Entrevista com Fernando Botelho

Criador da organização F123, Fernando trabalha em função da inclusão dos deficientes visuais por meio da tecnologia

Fernando perdeu a visão ainda na adolescência e teve o privilégio de estudar sociologia nos Estados Unidos. No Brasil, criou uma empresa que produz software de baixo custo para pessoas cegas, contribuindo para a inclusão digital e social destas pessoas.

fernando

Juliana Gonzalez: Ao ler artigos sobre acessibilidade e tecnologia, esbarrei no termo “desigualdade social no acesso à informação”. Isto é uma realidade no Brasil?

 Fernando Botelho: Existe sim uma consequência grande da maior dificuldade de acesso à informação, porque a informação é importantíssima hoje em dia em todo contexto, desde a educação até o trabalho e a vida social. No caso específico das pessoas com deficiência, os fatores que contribuem para a perpetuação desse sistema desigual é incluir com um menor nível educacional. Na média, pessoas com deficiência têm uma menor escolaridade e, como consequência, menor qualificação para os ambientes de trabalho e afeta o sucesso profissional do indivíduo.

 Juliana Gonzalez: Quais fatores você acredita que perpetuam a exclusão digital, principalmente nos âmbitos comunicacionais como no jornalismo?

Fernando Botelho:  Dificuldades em acessar a informação devido à falta de tecnologia apropriada como leitores de tela para pessoas cegas, dificuldades pelo design inapropriado de páginas web e outros meios de comunicação que criam barreiras ao acesso a toda informação disponível. Então, mesmo quando a pessoa tem um leitor de tela, muitas vezes esse leitor de tela não consegue ler a informação pela forma com que foi desenhado o site. A complexidade dessas tecnologias é um impedimento também para essas pessoas.

Juliana Gonzalez: Quais mudanças você acredita que precisam ser feitas para que exista uma igualdade nesse sentido?

Fernando Botelho: Existem muitas coisas que poderiam ser mudadas e melhoradas, mas o principal seria exigir a acessibilidade na forma com que os conteúdos são criados na internet. Não é financeiramente  oneroso fazer com que todos os sites sigam as regras de acessibilidade da W3C , mas isso cria um impacto grande, porque tanto os leitores de tela mais simples, quanto os leitores mais caros poderiam ler de forma eficiente as informações nas páginas WEB. Hoje isso ainda é um problema sério.

Juliana Gonzalez: Qual a importância das Tecnologias Assistivas neste cenário?

Fernando Botelho: Tecnologias Assistivas são essenciais, elas têm que estar disponíveis. É necessário que exista competição nesse mercado, que existam várias opções, que existam versões gratuitas para que o usuário possa escolher a que se encaixa melhor nas condições e necessidades da pessoa. O governo tem que incentivar, no sentido de exigir que quem produz e quem divulga a informação cumpra com requisitos mínimos de acessibilidade. Porque, a partir daí, o resto do trabalho de disponibilizar isso fica a cargo de quem elabora as Tecnologias Assistivas. Pelo menos uma base mínima de acessibilidade tem que existir na mídia. Nesse sentido, não estou falando só de quem é cego, mas com qualquer tipo deficiência.

Anúncios

Entrevista com Maurício Santana

fotoMauricio

Este mês o blog do MATAV Unesp publica a entrevista realizada com Maurício Santana, profissional da área de Publicidade e Rádio e TV, Diretor da empresa Iguale Comunicação de Acessibilidade. Na entrevista, Maurício conta um pouco de sua formação e carreira e nos relata os bastidores das tentativas de implantar acessibilidade nas salas de cinema brasileiras por meio do aplicativo Movie Reading.

MATAV: Conte um pouco de sua formação e de sua atuação profissional.

MAURÍCIO SANTANA: Sou da área de Comunicação. Formado em Publicidade, já atuei por muitos anos como monitor/técnico de laboratório de RTV do curso de Comunicação Social da UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba). Trabalhei em algumas emissoras de rádio e TV do interior de São Paulo e, posteriormente, atuei como docente da mesma universidade e também de outras instituições. Voltei pra São Paulo em 2007/2008 para o desafio de criar a Iguale e trabalhar com acessibilidade comunicacional.

MATAV- Quem criou o aplicativo Movie Reading e como e quando ele foi adotado no Brasil?

MAURÍCIO SANTANA- O MovieReading foi criado na Itália pela UMA (Universal Multimedia Access) e em 2014, depois de algumas negociações, nos tornamos representantes no Brasil e América do Sul. Fizemos muitos testes e somente em 2015 começamos a divulgar e publicar os primeiros títulos. Posteriormente, negociamos também a representação para o México e USA, mercados que ainda não iniciamos um trabalho efetivo e nem divulgação.

MATAV- Segundo a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (2015), sabemos que as salas de cinema brasileiras têm que oferecer três recursos de acessibilidade aos usuários com deficiência auditiva e visual: audiodescrição, legenda descritiva e libras. Qual a previsão de encontrarmos salas com os três recursos?

MAURÍCIO SANTANA- Não só a LBI, mas também a Instrução Normativa (IN) nº. 128, de 13 de setembro de 2016, regulamentam a oferta da acessibilidade pelas salas de exibição e a obrigatoriedade do distribuidor de filmes produzir os três recursos, e, portanto, acredito que realmente teremos esses três recursos sendo oferecidos. O problema é: quando?

 A Instrução Normativa da ANCINE já foi adiada uma vez e agora tem seu prazo para início em novembro de 2018, mas a LIBRAS ainda é um problema tecnológico a ser resolvido pelas empresas que querem ofertar comercialmente as tecnologias para os cinemas. A dificuldade é que, até novembro de 2017, data em que deveria ser iniciada a oferta de acessibilidade nas salas de cinema, apenas o MovieReading e mais outra tecnologia, também baseada em nuvem, estavam aptas a distribuir os três recursos. Porém, uma comissão da Digital Cinema Iniciative /Motion Pictures Association of America (DCI/MPAA), vinda dos USA, interferiu no processo brasileiro e sugeriu que os aplicativos não fossem adotados como tecnologia assistiva para esse fim, e que toda a distribuição de arquivos relacionados com o filme acontecesse apenas por meio do Digital Cinema Package (DCP).

