“O Milagre de Anne Sullivan” e a descoberta da linguagem

Filme da década de 60 conta a infância da escritora surdocega

Resenha de João Batista Signorelli

helen keller 2

#ParaCegoVer: Foto em preto e branco de Helen Keller. Ela é uma senhora branca, de cabelos grisalhos curtos. Está em pé e olha para frente. Seu braço direito segura um livro grande em braile e com os dedos da mão esquerda lê uma palavra. Helen veste uma blusa preta com detalhes bordados na gola e usa um colar. Na parede, atrás de Helen, há uma estante com vários livros grandes e alguns enfeites decorativos.

Ela era escritora e ativista política. Escreveu 12 livros e diversos artigos e obteve um diploma de Bacharelado em Artes nos Estados Unidos. Helen Keller viajou o mundo, ministrou centenas de palestras, lutou pelos direitos das mulheres, dos trabalhadores e dos deficientes, foi surda e cega desde os 19 meses de idade.

O início de sua impressionante trajetória foi contado no cinema sob a direção de Arthur Penn (de“Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”) e com Patty Duke interpretando a protagonista em sua infância e Anne Bancroft como Anne Sullivan, tutora de Helen. O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker no original) de 1962 foi uma adaptação de uma peça de teatro com a mesma dupla nos papéis principais. Vale ressaltar que ambas atrizes receberam o Oscar de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante respectivamente. Houve ainda outras duas versões produzidas diretamente para a televisão, uma de 1979 e outra de 2000, mas ainda assim a versão de 1962 permanece sendo considerada como a versão definitiva da infância de Helen Keller.

Trata-se de uma obra prima imensurável, um filme rico em emoções, transmitidas sem cair em artifícios formulaicos de superação típicos de filmes com essa mesma temática.

A trama acompanha Anne Sullivan, uma jovem professora parcialmente cega, em sua tentativa de educar a menina Helen Keller. É por vezes uma obra incômoda e ao mesmo tempo bela, uma vez que é capaz de transmitir tanto o horror de estar no mundo, mas não estar consciente disso, quanto a beleza de descobri-lo.

O filme se inicia com os pais de Helen descobrindo a sua surdocegueira. Logo de início, a natureza incômoda se instaura, com interpretações sem nenhum tipo daquela elegância tão presente em Hollywood poucos anos antes, abraçando uma tendência mais realista e incorporada. Essa natureza crua, quase agressiva se faz presente ao longo do filme, expressa principalmente na própria Helen, que tendo crescido em absoluta escuridão e silêncio, comporta-se violentamente para com as pessoas à sua volta e vaga pela casa quase como um animal.

Os créditos de abertura devem ser analisados minuciosamente, pois já servem para estabelecer situações difíceis constantes no cotidiano da protagonista. Logo na abertura (e que se repetirá ao longo do filme),  a trilha sonora inquietante cria uma atmosfera digna de um filme de terror e a fotografia em preto-e-branco realça as sombras e a escuridão sempre que necessário, tudo com a intenção fazer o espectador sentir desta forma a situação angustiante de Helen.

No início, garota já tem desenvolvida uma linguagem bastante rudimentar, que se limita a gestos de sim e não feitos com a cabeça e sentidos com as mãos, quando realizados por outras pessoas, além de sinais se referindo a suas principais necessidades, como aquele que utiliza para se referir à sua mãe.

Com a intenção final de fazer Helen compreender o mundo por meio da linguagem, Anne, a recém chegada professora faz sua aluna sentir, através do tato, os gestos do alfabeto de sinais, que ela se mostra capaz de reproduzir, mesmo sem atribuir aos gestos significado algum. Porém, ela encontra um difícil contratempo neste processo: o comportamento de Helen. Esta, além agir como animal, é extremamente mimada por sua mãe. Dessa maneira, o primeiro desafio da professora é ensinar a menina a se comportar. Anne Sullivan se revela como a pessoa ideal para realizar tal desafio, pois teve uma infância árdua ao lado de seu irmão paraplégico e é constantemente atormentada por memórias e sonhos retratados no filme pela sobreposição de imagens em flashback que são quase borrões.

