Junho com Arte Acessível

Resultado de imagem para audiodescrição

As férias de inverno estão quase chegando e para quem mora em algumas cidades do estado de São Paulo há boas oportunidades para assistir espetáculos com acessibilidade.

Encontrar uma peça ou exposição acessível tornou-se uma tarefa mais fácil nos sites brasileiros de divulgação cultural, basta prestar atenção em Tags ou ícones que indicam os recursos de Audiodescrição ou Libras, por exemplo.

No site do Itaú Cultural, para todos os eventos anunciados há as indicações dos recursos oferecidos para as pessoas com deficiência auditiva ou visual. Outro diferencial é a acessibilidade em LIBRAS que está disponível em todos os conteúdos da homepage por meio do aplicativo ProDeaf. A pessoa surda poderá entender todas as matérias em LIBRAS, basta clicar no ícone do aplicativo e, em seguida, selecionar trecho a trecho do texto e uma intérprete virtual traduz em Língua Brasileira de Sinais o conteúdo que está em português.

O MATAV indica duas peças com recursos de acessibilidade que estarão em cartaz em junho e que são produzidas com apoio do Itaú Cultural.

https://www.itaucultural.org.br/

Chiquita Bacana no Reino das Bananas

Fotografia colorida de cena da peça Chiquita Bacana no Reino das Bananas. Na imagem, atores a atoras vestem preto. Colocam as mãos cruzadas sobre o próprio peito e olham para o lado.

#paraCegoVer #paraTodosVerem (descrição da imagem) Foto colorida de atores do grupo Folias d’Arte. Todos os atores estão vestidos de preto, eles estão em pé em um círculo. Na frente da foto está uma atriz de cabelos curtos, de cor avermelhada, ela usa óculos e está com os braços e mãos cruzados cobrindo seu peito. A foto tem fundo preto. (fim da descrição)

A peça de Reinaldo Maia apresenta a história de uma menina que é acusada de comer uma banana no Reino das Bananas.  O reino, que é comandado pelo Rei Leonino e por seu grupo de girafas e gorilas, possui outros animais que estão perdendo suas funções sociais. O desfecho da peça é decidido pelo público.

O grupo Folias d’Arte foi formado em 1997 e seus espetáculos tratam dos problemas da sociedade contemporânea. O grupo já recebeu cerca de 50 prêmios, incluindo os prêmios Shell, APCA e Molière.

Serviço: Chiquita Bacana no Reino das Bananas [com interpretação em Libras e audiodescrição].

Itaú Cultural São Paulo

Endereço: Avenida Paulista 149 São Paulo SP – [Estação Brigadeiro do metrô]

Sábados 22 e 29 e domingos 23 e 30 de junho de 2019 às 15h [nos dias 29 e 30, o espetáculo conta com audiodescrição] [duração aproximada: 60 minutos] Sala Multiúso (piso 2) – 70 lugares

 

Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

#PraCegoVer #PraTodosVerem. (descrição da foto) Fotografia colorida com quatro atrizes encostadas na frente de um fusca branco em uma praça. Elas vestem vestidos rosa, amarelo, azul e laranja e seguram uma faixa longa feita de tecidos coloridos. Sorriem para a câmera. (fim da descrição)

Um projeto itinerante de contação de histórias que usa como base de transporte e fonte de causos um tradicional Fusca branco de 1978, chamado Joaquim. Assim é “Joaquim, o Fusca que Contava Histórias”,  projeto criado pelo gRUPO êBA!, que de 9 a 11 de junho irá percorrer as cidades de São Luiz do Paraitinga, Taubaté e São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba.

A intervenção consiste na apresentação de um espetáculo inédito, A Menina das Meias Vermelhas, seguida de um convite para que o espectador entre no Fusca e, sentado no banco do motorista, compartilhe a própria história, protesto ou o que tiver vontade de contar. A equipe artística é composta de três contadoras de histórias ouvintes que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de uma contadora surda. Todo o espetáculo será acompanhado por elementos percussivos e visuais, e narrado em Libras e português simultaneamente.

Serviço: Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

domingo 9 de junho de 2019 às 14h30
Largo do Rosário [apresentação aberta ao público]
São Luiz do Paraitinga, SP

segunda 10 de junho de 2019 às 14h
Emief Anna dos Reis Signorini [apresentação fechada para alunos]
Jardim Jaraguá, Taubaté, SP

terça 11 de junho de 2019 às 15h30
Emef Profa Maria Aparecida dos Santos Ronconi [apresentação fechada para alunos]
R. Ana Gonçalves da Cunha, 400, Jardim Jussara, São José dos Campos, SP

[livre para todos os públicos]

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“O Milagre de Anne Sullivan” e a descoberta da linguagem Filme da década de 60 conta a infância

Filme da década de 60 conta a infância da escritora surdocega

Resenha de João Batista Signorelli

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#ParaCegoVer: Foto em preto e branco de Helen Keller. Ela é uma senhora branca, de cabelos grisalhos curtos. Está em pé e olha para frente. Seu braço direito segura um livro grande em braile e com os dedos da mão esquerda lê uma palavra. Helen veste uma blusa preta com detalhes bordados na gola e usa um colar. Na parede, atrás de Helen, há uma estante com vários livros grandes e alguns enfeites decorativos.

