PAPO COM LEGENDA Episódio 06 – Memórias do MATAV


Episódio especial: MATAV com Vinícius Laureto, Luís Miguel e Sofia Vasconcelos

Transcrição: Ana Laura Dias, Daniela Souza, Letícia Santos, Luiza Hidalgo

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao sexto e último episódio da primeira temporada do nosso podcast “Papo com Legenda”. Eu sou Lucinéa Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e encaracolados, meus olhos são castanhos também e uso óculos. Estou sentada em uma cadeira em frente à mesa de meu escritório,e estou gravando em meu notebook.

ANIELE:

E eu sou a Aniele, sou uma mulher de 27 anos de cabelos cacheados na altura do ombro, da cor castanha e olhos também castanhos. Eu meço 1,65 de altura, eu estou no meu quarto, sentada na frente do meu notebook.

LUCINEA:

Durante toda a nossa temporada, recebemos especialistas em recursos acessíveis para mídias audiovisuais e usuários que também atuam no meio profissional. Hoje, vamos conhecer um pouco mais sobre o grupo de pesquisa do qual o Papo com Legenda faz parte. 

Neste episódio especial, receberemos ex-membros do MATAV. Contaremos um pouco da história de como começamos, das perspectivas de cada um dentro do projeto e como o MATAV agregou dentro e fora da graduação de cada um.

ANIELE:

É com muita alegria que trazemos esse episódio! E com certeza os entrevistados terão muita coisa para falar. 

Eu por exemplo, estou adorando minha experiência no MATAV, que foi meu primeiro grupo de pesquisa e eu procurei muito por isso na minha graduação. E eu tenho certeza de que eu achei o grupo certo para mim. Além de todas as oficinas e palestras que o grupo me proporcionou, que me ajudaram a entender as questões de acessibilidade e melhorou o meu olhar empático sobre a causa, eu tive a oportunidade de me portar como designer, a profissão que eu almejo e ser vista como tal.

Gente, que experiência louca que foi tudo isso.

Mas antes de começar o papo com nossas convidadas e convidados, vamos para o nosso último “Legenda aí pra mim”

Criado em 2013, o grupo de pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual, MATAV, surgiu com o intuito de agregar estudantes e pesquisadores da área de comunicação que possuem interesse em acessibilidade no audiovisual.

Os recursos de acessibilidade que os membros do MATAV estudam são audiodescrição, legendagem para surdos e ensurdecidos e outros recursos como dublagem e voice-over. Sempre focando na inserção da pessoa com deficiência visual e auditiva ao meio audiovisual. 

O projeto conta com 8 anos de história e nesse período muita coisa bacana foi realizada e parcerias muito boas foram estabelecidas.

Um exemplo disso é a websérie “#E_vc?voltada para o público juvenil, abordando os processos que todos passamos durante nosso desenvolvimento. A série foi elaborada pela 8KA produções e tem como protagonista Flora Paulita, dubladora de diversas séries da NETFLIX.

Outro projeto de destaque foi o fotodocumentário “A ditadura militar na perspectiva dos deficientes visuais”, produto autoral do MATAV, lançado em 2014, ano em que vários eventos foram realizados no Brasil para debater os 50 anos da Ditadura Militar em nosso país.

O MATAV também implementou o recurso de legendagem descritiva nas colações de grau dos cursos da FAAC, na UNESP de Bauru, durante os anos de 2017 e 2018.

Além desses projetos, o MATAV também realizou diversas oficinas e recebeu em Bauru muitos profissionais brasileiros em acessibilidade que colaboraram com a formação de nossos alunos e alunas. 

Por fim, são muitas as atividades que o MATAV tem produzido ao longo dos anos, contribuindo nesta longa jornada que é a acessibilidade.

LUCINEA:

É isso, aí, Aniele. Foi uma história muito bonita do MATAV, um grupo de pesquisa que eu iniciei em 2013 com alguns alunos do Curso de Radialismo (hoje RTVI), e na época contamos com a participação de alunos de Jornalismo, de alunos de Tradução da USC de Bauru. Foi muito bacana esta contaminação pela acessibilidade. Hoje nós temos ex-alunos que moram até fora do Brasil, mas que deixaram lembranças muito boas para gente até pensar nessa reunião de ex-membros do MATAV.

ANIELE: 

É isso aí, Lucinea! No próximo bloco, contaremos com os ex-membros do MATAV num bate-papo sobre a experiência deles no projeto!

Vamos para um breve intervalo e voltamos já!

WALESSON:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINÉA: Olá, pessoal! Sejam bem-vindos! Agradeço de coração por vocês terem aceitado participar desse episódio especial do Papo com Legenda, que é o último da primeira temporada. Essa é mais uma maluquice que eu inventei e outros malucos e malucas toparam, e nem dá para saber como a gente começou, mas sabemos que deu certo e estamos terminando super bem.

Eu pedi para que vocês participassem representando várias fases do MATAV e da história dele, que começou em 2013.

O Vinícius é dessa geração e acho que a pessoa que mais ficou ativamente no MATAV, de 2013 a 2017. Então, o Vinícius tem essa história marcante de vários projetos!

Também chamei a Sofia, porque ela representa um trio que eu amo demais, que era o Guri, a Sofia e a Giovana. Eles eram bolsistas na época e a Sofia participou de várias ações.

E o Luís, que é da terceira geração, se assim a gente pode chamar, e representa o curso de Design. É uma história bem bacana. Depois ele vai contar um pouquinho de como ele está atuando hoje.

Acho que nós temos que agradecer muito essa inserção do Design, porque desde que alunos do Design entraram para o MATAV, eu percebi que a gente não consegue mais viver sem esse tipo de profissionais. Eles fazem toda a diferença.

Então, antes de mais nada, eu vou me audiodescrever, porque a gente sempre faz isso no início dos episódios. Depois, eu vou pedir para que vocês três se audiodescrevam, e aí eu começo com o Vinícius.

Eu sou uma mulher branca, sou baixa, tenho 51 anos e os cabelos curtos e castanhos. Também tenho olhos castanhos, uso óculos e estou sentada em frente ao meu computador, no meu escritório. No fundo, há duas estantes um pouco bagunçadas, e estou vestindo uma camiseta preta. Passo para o Vinícius se audiodescrever.

VINÍCIUS: Olá, pessoal, tudo bem? Eu sou o Vinícius, sou homem, minha pele é branca, meus cabelos são curtos e pretos e eu uso óculos. Eu acho que se você olhar para o meu rosto, o que mais vai chamar atenção é o nariz, que é um pouquinho maior. Eu tenho uma barbichinha bem rala e falo que tenho uma barba rala, mas mais falo do que tenho. Eu estou com uma camiseta azul meio verde, entre os tons, e no fundo, tem uma lousa e um móvel azul com uma televisão em cima. 

LUCINÉA: Sofia, você pode se audiodescrever?

SOFIA: Posso sim. Eu sou uma mulher branca e tenho cabelo castanho ondulado, na altura dos ombros. Eu uso óculos redondo e estou vestindo uma camiseta cinza. Atrás de mim tem uma parede branca, alguns quadrinhos redondos com bordado e a cabeceira da minha cama.

LUCINÉA: Agora o Luís.

 LUÍS: Oi, gente! Eu sou um homem de pele bege clara, tenho cabelos cacheados bem volumosos e pretos, olhos pretos, lábios espessos e rosto fino. Eu estou usando uma camiseta de cor rosa.

LUCINÉA: Perfeito! Então, agora vamos começar o papo com algumas legendas, com o Vinícius. Como eu já adiantei um pouquinho e já dei um spoiler, o Vinícius teve essa história de participar ativamente do início do MATAV, lá em 2013, e muitos alunos de Radialismo, como era chamado o curso de Rádio, TV e Internet na época, acharam legal quando eu falei de audiodescrição e legendas para surdos e vieram me procurar.

E eu acho que o Vinícius vai contar algumas histórias, e é interessante ressaltar que a turma dele foi a que teve mais greve. Acho que isso, embora atrapalhasse academicamente a vida de muita gente, permitiu que você fizesse parte de tantos projetos. E, talvez, um paralelo que a gente tenha hoje a isso seja a pandemia, que embora tenha estragado a vida acadêmica regular de todos os alunos da UNESP, foi a época que mais tivemos alunos dentro do MATAV. Então, você pode fazer esse paralelo, porque eu acho que isso não passa batido pela sua turma.

Eu não lembro se foram duas ou três greves que vocês tiveram, mas vocês falavam que eram a turma que as greves nunca terminavam. E, só para citar, o Vinícius participou do “#E_VC?”, que é uma web série que está disponível em nossas plataformas; do “Armadilha”, uma outra web série muito engraçada que ele ajudou na acessibilidade; projeto “OBEDUC”, no qual teve uma bolsa CAPES, do nosso DVD acessível que foi “Incluindo Samuel” e do “Parole”, o seu aplicativo. E aí eu passo a bola para você, que a ideia é você falar um pouquinho da sua história com o MATAV.

VINÍCIUS: Claro, obrigado, professora. Vocês vão me ouvir chamar a Lucinéa de professora, porque eu sou acostumado a chamá-la de professora desde o primeiro dia. Obrigado também aos membros do MATAV pelo convite, é muito legal ver o projeto continuando desde 2013.

Daqui a pouco dá para falar que tem 10 anos, eu estou ficando velho. Mas é muito legal ver que tem dado certo, tanto pela pesquisa do MATAV, essa questão de acessibilidade, quanto por ser um projeto na universidade pública que está funcionando nesse momento, que é muito complicado. Então, ver um projeto desses existindo há tanto tempo, sendo relevante e uma fonte de conhecimento e de informação, além de estar se modernizando, como levando para um podcast, é muito legal.  Fiquei muito feliz mesmo pelo convite.

Eu comecei lá no MATAV em 2013, e eu lembro que quando a professora apresentou a proposta do MATAV para a gente, acho que foi na segunda ou terceira semana de aula, minha turma era totalmente de bichos. E, em Rádio, Tv e Internet, a gente andava com umas plaquinhas com o seu apelido que tínhamos recebido, eu inclusive tinha até perdido a minha, e a professora estava já estava comentando sobre a ideia do MATAV. Ela falou que a reunião seria naquela tarde, para quem quisesse, e nós nos reunimos no observatório de direitos humanos da UNESP, e eu quis participar e conhecer mais. Eu já tinha visto na televisão uma vez um filme com audiodescrição, fuçando na televisão, vendo aquelas configurações de áudio, mas não sabia direito o que era.

E aquele foi o momento de ligar as coisas, então eu fui conhecer o MATAV e entrei lá em 2013 e saí em 2017, por causa do que a professora comentou, sobre as greves. A minha turma pegou três greves: uma em 2013, que começou em junho e deve ter acabado em agosto ou setembro de 2013; uma em 2014 que começou mais ou menos no mesmo momento, mas acabou lá para outubro e depois uma em 2016, que durou mais ou menos o mesmo período, e nisso eu nunca tive um semestre normal na faculdade. Eu entrei em 2013, e lembro que a greve começou faltando mais ou menos um mês para o final das aulas, e esse um mês foi refletir lá em novembro, e assim foi indo. Em 2015 nós fizemos três semestres no mesmo ano, foi uma loucura, e as aulas acabaram em março e a colação aconteceu em maio de 2017. Então, nesse período inteiro eu estava ali, em volta do MATAV, e foi um momento muito legal isso.

Tentando ver um lado positivo dessa pausa, a greve possibilitou que a gente trabalhasse em muitas coisas, porque agora a gente tinha tempo para usar. Eu não me lembro se foi no primeiro ou no segundo semestre, mas a gente fez a sala “Sense and Sensibility” também

LUCINÉA: Foi no primeiro, e foi linda! Conta dessa sala!

VINÍCIUS: Foi muito legal! A gente pegou uma sala mesmo, durante a Jornada Multidisciplinar, na UNESP, e fizemos um caminho dentro da sala em que as pessoas passavam por vários recursos de acessibilidade, e elas também tinham algumas sensações, como coisas relacionadas ao olfato e à textura, e algumas partes eram relacionadas à audiodescrição.

LUCINÉA: Foi a apresentação da web série, que a Flora Paulita veio.

VINÍCIUS: Exatamente! Foi quando já tínhamos terminado os episódios do “#E_VC?”, e a Flora veio para acompanhar. A gente tinha vários notebooks, era uma gambiarra tremenda para ligar quatro, cinco, fones, um do ladinho do outro. O que é algo que a gente jamais faria agora, em uma pandemia; uma pessoa encostada no ouvido da outra para assistir o vídeo. Mas, até então, nós tínhamos tido a experiência de fazer audiodescrição, e quem consumia eram pessoas videntes. Então, era muito complicado, porque o pessoal falava que conseguia entender, mas entender vendo é diferente. E ali foi o momento em que a gente levou o pessoal do Lar Santa Luzia.

LUCINÉA: Isso, a escola Santa Luzia! Foram uns 20 membros!

VINÍCIUS: Foi bastante mesmo, todos assistiram e foi muito legal! Eu lembro que um dos episódios tinha uma piada que era extremamente visual, não me lembro a piada, mas era no primeiro episódio, e embora o timing da piada fosse um pouquinho diferente, porque para o público que enxergava a piada vinha um pouquinho antes, para o público que era cego a audiodescrição descrevia a piada, e todo mundo ria! Todo mundo riu uns três segundinhos depois, porque esperaram a audiodescrição falar, mas todo mundo riu. Foi demais! Foi muito legal a sensação de ver aquilo funcionando.

LUCINÉA: Foi um feedback instantâneo do usuário, foi a risada!

VINÍCIUS: Foi! E eu não estava esperando isso, pois acho que de tanto assistir o vídeo a gente não sentia mais graça na piada. Mas foi um feedback instantâneo. Foi muito legal e divertido. Depois a gente continuou com os projetos, fizemos o “#E_VC?”, para o qual fizemos todas as legendas e a audiodescrição, e que foi para o Youtube. Na época, a gente pesquisava jeitos de poder subir isso e pensava qual seria a melhor forma: “Ah! A gente vai colocar um áudio separado a mais? E como a gente faz quando tem que descrever muitos personagens?”. Era muito no começo, a gente estava aprendendo mesmo. A gente pensava: “Nossa, mas a gente pode passar uma cartela antes explicando quem são as personagens. A gente sempre tentava achar mais jeitos de colocar mais informação no áudio. Então era bem interessante.

Depois, a gente fez o “Armadilha”. O “Armadilha” foi muito engraçado, porque tinha episódios icônicos, daqueles que você olha no original e tem um milhão de visualizações na internet. A gente falava: “Gente, como é que vai ser a descrição disso?” Era muito engraçada a criação dos roteiros.

LUCINÉA: E a gente ainda precisa subir o “Armadilha” para o Youtube. Eu preciso localizar onde está tudo. O “Armadilha” tem a questão do erotismo, não é? Ele tinha um episódio em que a gente ria muito e pensava em como fazer a descrição, já que não podia ter pudor na audiodescrição. Muito legal isso, não é Vinícius?

VINÍCIUS: Sim! Eu lembro que era muito engraçado gravar o “Armadilha”, porque tinha palavras que a gente nunca pensava em ouvir em uma audiodescrição. As vezes de cunho mais sexual ou alguma coisa assim. E nisso a gente tentava gravar a audiodescrição da forma mais neutra o possível e ficava todo mundo no estúdio rindo da outra pessoa que estava gravando. Eu acho que era a Ana quem estava gravando as falas na época e eu estava me segurando para não rir e atrapalhar ela.

LUCINÉA: A saudosa Ana Beatriz, que está em algum lugar da Europa. Ela fez muita coisa com você.

VINÍCIUS: Sim, a Ana fez. Agora ela está na Irlanda. Inclusive, nós fizemos juntos dois DVDs acessíveis.

LUCINÉA: Sim, dois! “Inclusive Elas”, que é um projeto muito lindo. E o “Incluindo Samuel”, que é um projeto americano, para o qual recebemos verba para fazer a acessibilidade e o DVD acessível.

VINÍCIUS: Sim! O “Incluindo Samuel”, tem ainda uma história que é engraçada. Ele fez parte de um dos meus projetos da bolsa de Iniciação Científica com a bolsa da CAPES na OBEDUC, já no último ano, em 2016, e eu queira muito publicar o material feito. A gente tinha feito um DVD, na época em que DVD e Blue-ray era algo muito relevante, e inclusive até uma pauta que a gente queria trazer acessibilidade até para alguns meios digitais de streaming, que é uma coisa um pouco enrolada às vezes. Mas a gente queria mostrar e é um DVD super acessível, pois você andava pelo material e tinha no menu uma voz: “Iniciar filme; configurações”. Ele vinha já habilitado com tudo de acessibilidade e depois você ia desabilitando. Então, ele era um material que tentava facilitar ao máximo a inclusão.

Então, eu queria escrever e achei um Simpósio na UEL. Eu falei: “É ali”. Mas era aquela coisa: “Olha, as inscrições fecham em uma semana”. E eu falei: “Meu Deus, tenho que escrever em uma semana esse texto”. Lá tinha a modalidade painel. Assim, na modalidade de texto era preciso enviar trinta e tantas páginas, na modalidade painel eram dez páginas e tinha o cartaz. Então, eu falei: “Ah! Sem dúvidas o painel”. Peguei e mandei minha inscrição e o meu texto. Então, veio a devolutiva da universidade, de quem estava organizando: “Olha, a gente gostou muito do seu texto! Não tem como você inscrever ele na modalidade de texto mesmo, ao invés do painel?”. Dois dias para acabar o prazo. Falei: “Poxa, tem sim, mas eu preciso de mais umas semanas para eu conseguir escrever”. Aí eles perguntaram quantas semanas eu precisaria e eu pedi umas duas: “Ah, me deem mais umas duas semanas e eu acho que consigo”. Eu ainda enrolei mais um mês, mas falei: “Não, tudo bem, eu consigo, eu envio”. Eu ainda lembro que era algo como espaçamento um, fonte onze e aí eu falei: “Meu Deus, nada me ajuda a gerar volume nesse texto!”.

LUCINÉA: Põe uma imagem!

VINÍCIUS: É, a gente usava umas figuras, não tinha mais quem citar! Mas eu acabei mandando. Chegou no dia – eram dois dias de evento e eu sabia que minha apresentação era no segundo dia – e eu estava pronto para chegar para mais um evento de universidade no qual você apresenta em uma sala e conversa com o público que está ali naquela sala.

