (Christopher). Todos os atores foram gentis e atenciosos, com destaque para o Bruno e a Maíra. Ambos relataram experiências e genuíno interesse pelas questões que envolvem o universo da surdez para além da peça de teatro em que atuam. Foi um enorme prazer conhecer a Equipe Tribos.

Confira, a seguir, a entrevista com Bruno Fagundes. O ator relata sua experiência com LIBRAS, seu contato com surdos sinalizados e oralizados, o que pensa a respeito da questão da Acessibilidade no Brasil e aborda vários outros temas.

 

Ana Raquel: Como você aprendeu LIBRAS? Houve dificuldades?

A jornalista Ana Raquel com Bruno Fagundes

A jornalista Ana Raquel com Bruno Fagundes

Bruno Fagundes: Eu achei difícil, porque os outros idiomas a gente tem um inconsciente que aprendemos ouvindo. Como o inglês, a gente ouve as músicas em inglês, então, conseguimos captar um pouco dos idiomas, porque a nossa cultura é uma cultura oral e auditiva, você vai se alimentando ao longo da vida com referência e com informação. A língua gestual é uma língua completamente diferente, é radicalmente diferente da nossa cultura, da minha cultura. Foi muito difícil fazer essa transposição de forma de expressão e passar para a expressão gestual, mas foi um processo muito interessante. Acho que a língua gestual tem muito a ver com o nosso trabalho de ator, porque é uma língua muito expressiva. Foi muito interessante para mim, como ator, interpretar uma língua falando e, de repente, passar para os sinais e voltar para o português. Foi um processo muito difícil, muito desafiador, mas que me deu muito prazer em conhecer essa língua, tão bonita e expressiva.

AR: Você pretende utilizar esse idioma em sua vida pessoal, mesmo após o fim da turnê?

BF: Eu tenho interesse, fiz amigos nesses processos, amigos oralizados, outros só usam sinais e a gente ficou amigo nesse processo de composição do personagem, eles me ajudaram muito. Eu os observei muito para ver o que gostaria de usar para o meu personagem e foi muito legal. Algo que coloquei na minha cabeça, quando eu tiver tempo: quero me voluntariar para dar aulas de teatro em LIBRAS. Quero me aprofundar mais na língua, que eu não sinalizo fluentemente, então quero aprender melhor para fazer uma espécie de aula, alguma coisa que tem a ver com a minha formação para oferecer para comunidade.

AR: Demorou mais ou menos quanto tempo para você aprender a LIBRAS?

BF: A gente teve muito pouco tempo de processo, foi um mês só de processo, mas eu não parava de fazer isso. Fiquei um mês todo assistindo vídeos e saindo com eles. Fui à manifestação no MASP, houve uma manifestação que tinha um monte surdos. Eu saía com eles para jantar. Fiz uma imersão total, porque quando você vai falar sobre uma deficiência é uma responsabilidade muito grande, afinal estamos retratando a vida de pessoas que têm a vida muito parecida com o que acontece com o personagem. Tive esse cuidado, essa responsabilidade de aprender o máximo possível e de fazer parecer o mais real possível.

AR: Vocês tiveram contato com surdos sinalizados antes de montar a peça? Se sim, poderiam me contar como foi a experiência?

BF: Não, antes de fazer eu não tinha nenhum. Estudei em um colégio não inclusivo, não conhecia nenhum deficiente auditivo antes de fazer esse personagem. Para mim foi um universo novo que conheci, foi uma porta que abri na minha vida que pretendo nunca mais fechar.

AR: Vocês já ouviram falar da comunidade dos Surdos Oralizados? E do Implante Coclear? Não pensaram em colocar esses elementos na peça Tribos também?