Ela era escritora e ativista política. Escreveu 12 livros e diversos artigos e obteve um diploma de Bacharelado em Artes nos Estados Unidos. Helen Keller viajou o mundo, ministrou centenas de palestras, lutou pelos direitos das mulheres, dos trabalhadores e dos deficientes, foi surda e cega desde os 19 meses de idade.

O início de sua impressionante trajetória foi contado no cinema sob a direção de Arthur Penn (de“Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”) e com Patty Duke interpretando a protagonista em sua infância e Anne Bancroft como Anne Sullivan, tutora de Helen. O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker no original) de 1962 foi uma adaptação de uma peça de teatro com a mesma dupla nos papéis principais. Vale ressaltar que ambas atrizes receberam o Oscar de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante respectivamente. Houve ainda outras duas versões produzidas diretamente para a televisão, uma de 1979 e outra de 2000, mas ainda assim a versão de 1962 permanece sendo considerada como a versão definitiva da infância de Helen Keller.

Trata-se de uma obra prima imensurável, um filme rico em emoções, transmitidas sem cair em artifícios formulaicos de superação típicos de filmes com essa mesma temática.

A trama acompanha Anne Sullivan, uma jovem professora parcialmente cega, em sua tentativa de educar a menina Helen Keller. É por vezes uma obra incômoda e ao mesmo tempo bela, uma vez que é capaz de transmitir tanto o horror de estar no mundo, mas não estar consciente disso, quanto a beleza de descobri-lo.

O filme se inicia com os pais de Helen descobrindo a sua surdocegueira. Logo de início, a natureza incômoda se instaura, com interpretações sem nenhum tipo daquela elegância tão presente em Hollywood poucos anos antes, abraçando uma tendência mais realista e incorporada. Essa natureza crua, quase agressiva se faz presente ao longo do filme, expressa principalmente na própria Helen, que tendo crescido em absoluta escuridão e silêncio, comporta-se violentamente para com as pessoas à sua volta e vaga pela casa quase como um animal.

Os créditos de abertura devem ser analisados minuciosamente, pois já servem para estabelecer situações difíceis constantes no cotidiano da protagonista. Logo na abertura (e que se repetirá ao longo do filme),  a trilha sonora inquietante cria uma atmosfera digna de um filme de terror e a fotografia em preto-e-branco realça as sombras e a escuridão sempre que necessário, tudo com a intenção fazer o espectador sentir desta forma a situação angustiante de Helen.

No início, garota já tem desenvolvida uma linguagem bastante rudimentar, que se limita a gestos de sim e não feitos com a cabeça e sentidos com as mãos, quando realizados por outras pessoas, além de sinais se referindo a suas principais necessidades, como aquele que utiliza para se referir à sua mãe.

Com a intenção final de fazer Helen compreender o mundo por meio da linguagem, Anne, a recém chegada professora faz sua aluna sentir, através do tato, os gestos do alfabeto de sinais, que ela se mostra capaz de reproduzir, mesmo sem atribuir aos gestos significado algum. Porém, ela encontra um difícil contratempo neste processo: o comportamento de Helen. Esta, além agir como animal, é extremamente mimada por sua mãe. Dessa maneira, o primeiro desafio da professora é ensinar a menina a se comportar. Anne Sullivan se revela como a pessoa ideal para realizar tal desafio, pois teve uma infância árdua ao lado de seu irmão paraplégico e é constantemente atormentada por memórias e sonhos retratados no filme pela sobreposição de imagens em flashback que são quase borrões.

É em uma tentativa de “domesticação” e de reversão da educação mimada que Helen recebeu que entra a famosa cena de estafantes, porém fascinantes 8 minutos em que Anne literalmente luta contra a menina para que ela comesse diretamente de sua colher, pois ela sempre havia se alimentado com as mãos. Nessa cena, a ausência de trilha sonora destaca o cansaço da situação e colabora na construção de tensão, além dos próprios sons produzidos pelas personagens como a respiração progressivamente mais acelerada de Anne, os grunhidos de defesa de Helen, os passos e golpes apreensivos e os pratos se quebrando de maneira quase estridente reafirmam a natureza animalesca de Helen e o esforço insistente de Anne para revertê-la.

A partir do momento que o comportamento de Helen passa a ser mais controlado, torna-se então mais fácil para que a professora possa se dedicar a ensiná-la a língua de sinais. A família se dá por mais que satisfeita: Helen se demonstra calma e obediente, menos agressiva e capaz de se servir e comer como uma pessoa comum. Enquanto os pais se demonstram alegres com a melhora da filha, Anne não se dá por satisfeita: “obediência não é o suficiente”. A tutora quer que a menina surdo-cega possa se comunicar e entender o mundo através da linguagem, que ela seja autônoma e não apenas um animal com comportamento condicionado.

Para que isso seja possível, na visão de Anne, o primeiro passo para Helen seria entender que as coisas existentes no mundo têm nome. Essa visão é certamente condizente com os pensamentos sobre Linguagem na época: ainda faltavam alguns anos para que fosse publicado o Curso de Linguística Geral de Ferdinand Saussure. Nele, Saussure vai além da visão de que a Linguagem se resume a dar nome às coisas existentes no mundo, pois nos signos linguísticos existe uma relação mais complexa entre um conceito e uma “imagem acústica”, um Significante e um Significado. Apesar de Anne não se utilizar deste vocabulário, em uma análise mais contemporânea poderia-se dizer que Helen mais do que apenas entender que as coisas têm nome, precisa compreender as coisas ao seu redor como conceitos, e relacioná-los a significantes, no caso dela não se tratando de “imagens acústicas” pois estas não seriam possíveis no Universo de compreensão dela. Criar um termo como “imagem gestual” neste caso poderia ser mais adequado.

