“O SOM DO SILÊNCIO”: UMA EXPERIÊNCIA AUDITIVA, MAS, E A COMUNIDADE SURDA? Por Letícia Santos


Descrição da imagem: Imagem com fundo preto, ao centro um homem musculoso e magro tocando uma bateria. Ele tem cabelo descolorido e barba preta, está sem camisa e tem várias tatuagens em seu peito.

Sensorial, instigante, diferente. Essas foram algumas das muitas características atribuídas pela crítica ao filme “O Som do Silêncio” (Sound of Metal). Por meio de uma impecável edição de efeitos sonoros e visuais que lhe renderam dois Oscars – Melhor Som e Melhor Edição -, o longa conta a história do baterista Ruben (Riz Ahmed) que perde maior parte da audição devido a longos períodos exposto a sons extremamente altos e intensos. O protagonista é um ex-viciado que encontrou na música a sua salvação e está prestes a iniciar uma turnê com a banda de punk/metal formada por ele e sua namorada Lou (Olivia Cooke). Tudo isso torna ainda mais difícil para o músico se adaptar à sua nova realidade.

A edição permite que ouvintes tenham a mesma experiência do personagem principal. Você vai ouvir sons abafados, a vibração do alumínio, o som metálico do implante coclear e até o mais absoluto silêncio. Isso nos permite até sentir o desespero do protagonista que se depara com novos obstáculos para se comunicar. Mas, como foi a experiência de espectadores surdos?

Olívia, 30, que é professora de Libras (Língua de Sinais Brasileira), acredita que houve uma falha na legenda. “Não recomendaria o filme por causa da parte que não tem legenda e tanto ouvinte como surdo não entenderiam”, explica. Mesmo assim, ela considera que a produção foi empática pela cultura surda. “O filme mostra as diferentes identidades surdas existentes. A partir do momento que Ruben conhece a escola para surdos, ele percebe que existe uma comunidade capaz de se desenvolver de forma natural, utilizando sua própria língua.”

Para Patrícia Valíni, 29, dona de casa, e seu esposo Mateus Valíni, 29, auxiliar de produção, a falta de legendas para a Língua de Sinais Americana incomodou muito. “A Língua de Sinais é diferente em cada idioma, mas quando os surdos conversavam não aparecia legenda. Nós não entendemos nada”, comentam. Embora tenha esse problema, o casal gostou bastante da trama. Patrícia perdeu a audição quando tinha 2 anos por conta da meningite, ela acredita que a reação do protagonista foi representativa. “Ele ainda não tem a identidade de surdo. Quando você está acostumado a escutar sons e barulhos, demora um pouco para se acostumar com o silêncio”, afirma. Ela também considera um ponto positivo o ator ser ouvinte. “Acho importante os ouvintes entenderem como é ser surdo.”

Naiara Moura, 29, compartilha da mesma opinião. Para ela, as mídias precisam mostrar aos ouvintes a experiência da pessoa surda para que haja mais empatia e a escolha de ator ouvinte mostra que ele precisou fazer esse exercício para incorporar o personagem. “As pessoas têm a impressão de que ser surdo é fácil, mas não é. Por isso acho que a escolha foi boa, pois ele precisou sentir na pele como é ser surdo.”

E você, leitor? Já assistiu ao filme “O Som do Silêncio”? Conta pra gente como foi a sua experiência. Entender os desafios da comunicação irá nos ajudar ainda mais a criar soluções para mídias mais acessíveis.

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