Essa recomendação nos colocou fora da lista de possíveis fornecedores, mesmo sendo os únicos que poderiam imediatamente atender a Lei e incluir o público com deficiência, que já estava utilizando o MovieReading em algumas iniciativas pontuais, como o filme da Lara Pozzobom, por exemplo, “Mulheres no Poder”[1], que foi assistido com acessibilidade no país inteiro.

A proposta técnica desse grupo (DCI/MPAA), formado por representantes das Majors da indústria cinematográfica mundial, é de que se converta o arquivo de vídeo LIBRAS em um arquivo de áudio para ser inserido no DCP, já que este por formatação, só aceita um arquivo de vídeo que no caso é o próprio filme. Em seguida, um equipamento que deve ser instalado nas salas de cinema reconverta esse arquivo em vídeo para ser disponibilizado para o público.

Hoje, pelo menos que eu tenha conhecimento, existe em desenvolvimento/teste um equipamento de uma empresa do Sul, que tem a proposta de distribuir os recursos por meio de sinal de infravermelho dentro da sala, mas não sei como está esse processo de conversão.

Uma outra proposta absurda e desrespeitosa com o público é uma solução com a LIBRAS sendo realizada por AVATAR, ou seja, uma tradução produzida por um banco de dados. Na minha opinião, como se fosse a legenda do filme sendo feita pelo Google Tradutor, e lembremos que este já tem mais de 11 anos de desenvolvimento e não está nem perto de poder ser utilizado para esse fim.

MATAV- Quais são os maiores usuários do Movie Reading no Brasil?

MAURÍCIO SANTANA- Hoje temos cerca de seis mil downloads de conteúdos realizados e a audiodescrição tem sido o recurso mais procurado.

MATAV- Como vocês conseguem divulgar o aplicativo?

Maurício Santana- Estávamos com algumas estratégias sendo desenhadas para esse momento da implementação da acessibilidade nas salas de cinema, mas tivemos que abortar, como expliquei. Fizemos algumas ações em redes sociais, muitas demonstrações para distribuidores e produtores de filmes (todos ficaram bem impressionados com o MR) e também tivemos um stand na EXPOCOM 2016. Agora, estamos estudando um novo direcionamento para outras possibilidades, outras janelas de exibição, como festivais e mostras de cinema, Videos on Demand (VOD) e até a exibição em TVs (aberta e fechada), já que a potencialidade e eficácia do MovieReading, já foi testada e aprovada pelo público com deficiência.

MATAV: Os leitores interessados em saber mais sobre os projetos da Iguale Comunicação de Acessibilidade e detalhes sobre o Movie Reading podem acessar o site https://iguale.com.br/ ou https://iguale.com.br/moviereading/

[1]O filme  Mulheres no Poder pode ser visto com os recursos de acessibilidade do Movie Reading no Now.

Carnaval para todos: audiodescrição na Sapucaí 2018 Entrevista com Graciella Pozzobon

gracie2

 

Graciella Pozzobon é atriz, audiodescritora. Foi premiada como melhor atriz por sua atuação no documentário Cão Guia (1999).

O audiodescritor para descrever o Carnaval tem que ter mil olhos, porque ele tem que ver ao mesmo tempo muitas coisas (Graciella Pozzobon)

 

MATAV: Qual tipo de preparo ou treinamento que você e a equipe da Lavoro Produções fazem para audiodescrever o Carnaval no Rio de Janeiro?

Graciella: Um dois maiores desafios para nosso treinamento sempre é a questão do sigilo, as escolas de samba entregam muito pouco o jogo. E com isso a gente trabalha com o mesmo material que vai para as emissoras, as informações das escolas, do samba enredo, das alas, da estrutura da escola, o número de componentes etc. Nós não temos informação antecipada, as nossas contratações são feitas em cima da hora, dois ou três dias antes do evento.

Na primeira vez que fizemos a audiodescrição do carnaval do Rio de Janeiro, descrevemos todo o Sambódromo, a história da construção do local, da escultura do Niemeyer, fizemos uma descrição bem detalhada das arquibancadas e da estrutura física da passarela. Ou seja, a gente estuda os temas das escolas e os enredos. O carnaval tem uma questão muito subjetiva, a questão do nome da ala com a descrição dos detalhes ajuda muito a compreender o que está sendo passado naquele desfile. Temos que ir desvendando o que o carnavalesco quis dizer.

Para a preparação da AD do Carnaval em 2011, assistimos os DVDs dos desfiles dos anos anteriores e fomos treinando e ensaiando essa descrição. Foi uma coisa bastante engraçada, foi difícil fazer pela primeira vez, ainda mais na televisão.

No carnaval nós ficamos em uma cabine com visão privilegiada, isso ajuda muito a ver cada detalhe. Nós vemos a escola passar a dois metros de distância, é muito diferente de ver por uma tela, mas o treinamento com DVDS foi muito útil para nós entendermos a dificuldade que é descrever aquele imenso universo visual que é muito vasto e complexo de um desfile de escola de samba.

MATAV: Em 2018 houve algum desafio muito grande na AD do Carnaval da Sapucaí?

Graciella: Os desafios são constantes, pois é um espetáculo que tem muito imprevisto. Neste ano, no primeiro dia do desfile no Rio de Janeiro (domingo) estava um calor muito forte e muitas pessoas passaram mal desfilando.

E como a cabine de AD no Sambódromo fica na dispersão, na apoteose, a gente vê a escola chegando e finalizando o seu desfile. O que é muito bonito porque a gente vê a emoção dos componentes, a exaustão dos componentes e do pessoal que trabalha empurrando os carros. Vemos a emoção da diretoria toda ao vivo.

É um lugar muito legal, muito melhor, por exemplo, do que o início do desfile, onde está todo mundo certinho e tenso.

