Entrevista com Bruno Fagundes

O Blog MATAV apresenta o último post da série de três sobre a Peça Tribos. Segue a entrevista realizada pela estudante de Jornalismo Ana Raquel Mangiili. Ana Raquel já publicou sua resenha no Blog MATAV com relatos interessantes sobre sua experiência de surda oralizada e espectadora teatral.

Entrevista com Bruno Fagundes

O ator interpreta o personagem Billy na peça Tribos

Entrevista: Ana Raquel Périco Mangili

Transcrição: Laiza Castanhari

Revisão: Profa. Dra. Lucinéa Marcelino Villela

 

Após se apresentar em Bauru, no dia 20 de fevereiro (veja a matéria sobre a peça aqui), Bruno Fagundes, da Equipe Tribos, concedeu uma entrevista exclusiva para o Blog MATAV e para a ADAP.

Além do protagonista da peça, conheci Maíra Dvorek (que interpreta a personagem Ruth), Guilherme Magon (Daniel) e Antonio Fagundes (Christopher). Todos os atores foram gentis e atenciosos, com destaque para o Bruno e a Maíra. Ambos relataram experiências e genuíno interesse pelas questões que envolvem o universo da surdez para além da peça de teatro em que atuam. Foi um enorme prazer conhecer a Equipe Tribos.

Confira, a seguir, a entrevista com Bruno Fagundes. O ator relata sua experiência com LIBRAS, seu contato com surdos sinalizados e oralizados, o que pensa a respeito da questão da Acessibilidade no Brasil e aborda vários outros temas.

 

Ana Raquel: Como você aprendeu LIBRAS? Houve dificuldades?

A jornalista Ana Raquel com Bruno Fagundes

A jornalista Ana Raquel com Bruno Fagundes

Bruno Fagundes: Eu achei difícil, porque os outros idiomas a gente tem um inconsciente que aprendemos ouvindo. Como o inglês, a gente ouve as músicas em inglês, então, conseguimos captar um pouco dos idiomas, porque a nossa cultura é uma cultura oral e auditiva, você vai se alimentando ao longo da vida com referência e com informação. A língua gestual é uma língua completamente diferente, é radicalmente diferente da nossa cultura, da minha cultura. Foi muito difícil fazer essa transposição de forma de expressão e passar para a expressão gestual, mas foi um processo muito interessante. Acho que a língua gestual tem muito a ver com o nosso trabalho de ator, porque é uma língua muito expressiva. Foi muito interessante para mim, como ator, interpretar uma língua falando e, de repente, passar para os sinais e voltar para o português. Foi um processo muito difícil, muito desafiador, mas que me deu muito prazer em conhecer essa língua, tão bonita e expressiva.

AR: Você pretende utilizar esse idioma em sua vida pessoal, mesmo após o fim da turnê?

BF: Eu tenho interesse, fiz amigos nesses processos, amigos oralizados, outros só usam sinais e a gente ficou amigo nesse processo de composição do personagem, eles me ajudaram muito. Eu os observei muito para ver o que gostaria de usar para o meu personagem e foi muito legal. Algo que coloquei na minha cabeça, quando eu tiver tempo: quero me voluntariar para dar aulas de teatro em LIBRAS. Quero me aprofundar mais na língua, que eu não sinalizo fluentemente, então quero aprender melhor para fazer uma espécie de aula, alguma coisa que tem a ver com a minha formação para oferecer para comunidade.

AR: Demorou mais ou menos quanto tempo para você aprender a LIBRAS?

BF: A gente teve muito pouco tempo de processo, foi um mês só de processo, mas eu não parava de fazer isso. Fiquei um mês todo assistindo vídeos e saindo com eles. Fui à manifestação no MASP, houve uma manifestação que tinha um monte surdos. Eu saía com eles para jantar. Fiz uma imersão total, porque quando você vai falar sobre uma deficiência é uma responsabilidade muito grande, afinal estamos retratando a vida de pessoas que têm a vida muito parecida com o que acontece com o personagem. Tive esse cuidado, essa responsabilidade de aprender o máximo possível e de fazer parecer o mais real possível.

AR: Vocês tiveram contato com surdos sinalizados antes de montar a peça? Se sim, poderiam me contar como foi a experiência?

BF: Não, antes de fazer eu não tinha nenhum. Estudei em um colégio não inclusivo, não conhecia nenhum deficiente auditivo antes de fazer esse personagem. Para mim foi um universo novo que conheci, foi uma porta que abri na minha vida que pretendo nunca mais fechar.

AR: Vocês já ouviram falar da comunidade dos Surdos Oralizados? E do Implante Coclear? Não pensaram em colocar esses elementos na peça Tribos também?

Maíra Dvorek e Ana Raquel

Maíra Dvorek e Ana Raquel

BF: Na verdade, a gente não foi atrás de uma peça que falasse sobre qualquer tema, não foi filantropia, não quisemos fazer uma peça social. A gente queria fazer primeiro uma peça de teatro voltada para ouvintes que fala sobre esse tema, mas que fala sobre outros temas também, por acaso. A peça trata também, na verdade, sobre a surdez de todos nós, sobre a incomunicabilidade da família, sobre o preconceito, sobre a intolerância, e que depois a gente foi percebendo a profundidade desse assunto e que, por acaso, falava mais sobre a descoberta dos sinais para eles do que outras coisas, mas, na verdade, a gente não buscou o tema focado ou em Implante Coclear ou em sinais. Buscamos uma peça. Encontrei essa peça fora do Brasil e achei um texto muito forte, muito interessante e que aborda o assunto de uma maneira que não é nem tendenciosa, nem piegas, não faz apologias para nenhum lado. Ela simplesmente pega um problema e explode, e acho que é um texto universal mesmo, que pode se colocar não só para deficientes auditivos, mas para negro, para um judeu, qualquer tipo de minoria. A peça não teve esse foco, esse objetivo de falar sobre um assunto, mas de falar sobre tudo. E o meu personagem usa aparelho auditivo.

AR: Qual a sua opinião sobre os projetos de lei para acessibilidade cultural no Brasil, especificamente nas áreas de LIBRAS, Audiodescrição, legendas e leitura labial?