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#ParaCegover: Cena do filme em preto e branco “Milagre de Anne Sullivan”.  A garota Helen e sua professora Anne estão em frente de uma bomba d´água no quintal de uma de casa de fazenda. A mão esquerda de Helen está posicionada debaixo da torneira e sua mão direita toca o rosto de Anne, que segura a alavanca da bomba d´água.

Por vezes Anne sente-se frustrada, como se não tivesse sido capaz de realizar o seu trabalho. A menina parece ser um caso perdido, mas no final do filme nos surpreendemos com sua desenvoltura.

Ao relembrar do passado, de quando ainda não era surdocega e estava começando a desenvolver seu vocabulário, Helen consegue finalmente entender a relação entre o mundo e os gestos tantas vezes replicados. Trata-se de uma conclusão inesquecível, é uma experiência catártica, que alivia toda a tormenta presenciada durante a projeção, quando finalmente a aluna de Anne Sullivan experimenta sensações jamais previstas pela sociedade.

O filme não se esforça por contar mais da vida de Helen Keller, sequer traz qualquer informação seu futuro. Não faria sentido, pois o filme está preocupado em contar a história do processo de descoberta da linguagem de Helen e não criar um retrato de sua vida. Não é difícil procurar um livro ou buscar na internet para conhecer um pouco mais dessa vida fascinante. Certamente, o filme desperta bastante curiosidade e acerta ao contar apenas o essencial para sua narrativa. Narrativa que pode se enquadrar no seleto grupo de filmes que de alguma forma mudam a nossa forma de ver o mundo, iluminando e clareando a nossa visão, assim como foi para Helen. Para mim, ao menos, foi assim.

Bauru terá feira voltada à troca de informação sobre pessoas com deficiência

Em maio, SESI-Horto abrirá seu espaço para workshops, estandes e oficinas

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#ParaCegoVer: Na imagem, a logo da REAB. Temos um origami de tsuru desenhado e, embaixo, as letras R, E, A e B – respectivamente nas cores ciano, vermelho, laranja e roxo. 

A 1ª Feira de Reabilitação de Bauru (REAB) acontecerá no fim de semana dos dias 17, 18 e 19 de maio. Ela será no SESI-Horto, que fica no mesmo quarteirão do Horto Florestal: Rua Professora Zenita Alcântara Nogueira, 1-67.

O evento, que promete ser bienal, será um ponto de convergência para pesquisadores, profissionais e todo mundo que se interessa pelas pessoas com deficiência. Além de contribuir para a formação e atualização de gente envolvidas na área, o REAB contribuirá para o debate sobre acessibilidade e a conscientização sobre o assunto no interior paulista.

A cerimônia de abertura será no dia 17, das 19h30 às 22h. Nos dias 18 e 19, os portões estarão abertos para o público das 8h30 às 18h. A programação do evento está abastecida com dezenas de atividades como palestras, workshops e oficinas. Também haverá estandes de produtos e serviços espalhados pelo SESI ao longo de todo o evento.

É possível se inscrever pelo Sympla, site especializado em eventos. A entrada é franca, mas para retirar o ingresso é preciso doar ou um quilo de alimento não perecível ou um “kit higiene”, composto por uma escova e uma pasta de dentes.

O esplendor do cinema

Filme japonês revela a sensibilidade na audiodescrição

Matéria: Bruna Tastelli

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#ParaCegoVer: Foto colorida apresenta uma sala com cerca de vinte carteiras escolares. Há vários jovens sentados, alguns estão olhando para uma tela de projeção de filmes, outros conversam descontraídos. Uma das jovens entrega um saco de pipoca de embalagem vermelha para sua colega. Ela está vestida com uma camiseta preta com a logomarca do MATAV e shorts.

No dia 10 de abril, o CineMatav exibiu o filme Esplendor (2017) na sala de projeção da biblioteca da Unesp Bauru. Com muita pipoca e olhares atentos, os alunos que compareceram puderam adentrar no universo da audiodescrição, tema central do filme de Naomi Kawase.

O longa se inicia com uma narração em off que descreve as cenas de uma típica cidade grande: muita agitação nas ruas, carros barulhentos e pessoas seguindo o fluxo cotidiano. A narradora é a audiodescritora Misako Ozaki (Ayame Misaki), que faz consultoria com grupos de deficientes visuais para avaliar o seu trabalho. Misako tem um olhar atencioso a tudo que a cerca na tentativa de descrever o mundo com precisão para aqueles que não podem enxergar. No entanto, tal precisão é questionada por Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase), um fotógrafo que frequenta o grupo e está perdendo sua visão gradativamente.

O que incomoda Masaya é a suposta interferência pessoal de Misako na audiodescrição de um filme durante uma sessão-teste, como se ela estivesse forçando sensações nos ouvintes por meio de uma percepção particular das emoções dos personagens. Em meio a críticas do fotógrafo, que está frustrado com a cegueira cada vez mais próxima, a audiodescritora busca aprimorar seu trabalho enquanto lida com a mãe que precisa de cuidados especiais. A relação entre os dois protagonistas sustenta a narrativa até o fim, desencadeando em um romance pouco convencional.