Enfim, neste ano muitas pessoas passaram mal e nós víamos os bombeiros, os componentes passando mal, sendo levados em cadeiras de rodas. Também apresentamos essas informações aos usuários. O audiodescritor para descrever o Carnaval tem que ter mil olhos, porque ele tem que ver ao mesmo tempo muitas coisas, por isso que trabalhamos em dupla porque um vai auxiliando o outro. Pois um vai auxiliando o outro e cada um vê uma coisa. Um pode ver o diretor da escola abraçado, chorando, por exemplo, e isso tudo também é descrito. Todas essas informações de bastidores, que é uma coisa muito incrível, a gente tem ali na nossa frente e na TV nós não temos esse tipo de informação. Só apresentam informações se há acidente ou um carro que quebra. Os imprevistos acontecem toda hora no evento ao vivo.

sambodromo5

MATAV: E sobre a emoção de trabalhar em um evento como este?

Graciella: É tão emocionante você estar na avenida, ouvir o samba, você fica envolvido naquela atmosfera do carnaval que por si só é muito arrepiante. O audiodescritor não precisa enfeitar ou trazer alguma carga de emoção pessoal porque o espetáculo sozinho já é muito poderoso. Mas é inevitável para o profissional trazer no tom da voz a emoção de ver aquelas coisas grandiosas e maravilhosas. A emoção não está exatamente na informação, ela está no tom do audiodescritor, por estar ali naquele lugar vendo ao vivo aquela informação visual tão mágica e tão incrível. Isso é o que eu acho que faz a audiodescrição ser tão empolgada, porque a gente não fica imune a esse impacto que o desfile causa.

MATAV: Vocês conseguem ter feedback dos usuários? Quais são?

Graciella: Conversamos praticamente com 100% das pessoas. Ficamos em um setor da prefeitura do Rio de Janeiro para pessoas com deficiência em geral: pessoas cadeirantes, cegas, surdas, com deficiências intelectuais variadas, dessa forma temos acesso a essas pessoas. Como é um trabalho de muitas horas, a gente chega por volta das 19h horas, o desfile começa às 21h e termina 6h da manhã, temos acesso a essas pessoas por muitas horas.

Nós sempre fazemos um registro em vídeo do trabalho de entrevistas com eles, para justamente ter esse retorno. Com isso nós conversamos de um a um, ao longo daquela noite toda, entrevistando e perguntando sobre a experiência com AD. Temos dois vídeos registrados, o de 2011 e o de 2016 (Youtube) e estamos acabando a edição do vídeo deste ano e são arrepiantes os depoimentos deles. Essas pessoas dizem: “Hoje eu vi”.

Há muitas pessoas cegas que são foliões, que vão à Sapucaí desde sempre e antes de ter a AD, eles ficavam apenas com o samba. Eu digo “apenas” porque comparado com a informação que eles têm com a AD é pouca coisa. Mas se formos pensar em termos gerais, é muito, porque o desfile é muito potente para quem está ali do lado.

É muito incrível você estar ali e ouvir a bateria passar. Ouvimos os depoimentos dessas pessoas que já iam à Sapucaí sem ter a experiência com a AD e passam a ter a descrição de todos os detalhes do início ao fim e percebemos como a AD é transformadora e maravilhosa para eles.

 

Carnaval para todos: audiodescrição na Sapucaí 2018 Entrevista com Lara Pozzobon

O carnaval do Rio de Janeiro é considerado um dos maiores eventos ao vivo do mundo. Uma grande festa que deve oferecer a toda e qualquer pessoa a possibilidade de ser inserida e incluída sem nenhuma barreira seja arquitetônica, de comunicação ou sensorial. Apresentaremos aqui no Blog duas entrevistas feitas pelo grupo MATAV com as profissionais da Lavoro Produções, equipe que realiza desde 2011 a audiodescrição (AD) ao vivo do Carnaval da Sapucaí.

 

lara-pozzobon-c3a9-responsc3a1vel-pelo-festival-assim-vivemos-e-o-projeto-teatro-acessc3advel

Lara Pozzobon é Doutora em Literatura Comparada (Literatura e Cinema) e produtora de cinema. A proprietária da Lavoro Produções é considerada pioneira e especialista em produção de eventos acessíveis, trouxe ao Brasil o Festival Assim Vivemos (Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência), primeiro festival brasileiro que ofereceu três recursos de acessibilidade sensorial em suas sessões (audiodescrição, legendagem para surdos e ensurdecidos e LIBRAS).

MATAV: Há quanto tempo a Lavoro Produções está envolvida com a AD do Carnaval no Rio de Janeiro?

Lara: A Lavoro Produções está envolvida com as audiodescrições no Carnaval do Rio de Janeiro desde 2011. A primeira vez que realizamos AD foi em 2011, depois em 2016 e este ano (2018) conseguimos novamente ser contratados para o serviço. Destaco que houve várias tentativas de aprovação da AD em todos os outros anos, mas não houve sucesso no diálogo com a equipe da RIOTUR.

 

MATAV: Quais os maiores desafios de fazer a AD dos desfiles de carnaval?

Lara: Há dois desafios: Reunir as informações e articulá-las com a descrição propriamente dita do que o audiodescritor está vendo. Ter a equipe escolhida para fazer esse trabalho, pessoas com conhecimento amplo de cultura e de elementos cênicos de Carnaval.

O maior desafio na primeira vez foi dar conta da quantidade enorme de informações que vem simbolizada em cada escola, em cada carro alegórico, em cada ala e em cada fantasia. Existe toda uma simbolização e quem assiste apenas a escola e não leu sobre o assunto ou não assistiu os comentaristas falando, não percebe e fica assistindo sem entender bem. Só pelo samba a gente não compreende todas as fantasias.

O mais difícil foi reunir todas as informações antes do desfile, porque boa parte das informações é sigilosa, são liberadas um dia antes ou no próprio dia do desfile. Depois que passa aquele momento do sigilo, a RIOTUR distribui para todos uma publicação com o resumo de todos os detalhes das escolas. Se a gente só descrevesse o que estivéssemos vendo, sem usar esse recurso não daríamos às pessoas com deficiência visual condições de igualdade para com os demais foliões que estão lendo o informativo. Então nós usamos as informações contidas nele para intercalar essas informações de simbolizações, de nomes das pessoas ou de algum outro detalhe histórico relacionado, que seja relevante para incrementar a descrição pura e simples do que estamos vendo passar na frente da cabine de AD. A gente usa as informações mais organizadas e sistematizadas para alinhavar com a descrição pura da imagem.