BF: Eu acho que o Brasil está a passos lentos, acho que é um começo de uma busca acessível, mas eu percebi na nossa peça que nós somos umas das únicas companhias que faz acessibilidade com frequência, porque o que eu vejo mais são projetos que fazem peças já para comunidade surda, não que pega uma peça convencional e deixa acessível. Então, vejo mais esse movimento do que o que nós fizemos. A gente fez, durante um ano, uma vez por mês acessibilidade e a procura e a resposta do público e da comunidade surda foi imensa, muitas e muitas pessoas foram assistir.

Eu acho que é uma via de duas mãos. Quanto mais as pessoas começarem a oferecer acessibilidade, mais vocês vão conseguir assistir. Acredito que tem que partir de algum lado, e acho que esse lado tem que partir de nós (atores). Nós reconhecemos como um erro nosso não ter feito isso antes, mas a gente pretende corrigir esse erro e fazer em todas as nossas peças pelo menos uma sessão acessível por mês, duas sessões por mês, porque também é um custo muito elevado para nós.

Temos um custo, a gente não consegue trazer acessibilidade em turnê, mas em São Paulo havia tradução em LIBRAS simultânea, tinha legenda. Era um tablet que você prendia na cadeira, tinha legenda do espetáculo inteiro para surdos oralizados e tinha Audiodescrição para cegos. Foi uma coisa inédita no Brasil, acho que algumas companhias começaram a se espelhar na gente e, depois que a gente estreou, comecei a ver um movimento maior de acessibilidade na nossa área. Não sei se fomos nós que demos esse empurrão, que a gente ajudou, ou se foi um movimento que começou a surgir mesmo agora, mas acho que está a passos lentos, mas acho que está caminhando.

AR: Como funcionava o sistema de tablet usado nos espetáculos para a exibição de legendas?

BF: Na verdade, era um sistema que usava uma espécie de tablet, mas dentro dele tem um sistema que você não pode acessar mais nada. O usuário acessa direto à legenda e ele tinha um gancho que prendia na cadeira, era um sistema próprio que está no nosso texto lá. Tinha uma pessoa que, dentro desse sistema que desenvolveram, ele que dava as deixas, cada fala ele apertava para sincronizar. Tinha uma equipe, tinha dois funcionários para distribuir esses tablets pela plateia e para recolher depois e tinha um que ficava apertando o botão para fala ir simultânea com a peça. È uma estrutura muito grande.

Com certeza, isso já foi um avanço. Essa empresa chama-se Steno do Brasil, é uma empresa que é atuante em São Paulo e o dono dessa empresa é surdo oralizado, ele desenvolveu esse método de legendagem. A gente foi para Portugal com a peça e eu falei sobre isso lá e eles não conheciam. Na Europa, vejam só. O proprietário da produtora desenvolveu esse sistema e é um sistema quase revolucionário e excelente, era muito funcional, o público amava, era muito legal. Ele tinha um sistema de luz diferenciado que não atrapalhava quem tava do lado. Não pode ser um tablet com uma luz forte, tinha essa película que deixava a luz fosca. Eles estão desenvolvendo agora uma espécie de óculos que você coloca e a legenda fica aqui embaixo.

AR: Quais são seus próximos planos em relação ao Teatro?

Ana Raquel e Antonio Fagundes

Ana Raquel e Antonio Fagundes

BF: A gente já está há um ano e meio com essa peça, nós fizemos um ano em São Paulo, depois um mês em Portugal e agora nós começamos a viajar pelo Brasil. Fizemos seis cidades já. Se tudo der certo, até agosto vamos continuar viajando. Temos um longo chão aí, se Deus quiser a gente vai conseguir concluir esses quase dois anos de espetáculo, que é um feito no Brasil, é muito difícil conseguir uma peça que dê tão certo, o público realmente elegeu o nosso espetáculo, é muito bom. Estou muito feliz com esse projeto, que ele atinja tantas pessoas e que ele modifique a vida de outras, então para mim isso é muito gratificante.

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Entrevista exclusiva com elenco da peça “Tribos”

Bauru receberá no próximo dia 20 de fevereiro a peça Tribos. Um roteiro belíssimo da britânica Nina Raine que encantou Bruno Fagundes em 2012 quando assistiu a montagem em Nova York. Rapidamente os direitos foram adquiridos e a peça tem sido sucesso há quase um ano e meio com público de mais de 150 mil pessoas no Brasil e em Portugal.

A coordenadora do Blog MATAV (Mídia Acessível e Tradução Audiovisual) fez uma entrevista bastante esclarecedora com a Equipe Tribos. Abaixo leiam a sinopse da peça e a entrevista na íntegra.

peçatribos

Sinopse: Billy (Bruno Fagundes) nasceu surdo em uma família de ouvintes, liderada pelo pai Christopher (Antonio Fagundes) e pela mãe Beth (Eliete Cigarini), e completada pelos irmãos Daniel (Guilherme Magon) e Ruth (Maíra Dvorek). Ele foi criado dentro de um casulo ferozmente idiossincrático e politicamente incorreto. Adaptou-se brilhantemente às maneiras não convencionais de sua família, mas eles nunca se deram o trabalho de retribuir o favor. Finalmente, quando ele conhece Sylvia (Arieta Côrrea), uma jovem mulher prestes a ficar surda, Billy passa a entender realmente o que significa pertencer a algum lugar.

(fonte http://www.tribosnet.com/)

Lucinéa Villela: O excelente roteiro de Nina Raine trata de temáticas que englobam dificuldades nas relações familiares, preconceitos, aceitação das diferenças e inclusão. Poderíamos afirmar que não somente o personagem Billy é ignorado por sua família, mas que os outros membros dessa “Tribo” tão complexa não sabem como se comunicar e “ouvir” os sentimentos uns dos outros? Vocês acreditam que essa família representa toda sociedade contemporânea ou há uma caricatura necessária nas artes e ficção? Como descobriram o roteiro Tribes? Alguém do elenco teve a oportunidade de assistir a peça na Inglaterra ou nos EUA?