A diretora Naomi Kawase utiliza a câmera em primeiro plano na maioria das cenas, de forma que o espectador veja detalhes importantes que passariam despercebidos em um plano mais aberto. Ela também acertou em cheio nas cenas em que a perspectiva utilizada foi a da câmera Rolleiflex que o fotógrafo Masaya manuseava, fazendo dela seus olhos e seu coração.

Conhecida por trazer sensações e emoções em seus filmes, Kawase concretiza a experiência de Esplendor com uma trilha sonora impecável e um jogo de luzes muito presente – como o reflexo de um prisma ou o do sol forte que ilumina o rosto de Misako e sua mãe –, o que explica o nome do filme.

A coordenadora do Matav, Lucinéa Villela, conta que a escolha do filme para a primeira sessão do CineMatav do ano foi para mostrar esse mundo tão pouco explorado no cinema, mas ao mesmo tempo tão próximo: “A maneira como a protagonista é retratada é muito fiel ao ofício de audiodescrição. De fato, os audiodescritores trabalham com consultoria em instituições de pessoas com deficiência visual”, comenta Lucinéa.

Costumo anotar algumas frases dos filmes que vejo e a frase mais impactante de Esplendor foi dita por uma das integrantes do grupo de deficientes visuais: “O cinema ‘vive’ em um mundo vasto e frente a essa vastidão nossas palavras são pequenas, mas não devemos desprezá-las”.

Nem toda bengala é branca

Bengalas verdes tiram as pessoas com baixa visão da invisibilidade

Uma mulher britânica está parada no meio de uma calçada com uma bengala branca. Ela olha a tela de seu celular. Uma matéria da BBC conta como essa imagem circulou em janeiro pelas redes sociais, com a legenda: “Se você consegue ver o que está errado, diga que viu o que é.” Espocaram comentários maldosos sobre a contradição de uma pessoa supostamente cega estar utilizando um telefone celular.

#ParaCegoVer: Foto de mulher negra em uma calçada, ela está em frente à uma loja com porta e vitrines de vidro. A foto está com a imagem borrada na parte do rosto e do cabelo da mulher. Ela veste um casaco de inverno rosa, calça jeans e carrega no seu braço esquerdo uma bolsa estampada. Na sua mão direita carrega uma bengala de alumínio. A mulher está com a cabeça abaixada, olhando para seu celular que está em sua mão esquerda.

A viralização da imagem causou revolta na comunidade de deficientes visuais: uma mulher fora exposta para milhares de pessoas, tendo sua deficiência ridicularizada – por pura ignorância. Mesmo que a mulher fosse cega, ela ainda poderia utilizar um celular, pois hoje em dia os smartphones possuem diversos recursos de acessibilidade, como o Talkback (Android) e o VoiceOver (iOS). Mas pode ser que ela enxergasse, sim – o bastante para ler a tela de um celular, mas não para se locomover sem o auxílio de uma bengala. Pode ser que ela tivesse baixa visão.

A publicitária brasileira Raquel Lima, 50, nasceu com miopia congênita, e há 7 anos teve catarata. Depois da cirurgia, sua acuidade visual piorou: “Perdi a visão periférica e, como antes da cirurgia eu só tinha visão no olho esquerdo, me sobrou apenas 15% da visão.”

Ela passou a se encaixar na classificação de baixa visão, que engloba pessoas com menos de 30% da visão no melhor olho e/ou campo visual menor que 20° – mesmo com intervenções cirúrgicas e o uso de óculos. No Brasil, mais de 6 milhões de pessoas têm baixa visão, segundo site da Fundação Dorina Nowill (cerca de 500 mil são cegas). Há muitas causas da baixa visão e para cada pessoa ela se manifesta de forma diferente: alguns têm perda de visão periférica, outros de visão central; a claridade em excesso, ou a falta dela, pode atrapalhar o desempenho visual da pessoa etc.

A partir daí, Raquel teve dificuldades para se locomover com autonomia. Para se adaptar, ela teve aulas de mobilidade na Fundação Dorina Nowill para Cegos, em São Paulo, onde aprendeu a usar a bengala nos diferentes ambientes.

Raquel conta que é constantemente confundida com uma pessoa cega, mas ressalta que isso decorre da falta de informação sobre a baixa visão: “As pessoas acham que se você usa bengala é cego.” Isso melhorou quando, há três anos, começou a usar a bengala verde.

#ParaCegoVer: Imagem de uma pessoa caminhando em uma calçada com uma bengala verde com suporte preto. A pessoa veste calça verde e uma botina preta.
(Foto: Reprodução YouTube/Perla Mayo)

Origem

A educadora uruguaia Perla Mayo, que lecionava em uma escola argentina de educação especial, notou que os alunos com baixa visão tinham vários problemas particulares. Muitos se recusavam a usar a bengala branca ou fingiam ser cegos para evitar a discriminação. Ela conta uma história de 1996, quando bolou uma solução para ajudar uma garota chamada Analía: “A aluna tinha problemas de baixa visão, usava uma bengala branca e tinha certificado de deficiência visual, mas quando chegava na sala e pegava seu celular e seus livros didáticos, as pessoas perguntavam o quanto ela enxergava ou a censuravam dizendo que não era cega de verdade. Quando ela me disse que não queria mais usar a bengala branca porque era muito agredida, tive a ideia de pintar a bengala com uma tinta spray verde.”