Maíra Dvorek e Ana Raquel

Maíra Dvorek e Ana Raquel

BF: Na verdade, a gente não foi atrás de uma peça que falasse sobre qualquer tema, não foi filantropia, não quisemos fazer uma peça social. A gente queria fazer primeiro uma peça de teatro voltada para ouvintes que fala sobre esse tema, mas que fala sobre outros temas também, por acaso. A peça trata também, na verdade, sobre a surdez de todos nós, sobre a incomunicabilidade da família, sobre o preconceito, sobre a intolerância, e que depois a gente foi percebendo a profundidade desse assunto e que, por acaso, falava mais sobre a descoberta dos sinais para eles do que outras coisas, mas, na verdade, a gente não buscou o tema focado ou em Implante Coclear ou em sinais. Buscamos uma peça. Encontrei essa peça fora do Brasil e achei um texto muito forte, muito interessante e que aborda o assunto de uma maneira que não é nem tendenciosa, nem piegas, não faz apologias para nenhum lado. Ela simplesmente pega um problema e explode, e acho que é um texto universal mesmo, que pode se colocar não só para deficientes auditivos, mas para negro, para um judeu, qualquer tipo de minoria. A peça não teve esse foco, esse objetivo de falar sobre um assunto, mas de falar sobre tudo. E o meu personagem usa aparelho auditivo.

AR: Qual a sua opinião sobre os projetos de lei para acessibilidade cultural no Brasil, especificamente nas áreas de LIBRAS, Audiodescrição, legendas e leitura labial?

BF: Eu acho que o Brasil está a passos lentos, acho que é um começo de uma busca acessível, mas eu percebi na nossa peça que nós somos umas das únicas companhias que faz acessibilidade com frequência, porque o que eu vejo mais são projetos que fazem peças já para comunidade surda, não que pega uma peça convencional e deixa acessível. Então, vejo mais esse movimento do que o que nós fizemos. A gente fez, durante um ano, uma vez por mês acessibilidade e a procura e a resposta do público e da comunidade surda foi imensa, muitas e muitas pessoas foram assistir.

Eu acho que é uma via de duas mãos. Quanto mais as pessoas começarem a oferecer acessibilidade, mais vocês vão conseguir assistir. Acredito que tem que partir de algum lado, e acho que esse lado tem que partir de nós (atores). Nós reconhecemos como um erro nosso não ter feito isso antes, mas a gente pretende corrigir esse erro e fazer em todas as nossas peças pelo menos uma sessão acessível por mês, duas sessões por mês, porque também é um custo muito elevado para nós.

Temos um custo, a gente não consegue trazer acessibilidade em turnê, mas em São Paulo havia tradução em LIBRAS simultânea, tinha legenda. Era um tablet que você prendia na cadeira, tinha legenda do espetáculo inteiro para surdos oralizados e tinha Audiodescrição para cegos. Foi uma coisa inédita no Brasil, acho que algumas companhias começaram a se espelhar na gente e, depois que a gente estreou, comecei a ver um movimento maior de acessibilidade na nossa área. Não sei se fomos nós que demos esse empurrão, que a gente ajudou, ou se foi um movimento que começou a surgir mesmo agora, mas acho que está a passos lentos, mas acho que está caminhando.

AR: Como funcionava o sistema de tablet usado nos espetáculos para a exibição de legendas?

BF: Na verdade, era um sistema que usava uma espécie de tablet, mas dentro dele tem um sistema que você não pode acessar mais nada. O usuário acessa direto à legenda e ele tinha um gancho que prendia na cadeira, era um sistema próprio que está no nosso texto lá. Tinha uma pessoa que, dentro desse sistema que desenvolveram, ele que dava as deixas, cada fala ele apertava para sincronizar. Tinha uma equipe, tinha dois funcionários para distribuir esses tablets pela plateia e para recolher depois e tinha um que ficava apertando o botão para fala ir simultânea com a peça. È uma estrutura muito grande.

Com certeza, isso já foi um avanço. Essa empresa chama-se Steno do Brasil, é uma empresa que é atuante em São Paulo e o dono dessa empresa é surdo oralizado, ele desenvolveu esse método de legendagem. A gente foi para Portugal com a peça e eu falei sobre isso lá e eles não conheciam. Na Europa, vejam só. O proprietário da produtora desenvolveu esse sistema e é um sistema quase revolucionário e excelente, era muito funcional, o público amava, era muito legal. Ele tinha um sistema de luz diferenciado que não atrapalhava quem tava do lado. Não pode ser um tablet com uma luz forte, tinha essa película que deixava a luz fosca. Eles estão desenvolvendo agora uma espécie de óculos que você coloca e a legenda fica aqui embaixo.

