Assim Vivemos: Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência

Por Isabeli Bovério dos Santos

Descrição oficial da imagem de capa do evento: Imagem de divulgação horizontal com fundo cor de vinho. À esquerda em letras amarelas e brancas: 10 a 14 de abril. Assim Vivemos Online – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência www.assimvivemos.com.br . À direita, foto de uma mulher negra em uma cadeira de rodas com um sorriso largo. Ela é completamente calva e usa óculos. Está com o braço esquerdo ao longo do corpo e o direito apoiado no braço da cadeira. Usa vestido amarelo com estampa de flores cor de laranja e azuis e bijuterias douradas. Abaixo da foto, escrito em branco: Mona Rikumbi é atriz, dançarina, enfermeira e ativista. Na parte de baixo do convite: Produção: Cinema Falado. Apoio: Centro Cultural Banco do Brasil e Anaísa Raquel Produções. Patrocínio: Secretaria de Cultura e Economia Criativa , Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Pátria Amada Brasil – Governo Federal. (fonte Página do Facebook do Festival Assim Vivemos online)

Realizado desde 2003, o Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência é o mais importante festival de cinema sobre o tema. A edição de 2021 ocorreu entre os dias 10 e 13 de abril e foi totalmente desenvolvida pensando na acessibilidade digital e audiovisual. Além de ocorrer de forma online, devido à pandemia, os filmes foram audiodescritos e legendados com LSE (legendas para surdos e ensurdecidos), e os debates contaram com intérpretes de libras, além de estarem disponíveis no site e no canal do Youtube do festival (https://assimvivemos.com.br/2021/online/#_arte).

Lara Pozzobon, curadora e fundadora do festival, mediou os debates através de perguntas e apontamentos sobre as temáticas e contextos apresentados nas sessões. Ao início de cada debate, os participantes são convidados a se audiodescreverem. 

O Debate 1, realizado no dia dez de abril, recebeu Moira Braga e Lucio Piantino que teceram reflexões sobre os filmes exibidos no dia, sendo eles: “A largura e o comprimento do céu” (França, 1998), “Quem é o último?” (Belarus, 2018); e “O que tem debaixo do seu chapéu?” (Espanha, 2006). A temática dessa sessão foi ‘Arte e Diversidade’. 

Moira, como bailarina contemporânea e consultora de audiodescrição, pôde trazer aos ouvintes sua perspectiva profissional e humana em relação aos cenários abordados nos filmes. Lucio, em contrapartida, como artista plástico e como pessoa com síndrome de Down, comentou sobre a realidade dos artistas com deficiência, além do papel transformador da arte e como ela se relaciona positivamente às expressões de vida em sociedade.

No segundo dia de festival, a temática central foi ‘Vida amorosa e autonomia’, com exibição dos filmes “Ver e crer” (Rússia, 2007), “Beleza desconhecida” (Irã, 2014), “Mona” (Brasil, 2018), “Quando brilha um raio de luz” (Irã, 2010), “Dentro de mim” (Tailândia, 2015), e “O que pode um corpo?” (Brasil, 2020). Os convidados para o Debate 2, foram Mona Rikumbi, atriz, dançarina, enfermeira e ativista, personagem documentada em “Mona”, e Victor Di Marco, ator, diretor, roteirista e idealizador do projeto “O que pode um corpo?”.

Os artistas compartilharam suas impressões sobre a experiência e vivência com autonomia na sociedade e na arte, suas problemáticas, enfrentamentos e conquistas em suas diferentes perspectivas pessoais e profissionais.

No dia 12 de abril, terceiro dia de festival, o tema proposto foi ‘Escola e vida independente’ com exibição dos filmes: “Estrangeiros” (Brasil, 2013), “Uma menina em 10×10” (Myanmar, 2013), “Independente” (Israel, 2015), e “De corpo e alma” (Moçambique, 2010).