A escolha da cor acabou assumindo vários significados: além de verde ser a cor da esperança, também vale o jogo de palavras: “ver-de novo” ou “ver-de outra maneira”. A bengala verde se torna uma nova forma de “ver” o mundo.

Essa diferenciação ajudou Analía a se sentir mais confortável com sua identidade e ampliou a compreensão das pessoas sobre sua condição. Desde então, a bengala verde percorreu um longo caminho. Ela se tornou lei na Argentina, legitimando seu uso por pessoas com baixa visão e firmando um compromisso do Estado de educar a população sobre a importância desse instrumento. A bengala verde também foi adotada em diversos outros países.

#ParaCegoVer: Foto de dezenas de pessoas em uma passeata na Avenida Paulista em São Paulo. Alguns manifestantes carregam bengalas verdes e usam óculos pretos. Na frente da imagem, três mulheres e um homem carregam uma faixa com os dizeres: “Bengala Verde: queremos que você nos veja””. No canto esquerdo da faixa, há a logomarca do movimento: um olho com traço na cor preta e ao lado um traço verde, abaixo dele cinco traços pretos em semicírculo representando cílios pretos.
(Foto: Hélcio Nagamine)

No Brasil, o movimento da bengala verde chegou em 2014, em campanha do grupo “Retina São Paulo”. Já foram instituídas leis similares à da Argentina, em municípios como Juiz de Fora (MG) e Campo Grande (MS). Em agosto de 2018, aconteceu a Caminhada Bengala Verde, na Avenida Paulista, em São Paulo. O evento reuniu mais de 400 pessoas, trazendo inclusão e visibilidade para as pessoas com baixa visão. Houve distribuição de bengalas verdes e até a própria Perla Mayo apareceu.

E as bengalas verdes seguem caminhando a todo gás.

Audiodescrição de Flutua é apresentada em Barcelona.

 

 

#paracegover Fotos de um auditório com um palco em forma de semicírculo na frente. Em cima do palco há um púlpito à esquerda, no centro há uma mesa retangular. Lucinéa Villela está em pé no púlpito, olhando para a tela do computador à sua frente. Ela é morena, de estatura baixa e tem cabelo castanho longo. Veste uma blusa de manga longa preta.

#paracegover Na segunda foto, além do púlpito com Lucinéa em pé,  há três mulheres sentadas na mesa, duas estão olhando para a palestrante e a outra para o monitor com a apresentação. Uma tela projeta um slide em fundo branco com um texto em inglês. No topo da tela há legendas em amarelo com tarja preta.

O que é ARSAD?

O Advanced Research Seminar on Audio Description (ARSAD) é considerado o principal evento sobre audiodescrição realizado na Europa. Neste ano, o Seminário ocorreu em Barcelona entre 19 e 20 de março e o MATAV esteve representado por sua coordenadora, Profa. Dra. Lucinéa Villela, que apresentou o trabalho intitulado “Audio description of music video Flutua: a mix of gender fluid, transgender and transrespect”.

Em sua fala, a pesquisadora brasileira contextualizou o cenário brasileiro de violência contra homossexuais e transgêneros. O videoclipe Flutua, produzido por Johnny Hooker com participação especial da Liniker, é considerado por Villela um manifesto e um pedido de transrespeito para a sociedade em geral.

cenabalada

#paracegover Foto de dois homens olhando-se no espelho de uma balada. A foto é escura com luzes vermelhas refletindo nos rostos dos rapazes e no espelho. O rapaz de bigode está em frente ao espelho, possui cabelos crespos e curtos. Veste uma jaqueta esportiva com listras brancas na altura de seu peito. O outro rapaz está atrás do rapaz de bigode, ele tem barba e cabelo curto. A palavra FLUTUA está escrita em picho com batom vermelho no espelho.

ARSAD 2019

A primeira edição do ARSAD aconteceu em 2007 em Barcelona e, desde então, a cada dois anos os pesquisadores, profissionais e interessados em geral pela temática de audiodescrição reúnem-se na capital da Catalunha para trocar experiências sobre as inovações em acessibilidade para pessoas com deficiência visual.

Segundo seus organizadores: “O ARSAD é e continuará a ser o fórum onde todas estas novas pesquisas, avanços industriais e tecnológicos são discutidos” (nossa tradução).

Na sua 7ª edição, os participantes do ARSAD só tiveram motivos para celebrar. Houve sete painéis sobre tópicos bem distintos e extremamente relevantes:

Novos conceitos e metodologias; Análise da audiodescrição; Treinamento; Pesquisa de Recepção: envolvendo o usuário final; Inovação e tecnologia; Audiodescrição de eventos ao vivo e Práticas de audiodescrição.

Foram quase cinquenta apresentações, mais de noventa inscritos: membros de diversos países da Europa, participantes da indústria de entretenimento do Canadá e dos Estados Unidos, representantes de Hong Kong, além de profissionais da Austrália. Como única representante da América do Sul e do Brasil, o ARSAD contou com a pesquisadora Lucinéa Villela.