Outro desafio é fazer uma escalação apropriada para o gênero da audiodescrição. Escalar uma equipe que já tenha conhecimento ou capacidade de compreender rapidamente e saber identificar o que é mais relevante naquela imagem para fazer este trabalho.

Na minha equipe eu tenho dois carnavalescos, pessoas que amam o carnaval, que tem blocos e são atores. São pessoas que chegam com um entendimento da festa que é muito valiosa.

Na nossa equipe todos os audiodescritores são atores e geralmente entendem muito de figurinos, de tecido, de texturas, de elementos cenográficos, de todo o tipo de objetos cênicos e conhecem também muito a cultura brasileira, porque circulam na área, estudam e já têm o conhecimento. Aqui no Rio de Janeiro escolhemos atores-audiodescritores que já tivessem conhecimento de Carnaval, de personalidades, de pessoas conhecidas. Devem conhecer as celebridades, as personalidades ou a velha guarda de cada escola, as pessoas que estão passando ali na frente da cabine de AD.

 

sambodromo2

MATAV: Este ano quantos usuários foram pedir para ouvir a AD?

Lara: Nas três ocasiões em que fizemos AD, os ingressos foram distribuídos com aproximadamente 30 ou até 60 dias de antecedência do Carnaval e não se sabia se haveria AD. Eles são distribuídos antecipadamente para instituições de pessoas com deficiência das mais variadas. Como mencionei, a RIOTUR só nos contrata em cima da hora, com dois ou três dias de antecedência, infelizmente. Ou seja, a presença das pessoas com deficiências visual no Setor 13 não tem relação nenhuma com ter ou não ter divulgação da AD. Eu sempre digo que seria bom que isto seja decidido desde antes. De qualquer maneira, em 2018 tivemos um público de 20 a 30 pessoas em todas as noites que fizemos o trabalho.

MATAV: O que é necessário para que eventos como o Carnaval sempre tenham acessibilidade com qualidade e profissionalismo?

Lara: É importante que a sociedade em geral, o poder público e a mídia saibam que a AD é um direito do cidadão, como outros direitos que todo cidadão tem. A acessibilidade com qualidade e profissionalismo abarca várias questões, desde as licitações que nem sempre garantem a qualidade dos profissionais envolvidos e até questões peculiares do Brasil.

Seria interessante se as pessoas tivessem acesso ao hall de profissionais que já possuem experiência na área e sabem fazer de forma eficaz a AD. Valeria a pena conversar com profissionais experientes e não tão experientes de forma aberta para troca de informações. Em países desenvolvidos como o Japão, situações emergenciais são tratadas rapidamente sem a demora que envolve licitações e a burocracia que faz com que ações como a AD só sejam inseridas de última hora em eventos como o Carnaval.

 

 

Entrevista com Bruno Fagundes

O Blog MATAV apresenta o último post da série de três sobre a Peça Tribos. Segue a entrevista realizada pela estudante de Jornalismo Ana Raquel Mangiili. Ana Raquel já publicou sua resenha no Blog MATAV com relatos interessantes sobre sua experiência de surda oralizada e espectadora teatral.

Entrevista com Bruno Fagundes

O ator interpreta o personagem Billy na peça Tribos

Entrevista: Ana Raquel Périco Mangili

Transcrição: Laiza Castanhari

Revisão: Profa. Dra. Lucinéa Marcelino Villela

 

Após se apresentar em Bauru, no dia 20 de fevereiro (veja a matéria sobre a peça aqui), Bruno Fagundes, da Equipe Tribos, concedeu uma entrevista exclusiva para o Blog MATAV e para a ADAP.

Além do protagonista da peça, conheci Maíra Dvorek (que interpreta a personagem Ruth), Guilherme Magon (Daniel) e Antonio Fagundes (Christopher). Todos os atores foram gentis e atenciosos, com destaque para o Bruno e a Maíra. Ambos relataram experiências e genuíno interesse pelas questões que envolvem o universo da surdez para além da peça de teatro em que atuam. Foi um enorme prazer conhecer a Equipe Tribos.

Confira, a seguir, a entrevista com Bruno Fagundes. O ator relata sua experiência com LIBRAS, seu contato com surdos sinalizados e oralizados, o que pensa a respeito da questão da Acessibilidade no Brasil e aborda vários outros temas.

 

Ana Raquel: Como você aprendeu LIBRAS? Houve dificuldades?

A jornalista Ana Raquel com Bruno Fagundes

A jornalista Ana Raquel com Bruno Fagundes

Bruno Fagundes: Eu achei difícil, porque os outros idiomas a gente tem um inconsciente que aprendemos ouvindo. Como o inglês, a gente ouve as músicas em inglês, então, conseguimos captar um pouco dos idiomas, porque a nossa cultura é uma cultura oral e auditiva, você vai se alimentando ao longo da vida com referência e com informação. A língua gestual é uma língua completamente diferente, é radicalmente diferente da nossa cultura, da minha cultura. Foi muito difícil fazer essa transposição de forma de expressão e passar para a expressão gestual, mas foi um processo muito interessante. Acho que a língua gestual tem muito a ver com o nosso trabalho de ator, porque é uma língua muito expressiva. Foi muito interessante para mim, como ator, interpretar uma língua falando e, de repente, passar para os sinais e voltar para o português. Foi um processo muito difícil, muito desafiador, mas que me deu muito prazer em conhecer essa língua, tão bonita e expressiva.

AR: Você pretende utilizar esse idioma em sua vida pessoal, mesmo após o fim da turnê?

BF: Eu tenho interesse, fiz amigos nesses processos, amigos oralizados, outros só usam sinais e a gente ficou amigo nesse processo de composição do personagem, eles me ajudaram muito. Eu os observei muito para ver o que gostaria de usar para o meu personagem e foi muito legal. Algo que coloquei na minha cabeça, quando eu tiver tempo: quero me voluntariar para dar aulas de teatro em LIBRAS. Quero me aprofundar mais na língua, que eu não sinalizo fluentemente, então quero aprender melhor para fazer uma espécie de aula, alguma coisa que tem a ver com a minha formação para oferecer para comunidade.

AR: Demorou mais ou menos quanto tempo para você aprender a LIBRAS?

