Assim Vivemos: Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência

Por Isabeli Bovério dos Santos

Descrição oficial da imagem de capa do evento: Imagem de divulgação horizontal com fundo cor de vinho. À esquerda em letras amarelas e brancas: 10 a 14 de abril. Assim Vivemos Online – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência www.assimvivemos.com.br . À direita, foto de uma mulher negra em uma cadeira de rodas com um sorriso largo. Ela é completamente calva e usa óculos. Está com o braço esquerdo ao longo do corpo e o direito apoiado no braço da cadeira. Usa vestido amarelo com estampa de flores cor de laranja e azuis e bijuterias douradas. Abaixo da foto, escrito em branco: Mona Rikumbi é atriz, dançarina, enfermeira e ativista. Na parte de baixo do convite: Produção: Cinema Falado. Apoio: Centro Cultural Banco do Brasil e Anaísa Raquel Produções. Patrocínio: Secretaria de Cultura e Economia Criativa , Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Pátria Amada Brasil – Governo Federal. (fonte Página do Facebook do Festival Assim Vivemos online)

Realizado desde 2003, o Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência é o mais importante festival de cinema sobre o tema. A edição de 2021 ocorreu entre os dias 10 e 13 de abril e foi totalmente desenvolvida pensando na acessibilidade digital e audiovisual. Além de ocorrer de forma online, devido à pandemia, os filmes foram audiodescritos e legendados com LSE (legendas para surdos e ensurdecidos), e os debates contaram com intérpretes de libras, além de estarem disponíveis no site e no canal do Youtube do festival (https://assimvivemos.com.br/2021/online/#_arte).

Lara Pozzobon, curadora e fundadora do festival, mediou os debates através de perguntas e apontamentos sobre as temáticas e contextos apresentados nas sessões. Ao início de cada debate, os participantes são convidados a se audiodescreverem. 

O Debate 1, realizado no dia dez de abril, recebeu Moira Braga e Lucio Piantino que teceram reflexões sobre os filmes exibidos no dia, sendo eles: “A largura e o comprimento do céu” (França, 1998), “Quem é o último?” (Belarus, 2018); e “O que tem debaixo do seu chapéu?” (Espanha, 2006). A temática dessa sessão foi ‘Arte e Diversidade’. 

Moira, como bailarina contemporânea e consultora de audiodescrição, pôde trazer aos ouvintes sua perspectiva profissional e humana em relação aos cenários abordados nos filmes. Lucio, em contrapartida, como artista plástico e como pessoa com síndrome de Down, comentou sobre a realidade dos artistas com deficiência, além do papel transformador da arte e como ela se relaciona positivamente às expressões de vida em sociedade.

No segundo dia de festival, a temática central foi ‘Vida amorosa e autonomia’, com exibição dos filmes “Ver e crer” (Rússia, 2007), “Beleza desconhecida” (Irã, 2014), “Mona” (Brasil, 2018), “Quando brilha um raio de luz” (Irã, 2010), “Dentro de mim” (Tailândia, 2015), e “O que pode um corpo?” (Brasil, 2020). Os convidados para o Debate 2, foram Mona Rikumbi, atriz, dançarina, enfermeira e ativista, personagem documentada em “Mona”, e Victor Di Marco, ator, diretor, roteirista e idealizador do projeto “O que pode um corpo?”.

Os artistas compartilharam suas impressões sobre a experiência e vivência com autonomia na sociedade e na arte, suas problemáticas, enfrentamentos e conquistas em suas diferentes perspectivas pessoais e profissionais.

No dia 12 de abril, terceiro dia de festival, o tema proposto foi ‘Escola e vida independente’ com exibição dos filmes: “Estrangeiros” (Brasil, 2013), “Uma menina em 10×10” (Myanmar, 2013), “Independente” (Israel, 2015), e “De corpo e alma” (Moçambique, 2010).

Participaram do Debate 3, Lucília Machado – Mestra em Diversidade e Inclusão, jornalista, diretora da “Acessar, Comunicação, Diversidade e Inclusão“ e titular do Podcast “Acessando Lucília” – e Rosangela Bernan Bieler – jornalista, conselheira global em Infância e Deficiência da UNICEF. Foram refletidos assuntos relevantes à diversidade humana e a vida independente apresentados nos filmes, bem como a pobreza sistêmica, o olhar da sociedade sobre a pessoa com deficiência e suas influências na discriminação escolar e educacional, além do papel da LIBRAS na educação e inclusão. As debatedoras trouxeram pontos de vista observados nas suas realidades e no cotidiano escolar/acadêmico dos brasileiros.

‘Autismo e neurodiversidade’ foi o tema do último dia de festival que contou com a exibição dos filmes: “Somos todos Daniel” (Canadá, 2009), “Stimados Autistas” (Brasil, 2020), e “Soluções promissoras” (França, 2012). Cristiano de Oliveiro – diretor do filme “Stimados Autistas” e pós-graduado em audiologia clínica – e Laís Silveira Costa – cofundadora do AcolheDown e Doutora em saúde pública – conduziram o Debate 4. Eles proporcionam uma discussão rica sobre temas como espaço no mercado de trabalho, o papel da família na inclusão, as pressuposições existentes sobre as pessoas com deficiência e o rebaixamento de suas capacidades, além da importância da desconstrução do pensamento social e a representatividade visual e social que a programação do festival trouxe.

O evento abordou temáticas interessantes e fundamentais sobre a vida e realidade social das pessoas com deficiência, abrangendo todos seus aspectos – pessoais e profissionais. Os convidados foram importantes para a discussão dos contextos e tramas apresentados nas sessões fílmicas e puderam aproximar o ouvinte à perspectiva brasileira. Assim Vivemos é indicado a todas as pessoas envolvidas com o ativismo dos direitos das pessoas com deficiência, sejam pesquisadores, familiares, estudantes ou profissionais. O festival reflete um caráter humano, inclusivo, único e representativo de todas as temáticas propostas nos quatro dias do evento.