Legendagem ao vivo

Pela primeira vez, o ARSAD teve legendagem ao vivo em todas as suas sessões, executada pela empresa Àgilis. O projeto contou com uma equipe de legendistas espanhóis que faziam legendas em inglês de todos os painéis e debates.

Acompanhamos na cabine dos legendistas uma sessão inteira de 40 minutos do ARSAD e pudemos conversar com eles para saber dos desafios desta tarefa tão difícil e gratificante.

O legendistas sempre trabalham em dupla. A cada apresentação de 15 minutos eles se revesam. Pudemos perceber que um deles transcreve rapidamente tudo o que os palestrantes falam, para tanto usa o fone de ouvido que se conecta como microfone do palestrante.  Algumas correções sempre são necessárias e, a seguir,  automaticamente as legendas aparecem na tela do auditório.

Ao seu lado, seu parceiro/sua parceira checa os slides da apresentação que foram enviados anteriormente pelos autores. Os slides auxiliam principalmente em situações em que os nomes de autores mencionados são difíceis de serem transcritos, como nomes poloneses, russos, tchecos, chineses e mesmo nomes próprios em português.

Outro facilitador dos slides é a checagem de algumas citações. Quando o palestrante está lendo uma citação, os legendistas optaram por colocar na legenda: “leitura de citação”.

Contudo há muita improvisação, devido a situações que envolvem, por exemplo, pessoas que falam muito rápido e com diversas pronúncias da língua inglesa. Nem todas as falas foram legendadas no ARSAD, mas é possível compreender quase tudo pelo contexto geral apresentado no conjunto da legendagem.

O trabalho de um legendista que trabalha ao vivo é extremamente desgastante e requer muita concentração, poder de concisão e conhecimento linguístico múltiplo.

Curiosidade: O padrão adotado pela empresa Àgilis foi de legendas em cor amarela com tarja preta, elas foram posicionadas no topo da tela do slide e adotaram legendas de no máximo duas linhas.

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#paracegover Foto do auditório do ARSAD. Uma mulher branca, de estatura mediana e cabelo claro está em pé no púlpito. Ela veste um blazer amarelo. Há três mulheres sentadas na mesa. O auditório possui cadeiras azuis e há diversas pessoas sentadas assistindo à apresentação. Uma tela projeta um slide em fundo branco com sua apresentação em inglês. No topo da tela há legendas em amarelo com tarja preta. Na parte superior e esquerda do auditório há duas cabines fechadas com janelas de vidro.

Tecnologia assistiva em AD

Houve várias apresentações no ARSAD que demonstraram como as novas tecnologias têm auxiliado no recurso de audiodescrição.

Na palestra de abertura cujo tema foi “Information and Communication in the Service of Accessible Tourism for All”, o britânico Ivor Ambrose (European Network for Accessible Tourism) demonstrou as ações desenvolvidas em diversos países europeus para tornar o turismo acessível para todos, incluindo para os turistas idosos que cada vez mais são vistos passeando em diversos ambientes culturais da Europa graças a estruturas arquitetônicas mais acessíveis e a recursos de acessibilidade sensorial (legendagem, braile e audiodescrição) em diversos espaços (museus, montanhas, praias, cinemas etc).

A pesquisadora chinesa Xiaochun Zhang (University of Bristol, UK) apresentou sua proposta de ensino de audiodescrição por meio de atividade de gamificação (Applying gamified situated learning approaches in audio description training).

Representando também o continente asiático, Dawning Leung, diretora executiva da Audio Description Association de Hong Kong, mostrou em sua apresentação uma pesquisa feita com os usuários da audiodescrição em sua cidade e as preferências que eles apresentaram no estudo de recepção.

Uma apresentação que gerou grande polêmica foi da especialista em Gerenciamento de Mídias Eveline Ferwerda. A profissional holandesa apresentou a plataforma revolucionária Scribit-Tv.

A plataforma é gratuita e permite que a audiodescrição de vídeos do YOUTUBE seja feita de forma colaborativa por voluntários de diversos países. Alguns profissionais e pesquisadores presentes no ARSAD questionaram a palestrante sobre a automatização do processo de audiodescrição, mas Ferwerda apresentou vídeos com depoimentos de usuários que comprovam a satisfação com o produto final.

A seguir o vídeo com informações do Scribit-Tv

scribittv

https://www.youtube.com/watch?v=s0xh6UYnYOs

A próxima edição do ARSAD será em 2021 e o MATAV espera novamente fazer parte desta comunidade global que inova cada vez mais em audiodescrição.

 

Ruídos nas legendas do filme Roma, de Alfonso Cuarón

Legendas distribuídas pela Netflix na Espanha geram polêmica

O filme mexicano Roma, produzido pela Netflix, foi um dos destaques do Oscar, a premiação mais famosa do cinema internacional, logrando 10 indicações e sendo laureado nas categorias de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Filme em Língua Estrangeira. O drama foi um sucesso entre o público e a crítica, mas também não deixou de suscitar algumas controvérsias.