AR: Quais são seus próximos planos em relação ao Teatro?

Ana Raquel e Antonio Fagundes

Ana Raquel e Antonio Fagundes

BF: A gente já está há um ano e meio com essa peça, nós fizemos um ano em São Paulo, depois um mês em Portugal e agora nós começamos a viajar pelo Brasil. Fizemos seis cidades já. Se tudo der certo, até agosto vamos continuar viajando. Temos um longo chão aí, se Deus quiser a gente vai conseguir concluir esses quase dois anos de espetáculo, que é um feito no Brasil, é muito difícil conseguir uma peça que dê tão certo, o público realmente elegeu o nosso espetáculo, é muito bom. Estou muito feliz com esse projeto, que ele atinja tantas pessoas e que ele modifique a vida de outras, então para mim isso é muito gratificante.

Entrevista exclusiva com elenco da peça “Tribos”

Bauru receberá no próximo dia 20 de fevereiro a peça Tribos. Um roteiro belíssimo da britânica Nina Raine que encantou Bruno Fagundes em 2012 quando assistiu a montagem em Nova York. Rapidamente os direitos foram adquiridos e a peça tem sido sucesso há quase um ano e meio com público de mais de 150 mil pessoas no Brasil e em Portugal.

A coordenadora do Blog MATAV (Mídia Acessível e Tradução Audiovisual) fez uma entrevista bastante esclarecedora com a Equipe Tribos. Abaixo leiam a sinopse da peça e a entrevista na íntegra.

peçatribos

Sinopse: Billy (Bruno Fagundes) nasceu surdo em uma família de ouvintes, liderada pelo pai Christopher (Antonio Fagundes) e pela mãe Beth (Eliete Cigarini), e completada pelos irmãos Daniel (Guilherme Magon) e Ruth (Maíra Dvorek). Ele foi criado dentro de um casulo ferozmente idiossincrático e politicamente incorreto. Adaptou-se brilhantemente às maneiras não convencionais de sua família, mas eles nunca se deram o trabalho de retribuir o favor. Finalmente, quando ele conhece Sylvia (Arieta Côrrea), uma jovem mulher prestes a ficar surda, Billy passa a entender realmente o que significa pertencer a algum lugar.

(fonte http://www.tribosnet.com/)

Lucinéa Villela: O excelente roteiro de Nina Raine trata de temáticas que englobam dificuldades nas relações familiares, preconceitos, aceitação das diferenças e inclusão. Poderíamos afirmar que não somente o personagem Billy é ignorado por sua família, mas que os outros membros dessa “Tribo” tão complexa não sabem como se comunicar e “ouvir” os sentimentos uns dos outros? Vocês acreditam que essa família representa toda sociedade contemporânea ou há uma caricatura necessária nas artes e ficção? Como descobriram o roteiro Tribes? Alguém do elenco teve a oportunidade de assistir a peça na Inglaterra ou nos EUA?

Equipe Tribos:  Acredito que toda forma de arte não deve ser casta. Deve trazer consigo um valor crítico e de certa forma, uma análise do nosso tempo: instigar-nos a rever nossas certezas. A família que Nina Raine expõe em “Tribos” é sem dúvida uma família bastante disfuncional. Ela carregou nas tintas exatamente para que ficasse evidente a surdez de cada um dos membros desta família. Desta forma, dividiu o tema em duas categorias: a surdez dos que são vítimas desta condição e a surdez dos que ouvem perfeitamente, mas ESCOLHEM não escutar. Acho que este é o cerne de toda a encenação. Não há nada mais contemporâneo do que a nossa “audição seletiva”. Ouvimos só o que nos é confortável e ignoramos o que nos é diferente. Ao longo do texto você percebe que o personagem que mais “escuta” ali dentro é exatamente o deficiente auditivo – ouvir é estar disponível para o outro.