BF: A gente teve muito pouco tempo de processo, foi um mês só de processo, mas eu não parava de fazer isso. Fiquei um mês todo assistindo vídeos e saindo com eles. Fui à manifestação no MASP, houve uma manifestação que tinha um monte surdos. Eu saía com eles para jantar. Fiz uma imersão total, porque quando você vai falar sobre uma deficiência é uma responsabilidade muito grande, afinal estamos retratando a vida de pessoas que têm a vida muito parecida com o que acontece com o personagem. Tive esse cuidado, essa responsabilidade de aprender o máximo possível e de fazer parecer o mais real possível.

AR: Vocês tiveram contato com surdos sinalizados antes de montar a peça? Se sim, poderiam me contar como foi a experiência?

BF: Não, antes de fazer eu não tinha nenhum. Estudei em um colégio não inclusivo, não conhecia nenhum deficiente auditivo antes de fazer esse personagem. Para mim foi um universo novo que conheci, foi uma porta que abri na minha vida que pretendo nunca mais fechar.

AR: Vocês já ouviram falar da comunidade dos Surdos Oralizados? E do Implante Coclear? Não pensaram em colocar esses elementos na peça Tribos também?

Maíra Dvorek e Ana Raquel

Maíra Dvorek e Ana Raquel

BF: Na verdade, a gente não foi atrás de uma peça que falasse sobre qualquer tema, não foi filantropia, não quisemos fazer uma peça social. A gente queria fazer primeiro uma peça de teatro voltada para ouvintes que fala sobre esse tema, mas que fala sobre outros temas também, por acaso. A peça trata também, na verdade, sobre a surdez de todos nós, sobre a incomunicabilidade da família, sobre o preconceito, sobre a intolerância, e que depois a gente foi percebendo a profundidade desse assunto e que, por acaso, falava mais sobre a descoberta dos sinais para eles do que outras coisas, mas, na verdade, a gente não buscou o tema focado ou em Implante Coclear ou em sinais. Buscamos uma peça. Encontrei essa peça fora do Brasil e achei um texto muito forte, muito interessante e que aborda o assunto de uma maneira que não é nem tendenciosa, nem piegas, não faz apologias para nenhum lado. Ela simplesmente pega um problema e explode, e acho que é um texto universal mesmo, que pode se colocar não só para deficientes auditivos, mas para negro, para um judeu, qualquer tipo de minoria. A peça não teve esse foco, esse objetivo de falar sobre um assunto, mas de falar sobre tudo. E o meu personagem usa aparelho auditivo.

AR: Qual a sua opinião sobre os projetos de lei para acessibilidade cultural no Brasil, especificamente nas áreas de LIBRAS, Audiodescrição, legendas e leitura labial?

BF: Eu acho que o Brasil está a passos lentos, acho que é um começo de uma busca acessível, mas eu percebi na nossa peça que nós somos umas das únicas companhias que faz acessibilidade com frequência, porque o que eu vejo mais são projetos que fazem peças já para comunidade surda, não que pega uma peça convencional e deixa acessível. Então, vejo mais esse movimento do que o que nós fizemos. A gente fez, durante um ano, uma vez por mês acessibilidade e a procura e a resposta do público e da comunidade surda foi imensa, muitas e muitas pessoas foram assistir.

Eu acho que é uma via de duas mãos. Quanto mais as pessoas começarem a oferecer acessibilidade, mais vocês vão conseguir assistir. Acredito que tem que partir de algum lado, e acho que esse lado tem que partir de nós (atores). Nós reconhecemos como um erro nosso não ter feito isso antes, mas a gente pretende corrigir esse erro e fazer em todas as nossas peças pelo menos uma sessão acessível por mês, duas sessões por mês, porque também é um custo muito elevado para nós.

Temos um custo, a gente não consegue trazer acessibilidade em turnê, mas em São Paulo havia tradução em LIBRAS simultânea, tinha legenda. Era um tablet que você prendia na cadeira, tinha legenda do espetáculo inteiro para surdos oralizados e tinha Audiodescrição para cegos. Foi uma coisa inédita no Brasil, acho que algumas companhias começaram a se espelhar na gente e, depois que a gente estreou, comecei a ver um movimento maior de acessibilidade na nossa área. Não sei se fomos nós que demos esse empurrão, que a gente ajudou, ou se foi um movimento que começou a surgir mesmo agora, mas acho que está a passos lentos, mas acho que está caminhando.

AR: Como funcionava o sistema de tablet usado nos espetáculos para a exibição de legendas?

BF: Na verdade, era um sistema que usava uma espécie de tablet, mas dentro dele tem um sistema que você não pode acessar mais nada. O usuário acessa direto à legenda e ele tinha um gancho que prendia na cadeira, era um sistema próprio que está no nosso texto lá. Tinha uma pessoa que, dentro desse sistema que desenvolveram, ele que dava as deixas, cada fala ele apertava para sincronizar. Tinha uma equipe, tinha dois funcionários para distribuir esses tablets pela plateia e para recolher depois e tinha um que ficava apertando o botão para fala ir simultânea com a peça. È uma estrutura muito grande.

Com certeza, isso já foi um avanço. Essa empresa chama-se Steno do Brasil, é uma empresa que é atuante em São Paulo e o dono dessa empresa é surdo oralizado, ele desenvolveu esse método de legendagem. A gente foi para Portugal com a peça e eu falei sobre isso lá e eles não conheciam. Na Europa, vejam só. O proprietário da produtora desenvolveu esse sistema e é um sistema quase revolucionário e excelente, era muito funcional, o público amava, era muito legal. Ele tinha um sistema de luz diferenciado que não atrapalhava quem tava do lado. Não pode ser um tablet com uma luz forte, tinha essa película que deixava a luz fosca. Eles estão desenvolvendo agora uma espécie de óculos que você coloca e a legenda fica aqui embaixo.

AR: Quais são seus próximos planos em relação ao Teatro?

Ana Raquel e Antonio Fagundes

Ana Raquel e Antonio Fagundes

BF: A gente já está há um ano e meio com essa peça, nós fizemos um ano em São Paulo, depois um mês em Portugal e agora nós começamos a viajar pelo Brasil. Fizemos seis cidades já. Se tudo der certo, até agosto vamos continuar viajando. Temos um longo chão aí, se Deus quiser a gente vai conseguir concluir esses quase dois anos de espetáculo, que é um feito no Brasil, é muito difícil conseguir uma peça que dê tão certo, o público realmente elegeu o nosso espetáculo, é muito bom. Estou muito feliz com esse projeto, que ele atinja tantas pessoas e que ele modifique a vida de outras, então para mim isso é muito gratificante.