Equipe Tribos:  Acredito que toda forma de arte não deve ser casta. Deve trazer consigo um valor crítico e de certa forma, uma análise do nosso tempo: instigar-nos a rever nossas certezas. A família que Nina Raine expõe em “Tribos” é sem dúvida uma família bastante disfuncional. Ela carregou nas tintas exatamente para que ficasse evidente a surdez de cada um dos membros desta família. Desta forma, dividiu o tema em duas categorias: a surdez dos que são vítimas desta condição e a surdez dos que ouvem perfeitamente, mas ESCOLHEM não escutar. Acho que este é o cerne de toda a encenação. Não há nada mais contemporâneo do que a nossa “audição seletiva”. Ouvimos só o que nos é confortável e ignoramos o que nos é diferente. Ao longo do texto você percebe que o personagem que mais “escuta” ali dentro é exatamente o deficiente auditivo – ouvir é estar disponível para o outro.

Eu (Bruno Fagundes) fui para NY em setembro de 2012 e assisti à versão inglesa original de Tribes. Foi imediato: me apaixonei perdidamente pela discussão em cena, pelos personagens, pelas ideias lá expostas, me emocionei muito com esse novo universo, cheio de nuances, muito humor mas com bastante profundidade. Um ano depois estreamos em São Paulo. Agora somamos mais de 150 mil espectadores em 1 ano e 5 meses de temporada. E ainda não acabamos.

LV: Sabemos que o trabalho de vocês é primordialmente artístico e que o tema da deficiência auditiva não foi escolhido como uma agenda inclusiva. Contudo, arrisco dizer que para além da arte, esse trabalho provocou um caloroso debate sobre a inclusão dos surdos e ensurdecidos em suas famílias, escolas, ambientes de trabalho, enfim, na sociedade.  Vocês já tinham noção que haveria uma recepção tão grande e calorosa das pessoas com deficiência auditiva e de seus familiares? Eles foram relevantes para que houvesse uma turnê da peça?

Tribos: Exatamente, o que nos moveu a montar este texto foi, primordialmente, a possibilidade de bom teatro que a peça possui. Não sabíamos nada sobre surdez, acessibilidade, ferramentas, muito menos sobre a recepção do público. Fazer teatro é dar um tiro no escuro. Jogar para o mundo uma ideia e torcer para que alguém compartilhe com a mesma emoção. Sentimo-nos muito vitoriosos ao saber que não só nossa ideia foi aceita e compartilhada, como também ajudou muitas pessoas e abriu novas possibilidades de discussão sobre um assunto tão ‘morto’ no Brasil e tão necessário.

Nós somos uma cooperativa, ou seja, não recebemos nenhum financiamento do Estado ou do Governo, nem de nenhuma empresa. Dependemos única e exclusivamente do público. Portanto, sem dúvida, vimos na turnê uma oportunidade de ampliar mais ainda nossa vontade de se comunicar.

LV: Os recursos de libras e legendas foram imprescindíveis para a boa recepção das pessoas com deficiência auditiva do texto de Tribos. Vocês já haviam lançado mão desses recursos em outros trabalhos? Continuarão a usá-los em novas produções? Em Portugal houve um intérprete de línguas de sinais nativo?

Tribos: Novamente, não sabíamos nada sobre acessibilidade até começarmos os ensaios. Percebemos que seria um contrassenso falar sobre a surdez universal, sobre comunicação, compreensão, tolerância, preconceito, compaixão e, claro, sobre a deficiência auditiva e não incluí-los.  Começamos a nossa pesquisa sobre as melhores ferramentas de acessibilidade e depois de muitas tentativas – e muitos erros – chegamos à forma que coube no nosso bolso e foi ideal para nossa proposta. Além das legendas e intérpretes, durante 11 meses no TUCA (em São Paulo) fizemos audiodescrição para deficientes visuais.

Em Portugal conhecemos uma pessoa iluminada chamada Maria Helena Regencio Alves, uma militante da acessibilidade no país que nos ajudou desde nosso primeiro dia em terras lusitanas. Tínhamos duas intérpretes e tradutoras de Língua Gestual Portuguesa – Ana Sofia Fernandes e Paula Teixeira – e fizemos muitas sessões com audiodescrição da Suzana Suzarte. Foi maravilhoso.

Pretendemos estender nossa proposta acessível para todos os espetáculos que fizermos de agora em diante. Especialmente os que falam sobre outros temas, além da deficiência auditiva. Nosso erro foi não ter feito isso antes. Vamos corrigir essa falha.

LV: Eu pedi para ouvir a audiodescrição em uma das sessões no TUCA, mas na oportunidade, não havia pessoas com deficiência visual na plateia. Vocês receberam cegos ou pessoas com baixa visão em outras sessões?

Tribos: Sim. Mas, infelizmente a adesão não foi tão considerável, comparada à presença dos deficientes auditivos. Nossa maior dificuldade aqui no Brasil com sessões de audiodescrição foi chegar nesse público específico. Em Portugal fomos muito ajudados por diversas associações de acessibilidade. Nossa parte nós fizemos, ou tentamos fazer. Esse é mais um reflexo da má gestão brasileira, da falta de interesse político e baixo engajamento dos poderes públicos. Algumas pessoas responsáveis pelas principais associações brasileiras – que em tese deveriam usar “Tribos” como um case de acessibilidade, ou no mínimo uma grande oportunidade – nem assistiram à peça em São Paulo em quase um ano de temporada.

LV: Em 2013, em um dos debates que participei, perguntei a vocês se levariam a montagem para outras cidades, especificamente, Bauru. Na ocasião, o Antônio Fagundes respondeu que não haveria possibilidade, pois as dificuldades de deslocamento e custeios da montagem impediriam uma turnê. Felizmente o prognóstico de Fagundes não se cumpriu! Quais fatores favoreceram a turnê nacional e internacional da peça?

Tribos: Nenhum fator favorece! Hahaha! Somos malucos mesmo. Os custos quadriplicam em uma turnê, estamos viajando semanalmente mas contando sempre com um risco altíssimo que põe em cheque a vida do projeto. Em Portugal tivemos a parceria de uma grande produtora local que arriscou conosco, dividindo os custos. Deu certo. Mas foi uma loucura.  Aqui no Brasil não é diferente, mas também encontramos alguns parceiros pelo caminho. Agora cabe ao público de Bauru fazer sua parte indo nos prestigiar. Estaremos na cidade somente por um dia e contamos com a presença de todos, estamos fazendo isso por vocês, não por nós. Nossa sede por comunicação é insaciável.

LV: Por fim, temos um projeto de acessibilidade cultural no Brasil?