Eu (Bruno Fagundes) fui para NY em setembro de 2012 e assisti à versão inglesa original de Tribes. Foi imediato: me apaixonei perdidamente pela discussão em cena, pelos personagens, pelas ideias lá expostas, me emocionei muito com esse novo universo, cheio de nuances, muito humor mas com bastante profundidade. Um ano depois estreamos em São Paulo. Agora somamos mais de 150 mil espectadores em 1 ano e 5 meses de temporada. E ainda não acabamos.

LV: Sabemos que o trabalho de vocês é primordialmente artístico e que o tema da deficiência auditiva não foi escolhido como uma agenda inclusiva. Contudo, arrisco dizer que para além da arte, esse trabalho provocou um caloroso debate sobre a inclusão dos surdos e ensurdecidos em suas famílias, escolas, ambientes de trabalho, enfim, na sociedade.  Vocês já tinham noção que haveria uma recepção tão grande e calorosa das pessoas com deficiência auditiva e de seus familiares? Eles foram relevantes para que houvesse uma turnê da peça?

Tribos: Exatamente, o que nos moveu a montar este texto foi, primordialmente, a possibilidade de bom teatro que a peça possui. Não sabíamos nada sobre surdez, acessibilidade, ferramentas, muito menos sobre a recepção do público. Fazer teatro é dar um tiro no escuro. Jogar para o mundo uma ideia e torcer para que alguém compartilhe com a mesma emoção. Sentimo-nos muito vitoriosos ao saber que não só nossa ideia foi aceita e compartilhada, como também ajudou muitas pessoas e abriu novas possibilidades de discussão sobre um assunto tão ‘morto’ no Brasil e tão necessário.

Nós somos uma cooperativa, ou seja, não recebemos nenhum financiamento do Estado ou do Governo, nem de nenhuma empresa. Dependemos única e exclusivamente do público. Portanto, sem dúvida, vimos na turnê uma oportunidade de ampliar mais ainda nossa vontade de se comunicar.

LV: Os recursos de libras e legendas foram imprescindíveis para a boa recepção das pessoas com deficiência auditiva do texto de Tribos. Vocês já haviam lançado mão desses recursos em outros trabalhos? Continuarão a usá-los em novas produções? Em Portugal houve um intérprete de línguas de sinais nativo?

Tribos: Novamente, não sabíamos nada sobre acessibilidade até começarmos os ensaios. Percebemos que seria um contrassenso falar sobre a surdez universal, sobre comunicação, compreensão, tolerância, preconceito, compaixão e, claro, sobre a deficiência auditiva e não incluí-los.  Começamos a nossa pesquisa sobre as melhores ferramentas de acessibilidade e depois de muitas tentativas – e muitos erros – chegamos à forma que coube no nosso bolso e foi ideal para nossa proposta. Além das legendas e intérpretes, durante 11 meses no TUCA (em São Paulo) fizemos audiodescrição para deficientes visuais.

Em Portugal conhecemos uma pessoa iluminada chamada Maria Helena Regencio Alves, uma militante da acessibilidade no país que nos ajudou desde nosso primeiro dia em terras lusitanas. Tínhamos duas intérpretes e tradutoras de Língua Gestual Portuguesa – Ana Sofia Fernandes e Paula Teixeira – e fizemos muitas sessões com audiodescrição da Suzana Suzarte. Foi maravilhoso.

Pretendemos estender nossa proposta acessível para todos os espetáculos que fizermos de agora em diante. Especialmente os que falam sobre outros temas, além da deficiência auditiva. Nosso erro foi não ter feito isso antes. Vamos corrigir essa falha.

LV: Eu pedi para ouvir a audiodescrição em uma das sessões no TUCA, mas na oportunidade, não havia pessoas com deficiência visual na plateia. Vocês receberam cegos ou pessoas com baixa visão em outras sessões?