Entrevista exclusiva com elenco da peça “Tribos”

Bauru receberá no próximo dia 20 de fevereiro a peça Tribos. Um roteiro belíssimo da britânica Nina Raine que encantou Bruno Fagundes em 2012 quando assistiu a montagem em Nova York. Rapidamente os direitos foram adquiridos e a peça tem sido sucesso há quase um ano e meio com público de mais de 150 mil pessoas no Brasil e em Portugal.

A coordenadora do Blog MATAV (Mídia Acessível e Tradução Audiovisual) fez uma entrevista bastante esclarecedora com a Equipe Tribos. Abaixo leiam a sinopse da peça e a entrevista na íntegra.

peçatribos

Sinopse: Billy (Bruno Fagundes) nasceu surdo em uma família de ouvintes, liderada pelo pai Christopher (Antonio Fagundes) e pela mãe Beth (Eliete Cigarini), e completada pelos irmãos Daniel (Guilherme Magon) e Ruth (Maíra Dvorek). Ele foi criado dentro de um casulo ferozmente idiossincrático e politicamente incorreto. Adaptou-se brilhantemente às maneiras não convencionais de sua família, mas eles nunca se deram o trabalho de retribuir o favor. Finalmente, quando ele conhece Sylvia (Arieta Côrrea), uma jovem mulher prestes a ficar surda, Billy passa a entender realmente o que significa pertencer a algum lugar.

(fonte http://www.tribosnet.com/)

Lucinéa Villela: O excelente roteiro de Nina Raine trata de temáticas que englobam dificuldades nas relações familiares, preconceitos, aceitação das diferenças e inclusão. Poderíamos afirmar que não somente o personagem Billy é ignorado por sua família, mas que os outros membros dessa “Tribo” tão complexa não sabem como se comunicar e “ouvir” os sentimentos uns dos outros? Vocês acreditam que essa família representa toda sociedade contemporânea ou há uma caricatura necessária nas artes e ficção? Como descobriram o roteiro Tribes? Alguém do elenco teve a oportunidade de assistir a peça na Inglaterra ou nos EUA?

Equipe Tribos:  Acredito que toda forma de arte não deve ser casta. Deve trazer consigo um valor crítico e de certa forma, uma análise do nosso tempo: instigar-nos a rever nossas certezas. A família que Nina Raine expõe em “Tribos” é sem dúvida uma família bastante disfuncional. Ela carregou nas tintas exatamente para que ficasse evidente a surdez de cada um dos membros desta família. Desta forma, dividiu o tema em duas categorias: a surdez dos que são vítimas desta condição e a surdez dos que ouvem perfeitamente, mas ESCOLHEM não escutar. Acho que este é o cerne de toda a encenação. Não há nada mais contemporâneo do que a nossa “audição seletiva”. Ouvimos só o que nos é confortável e ignoramos o que nos é diferente. Ao longo do texto você percebe que o personagem que mais “escuta” ali dentro é exatamente o deficiente auditivo – ouvir é estar disponível para o outro.

Eu (Bruno Fagundes) fui para NY em setembro de 2012 e assisti à versão inglesa original de Tribes. Foi imediato: me apaixonei perdidamente pela discussão em cena, pelos personagens, pelas ideias lá expostas, me emocionei muito com esse novo universo, cheio de nuances, muito humor mas com bastante profundidade. Um ano depois estreamos em São Paulo. Agora somamos mais de 150 mil espectadores em 1 ano e 5 meses de temporada. E ainda não acabamos.

LV: Sabemos que o trabalho de vocês é primordialmente artístico e que o tema da deficiência auditiva não foi escolhido como uma agenda inclusiva. Contudo, arrisco dizer que para além da arte, esse trabalho provocou um caloroso debate sobre a inclusão dos surdos e ensurdecidos em suas famílias, escolas, ambientes de trabalho, enfim, na sociedade.  Vocês já tinham noção que haveria uma recepção tão grande e calorosa das pessoas com deficiência auditiva e de seus familiares? Eles foram relevantes para que houvesse uma turnê da peça?

Tribos: Exatamente, o que nos moveu a montar este texto foi, primordialmente, a possibilidade de bom teatro que a peça possui. Não sabíamos nada sobre surdez, acessibilidade, ferramentas, muito menos sobre a recepção do público. Fazer teatro é dar um tiro no escuro. Jogar para o mundo uma ideia e torcer para que alguém compartilhe com a mesma emoção. Sentimo-nos muito vitoriosos ao saber que não só nossa ideia foi aceita e compartilhada, como também ajudou muitas pessoas e abriu novas possibilidades de discussão sobre um assunto tão ‘morto’ no Brasil e tão necessário.

Nós somos uma cooperativa, ou seja, não recebemos nenhum financiamento do Estado ou do Governo, nem de nenhuma empresa. Dependemos única e exclusivamente do público. Portanto, sem dúvida, vimos na turnê uma oportunidade de ampliar mais ainda nossa vontade de se comunicar.

LV: Os recursos de libras e legendas foram imprescindíveis para a boa recepção das pessoas com deficiência auditiva do texto de Tribos. Vocês já haviam lançado mão desses recursos em outros trabalhos? Continuarão a usá-los em novas produções? Em Portugal houve um intérprete de línguas de sinais nativo?

Tribos: Novamente, não sabíamos nada sobre acessibilidade até começarmos os ensaios. Percebemos que seria um contrassenso falar sobre a surdez universal, sobre comunicação, compreensão, tolerância, preconceito, compaixão e, claro, sobre a deficiência auditiva e não incluí-los.  Começamos a nossa pesquisa sobre as melhores ferramentas de acessibilidade e depois de muitas tentativas – e muitos erros – chegamos à forma que coube no nosso bolso e foi ideal para nossa proposta. Além das legendas e intérpretes, durante 11 meses no TUCA (em São Paulo) fizemos audiodescrição para deficientes visuais.