Tribos: Acredito que estamos a passos lentos, mas caminhando. Senti um movimento maior em relação à acessibilidade nesses últimos tempos, acho que ajudamos fazendo nossa parte. Espero que as companhias se motivem cada vez mais com essa possibilidade, mas para isso também é importante que o público frequente. Senão toda caminhada retrocede.

Serviço:

TEATRO MUNICIPAL DE BAURU
ENDEREÇO: AV. NAÇÕES UNIDAS – QUADRA 8 – N° 9 – VILA ANTARCTICA – BAURU
datas: 20 de fevereiro – sexta-feira
Sessões: 20h e 22h (sessões iniciam pontualmente, proibida entrada após o início)
Duração: 80 minutos

Classificação: 14
Ingressos:
meia: R$ 40,00 (estudantes, idosos e professores)
clientes Porto Seguro

40,00 (clientes + 1 acompanhante: R$ 40,00 cada)
Recorte Jornal da Cidade: R$ 50,00
Inteira: R$ 80,00
Pontos de Venda: (a partir de 09/02)
– My Gloss Acessórios (piso Térreo Bauru Shopping)
– Digol Sports (Boulevard Shopping Nações)
– Roth Store (Av Getúlio Vargas, 5-9)

Acessibilidade Sem Barreiras: Entrevista com Susana Godoy

Por Giovana Amorim/Edição e revisão: Lucinéa Villela

“A limitação e a deficiência são uma questão daquele ser humano, não são o ser humano.”

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Foto da 20ª Mostra Arte sem Barreiras + Festival Assim Vivemos

(Lucinéa Villela, Susana Godoy, Lara Pozzobom e Bell Machado)

No mês de outubro de 2014, ocorreu em Bauru a 20ª mostra de Arte Sem Barreiras + Festival Assim Vivemos que, apoiada pela Secretaria de Cultura, buscou promover a integração, disponibilização e debates sobre as ferramentas e recursos usados para melhorar a vivência diária e geral das pessoas com as mais variadas deficiências e estilos de vida .

Temos vivenciado no Brasil um constante crescimento nos debates e eventos sobre acessibilidade. Em 2014 foi criado o primeiro curso de Especialização em Audiodescriçãonaa Universidade Federal de Juiz de Fora, houve a primeira edição do evento TOM-SP e diversas outras atividades com a temática de acessibilidade.

Para compreendermos mais sobre eventos na área de acessibilidade, o Blog do MATAV entrevistou Susana Godoy, a agente cultural e diretora da divisão de ação cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Bauru. Ela nos relatou um pouco sobre os festivais, as parcerias e o mundo acessível que, infelizmente, ainda não é aquele em que vivemos; mesmo que só por enquanto. Confira abaixo!

MATAV: Você pode falar um pouco sobre a Mostra Arte sem Barreiras e o Festival Assim Vivemos? Como tudo isso chegou até Bauru?

Susana: A mostra Arte Sem Barreiras é um evento que a gente realiza há vinte anos ininterruptamente. É um evento que começou com realização da Very Special Arts, uma organização americana que está no Brasil desde a década de 70. Em Bauru, há vinte anos, aconteceu a primeira mostra de Arte sem Barreiras realizada por essa entidade que na época tinha como coordenador o Dorival Vieira. A Secretaria de Cultura foi parceira naquela ocasião.

Conforme foi crescendo a atividade, a Secretaria foi sendo corealizadora e, desde que entrou para o calendário oficial com a Lei Municipal de 2004, a mostra vem sendo uma realização da Secretaria de Cultura de Bauru. Infelizmente, a organização foi sofrendo uma desmobilização no país, pouquíssimas cidades ainda  realizam hoje esse evento.

Durante dois anos, o  Arte sem Barreiras esteve vinculado à Funarte, que tinha um edital especial para que artistas com deficiência pudessem participar, isso alavancou a questão profissional do Arte Sem Barreiras. Em 2013, tivemos um contato maior com a UNESP por meio da professora Lucinéa Villela, que participou conosco no Arte sem Barreiras/2013 e nos apresentou principalmente a audiodescrição. Na ocasião, passamos alguns curtas e outros materiais que possuiam acessibilidade.

Em 2014, convidamos a professora para a organização e curadoria da Mostra. A Lucinéa, já conhecedora do Festival Assim Vivemos propôs fazer o contato com a produtora Lara Pozzobon e trazer alguns filmes do festival para cá. Nós demos carta branca, deu certo fazer o contato e no fim agregamos um valor imenso à mostra, foi uma oportunidade fundamental para que a gente pudesse enriquecer a programação e tratar dessa ferramenta fantástica que é a audiodescrição.

 

MATAV: Na época de criação da Mostra, há vinte anos, o contexto era de rejeição da sociedade aos deficientes de qualquer tipo. Qual a diferença entre passado e presente nesse sentido?

 

Susana: A diferença é mesmo gritante. Ainda temos que caminhar muito, mas é muito diferente. Há vinte anos a pessoa com deficiência estava muito segregada. Hoje se fala muito de deficiência como uma limitação que se deve transpor, mas antigamente o deficiente era visto só pela sua limitação. Uma pessoa que devia ser segregada, que deveria estar num ambiente específico. Eu me lembro de quando morava em São Paulo, há muito tempo e passava em frente a AACD, uma instituição que considero de extrema importância, e pensava “ainda bem que tem pessoas que cuidam deles”. Eu não tive contato com deficientes quando criança, nem na escola nem em outros espaços. Elas realmente estavam segregadas. A diferença é que hoje eu vejo meus filhos na escola em contato com pessoas com diversas deficiências.

A convivência é essencial, e ao longo desse tempo as pessoas passaram a ter essa convivência. Os deficientes passaram a estar na escola, frequentar o mercado de trabalho, a ocupar cargos públicos, exigir políticas públicas. Passaram a pensar “se eu gosto de fazer essas coisas e posso fazê-las, porque não?”

A limitação e a deficiência são questões daquele ser humano, não são o ser humano. Uma área fundamental para essa mudança ao longo do tempo, que fez a sociedade olhar de outra forma para essa questão, foi a de esportes. Um grande exemplo que temos é o esportista Daniel Dias, sem dois braços e uma perna ele nada e quebra recordes, enquanto eu não sei nem nadar, nós questionamos o que é deficiência e o que é eficiência. Quem é o deficiente na verdade?