Eu cheguei e não encontrei meu nome nem na sala um, nem na sala dois e nem na três. Falei: “Gente, esqueceram de mim ou alguma coisa assim”. Sentei-me no auditório, abri o notebook e comecei a vasculhar on-line para saber: “Ah, as vezes está errado, não imprimiram alguma coisa”. Acabei encontrando meu nome no auditório, minha palestra iria ser as quatro horas e trinta da tarde e já eram onze hoje horas da manhã em Londrina. Então, eu falei: “E agora? Eles me colocaram no auditório, como vou apresentar isso?” E era um Simpósio sobre Educação Inclusiva e todos iam falar de Libras. Esse foi um momento interessante, pois ele aconteceu em 2015 e nesse ano se falava muito em Libras quando se falava de inclusão. Porém, não havia menção no Simpósio à audiodescrição e legenda, então, eu falei: “É aqui que eu vou atacar!” E eu falei isso já abrindo o Power point, falando assim: “Ah, agora eu tenho que fazer uma palestra para as quatro horas e trinta da tarde e eu não sei o que vou falar”. Eu só sei que eu tinha meia hora de grade, mais ou menos, e eu devo ter falado uns dez minutos.

Acho que eles anteciparam pela primeira vez o coffee break ou alguma coisa assim. Mas eu consegui e eu levei isso. Foi muito legal de ver o pessoal, professores e professoras da rede pública, conhecendo a audiodescrição e conversando comigo no coffee break falando que tinham alunos que eram cegos ou surdos e que não legendavam os vídeos para eles, mas que escreviam mais ou menos no caderno deles o que o vídeo queria dizer, ou alguma coisa assim: “Ah, o vídeo que eu passo é todo legendado em português, porque é um vídeo internacional, mas a minha aluna é cega e ela não fala inglês”. Então, eu falei: “Mas tem a dublagem para isso”.

E aí, o pessoal percebeu o quão inacessível eram alguns recursos de audiovisual que eles levavam para a educação. Então, isso foi legal. Assim, foi desesperador para mim o fato de ter que fazer uma palestra em dez minutos. E eu devo ter falhado muito nisso, porque eu falei dez minutos em uma grade de meia hora. Mas foi muito legal o feedback do pessoal em perceber e falar: “Nossa, e estou levando vários materiais que não são acessíveis”.

LUCINÉA: Eu sabia da história do Congresso, porque acho que depois entrou para mim como publicação, mas eu não sabia dessa tensão e de participar de um evento que não é da área do audiovisual, mas sim da área de educação. Isso é importante, pois você vê quantas não conheciam na época os dois recursos.

LUCINÉA: Agora, Sofia! Que ingressou em 2018, se eu não estou enganada, e teve um outro percurso. Ainda era o curso de Radialismo, ainda não era o curso de Rádio TV e internet. E aí a gente teve um projeto de extensão aprovado e, também, algumas bolsas naquele ano, então, essa foi a possibilidade de a Sofia, o Walesson, que é o Guri, e a Geovana fazerem parte. Mas a Sofia tem também umas histórias que você poderia contar um pouquinho para a gente sobre, como, por exemplo, o projeto que você fez sobre legendagem que você apresentou em um Congresso de Iniciação Científica. Sobre a Colação Acessível, você participou em não sei se mais de uma edição, não é Sofia?

SOFIA: Eu acho que a que participei foi a última.

LUCINÉA: Certo. E é uma experiência muito bacana, mas, infelizmente, a gente deixou de ter isso. E então, conte-nos das suas experiências no MATAV.

SOFIA: Eu entrei no MATAV em 2018, como a professora falou. Inclusive, eu estava trabalhando com o “Flutua”, que vocês revisaram agora. Nas reuniões, a gente debatia bastante sobre a audiodescrição, principalmente sendo um videoclipe. A professora sempre falava que isso era algo novo para nós, então eram muitas discussões que abriram meus olhos para muitas coisas.

Como bolsista, eu trabalhava bastante com a legendagem. Inicialmente, eu precisei ler bastante sobre o assunto, o que me ensinou coisas que eu nem se quer sabia que existiam e que são extremamente necessárias. Você percebe que existem regras e técnicas para tudo dar certo, porque senão vira uma bagunça. Por isso, testávamos de tudo, como o ritmo e o que seria escrito, porque a legenda não é uma transcrição integral do áudio. Enfim, precisávamos encaixar muitos elementos e acho que isso era um grande desafio.

Legendamos uma parte da entrevista do Dr. Drauzio Varella feita pelo Caco Barcelos e eu lembro que a Geovana e eu fazíamos a legendagem da forma mais utilizada no Brasil e o Walesson fazia no padrão europeu para ver a recepção das legendas, já que ambas usam recursos diferentes para identificar as pessoas e efeitos sonoros. Nós queríamos entender qual era o mais bem recebido e talvez iniciar uma conversa para provocar mudanças, caso fosse outro que não o mais comum no país. Então fizemos isso toda semana, sempre com a orientação da professora, e depois que terminamos de legendar a minutagem que precisávamos para o trabalho, fizemos um forms e recebemos mais de oitenta respostas, muito além do que esperávamos. Ficamos muito animados e felizes! Foi muito interessante ter esse retorno, porque todos que participaram da legendagem são ouvintes, então não tínhamos como nos certificar da qualidade das legendas. Muitas coisas que não percebemos ou pensamos chegou até nós e, por isso, é importante esse teste de recepção para todos os recursos de acessibilidade.

Lemos todas as respostas, anotamos as informações importantes e comparamos para saber qual legenda foi mais bem recebida, que nesse caso foi a que utilizou o padrão brasileiro. Começamos a prestar atenção na fonte da letra, por exemplo, a qual usamos a que já estava configurada no software. Trocamos as cores, mas não pensamos em contraste, aumentar a borda, colocar algo atrás e, por isso, foi muito apontada nesse feedback. Então, foi importante para percebermos muitos detalhes.

Acho que apresentamos o trabalho na Semana do Tradutor da Unesp de Rio Preto. Foi isso?

LUCINÉA: Sim, vocês foram para Rio Preto antes de ir para o CIC. Verdade. Conta do Ibilce, porque agora temos um monte de alunos de lá aqui no MATAV.

SOFIA: Que legal! Nós viajamos para Rio Preto e apresentamos o trabalho com um cartaz. As pessoas paravam e ouviam as nossas explicações sobre todo o processo e vimos bastante interesse delas sobre isso. Foi uma experiência diferente para mim, pois eu nunca tinha apresentado um trabalho acadêmico. Achei legal não guardar o trabalho só para nós, apenas testar e não fazer nada além. Estávamos levando o debate para uma faculdade de Tradução e a legendagem e a audiodescrição são partes dessa área. É importante que se tenha acesso a isso, ainda mais num espaço onde se forma tradutores. Além disso, foi muito divertido, uma experiência nova, pois conhecemos outro campus da Unesp.

LUCINÉA: E então veio a colação de grau. Parece ficcional falar disso, não é? Conta como foi. Só quem participou dessas colações, assim como o Vinícius, consegue descrever. Para nós era emocionante!

SOFIA: A colação de grau foi outra grande experiência que eu tive com o MATAV, porque era feita em parceria com a Web TV, que fazia a transmissão ao vivo e, como eu também fazia parte da TV, consegui ter as duas experiências da melhor forma. Minha função foi transmitir as legendas na hora, além de participar na produção delas com o Walesson e a Geovana. Fazíamos a legendagem ao vivo e, embora os textos fossem enviados com antecedência, era preciso ter muito jogo de cintura, muito feeling. Era uma grande emoção por ser ao vivo. Tínhamos pouco tempo de preparação, então era uma correria para separar quem legenda e você tem que estar lá na hora.

Quando se é gravado em vídeo, você tem o tempo, o software, no qual podemos revisar tudo. Na hora é diferente, recebemos os discursos previamente e separamos em legendas conforme os números de caracteres por linha e outras regras também importantes, mas precisa ser passado ao vivo, pois o evento está acontecendo e é inevitável que haja improvisações, já que as pessoas se deixam levar pelas emoções e acrescentam mais coisas. Então, deixávamos as legendas prontas em slides e outros sem para esses casos. Tínhamos que prestar muita atenção e agir com calma. Quando alguém dava uma pausa, já era possível saber se iria seguir o texto ou não. Eram grandes emoções e foi muito divertido. Acho que foi a minha primeira transmissão ao vivo e uma grande experiência.

Fico triste em saber que não tenham mais esses recursos, porque são muito importantes não só para quem está se formando que precisa de legenda, mas também um familiar, um amigo que quer assistir à colação e tem todo o direito de presenciar esse momento, assim como qualquer outra pessoa. Então é triste que não tenha mais isso.

LUCINÉA: Obrigada, Sofia! Você comentou algo muito importante a respeito da inclusão. Além da pessoa presente no evento, quem estava recebendo isso pela transmissão da FAAC TV poderia precisar das legendas também. Já havia a interpretação em LIBRAS, mas a gente sabe que não é toda pessoa com deficiência auditiva que a entende, então sempre queríamos e defendíamos os dois recursos.

É legal a Sofia lembrar também que, na época, ela já participou do roteiro de audiodescrição do “Flutua” e a partir daí eu já faço um gancho com o Luís, porque ele também participou desse projeto, e agora já estamos na terceira geração que fez uma revisão da audiodescrição e das legendas. Eu passo então a palavra para você, Luís, falar um pouco da sua experiência. Eu acho que você entrou no MATAV em 2018, não é? Foi uma época boa. Eu nem lembro como você ficou sabendo da gente. Foi pelo Facebook? Conta para o pessoal.

LUÍS: Exatamente, Lucinéa. No semestre anterior, eu tinha feito uma disciplina sobre design inclusivo com uma amiga, que me recomendou o grupo. Em 2018, ela viu uma publicação no Facebook do MATAV e ela compartilhou comigo, me disse que poderia ser algo do meu interesse, o que realmente aconteceu. Eu mandei uma mensagem pela rede social para vocês, perguntando se eu poderia participar, a qual a Lucinéa me respondeu. Na época havia muitos estudantes de Rádio/TV e Jornalismo, enquanto eu era a única pessoa do Design até então.

Era um assunto diferente, porque eu comecei a conhecer os recursos de audiodescrição e de legendagem para surdos e ensurdecidos no MATAV. Não eram pautas que a gente abordava no curso de Design propriamente. Então foi muito interessante, aprendi muito.

O projeto de audiodescrição do clipe “Flutua”, que foi uma das primeiras coisas que fizemos juntos, foi uma experiência muito engrandecedora. Aprendemos muito sobre vocabulário e estratégias, por entender o que as pessoas pensam e como podemos audiodescrever uma imagem, seja ela estática ou em movimento. Foi um processo muito interessante! E começamos com um videoclipe, que é um produto audiovisual desafiador também, porque a música toca a maior parte do tempo. Sempre ficamos no dilema sobre inserir a descrição enquanto o áudio tocava. Eu lembro também que discutimos bastante sobre respeitar os pronomes das pessoas, pesquisar para se referir a elas corretamente, porque também tinha a ver com a abordagem que o próprio clipe trazia e a sua narrativa, além da LIBRAS que aparecia no vídeo por tratar sobre pessoas surdas. É um clipe muito rico tanto na história que ele desenvolve, como nas diferentes abordagens que precisamos ter para torná-lo acessível. Então foi muito legal fazer esse roteiro na época.

Depois apresentamos na Jornada Multidisciplinar um artigo sobre como foi esse processo do “Flutua” e, enquanto isso, eu participava fazendo algumas artes para o MATAV, como templates para slides. Foi muito gostoso aproveitar a identidade visual do MATAV.

LUCINÉA: Santo Luís! As artes ficavam lindas!

LUÍS: Eu adorava fazer, pois era uma forma de explorar essa identidade do MATAV, como esse grupo se expressava. Lembro-me muito bem das oficinas, dos eventos externos da UNESP. E esse foi o período do “Flutua”.

Depois, foi o projeto “Te Vejo na Escola”, do qual também participei vários anos, voltado para fazer animações para as escolas públicas de Bauru, tendo as crianças como público prioritário. São animações de caráter educativo que visam explicar assuntos como meio-ambiente, família, e assim por diante.

Então, pensamos em trazer o “Te Vejo na Escola” em parceria com o MATAV e desenvolver a audiodescrição de uma animação. Isso foi um processo muito legal, mesmo por ser uma animação que nós mesmos fizemos e depois produzimos o roteiro de audiodescrição. Foi uma experiência muito dinâmica, pois conseguimos aproveitar o próprio roteiro da animação. E descobrimos que quando fazemos um roteiro de animação muito bem descrito para que o pessoal da arte possa trabalhar no storyboard e na animação em si, este pode ser usado para a audiodescrição.

Com esse projeto, fizemos a audiodescrição desse episódio que foi o “Família”, sempre pensando na relação entre AD e design, ou seja, como esse recurso pode se apropriar do vocabulário do design e seus elementos como o logotipo ou créditos.

E, mais recentemente, foi o TCC da minha graduação, em que desenvolvi um projeto autoral e queria que tivesse todos os recursos de acessibilidade: a legenda, a audiodescrição e com foco na Libras.

Eu consegui apresentar todas diferentes versões do trailer com esses recursos, que se tratava de um documentário que retratava a Libras no interior de São Paulo, em cidades próximas a Bauru.

Portanto, finalizei meu curta-metragem autoral chamado “Movimento”, baseado no projeto Códigos. Então, comecei a rodá-los em festivais. E fiquei muito feliz em saber que este ano, ele foi selecionado para o Festival Assim que vivemos, que sempre foi referência para o MATAV, pois foi pioneiro e trazer recursos de acessibilidade para o Brasil. Então, estar presente neste festival foi muito gratificante.

E por último, graças à experiência que tive com audiodescrição nesses anos, também realizei a AD desse curta-metragem, e foi selecionado para o Festival Ver Ouvindo de filmes do Recife. E foi selecionado, justamente, pela audiodescrição que realizei em parceria com o Juliano Severo, o meu consultor.

De forma geral, foi essa minha trajetória no MATAV, onde aprendi sobre diferentes recursos e, ao mesmo tempo, dialogando com o pessoal do Design sobre a AD, a legendagem e Libras. E comentava sempre como o MATAV é importante por incentivar o estudo sobre essas formas de tradução dentro da Universidade Pública, sendo essencial para a expansão dessa área. O primeiro passo é que as pessoas conheçam esses recursos e sua importância.

LUCINÉA: Você participou do MATAV mais de um ano e agora está voando com suas produções. Parabéns!

Para finalizar, gostaria que falassem da diferença que faz em nossas vidas, como cidadão, como pessoa. Particularmente, também me tornei uma pessoa mais empática quando comecei a estudar a audiodescrição, legenda, um pouco de Libras. E, acredito que quando nos colocamos no lugar da pessoa com deficiência auditiva, nos tornamos um pouco melhores, pois pensamos nos nossos pais, avós, pessoas idosas, ou seja, não apenas aqueles que nasceram com deficiência auditiva, mas que necessitam desses recursos ao longo da vida.

VINICIUS: Eu concordo. É um exercício de empatia. O fato de conhecer, alterna a sua realidade. É preciso entrar em um outro universo e perceber que nem todos ouvem, nem todos percebem as cores juntas.

Atualmente, não trabalho mais com audiovisual, mas a acessibilidade continua próxima a mim. Sou Desenvolvedor e quando realizo meu trabalho, procuro deixá-lo acessível, como, por exemplo, deixo um campo de descrição de imagem, e a maioria das páginas da internet não possuem esse recurso, mesmo com as formas de punição existentes.

É importante pensar na acessibilidade desde o início do desenvolvimento de algo, como o roteiro de um filme ou um site, mesmo com as várias regras do mercado.

Então, foi isso que o MATAV mudou em minha vida: exercitar a empatia, imaginando que muitos podem ter dificuldades para acessar os conteúdos.

SOFIA: Para mim, também foi essa questão da empatia, levando a entender que as coisas devem ser pensadas para todos, ou seja, com acessibilidade. E não utilizar esses recursos somente quando se deparar com uma pessoa que precisa da acessibilidade. Ou seja, precisamos pensar em meios acessíveis desde o início.

Isso não deveria fazer parte apenas do projeto de extensão, mas sim estar presente em todos os cursos e em todas as universidades, pois falta acessibilidade no mundo todo. E nós temos essa porta no MATAV para que se possa usar em todas as áreas, abrindo esses espaços. Não apenas para a área do audiovisual, mas para todas, entendendo todo o processo, o esforço para utilizar esses recursos.

Portanto, o MATAV me ajudou muito a entender e a reconhecer a necessidade destes recursos de acessibilidade.

LUÍS: Concordo com o Vinícius e a Sofia. É, de fato, uma questão de cidadania conhecer essas modalidades de Tradução Audiovisual, que podem ser aplicadas a diferentes modalidades de culturas e é um direito das pessoas com deficiência. E uma forma de incluir essas pessoas é removendo barreiras, como a comunicacional e a informacional.

Também aprendi a me comunicar de forma muito mais precisa, desenvolvendo a capacidade de linguagem, além de fazer criações utilizando esses recursos para diferentes públicos.

Além disso, eu me tornei um consumidor de audiodescrição e legenda. E é importante que este recurso esteja sempre presente, como uma alternativa.

Ressalto a importância de continuarmos pesquisando sobre esses recursos e torná-los cada vez mais conhecidos, de tal forma que não seja preciso conscientizar as pessoas da sua importância, sendo algo natural para todos.

LUCINÉA: Que bom ouvir isso de todos vocês! Esse é nosso último episódio e tenho certeza de que todos tem aprendido muito. E agradeço a oportunidade de ter vocês em minha história. Muito obrigada!

ANIELE:

Bom, esse foi o nosso episódio final da primeira temporada do Papo com Legenda. Muito obrigado a todos que nos acompanharam ao longo dessa temporada.

Se você ainda não ouviu os episódios anteriores ou se quer retomar os temas abordados nessa temporada, pode conferir acessando o link da bio no nosso Instagram: @papocomlegenda ou digitar “Papo com Legenda” na sua plataforma de podcasts preferida.

LUCINEA:

Esse foi o nosso último episódio. Muito obrigada a você que nos acompanhou durante os 6 episódios da primeira temporada do nosso Papo com Legenda! 