Participaram do Debate 3, Lucília Machado – Mestra em Diversidade e Inclusão, jornalista, diretora da “Acessar, Comunicação, Diversidade e Inclusão“ e titular do Podcast “Acessando Lucília” – e Rosangela Bernan Bieler – jornalista, conselheira global em Infância e Deficiência da UNICEF. Foram refletidos assuntos relevantes à diversidade humana e a vida independente apresentados nos filmes, bem como a pobreza sistêmica, o olhar da sociedade sobre a pessoa com deficiência e suas influências na discriminação escolar e educacional, além do papel da LIBRAS na educação e inclusão. As debatedoras trouxeram pontos de vista observados nas suas realidades e no cotidiano escolar/acadêmico dos brasileiros.

‘Autismo e neurodiversidade’ foi o tema do último dia de festival que contou com a exibição dos filmes: “Somos todos Daniel” (Canadá, 2009), “Stimados Autistas” (Brasil, 2020), e “Soluções promissoras” (França, 2012). Cristiano de Oliveiro – diretor do filme “Stimados Autistas” e pós-graduado em audiologia clínica – e Laís Silveira Costa – cofundadora do AcolheDown e Doutora em saúde pública – conduziram o Debate 4. Eles proporcionam uma discussão rica sobre temas como espaço no mercado de trabalho, o papel da família na inclusão, as pressuposições existentes sobre as pessoas com deficiência e o rebaixamento de suas capacidades, além da importância da desconstrução do pensamento social e a representatividade visual e social que a programação do festival trouxe.

O evento abordou temáticas interessantes e fundamentais sobre a vida e realidade social das pessoas com deficiência, abrangendo todos seus aspectos – pessoais e profissionais. Os convidados foram importantes para a discussão dos contextos e tramas apresentados nas sessões fílmicas e puderam aproximar o ouvinte à perspectiva brasileira. Assim Vivemos é indicado a todas as pessoas envolvidas com o ativismo dos direitos das pessoas com deficiência, sejam pesquisadores, familiares, estudantes ou profissionais. O festival reflete um caráter humano, inclusivo, único e representativo de todas as temáticas propostas nos quatro dias do evento.

Para saber mais sobre esta e as próximas edições, siga Assim Vivemos nas redes sociais:

Instagram: https://www.instagram.com/festivalassimvivemos/

Facebook: https://www.facebook.com/assimvivemos/

AUDIODESCRIÇÃO NA ESCOLA: ABRINDO CAMINHOS PARA LEITURA DE MUNDO

Descrição da imagem: imagem da capa do livro nas cores azul e branca. Na parte superior da imagem há o nome da autora Lívia Maria Villela de Mello Motta em letras brancas. Abaixo o título do livro na cor verde e o subtítulo na cor amarela AUDIODESCRIÇÃO NA ESCOLA: abrindo caminhos para leitura de mundo. Na parte central da capa do livro há uma gravura de uma sala de aula, assinada por Ricardo Ferraz. Na frente sala, aparece uma professora em pé, vestida de saia e blusa de manga curta, no lado esquerdo de seu rosto há um balão com os dizeres: O homem de chapéu preto, bigode e barba branca. A mão esquerda da professora indica uma tela com a pintura de um homem com chapéu preto, barba e bigode brancos. Ele está apenas com o olho esquerdo aberto, atrás dele há um papagaio colorido, ao fundo aparecem montanhas e parte da imagem do sol. À frente da professora há várias carteiras com crianças sentadas com livros abertos em cima da carteira. Um aluno está sentado em uma cadeira de rodas e outro garoto usa óculos escuros. Na janela à direita há a imagem de uma parte do globo terrestre. Na parte inferior da capa do livro aparece escrito PONTES, nome da editora.

O livro Audiodescrição na escola: abrindo caminhos para leitura de mundo, publicado em 2016, é da autoria de Lívia Maria Villela de Mello Motta, Doutora em Linguística Aplicada pela PUC de São Paulo. Além de promover a audiodescrição em diversos eventos, Lívia Motta também é pioneira em AD no Brasil e é formadora de dezenas audiodescritores.