Nós não podemos limitar o ser humano a uma questão. Eu, por exemplo, não vejo bem e preciso usar óculos em determinados momentos; é o mesmo caso de quem utiliza uma prótese no braço ou na perna, ou que usa ferramentas como o recurso da audiodescrição ou do braile. Tivemos a oportunidade de ver o Thomas no Arte Sem Barreiras, ele ficou cego depois de levar uma pedrada nos olhos e é marceneiro. As pessoas diziam que ele ia se cortar em vez de ver como isso é bacana. Elas colocam a limitação em primeiro lugar.

Por isso é importante conviver e perceber que todos nós temos limitações, mas que a pessoa do lado também tem seus direitos. A convivência é aprender a respeitar o outro, a se integrar com ele. Por isso, a questão das entidades especificas é muito delicada e importante. Segregar em entidades é difícil, embora nas entidades possa haver um preparo maior para a sociedade. Ainda assim, a pessoa com deficiência será mais um ser humano no ambiente para agregar conhecimento, seja na escola, seja no trabalho, seja no ambiente público. Por isso, para mim, a convivência é fundamental.

MATAV: O que se pode dizer sobre os projetos criados na universidade pública a respeito da acessibilidade?

Susana: Eu estudei na Universidade de Bauru (UB) que depois foi encampada pela UNESP e já havia essa problemática que me preocupava como estudante e me preocupa ainda hoje. Acho que por ser uma universidade pública nós temos que ter essa relação com a sociedade. Mas não podemos fazer com que a sociedade seja apenas um objeto de estudo. Às vezes nós temos, não por má intenção talvez, propostas ótimas de projetos, projetos muito bonitos academicamente, que vão agregar muito ao cargo ou ao currículo, mas que na verdade não se sabe se é o que a sociedade quer.

Quando eu era estudante do curso de Relações Públicas, entrei na universidade querendo mudar o mundo. Mas as pessoas tinham muito preconceito. Nós tínhamos duas colegas de Ibitinga que foram bordadeiras e na época esse trabalho sofria muita exploração. Tivemos a ideia de criar o sindicato das bordadeiras. Achamos que de imediato as pessoas fossem amar: quatro estudantes salvadoras! Mas foi uma surpresa quando começamos a pesquisar e vimos que as pessoas não queriam um sindicato, diziam que não precisavam. Nós trabalhávamos com comunicação, tínhamos o público das bordadeiras, mas também os donos das fábricas. Ficamos um pouco tristes com a rejeição da nossa ideia, só que depois de muito choro nós entendemos que era muita pretensão da nossa parte fazer o projeto achando que ele era maravilhoso sem escutar o outro lado. Depois mudamos de tática e passamos a conversar com as bordadeiras e, no fim, o sindicato foi fundado, as meninas foram para Nova York apresentar o projeto e uma delas até presidiu o sindicato. Isso foi incrível para nós, porque nós conseguimos interferir na sociedade de modo que o projeto foi tomado e aceito por ela.

É isso que vejo da universidade. Ela tem que interferir, mas para criar. Nós temos que estar mais preocupados com essa questão: a universidade tem o poder da pesquisa, mas também o poder de transformar, dialogar com a sociedade. Essa sementinha que pode ser plantada pelo meio acadêmico e da pesquisa vale mais do que qualquer título ou cargo possíveis.

 

As vozes Tagarellas da Audiodescrição

Todo dia quero ser os olhos de alguém. (Mimi Arágon)

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As tagarellas Kemi Oshiro, Marcia Caspary e Mimi Arágon (da esq. para a dir.) na 32ª Feira Regional do Livro de Novo Hamburgo.

Entrevista de Giovana Amorim

Revisão: Lucinéa Villela

Entre os vários e interessantes projetos sobre comunicação e acessibilidade, principalmente no que se refere ao recurso da audiodescrição, a empresa Tagarellas é uma referência em qualidade e profissionalismo no Brasil. A fundação porto alegrense foi inicialmente criada apenas para realizar produções sem utilizar do recurso de acessibilidade

Os sócios da Tagarellas Audiodescrição são produtores, jornalistas, redatores, atores, narradores, roteiristas e, acima de tudo, audiodescritores. Apaixonados pelos trabalhos que fazem e pelos seus produtos não se contentam apenas com o meio digital ou com a área cinematográfica: já audiodescreveram vídeo, danças, foto e até casamentos; participam de Feiras do Livro e com frequência participam como audiodescritores de lançamentos de filmes no Festival de Cinema de Gramados.

Levando a cultura acessível até o público em geral, a Tagarellas se coloca à disposição para fazer do mundo um espaço menos discriminador e segregador. Mimi Arágon, 43 anos, publicitária, roteirista, audiodescritora e sócia da Tagarellas deu uma entrevista para o Blog do MATAV sobre o início, os meios e os fins do seu trabalho e da sua equipe.

 

Giovana Amorim (colaboradora do Blog MATAV): Em primeiro lugar, parabéns pelo projeto. Conhecendo essa área há tão pouco tempo, eu já recebi bastante informação por meio do trabalho de vocês e isso me ajudou em muitas dúvidas. Queria que vocês falassem um pouco sobre o surgimento e consolidação da Tagarellas.

Mimi: Eu conheci o recurso [da audiodescrição] em 2010. Fiz um curso com a Lívia Mota, de São Paulo, que veio a Porto Alegre para ministrá-lo. No curso estava comigo a Márcia Caspary, dona da Tagarellas Produções que ainda não fazia audiodescrição. Depois desse curso, nós nos apaixonamos perdidamente pelo recurso e montamos um grupo de estudos.

Na época ainda não havia um curso de formação em audiodescrição como lá em Juiz de Fora, então, nós fazíamos cursos de carga horária reduzida, 40 horas por semana, e nos virávamos para estudar. Tínhamos reuniões uma vez por semana para pesquisar mais sobre as diretrizes do recurso, como era feita a audiodescrição no Brasil e nos outros países. Nós propusemos fazer algumas coisas e aí a gente fez um videoclipe com audiodescrição da Luiza Caspary.