Continue ligado nos projetos do MATAV e até logo!

ANIELE:

Se você ainda não conhece a página do MATAV no Instagram, não deixe de nos seguir em: @matav_unesp.

NARRADOR:

O “Papo com Legenda” é um podcast original do MATAV, o grupo de pesquisa Mídia Acessível e Tradução  Audiovisual. Para ficar por dentro dos nossos lançamentos e demais novidades, acompanhem o nosso Instagram @papocomlegenda

Papo com Legenda. Ep. 05. Web Acessível, Entrevista com Suzeli Damaceno (Movimento Web para todos)


Transcrição:
Ana Laura Dias, Daniela Souza, Letícia Santos

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao quinto episódio do nosso podcast “papo com legenda”.

Eu sou a Lucinéa Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e encaracolados, meus olhos são castanhos também e uso óculos. Estou sentada em uma cadeira em frente à mesa de meu escritório,e estou gravando em meu notebook.

ANIELE:

E eu sou a Aniele, sou uma mulher de 27 anos de cabelos cacheados na altura do ombro, da cor castanha e olhos também castanhos. Eu meço 1,65 de altura, eu estou no meu quarto, gravando na cama em meu celular.

LUCINEA:

No episódio anterior, recebemos o Rafael Braz, que é psicólogo e consultor em audiodescrição, e que nos ajudou a colocar mais legenda no nosso papo semanal, contando um pouco sob a sua perspectiva de profissional e usuário dos recursos de acessibilidade.

ANIELE:

Isso mesmo, Lucinéa! O episódio anterior foi muito legal, porque pudemos entender mais sobre a recepção dos recursos acessíveis por parte dos usuários, inclusive, a importância de uma produção ter envolvidas pessoas que são usuárias desses recursos.

No episódio de hoje, daremos mais um passo na incrível jornada em busca da acessibilidade nas mídias. O tema desse episódio é acessibilidade na web.

LUCINEA:

Quando falamos de mídias acessíveis, falamos não apenas dos recursos para as mídias audiovisuais, que é uma especialidade do MATAV.

Por isso, para trazer mais diversidade ao nosso podcast, contaremos com a Suzeli Damaceno, jornalista, especialista e consultora em comunicação acessível e acessibilidade digital e coordenadora do Movimento Web para Todos.

A Suzeli também ajuda pessoas e empresas a eliminarem barreiras de acessibilidade em ambientes digitais e ruídos de comunicação que bloqueiam a circulação do conhecimento.

ANIELE:

A Suzeli será a nossa entrevistada no próximo bloco, mas antes disso, vamos entender um pouco mais sobre acessibilidade na web no nosso quadro Legenda aí pra mim!

ANIELE:

A acessibilidade aos conteúdos digitais é um direito de todas as pessoas com deficiência, mas na prática percebemos que a grande parte dos sites não possui acessibilidade, criando assim mais uma barreira para pessoas que não enxergam e  também para aquelas com deficiência que impedem sua navegação pela web. Atividades como comprar um ingresso online, acessar aplicativos de relacionamentos ou aplicativos de banco podem se tornar um pesadelo para quem não enxerga ou tem baixa visão.

Situações como essas já não deveriam mais acontecer devido ao W3C, que é um conjunto de diretrizes que devem ser seguidas para tornar a web acessível. Ele foi criado em 1998 e recebeu atualizações nos anos de 2008 e 2017.

No documento, há recomendações sobre o uso de contraste de cores entre o texto e o fundo de uma página web ou ainda sobre o zoom sem perda de conteúdo, utilizado por pessoas com baixa visão. Outra recomendação é a presença de descrição de imagens.

Então, para fazer valer o conjunto de recomendações do W3C, em 2017 foi criado o Movimento Web para Todos, com a proposta de mobilizar e educar pessoas para, aos poucos, transformar o ambiente virtual em um espaço acessível.

LUCINEA:

É muito importante ver o quanto o Movimento Web para Todos tem feito a diferença e colocado em prática o que muitos desenvolvedores de sites e aplicativos até pouco tempo ignoravam.

Nós do MATAV sempre buscamos contribuir com a busca pela acessibilidade em todas as mídias possíveis e por isso, reforçamos a importância da nossa parceria com o Movimento Web para Todos, que existe desde o início do projeto, lá em 2017, apoiando suas ações e compartilhando seus princípios.

ANIELE:

É isso aí, Lucinea! No próximo bloco, conheceremos um pouco mais a fundo sobre a atuação da nossa convidada no Movimento Web para Todos e sua visão sobre a acessibilidade como um todo.

LUCINEA:

Então não saia daí! Vamos para um breve intervalo e voltamos já com a Suzeli Damaceno.

Walesson:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINEA:

Estamos de volta para o nosso segundo bloco e agora conversaremos com a Suzeli.

Olá, Suzeli. Antes de mais nada, eu vou pedir que você se audiodescreva para os nossos ouvintes e, em seguida, a gente começa o nosso bate papo.

SUZELI: Oi, Lucinéa, oi, pessoal. Tudo bem? Eu sou uma mulher de pele branca, de cabelos loiros acima dos ombros e um pouco ondulado. Uso óculos de armação verde, tenho os olhos castanhos escuros e meu sinal em Libras é meu dedo indicador apontado para uma pintinha que eu tenho na bochecha e uma giradinha na mão. Tenho 46 anos. Acho que dá uma noção da idade.

LUCINÉA: Sim, da nossa geração.

SUZELI: É, eu ia falar meia idade, mas eu acho tão estranho. O que seria a meia idade? Não acho acessível.

LUCINÉA: Está ótimo, obrigada.

A gente já apresentou um pouco a história do movimento “Web para Todos” e seu protagonismo nele, inclusive nos conhecemos em 2017 no início do projeto. Mas eu queria que você falasse um pouquinho para quem está ouvindo da importância dele nesses quatro anos, tendo a missão de disseminar as regras de acessibilidade na web, e o que você tem para nos contar de mais marcante desses anos todos dentre as ações implementadas pelo movimento.

SUZELI: A “Web para Todos” realmente tem essa missão de promover a cultura de acessibilidade digital pelo país e o que a gente mais fez, e vai continuar fazendo, é popularizar esse tema, tirar da “bolha” que envolve apenas pessoas da área técnica, como programação, desenvolvimento de sites, aplicativos e plataformas, e expandir para o máximo de pessoas possível. Isso é realmente o que temos mais feito desde que começamos há quatro anos.

A ação mais marcante é que introduzimos esse assunto em grandes eventos e feiras, por exemplo, de marketing digital que, teoricamente, deveria sempre ter considerado isso na pauta, mas não tinha. A gente também conseguiu que o tema fosse considerado em grandes fóruns e eventos de Recursos Humanos. Um exemplo foi o que aconteceu essa semana, fizemos uma série de eventos e painéis e envolvemos pessoas da área jurídica das empresas, compliance, comunicação, marketing, contabilidade. Então, a gente realmente está levando esse conhecimento de uma forma muito simples para todo mundo, porque, no fim das contas, todos trabalham de alguma forma ou criam algo no digital.

Outra ação que tem marcado bastante nesse período é a grande parceria que a gente tem com o Google, por exemplo, que realmente nos ajuda a impulsionar ainda mais esse tema e fazer com que ele ganhe uma escala muito maior. O Google é um super parceiro nosso que participa e cria com a gente workshops para profissionais das mais diversas áreas, está com a gente em eventos, palestras, produzindo conteúdo e guias de acessibilidade digital.

Outro ponto muito marcante foi o trabalho que a gente realizou com o Youtube, também nessa linha de sair da bolha, no qual a plataforma convidou os vinte principais criadores de conteúdo, como “Porta dos Fundos” e “Manual do Mundo”, para fazer um workshop sobre criação de conteúdos acessíveis para o Youtube. Isso já foi um marco. É claro que esses canais ainda estão fazendo as adaptações, pois a acessibilidade é uma jornada, mas isso também mostra um interesse. Essas sementinhas que o “Web para Todos” vai plantando ao longo dos anos.

Um fato que também foi super legal é uma parceira que temos com a equipe do Facebook, que engloba também o Instagram. A gente já deu várias palestras para pequenas e grandes empresas que fazem negócios nessas redes sociais para também mostrar possibilidades de como fazer e mostrar essas plataformas de uma forma muito mais acessível e que realmente inclua muito mais gente. Então eu destacaria esses pontos.

LUCINÉA: Aproveitando que você mencionou o evento desta semana que está sendo super importante, eu mesma não estou conseguindo acompanhar, seria interessante você nos falar, adiantar um pouquinho o serviço. Onde que a gente consegue assistir a isso ou quem já assistiu durante a semana e queira rever com mais calma? Eu, por exemplo, gostaria de apresentar para o meu grupo MATAV em uma reunião. A gente encontra esse conteúdo no canal do Youtube do “Web para Todos”?

SUZELI: Isso. Foram realizadas várias palestras, painéis e algumas reuniões ao longo dessa semana. As palestras e os painéis foram transmitidos via Youtube, então a gravação continua no canal do movimento “Web para Todos”. Lá tem uma playlist chamada “Descomplicando a acessibilidade digital para marcas inclusivas”, então a gente reúne nela o conteúdo que foi passado nesse evento.

As reuniões aconteceram sem gravação, então essas realmente só quem participou em tempo real teve acesso ao conteúdo. Mas a gente também vai produzir um guia que vai compilar todas as informações e principais dicas que foram passadas tanto nas reuniões como nas palestras e painéis. Ele está começando a ser produzido agora e quem tiver interesse pode se cadastrar na página do evento www.mwpt.com.br/descomplica. É só deixar o nome e e-mail que quando estiver pronto, vamos enviar gratuitamente para quem se inscreveu.

LUCINÉA: Perfeito. Continuando nosso bate papo, você com certeza tem esta informação para compartilhar conosco e com quem vai nos ouvir a respeito de identificar as principais barreiras que os usuários com deficiência enfrentam ao acessar a web. Eu acho que você tem isso muito claro, ao contrário da gente, então é bom para termos esse conhecimento, até para passar para pessoas que produzem conteúdo e não pensam nas pessoas com deficiência.

SUZELI: Olha, são várias as barreiras, inúmeras. Eu vou citar alguns exemplos que são bem comuns e até são relativamente bem simples de serem resolvidos, pelo menos para termos uma ideia. Um deles são sites que tem problemas nos links. Sabe aqueles textos cheios de referências e que se usa links para que o usuário clique para ter mais informação em alguma página externa ou dentro do próprio site? A gente observa que tem muitos problemas ali, como o que chamamos de link quebrado, ou seja, que ao se clicar nele não direciona para página nenhuma; e de uma falta de descrição no texto onde o link está embutido ou não é suficiente para ser compreendido fora daquele contexto, por exemplo, a pessoa que está usando o leitor de telas muitas vezes vai querer navegar pelos links, então, se ele estiver só no termo “leia mais”, a pessoa vai navegar por links e só vai aparecer esse termo e ela não vai saber do que se trata. Esse é um problema tão simples que poderia ter colocado, por exemplo, “leia sobre a reportagem tal”, “aprenda mais sobre a promoção que está acontecendo”.

LUCINÉA: É uma questão simples de redação e de consciência de quem está redigindo o conteúdo, não da técnica em si de criar o link, não é?

SUZELI: Exatamente!

LUCINÉA: Não precisa nem entender de um comando. Qualquer pessoa que vai redigir aquele conteúdo, sabendo disso, pode facilitar.

SUZELI: Sim, selecionar o trecho do texto que passa a informação e colocar nele o link e não apenas em uma palavra. Pensar sempre que se a pessoa só ler a frase ou uma parte dela, vai saber para onde será levada.

Outro problema também bem comum, que envolve mais a equipe de programação, é quando o site não está preparado para a navegação por teclado. De novo, pessoas que fazem a leitura com leitor de telas e com deficiência motora, em sua maioria, usam apenas o teclado como forma de navegação: pela tecla Tab e também pelas setas, Enter, etc. Se a programação desse site, os códigos, não estão “conversando” com essa tecnologia assistiva, seja pelo teclado ou pelo leitor de telas, a pessoa simplesmente não consegue circular pela página.

Outra barreira também muito comum são formulários que não funcionam, ou porque os campos não são lidos e editáveis para quem está fazendo a navegação por leitor de telas, não está rotulando ou não tem escrito direitinho as instruções para o preenchimento em cada campo: onde colocar nome, e-mail. Também, quando a pessoa preenche errado alguma parte e aparece a mensagem que deve corrigir o que está em vermelho, pode ser um problema para quem tem algum tipo de daltonismo e tenha dificuldade de enxergar uma cor específica. Então, são detalhes importantes, especialmente formulários que apresentam problemas em uma quantidade muito alta de sites.

LUCINÉA: Então, por exemplo, se é o “forms”? A gente usa muito do pacote Office, pois é o que temos acesso pela universidade. Ele não é acessível se eu não pensar em dar comandos claros. Você tem alguma orientação sobre esse especificamente?

SUZELI: Geralmente, tanto o Google Forms quanto outros formulários da Microsoft, que é uma empresa que investe e aposta muito em acessibilidade, os próprios arquivos e programas como Word, Excel, PowerPoint, tem verificador de acessibilidade que auxilia ao fazer um documento e mostra em tempo real se está seguindo o mínimo de regras para torná-lo acessível.

A base da Microsoft e a do Google é a acessibilidade, mas se o texto, a foto ou vídeo que você editar, não for pensado de forma acessível, se a informação não propuser a acessibilidade, de nada adianta ter esse recurso. Pode até usar o formulário, mas se colocar o link para a pessoa com leitor de tela acessá-lo em um site, ela pode não conseguir identificar que é um formulário.

LUCINÉA: Complexo, mas é bom ouvirmos para entender como o outro não está tendo o mesmo acesso como todo cidadão.

SUZELI: E existem vários outros, como não ter contraste suficiente entre a letra e o fundo, entre as cores de uma imagem e sites que não permitem o aumento de tela (Control +), ficando difícil de ser lido. Isso também é um problema grave em não estar seguindo as diretrizes da acessibilidade.

Os banners pop up,com aquele X minúsculo para fechar, tratam-se de uma barreira muito complicada para quem faz a navegação com o leitor de tela, quem tem alguma deficiência cognitiva ou motora, que não tem o movimento “fino” do mouse para chegar naquele X, ou não consegue fechar naquele pop up com o comando do teclado, acaba inviabilizando toda a navegação neste site.

Outra barreira que é fácil de ser resolvida é a descrição de imagem. Fizemos uma pesquisa recentemente e, mais de 70% dos sites ativos do Brasil não descrevem imagens. E isso é muito simples de ser resolvido, pois quando se posta a imagem, já há um campo de descrição. Se não houver, então a função da equipe de programação é incluir esse recurso. Porém, sem a descrição das imagens, não é possível, por exemplo, que a pessoa com cegueira reconheça produtos em uma loja virtual para que possa escolher.

LUCINÉA: Temos uma grande ação de vendas anual, agora comum no Brasil, que é a Black Friday. Deve ser frustrante para o comprador que tenha alguma deficiência e queira comprar por meio das plataformas, pois o site não apresenta a descrição. Não é possível navegar.

SUZELI: Ou de conseguir fazer isso com muito esforço, e não conseguir finalizar a compra.

E, geralmente, esses sites colocam essas promoções nesses banners, que raramente são lidos pelo leitor de tela, ou seja, quem faz a navegação desse tipo nem vai saber que aquele produto está na promoção.

LUCINÉA: No Brasil, temos a diferença entre uma empresa privada e uma pública. A pública tem uma qualidade de atendimento, mas não de investimento na tecnologia. Então, no geral, empresas privadas e públicas possuem uma verba, anual ou trienal, para implantar a acessibilidade em seus sites? E, pensando de forma otimista, você poderia dar um exemplo de site brasileiro que seja bastante acessível?

SUZELI: Importante lembrar que, desde 2016, temos a Lei Brasileira de Inclusão. Nela, há o artigo 63 que determina que organizações com representações no Brasil são obrigadas a fornecerem sites e aplicativos com acessibilidade para a navegação de pessoas com deficiência. Ou seja, existe essa obrigação legal, mas que não é cumprida por 99% de sites ativos no nosso país.

Observamos que há muita coisa a ser melhorada, mas se dividimos por categorias, o governamental é o que está caminhando com um pouco mais de preocupação com a questão da acessibilidade. São os que possuem mais sites acessíveis.

Sabemos que o Ministério Público tem aplicado medidas educativas em algumas empresas, com o intuito de estimular. E vários editais públicos possuem essa determinação de contratarem somente com acessibilidade.

Contudo, ainda é muita coisa para resolver. Essa pesquisa que fizemos, por exemplo, conseguiu varrer quase que os 17 milhões de sites ativos no Brasil, e menos de 1% deles tem acessibilidade. Então, ainda tem muita coisa para acertar!

Sobre a questão da verba, se o site é planejado considerando a acessibilidade, ele não vai custar mais por isso. As regras de acessibilidade são: incluir a foto com a descrição; fazer a programação com códigos acessíveis; pensar numa escrita de texto acessível; produzir vídeos com legendas. Então, isso tudo não tem um custo extra. Mas, se tiver que adequar, terá um custo a mais.

Sempre fazemos uma analogia com a construção de uma casa. Se você constrói uma casa acessível, já fará sem os degraus, um banheiro e portas mais largos para que uma cadeira de rodas possas atravessar. E isso não vai ter um custo extra na obra.

LUCINÉA: No audiovisual, sempre falo para os meus alunos que se pensarmos na acessibilidade na pré-produção, não haverá problemas na pós-produção. Então, para acrescentar uma audiodescrição depois que um documentário ou um musical está pronto, sempre a qualidade vai ficar a desejar, embora seja possível.

SUZELI: Em relação ao exemplo de sites, gostaria de citar o Movimento Web para Todos. A acessibilidade digital é algo vivo e deve ser cuidado a cada postagem, e a cada nova inserção.

Eu corro o risco de citar outro site aqui que até o momento desta entrevista está acessível e, quando estiver nas plataformas para todos, alguém possa checar e encontrar problemas de acessibilidade. E isso acontece muito, especialmente, por causa das pessoas que não têm esse conhecimento e incluem a matéria, a foto, ou um conteúdo novo sem seguir as regras da acessibilidade. Portanto, esse site já não será mais acessível.