Em Portugal conhecemos uma pessoa iluminada chamada Maria Helena Regencio Alves, uma militante da acessibilidade no país que nos ajudou desde nosso primeiro dia em terras lusitanas. Tínhamos duas intérpretes e tradutoras de Língua Gestual Portuguesa – Ana Sofia Fernandes e Paula Teixeira – e fizemos muitas sessões com audiodescrição da Suzana Suzarte. Foi maravilhoso.

Pretendemos estender nossa proposta acessível para todos os espetáculos que fizermos de agora em diante. Especialmente os que falam sobre outros temas, além da deficiência auditiva. Nosso erro foi não ter feito isso antes. Vamos corrigir essa falha.

LV: Eu pedi para ouvir a audiodescrição em uma das sessões no TUCA, mas na oportunidade, não havia pessoas com deficiência visual na plateia. Vocês receberam cegos ou pessoas com baixa visão em outras sessões?

Tribos: Sim. Mas, infelizmente a adesão não foi tão considerável, comparada à presença dos deficientes auditivos. Nossa maior dificuldade aqui no Brasil com sessões de audiodescrição foi chegar nesse público específico. Em Portugal fomos muito ajudados por diversas associações de acessibilidade. Nossa parte nós fizemos, ou tentamos fazer. Esse é mais um reflexo da má gestão brasileira, da falta de interesse político e baixo engajamento dos poderes públicos. Algumas pessoas responsáveis pelas principais associações brasileiras – que em tese deveriam usar “Tribos” como um case de acessibilidade, ou no mínimo uma grande oportunidade – nem assistiram à peça em São Paulo em quase um ano de temporada.

LV: Em 2013, em um dos debates que participei, perguntei a vocês se levariam a montagem para outras cidades, especificamente, Bauru. Na ocasião, o Antônio Fagundes respondeu que não haveria possibilidade, pois as dificuldades de deslocamento e custeios da montagem impediriam uma turnê. Felizmente o prognóstico de Fagundes não se cumpriu! Quais fatores favoreceram a turnê nacional e internacional da peça?

Tribos: Nenhum fator favorece! Hahaha! Somos malucos mesmo. Os custos quadriplicam em uma turnê, estamos viajando semanalmente mas contando sempre com um risco altíssimo que põe em cheque a vida do projeto. Em Portugal tivemos a parceria de uma grande produtora local que arriscou conosco, dividindo os custos. Deu certo. Mas foi uma loucura.  Aqui no Brasil não é diferente, mas também encontramos alguns parceiros pelo caminho. Agora cabe ao público de Bauru fazer sua parte indo nos prestigiar. Estaremos na cidade somente por um dia e contamos com a presença de todos, estamos fazendo isso por vocês, não por nós. Nossa sede por comunicação é insaciável.

LV: Por fim, temos um projeto de acessibilidade cultural no Brasil?

Tribos: Acredito que estamos a passos lentos, mas caminhando. Senti um movimento maior em relação à acessibilidade nesses últimos tempos, acho que ajudamos fazendo nossa parte. Espero que as companhias se motivem cada vez mais com essa possibilidade, mas para isso também é importante que o público frequente. Senão toda caminhada retrocede.

Serviço:

TEATRO MUNICIPAL DE BAURU
ENDEREÇO: AV. NAÇÕES UNIDAS – QUADRA 8 – N° 9 – VILA ANTARCTICA – BAURU
datas: 20 de fevereiro – sexta-feira
Sessões: 20h e 22h (sessões iniciam pontualmente, proibida entrada após o início)
Duração: 80 minutos

Classificação: 14
Ingressos:
meia: R$ 40,00 (estudantes, idosos e professores)
clientes Porto Seguro

40,00 (clientes + 1 acompanhante: R$ 40,00 cada)
Recorte Jornal da Cidade: R$ 50,00
Inteira: R$ 80,00
Pontos de Venda: (a partir de 09/02)
– My Gloss Acessórios (piso Térreo Bauru Shopping)
– Digol Sports (Boulevard Shopping Nações)
– Roth Store (Av Getúlio Vargas, 5-9)

Acessibilidade Sem Barreiras: Entrevista com Susana Godoy

Por Giovana Amorim/Edição e revisão: Lucinéa Villela

“A limitação e a deficiência são uma questão daquele ser humano, não são o ser humano.”

susana2

Foto da 20ª Mostra Arte sem Barreiras + Festival Assim Vivemos

(Lucinéa Villela, Susana Godoy, Lara Pozzobom e Bell Machado)

No mês de outubro de 2014, ocorreu em Bauru a 20ª mostra de Arte Sem Barreiras + Festival Assim Vivemos que, apoiada pela Secretaria de Cultura, buscou promover a integração, disponibilização e debates sobre as ferramentas e recursos usados para melhorar a vivência diária e geral das pessoas com as mais variadas deficiências e estilos de vida .

Temos vivenciado no Brasil um constante crescimento nos debates e eventos sobre acessibilidade. Em 2014 foi criado o primeiro curso de Especialização em Audiodescriçãonaa Universidade Federal de Juiz de Fora, houve a primeira edição do evento TOM-SP e diversas outras atividades com a temática de acessibilidade.

Para compreendermos mais sobre eventos na área de acessibilidade, o Blog do MATAV entrevistou Susana Godoy, a agente cultural e diretora da divisão de ação cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Bauru. Ela nos relatou um pouco sobre os festivais, as parcerias e o mundo acessível que, infelizmente, ainda não é aquele em que vivemos; mesmo que só por enquanto. Confira abaixo!

MATAV: Você pode falar um pouco sobre a Mostra Arte sem Barreiras e o Festival Assim Vivemos? Como tudo isso chegou até Bauru?

Susana: A mostra Arte Sem Barreiras é um evento que a gente realiza há vinte anos ininterruptamente. É um evento que começou com realização da Very Special Arts, uma organização americana que está no Brasil desde a década de 70. Em Bauru, há vinte anos, aconteceu a primeira mostra de Arte sem Barreiras realizada por essa entidade que na época tinha como coordenador o Dorival Vieira. A Secretaria de Cultura foi parceira naquela ocasião.