Ao ser distribuído nos cinemas e na Netflix da Espanha, parte do público se sentiu ofendida por a Netflix usar uma legenda em “Espanhol da Espanha”. O próprio diretor de Roma, o mexicano Alfonso Cuarón, manifestou seu repúdio ao ocorrido: “É ignorante e ofensivo para os próprios espanhóis”, disse ao jornal El País. “Algo de que mais desfruto é a cor e a textura de outros sotaques. É como se Almodóvar (cineasta espanhol) precisasse ser legendado”. O escritor mexicano Jordi Soler também se pronunciou, por meio do Twitter: “Roma está legendado em espanhol peninsular, que é paternalista, ofensivo e profundamente provinciano.”

Na legenda veiculada na Espanha, foram feitas várias traduções desnecessárias, como “ustedes” por “vosotros”, “mamá” por “madre”, “enojarse” por “enfadarse”, “checar” por “mirar” e “suave” por “tranquila”. Houve até traduções equivocadas culturalmente, como trocar uma marca mexicana de guloseimas (Gansito) por um aperitivo espanhol feito a base de milho (Ganchito). A polêmica se deu porque a tradução foi realmente paternalista, parecendo uma tentativa de colonizar o filme mexicano. Com a polêmica, a Netflix logo recuou na decisão, e atualmente as legendas de Roma em todos os países hispanofônicos são iguais – transcrições precisas das falas das personagens.

Mas o deslize foi até certo ponto bem-intencionado: a Netflix tem buscado cada vez mais trazer para seus filmes e séries opções de acessibilidade, como a legenda descritiva e a audiodescrição. O que não justifica o fato de tentarem deixar a linguagem utilizada na legenda “o mais próxima possível do uso na Espanha”, pois dessa forma, impede que o público espanhol tenha acesso a expressões e vocabulário específico da cultura mexicana. O Matav resolveu investigar a confusão, a fim de desvendar os limites da legendagem.

#ParaCegoVer: Na fotografia, em preto e branco, vê-se uma cena do filme Roma. Ao fundo uma praia, com ondas agressivas avançando até a orla. Na areia, a empregada Cleo está no centro, abraçada pela família mexicana: as crianças Pepe, Sofi, Toño, e Paco e a patroa Sofia. As crianças usam trajes de banho e têm os joelhos sujos de areia. A união dos atores assume o formato de um triângulo.

Roma não é um filme sobre a capital da Itália, mas sobre um bairro da Ciudad de México, chamado “Colonia Roma”. Passado entre 1970 (ano em que o México sediou a Copa do Mundo e o Brasil conquistou seu tricampeonato) e 1971, o filme acompanha a vida de uma família de classe média alta, composta por Antonio, o marido; Sofia, a esposa; as crianças Pepe, Sofi, Toño e Paco; as empregadas Adela e Cleo e o cachorro Borras.

Embora Cuarón tenha se inspirado em sua própria infância para produzir Roma (ele é representado por Paco), o diretor abdica do protagonismo do filme para dá-lo a Cleo, uma jovem empregada de origem indígena. O patriarca Antonio abandona a família e a família começa a desmoronar. O país também vive uma situação de tensão política, que às vezes assume uma faceta de violência escatológica. Fora do seio da família, Cleo tem seu próprio universo de desejos e frustrações para lidar. Mas ela se mantém forte e, de maneira silenciosa e gentil, está sempre presente para proteger a bolha de segurança em que viviam as crianças.

Para outros públicos que assistem Roma, como o espectador brasileiro, as legendas distribuídas pela Netflix permanecem com estranhamento linguístico. A maioria dos personagens fala em espanhol, que é legendado em letras brancas. As empregadas, Adela e Cleo, conversam entre si em mixteca, um dialeto indígena, que é legendado também em letras brancas, mas diferenciado pelo uso de colchetes. A escolha da mesma cor de legenda para as duas línguas não é um grande desafio, mas há ainda outros quatro idiomas falados no filme e nenhum deles foi legendado pela Netflix. Este tipo de filme com multilinguismo tem sido cada vez mais recorrente na indústria cinematográfica mundial. Bastardos Inglórios, dirigido por Quentin Tarantino, é um exemplo clássico de filme multilíngue contemporâneo.

Voltando a Roma, percebemos que quando Cleo está em um ônibus, os dois homens sentados à sua frente conversam em um outro dialeto indígena. Também aparecem alguns americanos no filme, que falam em inglês. Os lutadores de artes marciais, embora conversem em espanhol, repetem frases-feitas em japonês. E há até um homem que canta em nynorsk, uma das variantes da língua norueguesa. Nenhum desses trechos é traduzido, possivelmente uma escolha do diretor para que o público permaneça com o sentimento de estrangeirização pretendido no roteiro original.

#ParaCegoVer: Na foto, em preto e branco, vê-se uma cena do filme Roma. Há um homem louro, de cabelos curtos e bigode, em primeiro plano, fantasiado de um monstro peludo. Ele segura a máscara da fantasia embaixo do braço, e canta uma canção, com os olhos perdidos na escuridão da noite. Ele está em uma floresta, e no fundo há vários focos de incêndio com luminosidade intensa. Há alguns homens olhando o fogo e outros tentando contê-lo.

Como já mencionado, a escolha de não legendar esses idiomas se deve a uma opção do diretor. Cuarón provavelmente queria que tivéssemos a mesma experiência que Cleo teve ao ser confrontada com idiomas estrangeiros (ela só é fluente em espanhol e mixteca).