A partir desse grupo de estudo, a gente começou a receber muita demanda de trabalho e percebemos que tínhamos uma empresa; tinha pessoal, tinha mão de obra e tinha trabalho. E então começamos a trabalhar: eu, a Márcia, a Mariana Baierle e o Felipe Mianes.

A gente já tinha a empresa da Márcia com o nome Tagarellas, passamos a usá-lo e pegou. Depois conhecemos a Kemi e formamos o time que temos de cinco sócios.

MATAV: Olhando no Blog de vocês, percebi que ministram e ministraram várias vezes cursos e oficinas sobre acessibilidade e audiodescrição. Quando surgiu a idéia de expandir a atuação para algo mais aberto a toda sociedade?

Mimi: Na verdade essa é uma demanda que surgiu porque as pessoas têm muita curiosidade sobre o recurso que é novo, no mundo existe há 35 anos e no Brasil há 15 anos. É uma novidade e desperta curiosidade, ainda mais quando passou a ter obrigatoriedade na TV, a partir de 2008. Isso deu bastante visibilidade para o assunto. As pessoas perguntam muito o que é. Nossos cursos são de sensibilização e não de formação. Eles oferecem uma introdução ao assunto. Nós recebemos sempre muitos pedidos para que façamos esses eventos e esclarecemos o que é o recurso. Embora a gente não tenha se programado para ministrar cursos, nós também fazemos porque é nossa missão de multiplicar o conhecimento, a gente precisa fazer isso para espalhar por aí. É o compromisso que temos em divulgar o conhecimento sobre a audiodescrição.

MATAV: Como é a receptividade do público? Existe um tipo de público específico que participa mais ativamente desses cursos ou vocês têm variedade?

Mimi: Não, esse público na verdade passa sempre por renovação. No ano passado e neste ano (2014) nós fizemos aqui em Porto Alegre uma oficina na Feira do Livro. No ano passado (2013) tinha muita gente de muitas áreas e que chegou à oficina desconhecendo o recurso. As pessoas foram chegando por curiosidade, perguntando o que era aquilo e dizendo que tinham ouvido falar, mas não sabiam o que era. Este ano foi diferente, o público que recebemos na oficina foi para aprofundar o que já sabiam um pouco. Era gente que já trabalhava com acessibilidade de livros, libras e outros recursos, pessoas que foram para aprofundar um pouquinho mais sua noção sobre produto cultural acessível. A gente vê que aos poucos esse nosso papel de multiplicação do conhecimento tem funcionado, ou seja, o público tem se renovado e se especializado. É um público que sempre se renova e se especializa.

 

MATAV: A Tagarellas realiza também muitos eventos: já participaram de exposições, conferências e até espetáculos de dança. Qual a importância das parcerias que vocês fazem ao longo do projeto?

Mimi: Para Tagarellas e para mim pessoalmente, da maneira como eu vejo a questão da acessibilidade principalmente no Brasil, é fundamental ter parcerias. Eu acho que o nosso mercado nem está constituído, a audiodescrição e a acessibilidade são tão novas no Brasil que a gente precisa andar junto. Se a gente não andar junto, não vamos conseguir constituir esse mercado. Se a gente não for parceiro e se abraçar, não vamos conseguir construir a acessibilidade e não vamos conseguir avançar com os conceitos, práticas e políticas que precisamos. É uma das nossas bandeiras na Tagarellas. A gente acha que se não andarmos juntos, construirmos juntos, nós não vamos avançar.

Eu não acredito na questão da competição. Existem algumas poucas empresas que acham que nós somos concorrentes, mas eu não acredito que tenhamos concorrentes no mercado e, sim, aliados. Eu gostaria que todos trabalhassem sob essa lógica, mas já somos felizes de ver que a maioria não acredita na competição.

Tivemos uma experiência muito, muito bacana neste ano de 2014 que foi o filme A Despedida. Fizemos seu roteiro de audiodescrição para o Festival de Cinema de Gramado. O diretor Marcelo Galvão já é parceiro desde que fizemos a audiodescrição do seu filme Colegas em 2012.

Daí quando aconteceu a história do movie reading, que é um aplicativo da Iguale, aí de São Paulo (do Maurício Santana), o Marcelo insistiu para que nosso roteiro fosse usado pelo aplicativo. O Maurício me ligou um dia falando que o nosso roteiro estava muito bom e disse que queria passar o filme em São Paulo com o ele. Realmente o filme foi gravado com o nosso roteiro e isso foi uma prova de que a gente pode andar junto, e é assim que a gente vai construir a acessibilidade.

MATAV: Como a mídia ajuda na área de audiodescrição? Vocês sentem uma abertura grande ou até crescentenos veículos de comunicação para a pauta da acessibilidade?

Mimi: Olha, a gente tá caminhando, é um trabalho de formiguinha. Temos que trabalhar todo dia. A acessibilidade ainda é relativamente desconhecida. Quando começamos a trabalhar forte com a Tagarellas, a gente optou por divulgar bastante nosso trabalho, usar redes sociais, manter nosso blog atualizado e estabelecer relações bacanas com jornalistas e com a mídia. Porque é preciso que as pessoas conheçam o recurso, a gente precisa divulgá-lo, o público alvo às vezes não conhece o recurso, a gente precisa o tempo inteiro divulgar. E a gente precisa manter aliados, como a mídia, um aliado que todo mundo sabe que é forte e poderoso.

Quando fazemos uma divulgação do nosso trabalho e vamos atrás de um jornal, da TV, a gente não está fazendo uma propaganda da Tagarellas. Estamos divulgando o recurso, a audiodescrição, a iniciativa, um pensamento político.

Existe uma questão muito importante: os deficientes, historicamente, sempre foram discriminados e excluídos. Se a gente não fizer barulho por causa dos recursos acessíveis, essas pessoas vão continuar ilhadas. Também temos que procurar a parceria da mídia, mas procuramos nos manter atualizados. Quando vamos fazer um evento nós avisamos as pessoas por e-mail, mandamos mensagem, ligamos. É importante isso, saber que as pessoas receberam a informação. É difícil tirar as pessoas de casa, ainda mais em Porto Alegre, uma cidade inacessível, de difícil circulação, que não está preparada para receber as pessoas. A gente tem um trabalho muito cuidadoso, boca a boca, corpo a corpo. Não é a divulgação do trabalho da Tagarellas e, sim, do recurso acessível.