Já o site Movimento Web para Todos posso garantir, pois é um cuidado que temos todos os dias com tudo o que publicamos.

LUCINÉA: Teria que ser fluxo contínuo. Tudo o que entra, passa para uma equipe especializada, o que só 1% tem e vocês estão incluídos nele.

SUZELI: E mesmo com esse menos de 1%, fazemos uma análise automática. Verificamos o mínimo para que este site tenha acessibilidade. Se fizermos uma análise manual, ou seja, disponibilizar pessoas para verificar a qualidade do conteúdo, o tamanho da fonte, se está adequando para que a pessoa com alguma deficiência na visão tenha uma boa experiência ou se há algum vídeo no site e está com legenda, Libras, audiodescrição, neste caso, se analisarmos tudo isso, o problema será muito maior e o número de sites acessíveis seria ainda menor.

Para isso acontecer, não requer tanta especialização como as pessoas imaginam, com um Curso Superior. Pelo contrário, existem algumas regras para fazer a descrição, que quando aprendidas, já é possível realizá-la. Então, muitas coisas podem ser resolvidas com o mínimo de conhecimento em acessibilidade.

LUCINÉA: Sobre as mídias sociais, vocês têm o público que busca o Movimento Web para Todos para pedir orientação e como tornar acessível, por exemplo, o Facebook e o Twitter. Ou vocês não atuam nessa área?

SUZELI:  O “Web para Todos” prega a cultura de acessibilidade digital, então a gente está sempre disseminando esse conhecimento e ajudando a construir canais digitais acessíveis. Nós não temos o poder de mudar a programação ou de fazer alterações na plataforma de redes sociais como o Instagram e o Facebook, por exemplo, porque elas não são nossas, mas a gente tem a responsabilidade de tornar acessível o conteúdo publicado. Então, enquanto as redes sociais ainda não tinham o campo de colocar o texto alternativo, a gente colocava o texto na legenda do post mesmo, dando um jeito de fazer aquela informação ser acessível enquanto a plataforma não tinha se mexido para isso. Por exemplo, quando eu vou escolher uma imagem para publicar nas redes sociais, como uma foto ou arte, eu também tenho que ter a consciência de fazer essa arte com um bom contraste, uma combinação de cores que não passe despercebida por pessoas que tenham algum grau de daltonismo e que não tenha um tipo de fonte que seja complexa para ser percebida por pessoas com algum tipo de deficiência visual ou até mesmo com dislexia. Esses cuidados estão na responsabilidade de quem alimenta esses perfis nessas plataformas, então a gente também dá esse tipo de orientação.

É o que eu estava te falando, criar um documento no Word é o mesmo princípio: as diretrizes de acessibilidade existem há mais de 20 anos e foram criadas praticamente juntas ao surgimento da web. Elas são atemporais e vão sendo atualizadas com o tempo, como a diretriz de ter imagens com descrição, que sempre existiu, mas que passou por atualizações quando se foi criado um campo específico para que essa descrição pudesse interagir melhor com a tecnologia assistiva. Mas o princípio de sempre descrever uma imagem e dar aquela informação, não muda

LUCINÉA: Até as pessoas jovens, que usam muito o Instagram para poder divulgar conteúdo, às vezes desconhecem disso, pois é muito rápido essas mudanças nas mídias. Acho que essa inserção de legendas no Instagram foi só no começo desse ano ou no final do ano passado, possibilitando a criação de um caption diferente. Então, essas atualizações que as próprias redes fazem, como a questão da descrição de imagem, às vezes passa despercebido para uma pessoa que não tem essa sensibilidade ou que não quer alcançar esse público.

SUZELI: Com certeza. Ou a pessoa se irrita achando que é um campo a mais para ficar preenchendo à toa

LUCINÉA: Suzeli, agora vamos falar do dissabor da educação que principalmente nós, professores de universidades públicas, sofremos desde o ano passado quando essa questão da pandemia nos obrigou a fazer uma adaptação para o ensino remoto atual. Eu acho que isso tem sido uma temática que a gente até tem falado demais e tem cansado de falar sobre, mas nessa transição a qualidade de ensino não foi pensada como deveria, porque os professores de fato não têm uma abordagem do ensino virtual e nas universidades públicas ainda priorizamos o ensino presencial. E, quando passamos para o ensino a distância, pouco ou nada se pensou nas pessoas com deficiência.

Eu vou relatar uma situação que aconteceu no ano passado: uma aluna da minha universidade que tem deficiência auditiva, e que nem era aluna de algum curso para o qual eu dava aula, mas sabia que eu trabalho com essa questão da acessibilidade, me procurou junto com colegas da turma dela, porque ela não estava conseguindo ouvir as aulas no Google Meet. Ela também tinha acabado de colocar o implante coclear, o que deixava pior ainda, e os professores quiseram ajudá-la, mas de uma forma capacitista. Enfim, foi um pesadelo para a moça. Então, essas questões não foram tratadas, e a gente ficou tão traumatizado de ter que ficar no virtual que aprender a lidar com ele foi uma dificuldade, e acho que pensar na pessoa com deficiência foi anulado nesse meu contexto. E para você, que é especialista nisso, qual seria idealmente um ensino a distância com acessibilidade? Eu já deixei claro que não é a situação que nós queremos na minha universidade, mas existem projetos que nascem como ensino a distância. Então, nesse sentido, esses projetos que você conhece pensam na pessoa com deficiência? Como seria? Qual seria o jeito ideal?

SUZELI: A pandemia realmente bagunçou muita coisa e é compreensível tudo isso que foi passado. Foi muita novidade para todo mundo; era muita tensão com tudo que estava rolando no sistema de saúde como um todo, então é compreensível esse desespero de ir tentando dar um passo e se ajeitar aos poucos, aos trancos e barrancos, para chegar nesse formato minimamente ideal, ainda longe de ser realmente o benefício do presencial. Mas, ao mesmo tempo, se os docentes como um todo já tivessem essa “formação” ou uma consciência sobre acessibilidade, independente de ter ou não na sua turma algum estudante com deficiência, quando a equipe de docentes começou a levar esse conteúdo para o digital, tudo teria sido muito menos traumático e mais inclusivo. Por exemplo, se vocês tivessem que preparar uma apresentação no PowerPoint para apresentar no presencial e já tivessem na cabeça esse conceito da acessibilidade nitidamente, vocês já iam fazer esse PowerPoint com várias regrinhas de acessibilidade, como tamanho da fonte, contraste, quantidade de informação por slide, sem coisas piscantes, etc. E se você quiser passar um vídeo para todo mundo assistir na sala de aula, o pensamento com acessibilidade já vai te incluir a necessidade de colocar pelo menos a legenda.

LUCINÉA: Exatamente, a legenda, ninguém pensa nisso.

SUZELI: Então, se esse pensamento já estivesse arraigado na cabeça de todo mundo, na hora de transferir isso para o digital vocês já não sofreriam com isso. Vai ser o mesmo PowerPoint e vídeo, mas agora para o digital. Ele vai ter a legenda também, e na hora de transmitir, se não tiver a audiodescrição embutida nele, o professor já vai fazer uma audiodescrição antes de passar aquele vídeo. Então, essa parte seria menos sofrida. Se o professor também quiser fazer um documento complementar para passar para os estudantes em um PDF, por exemplo, ele pode fazer a verificação de acessibilidade que o próprio Office oferece para os assinantes. Ele vai então seguir e fazer esse documento sem aumentar o seu trabalho nessa produção, transformando o arquivo em PDF tendo a certeza de que ele também vai ser acessível para alunos que precisam acessar o documento por leitor de tela ou por algum outro canal.

As plataformas foram melhorando ao longo da pandemia, como o Teams e o Google Meet. Durante a pandemia, o Google Meet correu com essa história de incluir a legenda automática, já com uma qualidade excelente. O Teams ainda não tem esse recurso, mas o PowerPoint sim. No modo de apresentação existe a possibilidade de ativar legenda automática, que é excelente também. De novo, com o pensamento da acessibilidade a equipe de docentes vai ter essa consciência de que na hora de fazer aquela apresentação, e para que a legenda seja transmitida em tempo real, quanto mais pausadamente e claro for o jeito que eles falam, usando palavras mais conhecidas e preferencialmente frases mais curtas, a qualidade da legenda também melhora.

Suzeli, nosso tempo está acabando, mas muito obrigada por esse encontro. Mais uma colaboração sua com o MATAV e, agora, com o Papo com Legenda. Eu vou deixar o microfone para você dar algum recado final, conselho ou dica.

SUZELI: Eu que agradeço, em nome da equipe toda do Movimento Web para Todos. A nossa missão é de promover essa cultura de acessibilidade digital. Então, o recado que eu deixo é que vocês busquem mais informações sobre isso. No próprio site do movimento a gente mostra esse conceito de uma forma muito simples. Então, continuem se alimentando dessas informações com frequência. Assim, vão criar dentro do coração de vocês essa cultura da acessibilidade, porque a hora que a gente tem isso introjetado e esse pensamento vem de uma forma natural, a gente não vai mais conseguir fazer esses documentos, essas aulas e posts sem acessibilidade, vai ser algo muito natural. O recado que eu deixaria é esse, para continuar investindo nesse conhecimento, que não só você vai ganhar, mas todo mundo que te acompanha. E, a sociedade vai acabar melhorando como um todo, porque é um passo muito importante para a verdadeira inclusão. Agradeço demais pela oportunidade de vir aqui para falar um pouquinho disso com vocês.

LUCINÉA: Obrigada, Suzeli.

ANIELE:

Bom, estamos chegando ao fim do episódio de hoje e encaminhando para a reta final da primeira temporada do papo com legenda.

Se você ainda não ouviu os episódios anteriores ou se quer retomar os temas abordados nessa temporada, pode conferir acessando o link da bio no nosso Instagram: @papocomlegenda ou digitar “papo com legenda” na sua plataforma de podcasts preferida.

LUCINEA:

É isso aí, Aniele! Esse foi o nosso quinto e penúltimo episódio. E para encerrar a nossa primeira temporada com chave de ouro, vem aí o episódio especial do papo com legenda.

Para saber qual o tema do episódio especial não perca as postagens da nossa página no Instagram!

Acompanhe por lá também tudo o que a Suzeli nos contou hoje e fiquem de olho nas próximas novidades.

ANIELE:

Não deixe de conhecer a página do Instagram do movimento em @movimentowebparatodos e siga a nossa convidada em @suzeli, para ficar por dentro das novidades da acessibilidade nos meios digitais.

E falando no encerramento da primeira temporada, já estou muito ansiosa pra saber o tema da nosso próximo encontro.

LUCINEA:

Obrigada a você que nos acompanhou até aqui e até o próximo episódio! Tchau, tchau!

ANIELE:

Até lá!

WALESSON:

O “papo com legenda” é um podcast original do MATAV, o grupo de Pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual. Para ficar por dentro dos nossos lançamentos e demais novidades, acompanhem o nosso Instagram @papocomlegenda

Papo com Legenda Episódio 04 – Consultoria em Audiodescrição

Transcrição: Ana Laura Dias, Daniela Souza, Letícia Santos, Luiza Hidalgo

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao quarto episódio do nosso podcast “Papo com Legenda”. Eu sou Lucinea Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Estou sentada em frente à mesa de meu escritório, gravando em meu notebook.  

ANIELE:

E eu sou a Aniele, sou uma mulher de 27 anos de 1,65 de altura cabelos cacheados acima dos ombros na cor castanha e olhos também da cor castanha e estou no meu quarto na frente do notebook.

LUCINEA:

No episódio anterior, tivemos um papo super interessante com as nossas convidadas Mônica Moura docente do curso de Design da UNESP de Bauru e Sara Cristina, uma voluntária do projeto “Lembrei de Você” que tem 9 anos de idade e vai ganhar o seu coração.


ANIELE:

Muito bem lembrado, Lucinéa! O episódio 3 foi muito legal e não só a Mônica, mas também a Sara são super carismáticas e nos rendeu um papo muito construtivo e interessante. A Sara realmente ganhou meu coração!

No episódio de hoje, vamos falar sobre a acessibilidade pela perspectiva do usuário.

LUCINEA:

Esse tema é muito importante porque a acessibilidade não deve ser vista como algo “opcional”. Para existir uma autonomia efetiva do usuário, os recursos acessíveis têm que ser encarados como essenciais.

Por isso, o nosso convidado de hoje é o Rafael Braz, uma pessoa com deficiência visual, que faz uso dos recursos de acessibilidade e também presta consultoria para audiodescritores.

ANIELE:

O Rafael será o nosso entrevistado do segundo bloco, mas antes disso vamos a alguns dados que você precisa saber. Legenda aí pra mim!

ANIELE:

Segundo o CENSO de 2010, no Brasil há cerca de 6,5 milhões de pessoas cegas ou com baixa visão e 506 mil pessoas têm cegueira total. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a cegueira afeta 39 milhões de pessoas em todo o mundo e que 246 milhões sofram de perda moderada ou severa da visão. Só na China, 72 milhões de pessoas possuem alguma deficiência visual grave. Outro dado importante: segundo o Instituto Britânico Royal Institute for Blind, todos os dias 250 pessoas começam a perder a visão.

A autonomia para as pessoas com deficiência visual é imprescindível para que possam conviver com igualdade de direitos em nossa sociedade. Alguns recursos comunicacionais e tecnológicos que fazem parte do nosso dia a dia promovem autonomia às pessoas com deficiência visual como: smartphones, tablets e computadores. Todos os sistemas operacionais possuem ferramentas de acessibilidade. Algumas dessas ferramentas são: voice over, modo fala do conteúdo da tela, modo escuro e adaptações na tela, zoom, ajustes de fonte e lupa, assistentes de voz e as funções de reconhecimento de voz e ditado. Existem outros equipamentos como as smart tvs, ou seja, os aparelhos de tv que possuem recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual: guia de voz e a audiodescrição.

Além desses recursos em aparelhos, nós podemos garantir a acessibilidade através das leis. Como por exemplo, a lei brasileira de inclusão da pessoa com deficiência, aprovada em 2015, determina que as salas de cinema devem oferecer, em todas as sessões, recursos de acessibilidade para as pessoas com deficiência. Sabemos que, com a pandemia do corona vírus no início de 2020, essa exigência foi adiada, mas podemos dizer que é um marco histórico na conquista de igualdade das pessoas com deficiência.

LUCINEA:

Apesar de todas essas possibilidades, esses recursos ainda limitam a pessoa com deficiência em seu espaço doméstico. Embora seja necessária a acessibilidade nos lares das pessoas com deficiência visual, a autonomia completa se dá quando as pessoas saem de suas bolhas e convivem externamente com todos os outros cidadãos. Ou seja, todos os contextos externos, sejam públicos ou privados, devem também estar equipados para que as pessoas com deficiência visual circulem sem obstáculos e desfrutem dos conteúdos ali disponíveis.

ANIELE: 

Com certeza, é muito importante que todos tenham acesso a esses recursos, como é previsto legalmente. Infelizmente ainda não vemos os resultados dessas leis aplicados no dia a dia. É preciso de muito avanço nesse aspecto para exigir que elas sejam executadas.  

LUCINEA: 

Então que tal ouvir quem sente na pele a falta desses recursos? No próximo bloco, vamos receber o Rafael Braz, para uma conversa.

ANIELE: 

Vamos para um breve intervalo e voltamos já com a entrevista.

NARRADOR:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINÉA: Rafael, eu agradeço muito a sua participação no nosso episódio do Papo com Legenda. Você pode se audiodescrever e contar um pouco sobre você.

RAFAEL: Obrigado pelo convite, Lucinéa! Meu nome é Rafael Braz, tenho 42 anos, sou branco, tenho cabelos castanhos, cacheados e compridos, um pouco abaixo dos ombros, e os meus olhos são azuis. Estou vestindo um casaco de lã cinza e uma calça jeans escura. Estou sentado na minha poltrona azul, que é onde faço os meus trabalhos, as oficinas de audiodescrição e as lives das quais tenho participado nesse período de pandemia. É, também, onde faço os meus atendimentos clínicos, porque eu sou psicólogo, trabalho com clínica psicanalítica e, atualmente, especialmente com a pandemia, a maior parte dos atendimentos tem sido on-line. Tem alguns atendimentos que eu vou pessoalmente à clínica para fazer, mas no momento é mais em casa.

LUCINÉA: Perfeito! Obrigada, Rafael! Então, vamos começar. Neste episódio do Papo com Legenda, estamos tratando do acesso da pessoa com deficiência visual aos conteúdos audiovisuais acessíveis e, em geral, da autonomia do usuário que tenha deficiência visual a conteúdo que seja de entretenimento, informativo ou jornalístico. É essa nossa temática e nossa preocupação neste episódio.

Mas, antes de abordarmos sobre as suas experiências de acesso ao audiovisual no Brasil, eu queria que você falasse um pouquinho de si mesmo, como pessoa que tem deficiência visual, e nos relatasse as dificuldades que você tem enfrentado, ou já enfrentou, na rotina doméstica. Acho que isso seria algo importante para dizer a quem nos ouve. E, também, falar sobre a sua vida acadêmica, quais eram as dificuldade ou se não as tinha, como era o acesso que tinha dentro do seu ambiente acadêmico, que fica na cidade onde você mora, a capital de Porto Alegre. Então, conte um pouco sobre isso e depois passamos para a questão do audiovisual.

RAFAEL: Eu tenho deficiência visual há cerca de 30 anos. Desde o início da minha adolescência eu tenho baixa visão. Então, até mais ou menos os meus 30 anos, eu tinha um nível de baixa visão em que eu tinha mais autonomia, no sentido de não precisar usar a bengala para me deslocar. E, a partir de então, perto dos meus 30 anos, eu tive catarata, fiz cirurgia e não precisei usar mais óculos para miopia que eu usava desde criança, que era algo adicional, para além da deficiência visual. Isso mudou bastante a minha referência visual, a acuidade diminuiu e eu fui buscar fazer terapia ocupacional, aulas de orientação e mobilidade, e comecei a usar a bengala. Já faz uns 11 anos que eu tenho baixa visão e sou auxiliado pela bengala.

Então, o que acontece? Pensando um pouco nisso que você traz sobre a faculdade, esse é um ponto que, por exemplo, quando estava na minha adolescência, no final dos anos 90, eu terminei o ensino médio, fiz um curso técnico de eletrônica e, na época, não consegui trabalhar na área por falta de acessibilidade. Naquela época eu julgava que era em razão da deficiência visual, mas hoje está claro que era por falta de acessibilidade, ainda que a deficiência visual traga alguma limitação.