Tribos: Sim. Mas, infelizmente a adesão não foi tão considerável, comparada à presença dos deficientes auditivos. Nossa maior dificuldade aqui no Brasil com sessões de audiodescrição foi chegar nesse público específico. Em Portugal fomos muito ajudados por diversas associações de acessibilidade. Nossa parte nós fizemos, ou tentamos fazer. Esse é mais um reflexo da má gestão brasileira, da falta de interesse político e baixo engajamento dos poderes públicos. Algumas pessoas responsáveis pelas principais associações brasileiras – que em tese deveriam usar “Tribos” como um case de acessibilidade, ou no mínimo uma grande oportunidade – nem assistiram à peça em São Paulo em quase um ano de temporada.

LV: Em 2013, em um dos debates que participei, perguntei a vocês se levariam a montagem para outras cidades, especificamente, Bauru. Na ocasião, o Antônio Fagundes respondeu que não haveria possibilidade, pois as dificuldades de deslocamento e custeios da montagem impediriam uma turnê. Felizmente o prognóstico de Fagundes não se cumpriu! Quais fatores favoreceram a turnê nacional e internacional da peça?

Tribos: Nenhum fator favorece! Hahaha! Somos malucos mesmo. Os custos quadriplicam em uma turnê, estamos viajando semanalmente mas contando sempre com um risco altíssimo que põe em cheque a vida do projeto. Em Portugal tivemos a parceria de uma grande produtora local que arriscou conosco, dividindo os custos. Deu certo. Mas foi uma loucura.  Aqui no Brasil não é diferente, mas também encontramos alguns parceiros pelo caminho. Agora cabe ao público de Bauru fazer sua parte indo nos prestigiar. Estaremos na cidade somente por um dia e contamos com a presença de todos, estamos fazendo isso por vocês, não por nós. Nossa sede por comunicação é insaciável.

LV: Por fim, temos um projeto de acessibilidade cultural no Brasil?

Tribos: Acredito que estamos a passos lentos, mas caminhando. Senti um movimento maior em relação à acessibilidade nesses últimos tempos, acho que ajudamos fazendo nossa parte. Espero que as companhias se motivem cada vez mais com essa possibilidade, mas para isso também é importante que o público frequente. Senão toda caminhada retrocede.

Serviço:

TEATRO MUNICIPAL DE BAURU
ENDEREÇO: AV. NAÇÕES UNIDAS – QUADRA 8 – N° 9 – VILA ANTARCTICA – BAURU
datas: 20 de fevereiro – sexta-feira
Sessões: 20h e 22h (sessões iniciam pontualmente, proibida entrada após o início)
Duração: 80 minutos

Classificação: 14
Ingressos:
meia: R$ 40,00 (estudantes, idosos e professores)
clientes Porto Seguro

40,00 (clientes + 1 acompanhante: R$ 40,00 cada)
Recorte Jornal da Cidade: R$ 50,00
Inteira: R$ 80,00
Pontos de Venda: (a partir de 09/02)
– My Gloss Acessórios (piso Térreo Bauru Shopping)
– Digol Sports (Boulevard Shopping Nações)
– Roth Store (Av Getúlio Vargas, 5-9)

Conheça a Libras – Língua Brasileira de Sinais

Por Ana Raquel Périco Mangili. Matéria adaptada e cedida pela parceria com a ADAP (Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear). Confira o texto na íntegra em http://adap.org.br/site/index.php/artigos/91-implante-coclear-e-libras-uma-parceria-benefica

libras

De acordo com o Censo IBGE de 2010 e o Portal de Notícias Terra, dos 9,7 milhões (5,1% da população) de brasileiros que possuem algum tipo de deficiência auditiva, 2,5 milhões não compreendem o idioma materno e não fazem uso da Língua Portuguesa. Apesar de não haver dados exatos do número de usuários de Libras, a Língua Brasileira de Sinais, estima-se que grande parte desses 2,5 milhões de brasileiros optou por adotar exclusivamente este idioma. A esse número soma-se os adeptos do bilinguismo, ouvintes ou deficientes auditivos que conhecem o Português escrito e/ou falado e também a Libras. Saiba mais sobre a fascinante língua de sinais brasileira a seguir!