 

MATAV: Vocês já produziram audiodescrição de curtas e longas, como por exemplo, o filme Colegas, de Marcelo Galvão, mas também já fizeram audiodescrição de espetáculos de dança. Como é se aventurar por tantos modos de produção e quais são as grandes dores e delícias do processo? 

Mimi: É sempre um desafio para gente. É uma revolução. Na Tagarellas eu trabalho com produção e roteiro, eu sou roteirista, que é meu grande barato, igual às artes cênicas. Eu adoro ficar pulando de galho em galho. Adoro fazer roteiro para teatro, dança, circo e artes visuais. Quando eu comecei a fazer audiodescrição me incomodava que pessoas iguais a mim não pudessem ir ao teatro como eu, que vou desde pequenininha. Eu acho que do ponto de vista do público, quanto mais a gente puder oferecer produtos variados, melhor. Quanto mais a gente puder oferecer livro acessível, teatro acessível, filme acessível, fotografia acessível, oficina de artes e xilogravura como fizemos em Porto Alegre, enfim, quanto mais a gente variar o cardápio de produtos acessíveis, melhor. Do ponto de vista do desafio profissional, eu quero fazer tudo. Costumamos dizer nas oficinas que não existe nada que não pode ser audiodescrito. Tudo o que pode ser visto pode ser audiodescrito. E a gente quer fazer tudo. No início deste ano, nós audiodescrevemos um casamento aqui no interior do Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina. E estávamos muito inspirados pela experiência da Lívia, que não só foi nossa professora como nossa grande incentivadora. Ela é nossa “mãezona”. A gente já fez audiodescrição até de concurso de miss. Nós queremos fazer tudo! Eu sou uma super empolgada. A gente fica empolgado, queremos inventar muita coisa, queremos abrir os olhos das pessoas por aí. A gente quer fazer acontecer!

 

MATAV: Algumas exibições de trabalhos das Tagarellas foram feitas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Visto que a universidade no todo é um lugar de jovens, gerador e transformador de pensamento e comportamento, qual o papel desse espaço junto às questões da acessibilidade? Vocês acham que a educação superior brasileira hoje é receptiva a esse assunto?

 Mimi: Eu acho que a universidade é fundamental para a acessibilidade, é o grande balão de ensaio para a pesquisa, o desenvolvimento. Na verdade, a audiodescrição nasceu de uma dissertação de mestrado, de uma pesquisa nos Estados Unidos e se desenvolveu muito nesse meio. No Brasil, a audiodescrição está muito vinculada à pesquisa acadêmica. Eu sou formada em propaganda e não sou nada acadêmica, nada mesmo, mas busco muito ler e pesquisar, dependo muito da produção acadêmica, só não tenho perfil de pesquisadora. De qualquer maneira, o trabalho na academia é de fundamental importância para o desenvolvimento do recurso.

De quatro anos para cá, quando eu comecei a estudar a audiodescrição, foi impressionante ver que o número que trabalhos acadêmicos sobre a acessibilidade e audiodescrição aumentou muito de tamanho no Brasil. E isso engrandece muito nosso trabalho aqui fora. “Aqui fora” significa para gente que está no mercado trabalhando com isso, enfim. A gente tem que andar junto, como eu falei no começo da entrevista.

Essa construção da questão da acessibilidade e da audiodescrição inclui os profissionais da audiodescrição, o público, o poder público, os pesquisadores, a academia. Então, quando eu falo no coletivo, é todo mundo. Nós e vocês da academia. Se não andarmos juntos, não vamos avançar. A gente só avançou o que avançou até agora por causa, em grande parte, da pesquisa. A gente precisa muito dos estudos, por isso o que está acontecendo em Juiz de Fora é de uma riqueza impressionante (Curso de Especialização em Audiodescrição, Universidade Federal de Juiz de Fora). Tive a oportunidade de estar lá como ouvinte. E foi muito especial ver que quando a gente começou não tivemos a mesma oportunidade desses alunos em Juiz de Fora, pois eles têm todos esses professores que são, na verdade, pioneiros da audiodescrição do Brasil reunidos e sistematizando conhecimento.

Quando eu comecei, eu tive que fazer sozinha. A Lívia facilitou bastante, mas tive que ir fazer contatos e aprendendo por minha conta. A turma de Juiz de Fora está tendo uma oportunidade incrível de ter aula com os melhores professores, dentro de uma Universidade Federal com um conhecimento bem sistematizado que só o ambiente da academia proporciona. Então é muito rico, é muito importante, a gente precisa mesmo andar todo mundo junto para conseguir avançar. É no que eu acredito, pelo menos até agora.

MATAV: A comunicação é importante para o funcionamento do mundo talvez desde quando ele foi criado e é acessada por nós todos os dias. O ativismo pela acessibilidade de vocês nos faz lembrar que ainda conhecemos muito pouco sobre ela. Como o ativismo pela acessibilidade influencia o dia a dia de vocês?

Mimi: Isso é grandioso de falar. No meu primeiro dia de aula com a Lívia eu não me dava conta de como a limitação de um sentido realmente limita o acesso à informação. Quando eu me dei conta, percebi como é importante e simples descrever uma imagem para alguém e como isso, sendo tão simples e tão básico, muda a vida das pessoas, transforma sua realidade. Tem essa história que eu sempre conto e canso as pessoas [risos], enfim, eu tenho pouco mais de 20 anos de propaganda e sempre trabalhei com criação. Sou redatora. Na verdade era, fico feliz em dizer que sou cada vez mais audiodescritora do que redatora. Quando eu conheci a audiodescrição, eu já estava insatisfeita com meu trabalho, com a propaganda, cansada de vender sabão em pó ou apartamento, aquilo não me dizia mais nada.

Nem meus melhores anúncios fizeram com que alguém agradecesse pelo meu trabalho, não fizeram diferença na vida de alguém. Com a audiodescrição todo dia chega alguém para agradecer e dizer que meu trabalho fez a diferença. É para isso que eu trabalho 16 horas por dia e estudo tanto. Não é por vaidade, é por acreditar que podemos fazer a vida de alguém mais bonita. Sou muito mais feliz por saber disso. Todo dia quero ser os olhos de alguém. Ser ativista da acessibilidade é acreditar que a gente pode fazer a diferença na vida das pessoas.