No fim, eu fui trabalhar, fiz concurso público, trabalhei em call center de empresa pública aqui no Rio Grande do Sul e busquei esse caminho de vagas reservadas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho, justamente por falta de oportunidade e de acessibilidade ligadas à época. E foi só depois de, aproximadamente, seis ou sete anos concursado que resolvi fazer faculdade.

Fui para a universidade perto dos meus 30 anos cursar psicologia, justamente quando eu já tinha mais possibilidades de acessar através da acessibilidade comunicacional e tecnológica, e de ter um computador com leitor de telas e celular com uma tecnologia assistiva mais apropriada para cursar. E, claro, também ter condições para pagar por isso, porque a acessibilidade é cara. A gente tem internet, tem o acesso um pouco mais democratizado, mas ela é cara. Então, nos últimos 10 anos isso já está melhor, mas até os meus 30 anos já era mais complicado.

Com relação à rotina doméstica, que você perguntou, eu moro sozinho e é bem tranquilo, mas isso também passa pela questão da acessibilidade: fazer compras por aplicativo de celular; chamar um carro por aplicativo para eu poder me deslocar. Tudo isso ajuda a facilitar. Sem esses recursos isso certamente seria bem mais complicado, porque eu precisaria contar muito mais com a acessibilidade atitudinal, ou seja, com as pessoas em geral. Eu conto com esse tipo de acessibilidade, mas a tecnologia assistiva acaba resolvendo muita coisa.

LUCINÉA: Rafael, você tocou em um ponto muito importante: a acessibilidade também toca no socioeconômico. O próprio uso que você teve dentro da Academia, da universidade, precisaria ter esse respaldo financeiro para você ter um computador, os aplicativos. Às vezes a instituição está preparada, mas o cidadão não tem a autonomia financeira para isso.

RAFAEL: Exatamente! Essa questão socioeconômica atravessa muitas das experiências ligadas à universidade. Por exemplo, eu cursei em uma universidade privada na Grande Porto Alegre e eu pagava um transporte privado, uma Van, para me deslocar à universidade. Ou seja, se eu fosse usar o transporte público, eu já não teria a segurança de estar com o celular e com o notebook no trem, no ônibus e em tudo, porque tem risco de assalto e até de segurança, visto que as calçadas são ruins e não tem uma boa infraestrutura, além de ser muito longe. Então, isso quer dizer que o socioeconômico vai longe. Eu estava trabalhando há um tempo e tinha condições de dar conta disso financeiramente: de cursar a universidade e de pagar a universidade, o transporte e a tecnologia assistiva. Mas são poucas as pessoas com deficiência nesse país que tem condições de fazer isso.

LUCINÉA: Exatamente! O democrático perpassa isso. Focando agora na questão do audiovisual acessível, eu gostaria de saber sobre a sua experiência como consumidor a partir do momento que você já não era vidente – o seu consumo na TV, no cinema, nas plataformas de streaming. A gente queria te ouvir nesse sentido. Você sempre foi autônomo para decidir usar o equipamento? Porque acho que vai desde o uso do controle remoto até a escolha de conteúdo de sua preferência, certo? E se nesse acesso você tem frustrações ou são mais satisfações nesse consumo do audiovisual?

RAFAEL: É, eu sempre consumi muito audiovisual, desde a minha infância, quando eu não tinha deficiência visual. Por isso, eu tenho uma construção e referências de um mundo imagético bem importante. Ao longo da minha adolescência, até os meus vinte e poucos anos, quando eu passei a ter baixa visão que ainda me permitia ver bem filmes, séries de TV e ir ao cinema. Se a gente pensar em língua estrangeira, criança vê muito conteúdo dublado, porque não tem a velocidade necessária para ler legendas, já na adolescência isso muda. Quando eu comecei a ter uma leitura mais dinâmica, eu já estava no início da baixa visão, então eu não tive uma experiência com leitura de legenda de forma eficiente e segui consumindo conteúdos dublados. Com o passar do tempo, ao aprender espanhol, pude ampliar para conteúdos em espanhol, além do português, o que é muito bom e agrega bastante na audiodescrição, porque tem bastante produção da Espanha e do México. Também assisto bastante conteúdo em espanhol nas plataformas de streaming.

Pensando em satisfações e frustrações, no que diz respeito à tecnologia, eu tenho muita facilidade com o celular e o computador. No trabalho, preciso dar conta de baixar um arquivo, ou, às vezes, mudar o formato, extrair o áudio. Tudo isso para mim é bem tranquilo, tendo leitores de telas e softwares acessíveis. Quando se trata da televisão, existem aparelhos que têm o leitor de telas, meu irmão, por exemplo, que tem baixa visão tem uma e ele usa super bem. Como eu não vejo muita TV e nem tenho muito tempo para isso, não investi. Eu tinha uma Smart TV que não tinha, então eu abria um vídeo no YouTube e clicava em transmitir e ele localizava a TV que estava no ambiente pelo mesmo Wi-Fi. Mas era tudo pelo iPhone, então o que me deu acesso não foi a televisão e nem o controle remoto, que é uma incógnita, já que não tem um padrão e isso é um problema para quem tem deficiência visual.

Porém, penso que a maior frustração está na falta de conteúdos audiodescritos. Esses dias eu estava assistindo a um filme nacional de comédia com uma amiga que também tem deficiência visual, chamado “A Guerra dos Rocha”, que não tem audiodescrição. Eu já tinha visto esse filme na época em que foi lançado há uns dez anos, quando eu tinha mais visão e por isso lembrava de muita coisa. A gente assistiu no Youtube e algumas cenas eu precisava lembrar e descrever para ela, senão ficava sem entender, não tinha nexo. Em outra ocasião assistimos juntos a um filme nacional sem audiodescrição, o qual eu não tinha visto, e tinha algumas cenas que não tinha o que se fazer. Quem tem baixa visão pode se aproximar um pouco da tela e tentar entender essas partes cruciais, mas e quem tem deficiência visual? Tem muito pouco conteúdo audiodescrito e isso é muito frustrante.

LUCINÉA: Você, na verdade, audiodescreveu a partir da sua memória aquele filme. O que é errado, porque você poderia não ter isso.

RAFAEL: Exatamente! A grande maioria dos filmes eu vejo pela primeira vez e sem audiodescrição. No meu trabalho como audiodescritor, quando me perguntam a respeito do consumo de produtos audiovisuais, eu sempre digo que se a gente for esperar para consumir só com audiodescrição, vamos ter poucas experiências e referências. Então eu assisto aos filmes mesmo sem audiodescrição, porque isso acaba enriquecendo a experiência, inclusive, de trabalhar para traduzir.

LUCINÉA: Hoje você é consultor e eu fiquei sabendo que já está locutando. Como foi a sua primeira experiência como usuário e depois sua formação como consultor, as etapas e as funções que você tem desempenhado na audiodescrição?

RAFAEL: Eu trabalho com audiodescrição por cerca de seis anos. Comecei a consumir aos poucos. Eu lembro que os primeiros contatos foram por volta de 2007 e 2008. Tinha uma propaganda da Natura, eu acho, e depois vinha o filme “O Ensaio sobre A Cegueira”, o primeiro com audiodescrição, um clássico. Depois muito aos poucos, eu não lembro muito, mas acho que foi uma exposição aqui em Porto Alegre já com a Mimi Aragón e a Keni Oshiro fazendo descrição ao vivo ao longo da visitação, sem equipamento. Foi então que eu passei a me envolver bastante com a audiodescrição, principalmente em exposições com obras de arte, cerâmica, com os próprios artistas conversando sobre a obra.

Depois veio o cinema, em sessões específicas com AD aberta para chamar o público. Hoje acontece uma vez por mês, mas em 2013 era uma a cada semestre. Uma delas ocorreu no shopping, com o filme “Em Teu Nome”, da Accorde filmes da Marilaine, sobre a época da ditadura militar aqui no Rio Grande do Sul, muito interessante. Nesse momento, eu comecei a tomar contato com o pessoal que produz audiodescrição, dentre eles o Felipe Mianes e a Mimi.

Ainda em 2013 e meados de 2014, já comecei a frequentar teatro com audiodescrição e foi então que conheci a Kemi e me aproximei mais da Mimi. Em 2015, eu participei como usuário de uma pesquisa de doutorado do meu amigo Eduardo Cardoso, arquiteto e professor da UFRGS, que se especializou em AD. A tese se desenvolveu num museu de Porto Alegre, Joaquim Felizardo, com maquetes táteis e descrição de lugares da cidade. Visitei a exposição, depois houve uma entrevista e a partir disso nos aproximamos. Foi muito legal. Antes disso, eu já estava lendo por conta artigos sobre audiodescrição em e-books, numa experiência autodidata, visto que eu gosto muito de ler e de escrever, e que desde a psicanálise eu já estava imerso nisso. A Mimi acompanhou a pesquisa e percebeu meu envolvimento com o trabalho do Eduardo. Ela me chamou para uma experiência de consultoria em uma peça de teatro, um projeto no qual estavam trabalhando, e me convidou para participar do grupo, qualquer dúvida que eu tinha levava para eles. Foi assim que eu comecei: primeiro veio o estudo por conta, depois a prática e só então comecei a fazer capacitações, cursos, assistir palestras e outras atividades. Foi uma formação muito híbrida.

No início de 2016, teve um monólogo muito interessante do Cássio Scapin chamado “Eu Não Dava Praquilo”, trazendo a história da Miriam Muniz. Este foi o meu primeiro trabalho em AD. Depois de trabalhar com a Mimi, passei a trabalhar com a Letícia, a Liliana e fui fazendo outros cursos de curta e longa duração, além de assistir a defesas de Mestrado e Doutorado, que também são aulas.

No início deste ano eu fiz um curso de locução em AD, com o Charleston, no Ceará. Eu entrei para essa formação por conta da consultoria, não tinha a pretensão de gravar. Eu faço a consultoria prestando atenção em cada detalhe e etapa, não é só validar, tem toda a estética da AD. Ao fazer a gravação, me disseram que eu poderia locutar. São esses caminhos da audiodescrição se ampliam para a gente. Esse ano também tive as formações com a Eliana Franco, a gente tem feito oficinas e ministrado cursos, e também tivemos uma oficina com a Mimi na semana passada. A audiodescrição tem esse universo vasto.

LUCINÉA: Você acredita que a audiodescrição é um caminho de autonomia para tornar a acessibilidade mais democrática aos deficientes visuais, permitindo que eles tenham acesso não apenas aos recursos audiovisuais, mas também ao contexto cultural, como teatro e museu?

RAFAEL: Sim, desde que seja feita com a consultoria de um profissional com deficiência visual, e isso é fundamental, pois existem muitos trabalhos de AD sem consultoria e que não geram autonomia. Nesse caso, segue-se a premissa de que quem enxerga sabe o que precisa ser visto e como deve ser visto por quem não enxerga. E isso não funciona. Não é autonomia. É algo imposto. Não é feito o percurso necessário para construir a AD e a autonomia.

LUCINÉA: Na verdade, seria a audiodescrição na perspectiva do vidente e não o contrário. Aproveitando esta questão tão importante que destacou a respeito da consultoria, temos AD feita por inteligência artificial ou automaticamente, como recursos do Facebook que fazem a descrição automática de imagem. O que você pensa a respeito disso, ou seja, sobre estes recursos utilizados em textos, que não possuem uma preparação prévia ou um roteiro para a edição da AD?

RAFAEL: A inteligência artificial é algo fantástico e existem excelentes aplicativos de celular. Há poucos dias, estava em Gramado e queria pedir comida no quarto do hotel. Então, com o uso do aplicativo, eu direcionava e tirava fotos do cardápio. Ele, então, reconhecia os caracteres e lia para mim todo o cardápio. Com isso, podia selecionar o que queria antes de interfonar e fazer o pedido. É fantástico!

Essa questão da descrição das imagens nas redes sociais é muito importante, mas sempre gosto de fazer uma diferenciação que, para mim, não se trata de uma descrição da imagem, mas sim informações sobre a imagem. O que é diferente, pois para se descrever uma imagem é preciso passar por esse processo, como acabamos de comentar. Porém, na rede social isso não é possível. Há uma profusão de imagens e uma grande velocidade e quantidade. Então, precisamos da inteligência artificial para não ficarmos sem guias.

Dessa forma, se o conteúdo me interessar, vou investigar mais, procurar um audiodescritor, um colega vidente para descrever a imagem, ou seja, é um outro caminho que pode ser filtrado. Portanto, inteligência artificial não substitui, porque ela não descreve. Ela apenas identifica, informa, elenca.

Dias atrás, participei de uma pesquisa universitária em que a pesquisadora trazia um termo, o qual não me recordo agora, mas eram tags. As imagens tinham tags que eram palavras identificadas pela inteligência artificial. Então, ela me falava sobre a imagem e fazíamos uma comparação da pesquisa entre o que pensamos em termos de descrição e identificação em tags daquela imagem.

Portanto, para mim, são duas formas diferentes de lidar com o conteúdo imagético.

LUCINÉA: Pois bem, esses recursos não são excludentes, acredito que sejam complementares. E faço, também, um paralelo com a questão do uso do Google Tradutor, pois quando damos aula de idiomas, falamos para os alunos usarem esse recurso. Mas, em uma situação mais específica, precisamos desse profissional que fará uma boa contextualização desse texto, já que as palavras têm múltiplos sentidos. Contudo, se estiver na Rússia, por exemplo, e não houver ninguém para me ajudar, posso usar o Google Tradutor.

RAFAEL: Com certeza! Na Rússia, com certeza!

LUCINÉA: Rafael, acho importante pensarmos no lado positivo que a AD já alcançou no Brasil. Acredito que nos últimos 10 anos houve avanços em várias áreas e ela tem se firmado no seu status em nossa nação. Porém, temos um país muito discrepante e fico pensando nas pessoas que ainda consomem conteúdo informativo, como a notícia, com informações bastante relevantes para a vida do cidadão, além do entretenimento, como a novela. Enfim, tudo isso. Uma grande parte das pessoas com deficiência visual que vivem aqui, ainda consome esses conteúdos como uma mídia sonora, como se estivessem ouvindo um rádio e sem nenhuma descrição de imagem. Acredito que 85% da produção do conteúdo da Rede Globo ainda não tem audiodescrição. Isso ainda é uma realidade triste. Então, gostaria que você comentasse como essa realidade pode ser mudada e se você vê uma luz no fim do túnel para essa situação no Brasil.

RAFAEL: É uma situação muito complexa. Eu acredito avançamos muito. A AD em nosso país é uma das mais avançadas e desenvolvidas. Não tenho um vasto conhecimento sobre anda a audiodescrição em outros países, mas sempre estamos em contato com os colegas, e um deles que é de Buenos Aires, comenta que na Argentina estão ampliando a AD, mas nem tanto como no Brasil. A própria Eliana Franco, na Europa, sempre traz notícias sobre isso. Em suas publicações, destaca que o Brasil é referência da audiodescrição.

Mas, quando pensamos em veículo de massa, sinto que não temos como descolar essa análise do viés comercial e, talvez, até político, no sentido dos interesses, e comercial, no sentido do que vai para a massa.

Já comentei sobre a questão de filmes legendados e dublados. Se pensarmos que os filmes que passam na Globo, por exemplo, na Sessão da Tarde, no Supercine, na Tela Quente são filmes sempre dublados. Não temos a cultura de filmes legendados como na TV fechada. Isso acontece porque se construiu essa cultura ao longo dos anos. Temos uma população que, por diferentes motivos não quer, não tem essa vivência ou não tem esse acesso. É mais fácil e cômodo. E se adaptaram ao longo dos anos com a questão da dublagem. Portanto, para as empresas de televisão aberta, vale a pena investirem em dublagem. E existem muitas empresas de dublagem, aliás, o Brasil é uma referência, especialmente o Rio de Janeiro, que é o polo. Portanto, existem milhões de pessoas que se interessam por filmes dublados.

Já a audiodescrição, temos um contingente e um recorte com pessoas deficientes visuais bem menores. E o número daqueles que conhecem e exigem a AD é bem menor ainda. Então, se começarem a exibir filmes legendados na Globo, provavelmente vai cair muito a audiência.

Para assistirem aos filmes sem audiodescrição, as pessoas com deficiência visual ainda precisam de um familiar que lhes conte, e mesmo perdendo algumas informações importantes, acompanham do jeito que dá. Então acredito que tenha uma questão inegável de quantidade. Uma questão de massa.

E, claro, que se tem o viés político, temos a LBI (Lei Brasileira de Inclusão) e é um direito, mas existem as questões das barreiras da acessibilidade. Então, vejo que a lei é um dos poucos caminhos que temos para conseguirmos ampliar.

E temos o nosso trabalho. Nós, que trabalhamos com acessibilidade, que conversamos com produtores, que fazemos roda de conversa, que discutimos sobre os espaços para inserir a AD. Enfim, são esses caminhos, mas que são muito lentos. O famoso “trabalho de formiguinha”. E somos nós, profissionais, que fazemos essa ponte.

Mesmo por força de lei, ainda nos deparamos com outra barreira, pois temos a audiodescrição, mas tem-se o argumento de que se produz e investe em AD e quase ninguém assiste. Devemos lembrar que a AD não é um favor, deve estar disponível. Um filme dublado, por exemplo, pode ser passado no cinema para três ou quatro pessoas. Então, é uma questão cultural muito forte e levará muito tempo ainda. Mas, temos que continuar trabalhando.

LUCINÉA: Sim, a gente segue! Acho que sempre leva uma geração para que o conhecimento faça parte de uma comunidade mais ampla. Também acho que isso acontece por meio da educação, pois um aluno que é educado e entende que a audiodescrição e a legenda para surdos e ensurdecidos deve fazer parte do conteúdo audiovisual acaba exigindo isso, mesmo que não seja para ele.

RAFAEL: Exato! Esse ponto que você toca é fundamental! Eu não citei, mas em relação à educação, tanto nos níveis fundamental e médio, tem crescido o número de pessoas que buscam nós, audiodescritores, para fazer capacitações. A Letícia e eu estamos conversando com um pessoal lá do Pará que está interessado e quer que a gente faça um curso para os professores da rede pública, de modo que eles tenham os conhecimentos básicos de audiodescrição, principalmente para a sala de aula com alunos com deficiência visual da rede. Então, eu acho que isso é multiplicador para todo mundo, com e sem deficiência visual.