A Língua Brasileira de Sinais é um idioma de modalidade gesto-visual que combina movimentos gestuais e expressões faciais com a finalidade de transmitir uma mensagem. A Libras teve sua origem na Língua de Sinais Francesa, que foi trazida ao Brasil em 1856 pelo conde francês Ernest Huet, e a partir daí foi adotada pelas comunidades surdas brasileiras, que incorporaram expressões locais a essa língua e possibilitaram a ela uma evolução própria, independentemente de sua origem francesa.

Cada país possui sua própria língua de sinais, que independe do idioma nacional para ser estruturada (Brasil e Portugal, por exemplo, possuem línguas de sinais diferentes). Sendo assim, as línguas gesto-visuais são idiomas completos, com morfologia, sintaxe e semântica próprias, e podem ser usadas para expressar qualquer pensamento ou ideia, por mais abstratos que sejam. Assim como as línguas orais, a Libras também possui variações e dialetos regionais, e é por meio dela que a pessoa surda adquire condições para o aprendizado do Português em sua modalidade escrita, garantindo dessa forma a sua inclusão na cultura nacional.

pw-libras-2013Depois de um longo processo de lutas sociais da comunidade surda, a Libras foi oficializada no Brasil por meio da Lei 10.436, em 24 de abril de 2002, garantindo dessa forma alguns direitos básicos para esses cidadãos, como a possibilidade de solicitação de um intérprete em ambientes formais e de aprendizagem, como escolas e universidades, assim como poder contar com professores e fonoaudiólogos capacitados a lidar com as especificidades da comunidade surda, já que, a partir da referida data, a Libras se tornou uma disciplina curricular obrigatória nos cursos de Magistério e Fonoaudiologia do ensino superior brasileiro.

As vantagens de se aprender Libras vão além de conhecer outro idioma e poder se comunicar com a comunidade surda local. Segundo a linguista e pesquisadora Evani Viotti, da Universidade de São Paulo (USP), como as línguas de sinais são quadridimensionais, isto é, suas estruturas frasais são formadas pela profundidade, altura, largura e o tempo dos gestos, o aprendizado delas pode contribuir no desenvolvimento de uma alta habilidade cognitiva aos seus usuários. Porém, não são todos que conseguem se dar bem com esse idioma: quanto mais cedo se iniciar os estudos e maior for a dedicação pessoal, grandes serão as chances de sucesso e fluência nessa língua, e essa regra vale para qualquer idioma conhecido, oral ou gestual.

Onde aprender Libras?

Para os interessados em aprender esse idioma, há, além de vários cursos de Libras disponíveis na Internet, cursos presenciais da Língua Brasileira de Sinais. Em Bauru, são oferecidos pela Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (Funcraf). Para saber mais, acesse o seguinte link: http://www.funcraf.org.br/index_arquivos/Page567.htm. Porém, vale a pena lembrar que o aprendizado da Libras, assim como de qualquer outro idioma, só se torna realmente efetivo com a prática da referida língua no dia-a-dia.

Aline Vendrame Cordeiro, usuária de Libras há mais de dez anos, nos dá o seu depoimento sobre a língua de sinais. “Aprendi Libras com 15 anos, quando ingressei na escola especial para surdos, o saudoso colégio Anne Sullivan, de São Caetano do Sul”, afirma. Possuindo surdez profunda em ambos os ouvidos, Aline foi educada pelo método oralista (a prática do Português falado e escrito) antes de conhecer a Libras. “Eu prefiro conversar em Libras com um grupo. A conversa flui naturalmente, você capta tudo. É difícil ler muitos lábios [referindo-se ao método da leitura labial]. Em Libras não se tem esse problema, é tudo tão natural quanto a fala”, comenta. E, em relação ao panorama da Libras na atualidade, ela afirma que o número de usuários vem crescendo cada vez mais. “Muitos surdos, intérpretes, e até alguns oralizados estão aderindo à causa. Acho que levei uns dois meses para aprender o idioma. Convivência, não tem nada melhor do que isso. É o segredo que os cursos não fazem”, defende Aline.

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