É em uma tentativa de “domesticação” e de reversão da educação mimada que Helen recebeu que entra a famosa cena de estafantes, porém fascinantes 8 minutos em que Anne literalmente luta contra a menina para que ela comesse diretamente de sua colher, pois ela sempre havia se alimentado com as mãos. Nessa cena, a ausência de trilha sonora destaca o cansaço da situação e colabora na construção de tensão, além dos próprios sons produzidos pelas personagens como a respiração progressivamente mais acelerada de Anne, os grunhidos de defesa de Helen, os passos e golpes apreensivos e os pratos se quebrando de maneira quase estridente reafirmam a natureza animalesca de Helen e o esforço insistente de Anne para revertê-la.

A partir do momento que o comportamento de Helen passa a ser mais controlado, torna-se então mais fácil para que a professora possa se dedicar a ensiná-la a língua de sinais. A família se dá por mais que satisfeita: Helen se demonstra calma e obediente, menos agressiva e capaz de se servir e comer como uma pessoa comum. Enquanto os pais se demonstram alegres com a melhora da filha, Anne não se dá por satisfeita: “obediência não é o suficiente”. A tutora quer que a menina surdo-cega possa se comunicar e entender o mundo através da linguagem, que ela seja autônoma e não apenas um animal com comportamento condicionado.

Para que isso seja possível, na visão de Anne, o primeiro passo para Helen seria entender que as coisas existentes no mundo têm nome. Essa visão é certamente condizente com os pensamentos sobre Linguagem na época: ainda faltavam alguns anos para que fosse publicado o Curso de Linguística Geral de Ferdinand Saussure. Nele, Saussure vai além da visão de que a Linguagem se resume a dar nome às coisas existentes no mundo, pois nos signos linguísticos existe uma relação mais complexa entre um conceito e uma “imagem acústica”, um Significante e um Significado. Apesar de Anne não se utilizar deste vocabulário, em uma análise mais contemporânea poderia-se dizer que Helen mais do que apenas entender que as coisas têm nome, precisa compreender as coisas ao seu redor como conceitos, e relacioná-los a significantes, no caso dela não se tratando de “imagens acústicas” pois estas não seriam possíveis no Universo de compreensão dela. Criar um termo como “imagem gestual” neste caso poderia ser mais adequado.

helen keller 1

#ParaCegover: Cena do filme em preto e branco “Milagre de Anne Sullivan”.  A garota Helen e sua professora Anne estão em frente de uma bomba d´água no quintal de uma de casa de fazenda. A mão esquerda de Helen está posicionada debaixo da torneira e sua mão direita toca o rosto de Anne, que segura a alavanca da bomba d´água.

Por vezes Anne sente-se frustrada, como se não tivesse sido capaz de realizar o seu trabalho. A menina parece ser um caso perdido, mas no final do filme nos surpreendemos com sua desenvoltura.

Ao relembrar do passado, de quando ainda não era surdocega e estava começando a desenvolver seu vocabulário, Helen consegue finalmente entender a relação entre o mundo e os gestos tantas vezes replicados. Trata-se de uma conclusão inesquecível, é uma experiência catártica, que alivia toda a tormenta presenciada durante a projeção, quando finalmente a aluna de Anne Sullivan experimenta sensações jamais previstas pela sociedade.

O filme não se esforça por contar mais da vida de Helen Keller, sequer traz qualquer informação seu futuro. Não faria sentido, pois o filme está preocupado em contar a história do processo de descoberta da linguagem de Helen e não criar um retrato de sua vida. Não é difícil procurar um livro ou buscar na internet para conhecer um pouco mais dessa vida fascinante. Certamente, o filme desperta bastante curiosidade e acerta ao contar apenas o essencial para sua narrativa. Narrativa que pode se enquadrar no seleto grupo de filmes que de alguma forma mudam a nossa forma de ver o mundo, iluminando e clareando a nossa visão, assim como foi para Helen. Para mim, ao menos, foi assim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s