Na Academia, isso também é fundamental, como o trabalho de vocês. Aqui na UNIPAMPA eu tenho um amigo, que é o Marco Bonito, que faz pesquisas na área de Comunicação e tem alunos e orientandos sem deficiência visual produzindo conteúdos e pesquisando. Tem uma mestranda dele que está fazendo um trabalho bem interessante sobre “Meteorologia com audiodescrição”. E são multiplicadores, né? É um outro caminho também.

LUCINÉA: Já para falar sobre educação e formação, a gente tem aqui, até mesmo nessa sala, alunos da área de produção audiovisual que estão em uma escola de Rádio, TV e Internet que a gente tem aqui na UNESP de Bauru, e outros que também estão nos ouvindo e são futuros profissionais nessa área. Quais dicas você daria para que eles pensem nesse mundo mais acessível, com uma produção democrática, inclusiva e acessível?

RAFAEL: Bom, quando você me perguntou antes se a audiodescrição era mesmo o caminho para essa autonomia, eu falei que desde que tenha consultoria, e eu vou mais ou menos por esse caminho também. Eu penso que quem está pesquisando, estudando e produzindo na Academia também precisa buscar essas referências de audiodescrição, por exemplo, aquelas produzidas por profissionais que trabalham com profissionais com deficiência visual, consultores em audiodescrição e até mesmo o público, que são usuários de audiodescrição. É necessário fazer pesquisa, mas não só aquela pesquisa que circula em grupos de Whatsapp e que são muitos distanciadas, pois são preparadas já com uma distância da realidade. Então, eu penso que uma aproximação ideal seja através de associações, instituições ou grupos. Hoje em dia, com a internet, existem redes sociais como Facebook e Whatsapp que possibilitam se aproximar com abertura de pessoas com deficiência visual e conhecer a realidade dessas pessoas no que diz respeito ao consumo de notícias, filmes, documentários e do máximo de produções audiovisuais. E caso esses produtos não tenham audiodescrição, como que essas pessoas fazem? Ou quando tem audiodescrição, o que essas pessoas esperam da audiodescrição? Estar atento a isso é importante para poder aprender a ver aquilo que a visão não deixa ver. Eu penso que isso é um papel da pessoa com deficiência visual e, especialmente, do audiodescritor consultor: poder ajudar o profissional vidente a ver aquilo que a visão não deixa ele perceber, além do óbvio. Porque com a visão, às vezes, você fica muito no óbvio, sendo coisas do tipo “está pronto, é instantâneo, está explicado”, mas não está explicado, não é instantâneo e não é obvio. Às vezes é aquém do obvio. Então, só quem tem deficiência visual que pode fornecer essas experiências para quem está trabalhando ou pesquisando. A dica principal para mim é essa, é pesquisar sim produções com audiodescrição, mas também se aproximar desse público.

LUCINÉA: Eu acho perfeito isso que você falou, que combina com uma terminologia que essa geração dos nossos alunos tem usado muito e eu acho importantíssima, que é o “lugar de fala”, né? É exatamente isso, não só aprender mas aprender junto com essa pessoa que vai precisar, que vai consumir e que vai poder orientar melhor esses futuros profissionais. É bem bacana!

Rafael, eu adorei o nosso papo e esse encontro, que é a distância e que inclui muita gente. Essa também é a ideia desse podcast, poder divulgar conhecimento para não ficar só em uma bolha e, nesse sentido, eu agradeço muito a sua participação.

RAFAEL: Também agradeço muito! É muito interessante essa troca. Ela sempre produz algo novo e que a gente leva para a nossa trajetória, para o nosso trabalho e nossa experiência, não é? Com certeza, tendo algum questionamento ou alguma contribuição, a gente vai conversando.

LUCINÉA: Então, Rafael, um super obrigado e até breve. Que a gente troque mais figurinhas!

RAFAEL: Com certeza, fico sempre à disposição de vocês para a gente seguir com essas trocas, porque com toda essa tecnologia nós conseguimos estar juntos mesmo com a geografia dizendo que não! 

LUCINÉA: Perfeito, obrigada gente!

RAFAEL: Um abração para vocês! Tudo de bom.

ANIELE:

Bom, e depois dessa entrevista do Rafael vamos chegando ao fim do nosso episódio. Mas pra você que está chegando e quer conhecer um pouco mais do “papo com legenda”, pode conferir nossos episódios anteriores.

LUCINEA:

É isso aí, Aniele! Esse foi o nosso quarto episódio, mas se você ainda não ouviu os anteriores corre para sua plataforma de podcast preferida e ouça já!

E para ficar por dentro de tudo o que o Rafael nos contou, nos siga nas nossas redes sociais @papocomlegenda e para conhecer mais sobre o trabalho de consultoria de audiodescrição do nosso entrevistado, siga @rafael_braz_psi

Narrador:

O “Papo com Legenda” é um podcast original do MATAV, o grupo de pesquisa mídia acessível e tradução audiovisual. Para ficar por dentro dos nossos lançamentos e demais novidades, acompanhem o nosso Instagram @papocomlegenda

Papo com Legenda Ep. 03 – Lembrei de Você

Transcrição: Ana Laura Dias, Letícia Santos, Luiza Hidalgo

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao terceiro episódio do nosso podcast Papo com Legenda. Eu sou Lucinea Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Estou sentada em frente à mesa de meu escritório, gravando em meu notebook.

ANIELE:

E eu sou a Aniele, uma mulher de 26 anos, cabelos cacheados e curtos da cor castanho escuro. Eu visto uma camisa azul listrada e estou no meu quarto, sentada à frente de meu notebook.  

LUCINEA:

No episódio anterior falamos um pouco sobre a história da dublagem com o queridíssimo Vitor Mello! Foi uma conversa bem legal, e se você ainda não ouviu, corre lá e confira na sua plataforma digital favorita, mas só depois que esse acabar, hein?

ANIELE:

No episódio de hoje, vamos acrescentar mais um elemento à nossa jornada pelo universo da acessibilidade. Diferente dos episódios anteriores, hoje não vamos abordar um recurso de acessibilidade específico, mas sim um projeto que vem fazendo muita diferença no contexto da pandemia. Estou falando do projeto Lembrei de Você.

LUCINEA:

O projeto é coordenado pela professora Mônica Moura, do departamento de design da Unesp de Bauru, que aceitou o convite para agregar ao nosso papo no episódio de hoje. Quem também aceitou nosso convite foi uma voluntária muito querida! A Sara Cristina Gimenez de Faria, que vai conversar um pouquinho com a gente!

ANIELE:

Mas antes de chamar a entrevistada, vamos aprender um pouco sobre a origem e a importância do projeto no nosso quadro Legenda aí pra Mim.

Criado em junho de 2020, pela professora Mônica Moura, o “Lembrei de Você” é um projeto que tem como objetivo criar uma rede de comunicação para ajudar no fortalecimento da autoestima e promover a Inclusão social de minorias. O projeto age por meio de uma rede de voluntários, que organizam a leitura e produção de áudios que são enviados via WhatsApp a ouvintes idosos e pessoas com deficiências visuais, explorando as possibilidades da criação de imagens mentais por meio da ação da linguagem oral.

Isso ajuda também no despertar de memórias afetivas, que trazem bem-estar e qualidade de vida, ajudando no combate à solidão e atendendo ao escopo do Design Inclusivo no contexto da pandemia de COVID-19.

Lucinéa: Realmente, Aniele. A pandemia tem trazido à tona essa problemática do isolamento social, principalmente em relação às pessoas idosas e as pessoas com deficiência visual. Além de não serem incluídas na nossa sociedade no cotidiano, ainda sofrem com a solidão que é reflexo do distanciamento social.

ANIELE:

Com certeza, Lucinéa! A gente trouxe nos episódios anteriores a história e a atuação de recursos audiovisuais acessíveis, mas o “Lembrei de Você” vem para nos mostrar que a acessibilidade está para além do recurso. Um projeto como o da professora Mônica Moura ressalta que só existe acessibilidade quando as pessoas são incluídas. E por isso, a partir desse episódio nosso foco será o usuário desses recursos.

No próximo bloco, conversaremos com a professora Mônica e traremos mais legenda para esse papo.

WALESSON:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINÉA: Estamos de volta para o nosso segundo bloco. No bloco anterior, aprendemos um pouco mais sobre a história do projeto “lembrei de Você”, da professora Mônica Moura. Mas agora aprofundaremos nosso debate sobre acessibilidade, falaremos com a docente que é idealizadora do projeto. Antes de começar, professora Mônica, você poderia se apresentar e audiodescrever para o nosso ouvinte?

MÔNICA: Lucinéa, eu que quero agradecer o convite, estou muito feliz de poder participar com você. É um prazer e uma honra, ainda mais para falar de um projeto que a gente tem tanto carinho. Eu sou uma mulher de estatura baixa, sou morena, mas tenho cabelos ruivos e eu uso óculos. Eu sou gordinha, tenho olhos castanhos e hoje eu estou aqui, sentada em frente ao meu computador, no meu escritório, na minha casa. Eu estou usando uma camiseta azul e branca e uma saia cinza.

LUCINÉA: Mônica, você poderia contar para a gente como que surgiu o “Lembrei de Você”?

MÔNICA: O “Lembrei de Você” surgiu no ano passado, depois da fase de isolamento social e, por volta do dia 20 de junho, foi realizada a distância a defesa de uma tese, com o título “Design inclusivo na contemporaneidade: diretrizes ao desenvolvimento de materiais didáticos acessíveis a crianças cegas e com baixa visão”, que foi desenvolvida pelo Márcio Soares Guimarães sob minha orientação e coorientação da professora Cássia Carrara. Essa defesa foi resultado de cerca de quatro anos de pesquisa e foi a primeira pesquisa que orientei especificamente destinada ao público com deficiência visual.

A partir disso, organizamos uma mesa redonda sobre design inclusivo com o título de “Design, Educação e Inclusão” e participaram dessa mesa pesquisadores e professores que trabalham com inclusão e educação e também convidamos designers que atuam nessa área. A mesa foi muito rica, produtiva e muitas pessoas assistiram. Após isso, ficamos mais um pouquinho conversando e eu questionei ao grupo e a mim mesma: “É tudo muito bonito, a defesa de tese foi ótima, o resultado foi maravilhoso e essa mesa redonda foi incrível. Mas o que nós, que estamos envolvidos com isso, estamos fazendo para o público com o qual trabalhamos e que é fonte da nossa pesquisa? O que estamos fazendo por eles nesse momento da pandemia? Como designers, precisamos projetar alguma coisa”. Afinal, o design, principalmente o contemporâneo, não se fixa só em produção de coisas, artefatos, objetos ou de peças de comunicação e informação, ele também se destina ao desenvolvimento de ações. A partir desse momento começamos a conversar e nisso surge o projeto “Lembrei de Você”.

LUCINÉA: Mônica, quem deu o nome “Lembrei de Você”? Houve outras propostas de nome?

MÔNICA: Vários nomes foram elencados, na verdade, alguns nomes davam impressão de ser uma cantada. Às vezes ficava parecendo um nome de um filme, como “Tão Longe e Tão Perto”. Não poderíamos usar o título de um filme. Por fim, eu acredito que foi o Márcio que falou para iniciarmos a mensagem com “Lembrei de Você” e todo mundo gostou muito. Fomos ver se já existia algum nome registrado ou algo parecido nesse aspecto e não encontramos nada, então adotamos esse nome e eu acho que foi um nome muito feliz.

LUCINÉA: É lindo! Mônica, com esse sucesso e esse alcance tão grande, vocês acham que ele pode se tornar um projeto a longo prazo?

MÔNICA:  Então queremos sim dar continuidade. Inclusive o projeto que enviamos para o CNPq e tem a validação da bolsa PQ (Pesquisa Qualificada), se aplica a pessoas com deficiência visual, mas não só a elas. Há também pessoas videntes que estão em estado de solidão, temporário por conta da pandemia ou mais prolongado, pois moram ou se veem sozinhas. Também se aplica a pessoas que não estão em nenhum desses casos, porque temos muitos ouvintes que não são pessoas acometidas por alguma deficiência, mas também não estão em estado de solidão, porém, gostam muito de receber os áudios e fazem parte de um dos grupos de ouvintes. Então, na verdade, esse projeto tem como proposta abraçar diversos públicos, até porque, depois que nos aprofundamos no estudo a esse respeito, nós vimos também que essa possibilidade de levar textos de literatura, poesia, música ou relatos de vida, também possibilita uma ampliação do repertório estético e cultural às pessoas.

No caso das pessoas com cegueira, você também possibilita o desenvolvimento de imagens mentais. Claro que não são todas as pessoas cegas que continuam com a criação de imagens mentais, com forma e cor. Às vezes são só imagens de luzes, sombra ou sem cor, mas grande parte das pessoas cegas continuam com as suas imagens mentais e o fato delas ouvirem histórias diferentes, por meio dos áudios, possibilita isso.

LUCINÉA: Mônica, vocês têm uma noção de quantos usuários dos áudios vocês alcançaram que têm deficiência visual, que a gente chama de pessoas cegas ou de baixa visão, e quantos idosos?

MÔNICA: Nós temos um número aproximado. Não temos ainda essa separação, esse número exato entre cegos e baixa visão, mas sabemos que hoje o projeto atende 678 pessoas. Entre essas pessoas, temos por volta de 150 pessoas que são deficientes visuais, temos um número de idosos próximo a 50 pessoas e, por fim, temos pessoas de outras idades ou outras pessoas com baixa visão que não temos conhecimento, pois algumas não declaram.

LUCINÉA: Mônica, para terminar, eu queria que você falasse de um ou dois relatos dos usuários do Lembrei de Você que tenha te marcado.

MÔNICA: Tenho vários relatos que me marcaram de forma muito sensível e emotiva. Eu ouço todos os áudios, até porque trabalhamos em um grupo para podermos fazer a divisão desses áudios, para verificarmos se tem algum ruído ou problema neles e para classificá-los.

Então, nesse sentido de tocar, em termos de emoção, nós temos vários áudios, mas também temos situações muito engraçadas. Temos uma voluntária que se chama Patrícia e, na pandemia, ela foi para uma casa do interior e, pelo que ela contava, a gente entendia que era como um sítio ou uma casa de campo. E aí, ela não tinha nenhum livro ou revista, porque ela não levou. Então, ela contava histórias dela, coisas que aconteciam lá. Vou falar duas histórias dela que são muito engraçadas.

Primeiro, um dia ela achou um pão caseiro inteiro na porta de sua casa de presente, mas ela não descobriu quem era. Então, ela foi contando a história e a gente imaginou que nos próximos áudios ela iria contar para a gente quem deixou o pão. E a gente começou a imaginar falando: “Nossa, será que é alguém que está apaixonado por ela? Quem será?” E até hoje a Patrícia não descobriu quem foi que deixou o pão lá.

Outra história dela foi a dos lagartos. Sabe aqueles lagartos grandes, que vivem em pedras? Então, ela viu dois lagartos que ficavam pelo seu quintal e resolveu começar a alimentar eles com ovo e tudo mais. Um dia, os lagartos entraram na casa e foram para debaixo da cama dela. Então esse foi outro áudio muito divertido.

E uma coisa que também me emocionou muito, por uma questão muito pessoal, é que a Sara, com quem vocês acabaram de fazer a entrevista, é filha de uma ex-aluna minha, que também foi minha monitora e estagiária. Então, eu fui ao casamento da Débora, vi ela grávida, conheci a Sara bebê e depois nunca mais tive oportunidade de encontrar. Por isso, quando ela enviou o primeiro áudio, foi uma surpresa e, também, uma alegria muito grande em todos os sentidos: como a gente pode estabelecer esses vínculos emocionais, afetivos, e como essas coisas também podem se propagar muito além de nós. Então a gente lança uma pequena sementinha e, olha que bonito, o fato de uma mãe, ao exercitar essa questão de uma doação de tempo, de voz e de vontade, influencia a sua filha. Para mim, isso foi muito bonito.

LUCINÉA: Parabéns, Mônica! É um projeto muito lindo e desejamos um sucesso a longo prazo e que continuem alcançando mais pessoas. Parabéns pelo projeto!

MÔNICA: Eu agradeço muito! E, como essa entrevista é também uma forma de divulgação para o projeto, se alguém tiver interesse eu peço para entrar em contato via Instagram, no canal do Lab Design Contemporâneo. A pessoa pode comunicar se quer participar ou como um voluntário ou como ouvinte – seja um ouvinte individual (pessoa física) ou uma instituição – e a gente entra em contato.  

ANIELE: Gente, esta foi a primeira parte da entrevista. E vamos agora para um breve intervalo.

No próximo bloco, continuaremos nossa entrevista com a Sara Cristina Gimenez de Faria.

WALESSON: Para acompanhar nossos textos sobre acessibilidade e as transcrições dos episódios Papo com Legenda, acesse o blog matavunesp.wordpress.com

LUCINÉA: Estamos de volta e para dar prosseguimento a esse episódio especial. Conversaremos agora com a Sara, que é voluntária do projeto Lembrei de Você. Sara, você poderia se apresentar e se audiodescrever?

SARA: Oi! Meu nome é Sara Cristina Gimenez de Faria. Eu sou baixa, tenho 9 anos, uso óculos e tenho um cabelo marrom meio escuro meio claro. Uso saia e blusa azul com flamingo.

LUCINÉA: Sara, a gente entrou em contato com o projeto e tivemos acesso às suas locuções, e eu queria entender um pouquinho. Primeiro, eu queria saber quantos anos você tem e por que você aceitou ser voluntária nesse projeto, que é o Lembrei de Você. Conta um pouco para a gente como que foi que você começou a ajudar as pessoas por meio do Lembrei de Você.

SARA: Bom, eu tenho 9 anos e eu comecei a querer participar quando vi a minha mãe fazendo os áudios para gravar histórias; eu fiquei com vontade e pedi para participar. E foi aí que eu comecei a fazer os áudios. Na segunda à noite eu e a minha mãe sempre gravamos os áudios.

LUCINÉA: Entendi, então tem um dia da semana que vocês escolhem para fazer e aí vocês mandam, é isso?

SARA: Isso.