Audiodescrição na Escola é dividida em nove capítulos, cada qual denominado de modo a sintetizar o que será abordado: primeiro capítulo (prefácio por Marta Gil) – A audiodescrição: uma maneira de vi-ver o mundo; segundo capítulo – A audiodescrição na escola: abrindo caminhos para leitura de mundo; terceiro capítulo – Audiodescrição de imagens estáticas em livros didáticos; quarto capítulo – Aprendendo a descrever fotografias, charges, cartuns, tirinhas e histórias em quadrinhos; quinto capítulo – Exibição de filmes em sala de aula e a participação de alunos com deficiência visual; sexto capítulo – Contação de histórias com audiodescrição; sétimo capítulo – O uso do quadro e de arquivos power point – verbalizar é preciso; oitavo capítulo – Audiodescrição em atividades extracurriculares como teatro, passeios, feiras e exposições; nono capítulo – Um poema para concluir audiodescrição na escola para todos.

O prefácio resume e expressa a opinião de Marta Gil sobre a obra de Motta e sobre a necessidade da utilização da audiodescrição nas escolas. Já os demais capítulos trazem diversas questões a serem consideradas para que haja mais atividades e recursos audiodescritos durante o processo de ensino-aprendizado, tornando, assim, a escola um ambiente inclusivo que promova a acessibilidade. 

Dentre estas questões abordadas ao longo da obra, podem ser destacadas: a definição do conceito de audiodescrição; as ideias de atividades de conscientização sobre a deficiência visual; a importância da visualização com o auxílio da audiodescrição das imagens presentes nos livros didáticos; as orientações para audiodescrição de vários tipos de imagens, de características fisionômicas, de personagens; as orientações para elaboração de roteiros de audiodescrição de filmes; as sugestões de atividades que trazem audiodescrição e que podem ser beneficiadas pelo conhecimento desse recurso (como a contação de histórias, no sexto capítulo); os tipos de livros existentes que trazem uma maior acessibilidade de conteúdo para aqueles que tem baixa ou nenhuma visão (audiolivros, livros daisy, livros em braile e ampliados); a reflexão acerca da necessidade de estratégias, como a verbalização e a audiodescrição; o incentivo a passeios escolares com mais recursos acessíveis, bem como a promoção de outras atividades extracurriculares (como a produção de uma peça de teatro pelos alunos).

Pode-se observar que Motta trouxe um livro que apresenta uma excelente organização da disposição de capítulos, bem como a divisão dentro de cada um, apresentando ao final de cada capítulo, com exceção do primeiro e do último, todas as referências que utilizou. Essa organização junto à linguagem de fácil compreensão e à toda exemplificação, proporciona uma leitura ao mesmo tempo reflexiva, dinâmica e motivante.

Além disso, o livro em si é a prova de que é possível trazer um material acessível de qualidade, visto que o título e o nome da editora estão também em braile na capa, tanto a capa quanto as imagens e as charges possuem descrições, e o livro ainda conta com um audiobook (livro falado) no formato de Cd.

Sabendo que Audiodescrição na escola é um livro que procura levar o conhecimento sobre audiodescrição para o âmbito escolar e universitário, gerando mais acessibilidade e inclusão, e levando em consideração a riqueza dos detalhes apresentados ao longo escrita de Motta, este livro é ideal para todos os profissionais envolvidos com o planejamento acadêmico, em especial os professores, que buscam levar a todos os estudantes um ensino de qualidade. Sua leitura também é recomendada aos profissionais do meio audiovisual, tradutores, bem como àqueles que possuam interesse em temáticas voltadas à acessibilidade ou que queiram conhecer mais sobre o assunto.

MOTTA, Lívia Maria Villela de Mello. Audiodescrição na escola: abrindo caminhos para leitura de mundo. 1. Ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2016.

Dicas de serviços sobre acessibilidade: Boletim da Acessibilidade Audiovisual

Leila Felipini

#pracegover #paratodosverem

Descrição da imagem: imagem da plataforma SoundCloud. Na barra de rolagem, aparecem as abas SoundCloud, Início, Stream, Biblioteca, Pesquisa, Entrar, Criar Conta e Upload nas cores preta, cinza e laranja. Na parte central, aparece uma seta branca dentro de um círculo laranja, ao lado estão escritas as palavras TraduSound, Boletim da Acessibilidade Audiovisual 84. No lado direito da imagem, detalhe das obras da exposição Toque, do artista plástico Helio Schonmann. Em branco, diversos autorretratos em relevo estão dispostos na parede e em uma coluna também na cor branca. 