Conforme foi crescendo a atividade, a Secretaria foi sendo corealizadora e, desde que entrou para o calendário oficial com a Lei Municipal de 2004, a mostra vem sendo uma realização da Secretaria de Cultura de Bauru. Infelizmente, a organização foi sofrendo uma desmobilização no país, pouquíssimas cidades ainda  realizam hoje esse evento.

Durante dois anos, o  Arte sem Barreiras esteve vinculado à Funarte, que tinha um edital especial para que artistas com deficiência pudessem participar, isso alavancou a questão profissional do Arte Sem Barreiras. Em 2013, tivemos um contato maior com a UNESP por meio da professora Lucinéa Villela, que participou conosco no Arte sem Barreiras/2013 e nos apresentou principalmente a audiodescrição. Na ocasião, passamos alguns curtas e outros materiais que possuiam acessibilidade.

Em 2014, convidamos a professora para a organização e curadoria da Mostra. A Lucinéa, já conhecedora do Festival Assim Vivemos propôs fazer o contato com a produtora Lara Pozzobon e trazer alguns filmes do festival para cá. Nós demos carta branca, deu certo fazer o contato e no fim agregamos um valor imenso à mostra, foi uma oportunidade fundamental para que a gente pudesse enriquecer a programação e tratar dessa ferramenta fantástica que é a audiodescrição.

 

MATAV: Na época de criação da Mostra, há vinte anos, o contexto era de rejeição da sociedade aos deficientes de qualquer tipo. Qual a diferença entre passado e presente nesse sentido?

 

Susana: A diferença é mesmo gritante. Ainda temos que caminhar muito, mas é muito diferente. Há vinte anos a pessoa com deficiência estava muito segregada. Hoje se fala muito de deficiência como uma limitação que se deve transpor, mas antigamente o deficiente era visto só pela sua limitação. Uma pessoa que devia ser segregada, que deveria estar num ambiente específico. Eu me lembro de quando morava em São Paulo, há muito tempo e passava em frente a AACD, uma instituição que considero de extrema importância, e pensava “ainda bem que tem pessoas que cuidam deles”. Eu não tive contato com deficientes quando criança, nem na escola nem em outros espaços. Elas realmente estavam segregadas. A diferença é que hoje eu vejo meus filhos na escola em contato com pessoas com diversas deficiências.

A convivência é essencial, e ao longo desse tempo as pessoas passaram a ter essa convivência. Os deficientes passaram a estar na escola, frequentar o mercado de trabalho, a ocupar cargos públicos, exigir políticas públicas. Passaram a pensar “se eu gosto de fazer essas coisas e posso fazê-las, porque não?”

A limitação e a deficiência são questões daquele ser humano, não são o ser humano. Uma área fundamental para essa mudança ao longo do tempo, que fez a sociedade olhar de outra forma para essa questão, foi a de esportes. Um grande exemplo que temos é o esportista Daniel Dias, sem dois braços e uma perna ele nada e quebra recordes, enquanto eu não sei nem nadar, nós questionamos o que é deficiência e o que é eficiência. Quem é o deficiente na verdade?

Nós não podemos limitar o ser humano a uma questão. Eu, por exemplo, não vejo bem e preciso usar óculos em determinados momentos; é o mesmo caso de quem utiliza uma prótese no braço ou na perna, ou que usa ferramentas como o recurso da audiodescrição ou do braile. Tivemos a oportunidade de ver o Thomas no Arte Sem Barreiras, ele ficou cego depois de levar uma pedrada nos olhos e é marceneiro. As pessoas diziam que ele ia se cortar em vez de ver como isso é bacana. Elas colocam a limitação em primeiro lugar.

Por isso é importante conviver e perceber que todos nós temos limitações, mas que a pessoa do lado também tem seus direitos. A convivência é aprender a respeitar o outro, a se integrar com ele. Por isso, a questão das entidades especificas é muito delicada e importante. Segregar em entidades é difícil, embora nas entidades possa haver um preparo maior para a sociedade. Ainda assim, a pessoa com deficiência será mais um ser humano no ambiente para agregar conhecimento, seja na escola, seja no trabalho, seja no ambiente público. Por isso, para mim, a convivência é fundamental.

MATAV: O que se pode dizer sobre os projetos criados na universidade pública a respeito da acessibilidade?

Susana: Eu estudei na Universidade de Bauru (UB) que depois foi encampada pela UNESP e já havia essa problemática que me preocupava como estudante e me preocupa ainda hoje. Acho que por ser uma universidade pública nós temos que ter essa relação com a sociedade. Mas não podemos fazer com que a sociedade seja apenas um objeto de estudo. Às vezes nós temos, não por má intenção talvez, propostas ótimas de projetos, projetos muito bonitos academicamente, que vão agregar muito ao cargo ou ao currículo, mas que na verdade não se sabe se é o que a sociedade quer.

Quando eu era estudante do curso de Relações Públicas, entrei na universidade querendo mudar o mundo. Mas as pessoas tinham muito preconceito. Nós tínhamos duas colegas de Ibitinga que foram bordadeiras e na época esse trabalho sofria muita exploração. Tivemos a ideia de criar o sindicato das bordadeiras. Achamos que de imediato as pessoas fossem amar: quatro estudantes salvadoras! Mas foi uma surpresa quando começamos a pesquisar e vimos que as pessoas não queriam um sindicato, diziam que não precisavam. Nós trabalhávamos com comunicação, tínhamos o público das bordadeiras, mas também os donos das fábricas. Ficamos um pouco tristes com a rejeição da nossa ideia, só que depois de muito choro nós entendemos que era muita pretensão da nossa parte fazer o projeto achando que ele era maravilhoso sem escutar o outro lado. Depois mudamos de tática e passamos a conversar com as bordadeiras e, no fim, o sindicato foi fundado, as meninas foram para Nova York apresentar o projeto e uma delas até presidiu o sindicato. Isso foi incrível para nós, porque nós conseguimos interferir na sociedade de modo que o projeto foi tomado e aceito por ela.

É isso que vejo da universidade. Ela tem que interferir, mas para criar. Nós temos que estar mais preocupados com essa questão: a universidade tem o poder da pesquisa, mas também o poder de transformar, dialogar com a sociedade. Essa sementinha que pode ser plantada pelo meio acadêmico e da pesquisa vale mais do que qualquer título ou cargo possíveis.