LUCINÉA: Perfeito! Sara, e como você escolhe o tipo de gravação que vai enviar? São coisas que você gosta de ler? São contos, poesias, histórias? Fiquei sabendo que você canta também… Então como que é? Você e a sua mãe que decidem juntas o que você vai mandar ou você pede para gravar as coisas que você mais gosta?

SARA: É, eu escolho por meio do que eu gosto. E aí eu leio histórias, poesias e uma vez eu cantei.

LUCINÉA: Foi lindo! Você sabe que eu ouvi uma música com os meus pais, que são bem velhinhos, e eles gostam. Eu coloquei para eles e eles adoraram!

SARA: E, também, a mamãe me ajuda a escolher o livro, porque às vezes ele é grande e a minha mãe já leu.

LUCINÉA: Ah, então ela ajuda para não ler inteiro. E Sara, uma última pergunta: você fica feliz em ajudar as pessoas, ou as que são idosas e mais velhas, ou as que não enxergam? Porque a gente sabe que tem pessoas cegas que ouvem esses áudios. Então eu queria saber se você fica feliz, porque a sua voz dá um conforto para essas pessoas?

SARA: Ah, eu fico feliz, porque eu ajudo as pessoas, elas se divertem e aprendem, e assim eu me sinto útil.

LUCINÉA: Ah, que legal! E você quer sempre continuar com esse projeto?

SARA: Sim, eu sempre quero continuar com esse projeto.

LUCINÈA: Então, parabéns pela colaboração! Eu tenho acompanhado os seus áudios e eles são muito confortáveis para quem está do outro lado te ouvindo!

SARA: Muito obrigada!

LUCINÉA: Parabéns, Sara!

ANIELE: Bom, e depois dessa entrevista da Sara, estamos chegando ao fim deste episódio. Mas para você que está chegando e quer conhecer um pouco mais do papo com legenda, pode conferir nossos episódios anteriores.

LUCINÉA: É isso aí, Aniele. Este foi nosso 3º episódio, mas se você não ouviu os anteriores, corre na sua plataforma de podcast favorita e ouça já. Para ficar por dentro de tudo o que a Profa. Mônica nos contou e ficar sabendo ainda mais sobre Design Inclusivo, não deixe de seguir @labdesigncontemporaneo

ANIELE: Como é importante o projeto Lembrei de Você, ainda mais no contexto de pandemia que ainda estamos passando. O trabalho da Profa. Mônica é essencial para amenizar os efeitos do isolamento e solidão dos idosos com deficiência visual e também dos idosos videntes. É claro que teria que virar um episódio. O programa de hoje fica por aqui.

WALESSON: O Papo com Legenda é um podcast original do MATAV, o Grupo de Pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual. Para ficar por dentro dos lançamentos e demais novidades acompanhe o nosso Instagram @papocomlegenda

ENTREVISTA COM DANIELA REIS, IDEALIZADORA DO PROJETO ENXERGANDO O FUTURO

Por Daniela C. de Carvalho Souza

Descrição de imagem: Fotografia em cores claras. No centro da imagem, Daniela está sentada em um banco de madeira escura e à sua frente há uma mesa de madeira retangular escura. Suas mãos estão sobre uma cela pré-braille nas cores preta, vermelha, azul e verde. Ela é magra, possui pele clara, cabelos castanhos claros, longos e ondulados com mechas loiras. Ela usa um vestido estampado nas cores azul, rosa e branco com alças finas. Está maquiada. Atrás do banco de madeira, na parede de fundo, há uma cortina branca e à direita da imagem há um vaso grande com uma vegetação com flores rosas.

Neste mês a entrevistada do blog MATAV é a empresária Daniela Reis Frontera, de Duartina, interior de SP. Aos 23 anos foi diagnosticada com retinose pigmentar e soube que perderia grande parte da visão. Mesmo em meio às dificuldades, nunca desanimou, buscou maneiras de se adaptar a sua nova realidade e foi aprender Braille. A partir daí, imaginou que além de aprender, também poderia ensinar o método a outras pessoas com deficiência visual e transformar as vidas dessas pessoas, pois acredita que poder ler é também uma forma de inclusão, e o Braille é o caminho para isso. E assim foi criado o projeto Enxergando o Futuro. Na entrevista, ela conta um pouco a história do projeto e sua paixão pelo esporte.

MATAV: Como surgiu a ideia deste projeto?

DANIELA: A ideia surgiu do momento em que resolvi aprender o método Braille e senti muita dificuldade em encontrar um profissional que me ensinasse, mesmo pagando pelas aulas. E isso ficou em meu coração, pois imaginei como seria com aquelas pessoas que realmente necessitam dessa alfabetização e não encontram profissionais suficientemente capacitados.

Então, quando encontrei uma professora que me ensinasse Braille, eu disse a ela que, quando estivesse pronta, gostaria de ser instrutora deste método. E com o seu apoio e suporte técnico, em novembro de 2019, nasceu o “Enxergando o Futuro”. Começamos em minha cidade, com apenas 10 alunos e com aulas presencias. Porém, com a pandemia, tivemos vários desafios, mas superamos e hoje, esse projeto tornou-se mundial.

MATAV: Qual o grande propósito do Enxergando o Futuro?

DANIELA: Nosso propósito é alcançar cada vez mais as pessoas com deficiência visual e levá-las a aprenderem o método Braille, além de tentar conscientizá-las que o Braille é importante na vida da gente; que o Braille é nossa cartilha. Portanto, nosso objetivo é Brailletizar essas pessoas e transformar o Braille numa língua nacional. Também, queremos levar a todos os municípios do nosso país uma consultoria para que possamos capacitar profissionais de tal forma que, se nascer uma criança cega naquele município, a prefeitura tenha um profissional capacitado pelo Enxergando o Futuro, capaz de alfabetizar essa criança.

MATAV: Você poderia dar detalhes sobre como essas as aulas acontecem?

DANIELA: São aulas a distância, por meio da nossa plataforma on-line gratuita e com acessibilidade para as pessoas com deficiência visual. Na plataforma, vamos liberando as aulas para que os alunos possam fazer as atividades dos módulos. Depois, devem postar essas atividades no grupo de WhatsApp de alunos. E, somente depois da correção e análise das atividades é que liberamos outro módulo. Se o aluno tiver dificuldade, nós o chamamos e tiramos dúvidas e ele tem a oportunidade de fazer a correção. Se necessário, fazemos chamada de vídeo com as nossas pedagogas voluntárias que enxergam. E, aleatoriamente, fazemos aulas on-line pelo aplicativo Zoom com a pedagoga vidente que me auxilia na correção.

Logo no início do curso, ensinamos nossos alunos a confeccionarem uma cela pré-Braille, com material reciclável, que vão usar para a alfabetização. E essa é a primeira etapa do curso. A segunda é a reglete negativa, e a terceira é a leitura.

MATAV: Como tem sido a adesão das pessoas ao projeto?

DANIELA: A adesão tem sido muito boa. Estamos atingindo quem gostaríamos, mas queremos muito mais. Nós somos 6 milhões e meio de pessoas com deficiência visual, então ainda temos muita gente para alcançar. Então, pedimos que todos os meios de comunicação se manifestem e abracem a nossa causa para que realmente cheguemos até essas pessoas que não tiveram oportunidade de se alfabetizarem no Braille e possam ser alfabetizados em casa. Só precisa ter a Internet, do restante a gente cuida. Atualmente, estamos com alunos em outros países como Portugal e África do Sul. E no Brasil, já chegamos em 25 estados, totalizando mais de 180 alunos. E queremos transformar nossa plataforma em multilíngue para que também possamos ensinar o Braille em espanhol e inglês.

MATAV:  Como os interessados podem se inscrever e participar deste projeto?

DANIELA: Quem quiser se inscrever pode entrar no nosso site enxergandoofuturo.com.br; nas nossas mídias sociais (Facebook, Instagram, LinkedIn); no nosso canal do YouTube Enxergando o Futuro ou pelo WhatsApp (14) 997408217. É só deixar uma mensagem que já enviamos o link para a inscrição.

MATAV:  Como o projeto é mantido e como voluntários podem ajudar de alguma forma?

DANIELA: Vivemos de doações, de campanhas, de rifas, de lives solidárias. Como o projeto cresceu muito, existem gastos. Então, procuramos empresas que queiram ser parceiras. Já temos empresas e pessoas físicas que contribuem mensalmente. Em breve, vamos transformar o Projeto em Fundação, para que também possamos oferecer outros benefícios aos deficientes visuais. E todos que quiserem contribuir com o Enxergando para o Futuro, podem entrar em contato conosco e para empresas maiores com responsabilidade social, temos formas bem interessantes para que possam participar das mídias.

Aqueles voluntários videntes, ou seja, os que enxergam, também sempre são bem-vindos para nos ajudar e podem entrar em contato pelo WhatsApp.

MATAV: Além de todo esse trabalho e dedicação em ajudar pessoas com deficiência visual, você ainda é paratleta?

DANIELA: Pois é. Quando era criança, eu praticava o paratambor, pois já tinha  dificuldade para enxergar, mas depois acabei parando. Eu sempre gostei muito de esportes. Eu corro, pedalo na bicicleta Tandem. Este ano, descobri a Ecoterapia em meu município, então, entrei em contato para fazermos uma parceria com o projeto e, durante a conversa descobri que eu poderia fazer o paratambor com acessibilidade. Então, comecei as aulas. Como não tenho medo, sou arrojada, enfrentei esse desafio. E, recentemente, fui Vice-Campeã Nacional do Paratambor. Hoje, estou muito feliz e realizada em praticar um esporte que achei que nunca mais conseguiria. E isso não tem preço!

Por isso, digo sempre: você que tem qualquer tipo de limitação, não se entregue! Adapte-se a uma nova realidade de vida e não deixe seu sonho acabar!

Descrição da imagem: Fotografia de Dani Reis. Ela é uma mulher de pele clara, é magra, seus cabelos são castanhos claros, longos e ondulados com mechas loiras. Em pé, ela sorri e segura um troféu prata em forma de um cavalo. Ela veste uma camisa de manga longa azul clara, calça jeans e cinto de couro.

Para saber mais sobre o projeto visite:

https://www.youtube.com/enxergandoofuturo

https://www.linkedin.com/company/enxergando-o-futuro/

https://www.instagram.com/enxergandoofuturo/

https://www.facebook.com/projetoenxergandoofuturo

Entrevista com Emmanuelle Alkmin Projeto Cozinhando às Cegas

 

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#paracegover #pratodosverem Foto colorida de Emmanuelle em um fundo com placa de cor de madeira clara com listras verticais. Manu olha sorrindo para a câmera. Ela usa brincos, batom vermelho claro e um vestido azul de mangas curtas. Há um microfone de lapela preso no lado esquerdo do vestido. No canto direito superior da foto, há um retângulo e dentro está escrito com letras brancas e em caixa alta “brigadeiro branco”. Na parte inferior da foto, há outro um retângulo centralizado com a frase “Cozinhando às cegas #03” com letras brancas e em caixa alta. Há três figuras de brigadeiros brancos na foto, dois estão no lado esquerdo superior, próximo da cabeça de Emmanuelle, o outro brigadeiro está localizado lado direito e próximo de seu braço.

Muita gente acha que uma pessoa com deficiência visual é incapaz de ter autonomia para tarefas rotineiras, como morar sozinha, cozinhar, fazer compras etc.

A advogada Emmanuelle Alkmin rompeu várias barreiras desde sua infância e comprova mais uma vez em seu programa “Cozinhando às Cegas” que a deficiência visual pode ser superada com muita criatividade.

O blog do MATAV entrevistou Emmanuelle para saber como surgiu seu novo projeto gastronômico. Uma das curiosidades que a ativista nos relatou é que a crise financeira no país e as dificuldades de inserção no mercado de trabalho fizeram com que ela começasse a cuidar literalmente de sua casa, desde faxina até cozinhar todos os dias. Segundo Emmanuelle:  “A primeira vez que utilizei o termo “cozinhando às cegas” foi em uma foto que coloquei em uma rede social de um strogonoff que havia feito. Houve muitos comentários. Muitas perguntas”. A partir daí, surgiu a ideia do programa, leia a seguir a entrevista cheia de otimismo da nossa nova chef.

MATAV: Como foi concebida a ideia do programa “Cozinhando às Cegas”?

EMMANUELLE: Começou bem por acaso. Lembro-me de uma palestra em que falava sobre superação de limites e enfrentamento do desconhecido, utilizei como exemplo uma torta que tinha feito, a dificuldade de colocar a massa líquida na forma, separar cada uma das metades etc.

 Quando terminei, muitas pessoas vieram falar comigo sobre o exemplo da torta. Uma delas me disse: “ Você precisa falar mais sobre isso, porque o que para você é óbvio, para gente não é.”

Percebi que as pessoas que enxergam, efetivamente, desconhecem o potencial das pessoas que não têm visão, simplesmente pela falta de conhecimento, pela falta de convivência, pela falta de exposição desse potencial. Fiquei pensando sobre isso durante bastante tempo.

É difícil ir para frente de uma câmera, ainda mais totalmente fora da minha zona de conforto. Comentei com a Bia Sartori (produtora do programa), quando ela estava saindo de um café que faço em casa, e, ela começou a sonhar! Sonhar efetivamente e delinear esse sonho! Até que surgiu o canal.

MATAV: Quantos episódios e quantas receitas a série terá?

EMMANUELLE: Queremos fazer quatro episódios mensais. Um por semana, toda terça-feira. Não temos o número definido. Terei em vários outros programas pessoas me ensinando a fazer alguma receita para demonstrar as dificuldades de conversa entre esses dois mundos na cozinha que é extremamente visual.

Não temos também o número definido de receitas, porque propositalmente, pedimos para as pessoas sugerirem.

Ainda é uma categoria no YOUTUBE em teste. Essas definições ocorrerão por meio de respostas aos estímulos recebidos dos internautas.

MATAV: Onde foram feitas as gravações do programa?

EMMANUELLE: As gravações são realizadas em pelo menos dois lugares diferentes, não sendo nenhum no meu apartamento. No vídeo da omelete, por exemplo, demonstro a dificuldade de utilização do fogão que é impróprio para utilização de pessoas com deficiência visual.

MATAV: Qual tem sido a repercussão da série tanto para o público com deficiência visual como para o público em geral?

EMMANUELLE: Faz pouco tempo que o programa está no ar, ainda estamos em fase de testes. Qualquer avaliação aqui, é meramente especulativa e baseada em sensações. A repercussão tem sido bem maior entre o público sem deficiência visual, porque, aliás, é a esse público que se destina.

MATAV: Vocês pensaram em inserir audiodescrição no programa?
EMMANUELLLE: Eu sou consultora em audiodescrição, então, isso sempre foi avaliado no projeto. Há dois fatores envolvendo a AD. O primeiro é que o público alvo é o público sem deficiência em geral e, como estamos fazendo tudo em parceria, ainda não é possível fazer um programa acessível com audiodescrição e Libras. O outro aspecto é que tenho a preocupação de falar muito durante o vídeo, para dar às pessoas com deficiência visual a exata noção do que estou fazendo.

Infelizmente, no Brasil, a comunicação inclusiva ainda é inacessível economicamente. Em outras palavras, os custos de uma comunicação para todos não acompanha a velocidade da produção de conteúdo hoje. O que tem ocorrido é o barateamento da tecnologia envolvida na produção de vídeo.

Há, pois, a necessidade de se discutir seriamente essa questão no âmbito da inclusão, porque se de um lado a universalização tecnológica permite a manifestação efetiva da liberdade do pensar e do expressar-se, há, cada vez mais, pela questão econômica, a exclusão desse ‘conteúdo livre’ de parcela significativa da população com deficiência auditiva e visual.

MATAV: Há outras situações, além da gastronomia, em que a pessoa com deficiência visual consegue ser autônoma e que também merecem ser temas de novos projetos?

EMMANUELLE: Com certeza há diversas outras situações em que poderia ser mostrada a autonomia da pessoa com deficiência visual. Contudo, para que consigamos fazer com excelência o que nos propomos, fechamos o leque e recortamos para a cozinha.

Cremos que a culinária aproxima as pessoas, promove uma zona confortável para desmistificar muitas questões relativas à deficiência visual, bem como traz, assim, um ambiente de transformação pessoal para quem assiste, levando o internauta a outras percepções, sensações e à necessidade de estar presente nas situações por inteiro.

Receitas da Manu

Omelete de aveia https://www.youtube.com/watch?v=C0Luqd0GQ1E&t=43s

Brigadeiro Branco https://www.youtube.com/watch?v=JOrmKqfWWfU

Dadinho de Tapioca https://www.youtube.com/watch?v=Ody6m6LiTHQ&t=89s

 

 

 

Desfiles no Anhembi têm camarote com recursos de acessibilidade

Evento conta com audiodescrição e interpretação
dos sambas de enredo em LIBRAS.

Matéria: Bruno Ferreira
Entrevista: Lucinéa Villela

#ParaCegoVer: Na foto, as audiodescritoras Lívia Motta e Marisa Pretti estão em uma cabine de vidro no Camarote da Cidade, no Sambódromo do Anhembi. As duas estão com camisetas pretas com logotipo laranja no peito esquerdo, em forma de peão. Há um microfone e um computador à frente de cada uma. As duas olham atentamente para fora da cabine. Lívia aponta com o dedo chamando a atenção de Marisa. (Foto: Raoni Reis)

Nos dias 1 e 2 de março, as empresas “Ver com Palavras” e “As Meninas dos Olhos” se uniram numa parceria para audiodescrever os desfiles das escolas de samba em São Paulo, no Sambódromo do Anhembi. Os profissionais fizeram a audiodescrição dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial — que, em uma analogia com o futebol, é a “Série A” do Carnaval paulistano.

Os recursos de acessibilidade ficaram disponíveis no Camarote da Cidade, por meio da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED). Para os surdos, havia um telão projetando a interpretação em LIBRAS dos sambas de enredo. As pessoas com deficiência visual, por sua vez, receberam aparelhos receptores de áudio e fones de ouvido, por onde escutavam a audiodescrição. Os aparelhos funcionavam em todo o perímetro do camarote, de modo que seus usuários pudessem transitar livremente pelo espaço. A audiodescrição ainda foi transmitida ao vivo pelo Facebook, na página da SMPED, permitindo que pessoas do Brasil inteiro tivessem acesso ao desfile.