Além disso, Roma é um filme quieto, que nos convida a contemplar os cenários, em vez de nos anestesiar pelo estupor da ação constante. A primeira cena do filme começa com o enquadramento de um chão de garagem sendo lavado – primeiro temos o chão, e então a tela é invadida por ondas de água ensaboada, que refletem um avião pairando no céu. São mais de três minutos com a audiência olhando para o chão, enquanto os créditos passam diante dos olhos. O que para os mais espevitados já seria o bastante para abandonar a sala do cinema (ou fechar a aba da Netflix). Mas a cena também serve para estabelecer o tom do filme, dar um tempo para desligarmos nossas mentes da vida frenética do século XXI e mergulharmos no universo da narrativa que está prestes a se desdobrar.

Quando as falas em idiomas estrangeiros não recebem legendas, nós adotamos com elas o mesmo tratamento contemplativo que despendemos ao chão. Deixamos de analisar as frases apenas em seu sentido literal, porque não as compreendemos, e nos imergimos na estética delas – atribuímos-lhes sentidos que vão além da semântica. Quando os lutadores de artes marciais contam “ite, ni, sã, chi…”, em vez de “um, dois, três, quatro…”, somos remetidos a todo um país, a toda uma história. É um sentimento diferente.

É por causa desse tom contemplativo que a legenda em “Espanhol da Espanha” incomodou tanto. A atitude da Netflix teria aviltado aquela que está sendo considerada a magnum opus do diretor Alfonso Cuarón. Seria uma afronta, não só às suas escolhas artísticas, como também à cultura mexicana. Seria uma tentativa de minguar a diversidade linguística. Porque as palavras utilizadas refletem essa cultura, elas têm um sentimento diferente das palavras que um diretor espanhol teria usado.  

O episódio me faz pensar em José Saramago, autor de livros como O homem duplicado e Ensaio sobre a cegueira. Em respeito ao escritor português, as editoras brasileiras até hoje publicam suas obras seguindo a grafia vigente em Portugal. Além das construções sintáticas diferentes, proliferam-se no texto Cs postos em lugares estranhos para os brasileiros: acção, atractivo, direcção, objectivo. E, além de o autor ter um vocabulário impressionante, ele também faz escolhas lexicais estranhas ao brasileiro: “rapariga” no lugar de “moça”, “oxalá” em vez de “tomara”, “auscultador” para a parte do telefone que levamos à orelha. Ainda assim, os livros são perfeitamente compreensíveis a um brasileiro. Só é preciso se acostumar com a forma particular com que Saramago usa a pontuação e a leitura flui como o vento por uma porta aberta. Se tentassem traduzir seus livros para o português do Brasil, eu como leitor me sentiria pessoalmente ofendido. Seria uma mutilação da cultura portuguesa e da genialidade do autor.

#ParaCegoVer: Na foto, em preto e branco, vê-se uma cena do filme Roma. A empregada Cleo, de feições indígenas, está no banco traseiro de um carro preto. Ela olha pela janela com um semblante sereno no rosto. A janela reflete as nuvens do céu. Há duas crianças dormindo abraçadas a ela, uma garota de cabelos pretos e um garoto louro. Cleo afaga a cabeça da garota com a mão.

Mas há uma diferença fundamental entre um livro e um filme, na forma como as duas mídias são consumidas: a velocidade.

No livro, você pode reler uma frase que não tenha entendido de primeira. Às vezes os olhos percorrem páginas inteiras, enquanto a cabeça está viajando em outro lugar – mas não tem problema, é só voltar a ler na frase onde a consciência tiver debandado. Dá para ler com um dicionário (ou um celular) do lado, e pesquisar prontamente o significado de qualquer palavra desconhecida. Pode-se até ler com uma caneta em mãos, grifando um trecho importante, ou fazendo anotações nas bordas das páginas.

Já quando assistimos a um filme, nossa experiência é outra. O filme tem outro ritmo e é muitas vezes assistido com outras pessoas, ou seja, pode ser cansativo e deselegante pausá-lo para abrir o dicionário sempre que surgir uma dúvida sobre uma palavra ou expressão. Também não temos tempo de reparar em cada detalhe que aparece na tela, em cada sutileza das falas dos personagens, e são raros aqueles que têm a paciência de sentar sozinhos em frente à tela e escarafunchar um filme, pausando e rebobinando várias e várias vezes atrás de easter eggs, de erros de gravação, ou simplesmente de entender com mais profundidade uma obra complexa.

Por essa razão, os filmes precisam ser mais claros que os livros. Eles precisam acertar de primeira, se quiserem ser acessíveis, e precisam ser adaptados a todos os públicos. Faz sentido que exista alguma legenda para um filme mexicano assistido na Espanha. Afinal, as diferenças de sotaque e de vocabulário podem prejudicar a plena compreensão. Só que o espanhol, no México, na Espanha ou qualquer lugar do mundo, é um só idioma – com as mesmas regras gramaticais e a mesma grafia das palavras.

O erro da Netflix foi querer traduzir uma língua para ela mesma e acabar no processo suprimindo manifestações linguísticas e culturais próprias de um povo. Essas manifestações são parte importante de qualquer obra artística e ajudam a encurtar a distância e o preconceito que temos com esses povos. Que a Netflix, e todas as empresas ligadas ao entretenimento, continuem arriscando medidas de acessibilidade – mas com muita parcimônia, para que a tradução não ofusque a obra que a princípio pretendia fazer brilhar.