(confira o blog das tagarellas https://tagasblog.wordpress.com/)

 

Maicon Milanezi entrevista a tradutora Scheila Gomes

Por: Maicon Milanezi

Sheila Gomes, tradutora com 18 anos de experiência, especializada em localização de softwares e jogos e membro da ABRATES e da ATA, apresentou em sua entrevista para Maicon Milanezi, colaborador do Blog MATAV UNESP, um pouco sobre esse ofício que tem como objetivo adaptar culturalmente o texto em relação ao público alvo, adaptando de gírias, referências populares, até nomes de cidades e artistas. Ela também apresentou opiniões sobre o fazer tradutório nos dias de hoje e de sua importância como canal de acesso de pessoas que não dominam a língua estrangeira ao conteúdo de um o texto, produto ou empresa.    

 

Maicon: Em sua opinião, qual a maior mudança ocorrida no processo tradutório no decorrer do tempo? A contribuição da internet e dos softwares de memória alterou seu resultado final? Positiva ou negativamente?

Sheila Gomes: Comecei a traduzir nos anos 90, antes ainda do surgimento e da evolução da internet como meio de acesso e extensão de conhecimento que temos hoje, e acredito que essa foi a maior mudança. Com tantas fontes de informação e conteúdo disponibilizadas hoje, além dos vários programas de auxílio à tradução, tive que buscar qualificação tecnológica (o que fiz pela própria Internet) e ser uma pesquisadora mais criteriosa. Não vejo essas mudanças como boas ou más, mas como evolução do mercado e do próprio mundo do trabalho. As ferramentas podem oferecer um grande auxílio, se soubermos usá-las a nosso favor.

Maicon: Qual é o papel da tradução como intermediadora entre diversas culturas?

Sheila Gomes: A necessidade de comunicar-se de maneira clara e compreensível com povos em condições diversas de proficiência linguística mesmo em seu idioma nativo, o que dirá em idiomas estrangeiros, torna a tradução essencial para divulgar e vender produtos de maneira eficaz, comunicar ideias e fazer pontes entre povos, além de diminuir o isolamento que muitas vezes subjuga certas sociedades a costumes já extintos em outras culturas. E ainda que outros aspectos das culturas agora em contato com o restante do mundo também sejam afetados de maneiras não tão positivas, também há cada vez mais iniciativas de resgatar aspectos comprometidos por essa evolução, como a história e produção cultural.

Maicon: A tradução é uma forma de dar acesso a um texto para pessoas que não o compreende em sua língua original. Quais cuidados você — e qualquer outro tradutor — deve tomar para fazer com que esse leitor tenha a mesma experiência ao lê-lo?

Scheila Gomes: Trabalho com localização. Como a própria noção de localização surgiu da necessidade de adequar textos aos usos do idioma da cultura alvo, há esse cuidado em oferecer ao leitor a mesma experiência que os leitores no idioma de origem têm. Assim, há vários aspectos a levar em conta, desde normas ortográficas, costumes e outras regras de nomenclatura específicas da área do texto, até atentar para termos que não são encontrados na cultura alvo, considerados inadequados ou que possam ser interpretados de maneira diferente da intenção original.

Maicon: Como funciona o processo de localização?

Scheila Gomes: Localização é o processo de tradução cujo objetivo é adaptar culturalmente o texto em relação ao público alvo, tanto em relação às normas ortográficas (moeda, métricas, etc.) do país em questão quanto aos aspectos do uso do idioma em si: adaptação de gírias, referências populares, até nomes de cidades e artistas, por exemplo. É usada principalmente em websites e jogos, trazendo o texto/produto/empresa o mais próximo possível da realidade e do público local. Às vezes os textos vêm entremeados de comandos de programação, o que exige que o tradutor conheça um mínimo de sua sintaxe para reconhecer o que deve ser mantido igual ao original e não comprometer a integridade do programa.

Maicon: Com a difusão de cursos de idiomas, surgiram muitos diletantes e “críticos” de tradução, que pouco sabem do fazer tradutório, mas que sempre querem impor o que acham certo. Isso dificulta o trabalho do tradutor, pois o coloca como “traidor” do texto?

Scheila Gomes: As melhores traduções são aquelas em que o tradutor não “aparece” no produto final do seu trabalho, ou seja, o texto final deve parecer que foi escrito originalmente no idioma em que é lido. Mas essa “invisibilidade” acaba estendendo-se ao próprio tradutor e agindo contra nós, pois muito pouco é conhecido publicamente sobre as práticas da profissão. Algumas dificuldades criadas por essa situação são: a exigência de traduções “palatáveis” em detrimento das corretas (uma exigência de mercado, com a intenção de popularizar produtos e ideias) e o descrédito do profissional pela falta de clareza sobre os limites, exigências e condições de seu trabalho. São fatores que poderiam ser tratados com uma representação melhor dos tradutores na mídia e pela associatividade, o que poderia trazer uma compreensão melhor do seu trabalho ao público geral.

Maicon: O tradutor deve focar no público alvo de seu texto, suas exigências e expectativas, ou manter sua atenção ao que o texto base exige dele?

Scheila Gomes: Vejo o tradutor como uma ponte, que deve estabelecer uma conexão clara entre o autor e o leitor do texto. Assim, é necessário que o tradutor compreenda exatamente a intenção do autor com o texto, para tentar mantê-la na tradução, mas também leve o leitor em conta, adaptando as situações postas pelo texto original que só poderiam recriar a intenção original se forem expressas de forma talvez diversa da literalidade.

Maicon: Para finalizar, você acha que o fazer tradutório ainda tem muito a se desenvolver? Em quais aspectos?

Scheila Gomes: Sim, acredito que ainda temos muito a desenvolver, pois ainda vejo uma tendência em analisar a profissão e suas práticas por conceitos anacrônicos, que não levam em conta as condições postas pela evolução dos meios de criação e divulgação do conhecimento e da comunicação de maneira geral. Há iniciativas de uso das novas tecnologias para ampliar o alcance do trabalho do tradutor, mas creio que é preciso desenvolver uma comunicação mais ampla dentro do meio, entre os profissionais, estudantes e com o público leitor de tradução.

 

Acesse o blog no qual Sheila fala sobre a tradução e seus “nós”: https://tradutoraingport.wordpress.com/