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AUDIODESCRIÇÃO NA ESCOLA: ABRINDO CAMINHOS PARA LEITURA DE MUNDO

Descrição da imagem: imagem da capa do livro nas cores azul e branca. Na parte superior da imagem há o nome da autora Lívia Maria Villela de Mello Motta em letras brancas. Abaixo o título do livro na cor verde e o subtítulo na cor amarela AUDIODESCRIÇÃO NA ESCOLA: abrindo caminhos para leitura de mundo. Na parte central da capa do livro há uma gravura de uma sala de aula, assinada por Ricardo Ferraz. Na frente sala, aparece uma professora em pé, vestida de saia e blusa de manga curta, no lado esquerdo de seu rosto há um balão com os dizeres: O homem de chapéu preto, bigode e barba branca. A mão esquerda da professora indica uma tela com a pintura de um homem com chapéu preto, barba e bigode brancos. Ele está apenas com o olho esquerdo aberto, atrás dele há um papagaio colorido, ao fundo aparecem montanhas e parte da imagem do sol. À frente da professora há várias carteiras com crianças sentadas com livros abertos em cima da carteira. Um aluno está sentado em uma cadeira de rodas e outro garoto usa óculos escuros. Na janela à direita há a imagem de uma parte do globo terrestre. Na parte inferior da capa do livro aparece escrito PONTES, nome da editora.

O livro Audiodescrição na escola: abrindo caminhos para leitura de mundo, publicado em 2016, é da autoria de Lívia Maria Villela de Mello Motta, Doutora em Linguística Aplicada pela PUC de São Paulo. Além de promover a audiodescrição em diversos eventos, Lívia Motta também é pioneira em AD no Brasil e é formadora de dezenas audiodescritores.

Audiodescrição na Escola é dividida em nove capítulos, cada qual denominado de modo a sintetizar o que será abordado: primeiro capítulo (prefácio por Marta Gil) – A audiodescrição: uma maneira de vi-ver o mundo; segundo capítulo – A audiodescrição na escola: abrindo caminhos para leitura de mundo; terceiro capítulo – Audiodescrição de imagens estáticas em livros didáticos; quarto capítulo – Aprendendo a descrever fotografias, charges, cartuns, tirinhas e histórias em quadrinhos; quinto capítulo – Exibição de filmes em sala de aula e a participação de alunos com deficiência visual; sexto capítulo – Contação de histórias com audiodescrição; sétimo capítulo – O uso do quadro e de arquivos power point – verbalizar é preciso; oitavo capítulo – Audiodescrição em atividades extracurriculares como teatro, passeios, feiras e exposições; nono capítulo – Um poema para concluir audiodescrição na escola para todos.

O prefácio resume e expressa a opinião de Marta Gil sobre a obra de Motta e sobre a necessidade da utilização da audiodescrição nas escolas. Já os demais capítulos trazem diversas questões a serem consideradas para que haja mais atividades e recursos audiodescritos durante o processo de ensino-aprendizado, tornando, assim, a escola um ambiente inclusivo que promova a acessibilidade. 

Dentre estas questões abordadas ao longo da obra, podem ser destacadas: a definição do conceito de audiodescrição; as ideias de atividades de conscientização sobre a deficiência visual; a importância da visualização com o auxílio da audiodescrição das imagens presentes nos livros didáticos; as orientações para audiodescrição de vários tipos de imagens, de características fisionômicas, de personagens; as orientações para elaboração de roteiros de audiodescrição de filmes; as sugestões de atividades que trazem audiodescrição e que podem ser beneficiadas pelo conhecimento desse recurso (como a contação de histórias, no sexto capítulo); os tipos de livros existentes que trazem uma maior acessibilidade de conteúdo para aqueles que tem baixa ou nenhuma visão (audiolivros, livros daisy, livros em braile e ampliados); a reflexão acerca da necessidade de estratégias, como a verbalização e a audiodescrição; o incentivo a passeios escolares com mais recursos acessíveis, bem como a promoção de outras atividades extracurriculares (como a produção de uma peça de teatro pelos alunos).

Pode-se observar que Motta trouxe um livro que apresenta uma excelente organização da disposição de capítulos, bem como a divisão dentro de cada um, apresentando ao final de cada capítulo, com exceção do primeiro e do último, todas as referências que utilizou. Essa organização junto à linguagem de fácil compreensão e à toda exemplificação, proporciona uma leitura ao mesmo tempo reflexiva, dinâmica e motivante.

Além disso, o livro em si é a prova de que é possível trazer um material acessível de qualidade, visto que o título e o nome da editora estão também em braile na capa, tanto a capa quanto as imagens e as charges possuem descrições, e o livro ainda conta com um audiobook (livro falado) no formato de Cd.

Sabendo que Audiodescrição na escola é um livro que procura levar o conhecimento sobre audiodescrição para o âmbito escolar e universitário, gerando mais acessibilidade e inclusão, e levando em consideração a riqueza dos detalhes apresentados ao longo escrita de Motta, este livro é ideal para todos os profissionais envolvidos com o planejamento acadêmico, em especial os professores, que buscam levar a todos os estudantes um ensino de qualidade. Sua leitura também é recomendada aos profissionais do meio audiovisual, tradutores, bem como àqueles que possuam interesse em temáticas voltadas à acessibilidade ou que queiram conhecer mais sobre o assunto.

MOTTA, Lívia Maria Villela de Mello. Audiodescrição na escola: abrindo caminhos para leitura de mundo. 1. Ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2016.