O blog do MATAV entrevistou Lívia Motta, diretora da empresa “Ver com Palavras”. Ela explica que não basta reunir profissionais experientes no dia do evento, porque a audiodescrição envolve muito mais do que simplesmente articular em palavras o que veem os olhos. É preciso um preparo especial: “O Carnaval é um evento vibrante e intenso, que, tal qual um musical ou uma ópera, exige um conhecimento específico, um mergulho no enredo de cada escola para a elaboração dos roteiros. O acesso às informações, entretanto, torna-se mais difícil devido à confidencialidade, à necessidade de absoluto sigilo. Também o dinamismo e estruturação da apresentação de cada escola impõem um ritmo diferenciado à elaboração de roteiros e narração. Com relação à narração, destacamos a importância de se colocar entusiasmo na voz para estar dentro do clima deste gênero de apresentação.”

A equipe, composta por seis audiodescritores e um consultor com deficiência visual, se empenhou em levantar informações sobre cada uma das catorze escolas que desfilariam nas noites de sexta e sábado. Eles tiveram cerca de quinze dias para ver os ensaios no sambódromo, falar com os dirigentes e componentes das escolas, estudar a história e a terminologia do Carnaval. A empresa “As Meninas dos Olhos” fez a audiodescrição do Carnaval nos dois últimos anos e o consultor Laercio Santanna já havia assistido ao Carnaval com acessibilidade no ano anterior, o que foi fundamental nesse estágio.

#ParaCegoVer: No Camarote da Cidade, quatro pessoas com deficiência visual estão sentadas, vestidas com camisetas amarelas e usando aparelhos receptores e fones de ouvido. Da esquerda para a direita, estão um homem sorridente de barba grisalha pressionando o fone sobre a orelha com uma das mãos, uma senhora de cabelos castanhos, um homem de boina e uma moça de tiara amarela. (Foto: Raoni Reis)

Lívia Motta relatou que este ano houve menos ingressos para o Camarote da Cidade, apenas 20 convites foram disponibilizados para as pessoas com deficiência visual: “Contamos com a presença de aproximadamente 15 pessoas com deficiência visual no primeiro e no segundo dia de desfile”, afirma a audiodescritora.

Mesmo assim, a recepção pelo público tem sido animadora. Alessandro Silva, jovem com deficiência visual, é ritmista e desfilou na bateria da Acadêmicos do Tucuruvi, na sexta-feira. Na noite seguinte, no sábado, ele esteve no Camarote da Cidade, para assistir pela primeira vez a um desfile com audiodescrição. Ele assistiu o tempo todo com o recurso e adorou. “Não sabia nem que existia isso,” disse animado. Alexandre Toco, administrador de empresas, também se empolgou com a audiodescrição: “É minha primeira experiência de muitas,” ele diz. “Totalmente diferente assistir o Carnaval aqui, é outra energia e a gente viaja com a audiodescrição. Tomara que todo mundo possa ter essa experiência. Vale a pena demais.”

#ParaCegoVer: Na foto, sete pessoas abraçadas posam sorridentes para a câmera. Elas estão no Sambódormo do Anhembi. Da esquerda para a direita: Fátima Angelo, Rosângela Fávaro, Marisa Pretti, Andréia Paiva, Laercio Santanna, Lívia Motta e César Tunas. Laercio, o consultor da equipe, usa uma camisa polo vermelha com listras horizontais brancas. Os demais integrantes do grupo usam uniforme preto com logotipo laranja em forma de peão no peito esquerdo. (Foto: Raoni Reis)

Segue o depoimento completo de Alexandre Toco:

Entrevista com Fernando Botelho

Criador da organização F123, Fernando trabalha em função da inclusão dos deficientes visuais por meio da tecnologia

Fernando perdeu a visão ainda na adolescência e teve o privilégio de estudar sociologia nos Estados Unidos. No Brasil, criou uma empresa que produz software de baixo custo para pessoas cegas, contribuindo para a inclusão digital e social destas pessoas.

fernando

Juliana Gonzalez: Ao ler artigos sobre acessibilidade e tecnologia, esbarrei no termo “desigualdade social no acesso à informação”. Isto é uma realidade no Brasil?

 Fernando Botelho: Existe sim uma consequência grande da maior dificuldade de acesso à informação, porque a informação é importantíssima hoje em dia em todo contexto, desde a educação até o trabalho e a vida social. No caso específico das pessoas com deficiência, os fatores que contribuem para a perpetuação desse sistema desigual é incluir com um menor nível educacional. Na média, pessoas com deficiência têm uma menor escolaridade e, como consequência, menor qualificação para os ambientes de trabalho e afeta o sucesso profissional do indivíduo.

 Juliana Gonzalez: Quais fatores você acredita que perpetuam a exclusão digital, principalmente nos âmbitos comunicacionais como no jornalismo?

Fernando Botelho:  Dificuldades em acessar a informação devido à falta de tecnologia apropriada como leitores de tela para pessoas cegas, dificuldades pelo design inapropriado de páginas web e outros meios de comunicação que criam barreiras ao acesso a toda informação disponível. Então, mesmo quando a pessoa tem um leitor de tela, muitas vezes esse leitor de tela não consegue ler a informação pela forma com que foi desenhado o site. A complexidade dessas tecnologias é um impedimento também para essas pessoas.

Juliana Gonzalez: Quais mudanças você acredita que precisam ser feitas para que exista uma igualdade nesse sentido?

Fernando Botelho: Existem muitas coisas que poderiam ser mudadas e melhoradas, mas o principal seria exigir a acessibilidade na forma com que os conteúdos são criados na internet. Não é financeiramente  oneroso fazer com que todos os sites sigam as regras de acessibilidade da W3C , mas isso cria um impacto grande, porque tanto os leitores de tela mais simples, quanto os leitores mais caros poderiam ler de forma eficiente as informações nas páginas WEB. Hoje isso ainda é um problema sério.

Juliana Gonzalez: Qual a importância das Tecnologias Assistivas neste cenário?

Fernando Botelho: Tecnologias Assistivas são essenciais, elas têm que estar disponíveis. É necessário que exista competição nesse mercado, que existam várias opções, que existam versões gratuitas para que o usuário possa escolher a que se encaixa melhor nas condições e necessidades da pessoa. O governo tem que incentivar, no sentido de exigir que quem produz e quem divulga a informação cumpra com requisitos mínimos de acessibilidade. Porque, a partir daí, o resto do trabalho de disponibilizar isso fica a cargo de quem elabora as Tecnologias Assistivas. Pelo menos uma base mínima de acessibilidade tem que existir na mídia. Nesse sentido, não estou falando só de quem é cego, mas com qualquer tipo deficiência.

Entrevista com Maurício Santana

fotoMauricio

Este mês o blog do MATAV Unesp publica a entrevista realizada com Maurício Santana, profissional da área de Publicidade e Rádio e TV, Diretor da empresa Iguale Comunicação de Acessibilidade. Na entrevista, Maurício conta um pouco de sua formação e carreira e nos relata os bastidores das tentativas de implantar acessibilidade nas salas de cinema brasileiras por meio do aplicativo Movie Reading.

MATAV: Conte um pouco de sua formação e de sua atuação profissional.

MAURÍCIO SANTANA: Sou da área de Comunicação. Formado em Publicidade, já atuei por muitos anos como monitor/técnico de laboratório de RTV do curso de Comunicação Social da UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba). Trabalhei em algumas emissoras de rádio e TV do interior de São Paulo e, posteriormente, atuei como docente da mesma universidade e também de outras instituições. Voltei pra São Paulo em 2007/2008 para o desafio de criar a Iguale e trabalhar com acessibilidade comunicacional.

MATAV- Quem criou o aplicativo Movie Reading e como e quando ele foi adotado no Brasil?

MAURÍCIO SANTANA- O MovieReading foi criado na Itália pela UMA (Universal Multimedia Access) e em 2014, depois de algumas negociações, nos tornamos representantes no Brasil e América do Sul. Fizemos muitos testes e somente em 2015 começamos a divulgar e publicar os primeiros títulos. Posteriormente, negociamos também a representação para o México e USA, mercados que ainda não iniciamos um trabalho efetivo e nem divulgação.

MATAV- Segundo a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (2015), sabemos que as salas de cinema brasileiras têm que oferecer três recursos de acessibilidade aos usuários com deficiência auditiva e visual: audiodescrição, legenda descritiva e libras. Qual a previsão de encontrarmos salas com os três recursos?

MAURÍCIO SANTANA- Não só a LBI, mas também a Instrução Normativa (IN) nº. 128, de 13 de setembro de 2016, regulamentam a oferta da acessibilidade pelas salas de exibição e a obrigatoriedade do distribuidor de filmes produzir os três recursos, e, portanto, acredito que realmente teremos esses três recursos sendo oferecidos. O problema é: quando?

 A Instrução Normativa da ANCINE já foi adiada uma vez e agora tem seu prazo para início em novembro de 2018, mas a LIBRAS ainda é um problema tecnológico a ser resolvido pelas empresas que querem ofertar comercialmente as tecnologias para os cinemas. A dificuldade é que, até novembro de 2017, data em que deveria ser iniciada a oferta de acessibilidade nas salas de cinema, apenas o MovieReading e mais outra tecnologia, também baseada em nuvem, estavam aptas a distribuir os três recursos. Porém, uma comissão da Digital Cinema Iniciative /Motion Pictures Association of America (DCI/MPAA), vinda dos USA, interferiu no processo brasileiro e sugeriu que os aplicativos não fossem adotados como tecnologia assistiva para esse fim, e que toda a distribuição de arquivos relacionados com o filme acontecesse apenas por meio do Digital Cinema Package (DCP).

Essa recomendação nos colocou fora da lista de possíveis fornecedores, mesmo sendo os únicos que poderiam imediatamente atender a Lei e incluir o público com deficiência, que já estava utilizando o MovieReading em algumas iniciativas pontuais, como o filme da Lara Pozzobom, por exemplo, “Mulheres no Poder”[1], que foi assistido com acessibilidade no país inteiro.

A proposta técnica desse grupo (DCI/MPAA), formado por representantes das Majors da indústria cinematográfica mundial, é de que se converta o arquivo de vídeo LIBRAS em um arquivo de áudio para ser inserido no DCP, já que este por formatação, só aceita um arquivo de vídeo que no caso é o próprio filme. Em seguida, um equipamento que deve ser instalado nas salas de cinema reconverta esse arquivo em vídeo para ser disponibilizado para o público.

Hoje, pelo menos que eu tenha conhecimento, existe em desenvolvimento/teste um equipamento de uma empresa do Sul, que tem a proposta de distribuir os recursos por meio de sinal de infravermelho dentro da sala, mas não sei como está esse processo de conversão.

Uma outra proposta absurda e desrespeitosa com o público é uma solução com a LIBRAS sendo realizada por AVATAR, ou seja, uma tradução produzida por um banco de dados. Na minha opinião, como se fosse a legenda do filme sendo feita pelo Google Tradutor, e lembremos que este já tem mais de 11 anos de desenvolvimento e não está nem perto de poder ser utilizado para esse fim.

MATAV- Quais são os maiores usuários do Movie Reading no Brasil?

MAURÍCIO SANTANA- Hoje temos cerca de seis mil downloads de conteúdos realizados e a audiodescrição tem sido o recurso mais procurado.

MATAV- Como vocês conseguem divulgar o aplicativo?

Maurício Santana- Estávamos com algumas estratégias sendo desenhadas para esse momento da implementação da acessibilidade nas salas de cinema, mas tivemos que abortar, como expliquei. Fizemos algumas ações em redes sociais, muitas demonstrações para distribuidores e produtores de filmes (todos ficaram bem impressionados com o MR) e também tivemos um stand na EXPOCOM 2016. Agora, estamos estudando um novo direcionamento para outras possibilidades, outras janelas de exibição, como festivais e mostras de cinema, Videos on Demand (VOD) e até a exibição em TVs (aberta e fechada), já que a potencialidade e eficácia do MovieReading, já foi testada e aprovada pelo público com deficiência.

MATAV: Os leitores interessados em saber mais sobre os projetos da Iguale Comunicação de Acessibilidade e detalhes sobre o Movie Reading podem acessar o site https://iguale.com.br/ ou https://iguale.com.br/moviereading/

[1]O filme  Mulheres no Poder pode ser visto com os recursos de acessibilidade do Movie Reading no Now.

Carnaval para todos: audiodescrição na Sapucaí 2018 Entrevista com Graciella Pozzobon

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Graciella Pozzobon é atriz, audiodescritora. Foi premiada como melhor atriz por sua atuação no documentário Cão Guia (1999).

O audiodescritor para descrever o Carnaval tem que ter mil olhos, porque ele tem que ver ao mesmo tempo muitas coisas (Graciella Pozzobon)

 

MATAV: Qual tipo de preparo ou treinamento que você e a equipe da Lavoro Produções fazem para audiodescrever o Carnaval no Rio de Janeiro?

Graciella: Um dois maiores desafios para nosso treinamento sempre é a questão do sigilo, as escolas de samba entregam muito pouco o jogo. E com isso a gente trabalha com o mesmo material que vai para as emissoras, as informações das escolas, do samba enredo, das alas, da estrutura da escola, o número de componentes etc. Nós não temos informação antecipada, as nossas contratações são feitas em cima da hora, dois ou três dias antes do evento.

Na primeira vez que fizemos a audiodescrição do carnaval do Rio de Janeiro, descrevemos todo o Sambódromo, a história da construção do local, da escultura do Niemeyer, fizemos uma descrição bem detalhada das arquibancadas e da estrutura física da passarela. Ou seja, a gente estuda os temas das escolas e os enredos. O carnaval tem uma questão muito subjetiva, a questão do nome da ala com a descrição dos detalhes ajuda muito a compreender o que está sendo passado naquele desfile. Temos que ir desvendando o que o carnavalesco quis dizer.

Para a preparação da AD do Carnaval em 2011, assistimos os DVDs dos desfiles dos anos anteriores e fomos treinando e ensaiando essa descrição. Foi uma coisa bastante engraçada, foi difícil fazer pela primeira vez, ainda mais na televisão.

No carnaval nós ficamos em uma cabine com visão privilegiada, isso ajuda muito a ver cada detalhe. Nós vemos a escola passar a dois metros de distância, é muito diferente de ver por uma tela, mas o treinamento com DVDS foi muito útil para nós entendermos a dificuldade que é descrever aquele imenso universo visual que é muito vasto e complexo de um desfile de escola de samba.

MATAV: Em 2018 houve algum desafio muito grande na AD do Carnaval da Sapucaí?

Graciella: Os desafios são constantes, pois é um espetáculo que tem muito imprevisto. Neste ano, no primeiro dia do desfile no Rio de Janeiro (domingo) estava um calor muito forte e muitas pessoas passaram mal desfilando.

E como a cabine de AD no Sambódromo fica na dispersão, na apoteose, a gente vê a escola chegando e finalizando o seu desfile. O que é muito bonito porque a gente vê a emoção dos componentes, a exaustão dos componentes e do pessoal que trabalha empurrando os carros. Vemos a emoção da diretoria toda ao vivo.

É um lugar muito legal, muito melhor, por exemplo, do que o início do desfile, onde está todo mundo certinho e tenso.

Enfim, neste ano muitas pessoas passaram mal e nós víamos os bombeiros, os componentes passando mal, sendo levados em cadeiras de rodas. Também apresentamos essas informações aos usuários. O audiodescritor para descrever o Carnaval tem que ter mil olhos, porque ele tem que ver ao mesmo tempo muitas coisas, por isso que trabalhamos em dupla porque um vai auxiliando o outro. Pois um vai auxiliando o outro e cada um vê uma coisa. Um pode ver o diretor da escola abraçado, chorando, por exemplo, e isso tudo também é descrito. Todas essas informações de bastidores, que é uma coisa muito incrível, a gente tem ali na nossa frente e na TV nós não temos esse tipo de informação. Só apresentam informações se há acidente ou um carro que quebra. Os imprevistos acontecem toda hora no evento ao vivo.

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MATAV: E sobre a emoção de trabalhar em um evento como este?

Graciella: É tão emocionante você estar na avenida, ouvir o samba, você fica envolvido naquela atmosfera do carnaval que por si só é muito arrepiante. O audiodescritor não precisa enfeitar ou trazer alguma carga de emoção pessoal porque o espetáculo sozinho já é muito poderoso. Mas é inevitável para o profissional trazer no tom da voz a emoção de ver aquelas coisas grandiosas e maravilhosas. A emoção não está exatamente na informação, ela está no tom do audiodescritor, por estar ali naquele lugar vendo ao vivo aquela informação visual tão mágica e tão incrível. Isso é o que eu acho que faz a audiodescrição ser tão empolgada, porque a gente não fica imune a esse impacto que o desfile causa.

MATAV: Vocês conseguem ter feedback dos usuários? Quais são?

Graciella: Conversamos praticamente com 100% das pessoas. Ficamos em um setor da prefeitura do Rio de Janeiro para pessoas com deficiência em geral: pessoas cadeirantes, cegas, surdas, com deficiências intelectuais variadas, dessa forma temos acesso a essas pessoas. Como é um trabalho de muitas horas, a gente chega por volta das 19h horas, o desfile começa às 21h e termina 6h da manhã, temos acesso a essas pessoas por muitas horas.

Nós sempre fazemos um registro em vídeo do trabalho de entrevistas com eles, para justamente ter esse retorno. Com isso nós conversamos de um a um, ao longo daquela noite toda, entrevistando e perguntando sobre a experiência com AD. Temos dois vídeos registrados, o de 2011 e o de 2016 (Youtube) e estamos acabando a edição do vídeo deste ano e são arrepiantes os depoimentos deles. Essas pessoas dizem: “Hoje eu vi”.

Há muitas pessoas cegas que são foliões, que vão à Sapucaí desde sempre e antes de ter a AD, eles ficavam apenas com o samba. Eu digo “apenas” porque comparado com a informação que eles têm com a AD é pouca coisa. Mas se formos pensar em termos gerais, é muito, porque o desfile é muito potente para quem está ali do lado.

É muito incrível você estar ali e ouvir a bateria passar. Ouvimos os depoimentos dessas pessoas que já iam à Sapucaí sem ter a experiência com a AD e passam a ter a descrição de todos os detalhes do início ao fim e percebemos como a AD é transformadora e maravilhosa para eles.