O primeiro Boletim da Acessibilidade Audiovisual foi ao ar em março de 2019 para o programa Espaço da Inclusão, de Felipe Diogo, pela Rádio Paraty e retransmissoras. Atualmente, o programa é transmitido pela Rádio Teletema e retransmissoras, pelas Rádios Web, e fica hospedado no SoundCloud e no Megafono. Até o momento, foram publicados 84 boletins, e a edição de abril apresenta uma entrevista com o artista plástico Helio Schonmann, idealizador de diversas exposições de arte com acessibilidade para diferentes públicos. Entre elas, Exposição interativa “TOQUE”, a qual apresenta obras para serem vistas e tocadas.  Esse mesmo Boletim apresenta o quadro Peripécias de uma cega com Dayane Bubalo e uma entrevista com Graciela Pozzobon, do Festival Assim Vivemos, primeiro evento a ter audiodescrição no Brasil.

Ana Julia Perrotti é a idealizadora, redatora-chefe, entrevistadora e apresentadora. Atualmente, a jornalista Denise Aleluia está colaborando na prospecção de conteúdo e redação de algumas matérias. 

O temas dos Boletins estão relacionados à acessibilidade em geral. O foco principal é a audiodescrição, mas também há notícias sobre línguas de sinais, legendas, cursos na área, entrevistas com expoentes e ativistas das causas relativas aos direitos das pessoas com deficiência.

O processo de produção dos Boletins é colaborativo e a seleção do conteúdo é bastante orgânica. O Boletim recebe indicações de ouvintes e contatos de pessoas produtoras de conteúdo cultural, além de prospectar temas com base nas datas comemorativas (como Dia da Mulher, Dia do Cão Guia, Dia do Braille, Virada Inclusiva, entre outros).

Para conhecer mais sobre os Boletins da Acessibilidade Audiovisual, acesse 

https://tradusound.com.br/

Festival Assim Vivemos On line

Descrição da imagem: convite de divulgação com fundo cor de vinho. À esquerda em letras amarelas e brancas: 10 a 14 de abril. Assim Vivemos Online – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência http://www.assimvivemos.com.br . À direita, foto de uma mulher negra em uma cadeira de rodas com um sorriso largo. Ela é calva e usa óculos. Está com o braço esquerdo ao longo do corpo e o direito apoiado no braço da cadeira. Usa vestido amarelo com estampa de flores cor de laranja e azuis e bijuterias douradas. Abaixo da foto, escrito em branco: Mona Rikumbi é atriz, dançarina, enfermeira e ativista. Na parte de baixo do convite: Produção: Cinema Falado. Apoio: Centro Cultural Banco do Brasil e Anaísa Raquel Produções. Patrocínio: Secretaria de Cultura e Economia Criativa , Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Pátria Amada Brasil – Governo Federal.

O Blog MATAV colabora com a divulgação do Festival Assim Vivemos on Line. Seguem as informações enviadas pelos organizadores do evento.

Histórias de vidas, de amores, dúvidas, aceitações e frustrações. Trajetórias que perguntam, que buscam pertencimento, soluções, espaços e trocas. O Festival Assim Vivemos Online apresenta um conjunto de filmes e debates transformadores. Uma experiência marcante que propõe a reflexão sobre a riqueza e a beleza da diversidade humana. Um lugar de propostas para a construção de uma sociedade mais diversa, compartilhada e interessante.

Nesta edição, que conta com recursos da Lei Aldir Blanc, serão exibidos filmes de diversos países, que marcaram as edições anteriores do Festival, além de dois filmes brasileiros inéditos. Um mosaico abrangente e rico de como as questões são abordadas em diferentes contextos e culturas. A programação ainda conta com debates e materiais didáticos divididos em quatro temas: Arte e Diversidade, Escola e Vida Independente, Vida Amorosa e Autonomia e Autismo e Neurodiversidade. Toda a programação conta com recursos de acessibilidade comunicacional, nesta edição que permitirá a ampliação do Assim Vivemos para pessoas de todos os lugares.

Realizado desde 2003, o Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência, é o mais importante festival de cinema sobre o tema e foi o primeiro a disponibilizar o recurso da audiodescrição para pessoas cegas e de baixa visão no Brasil. Acontece de forma presencial no Centro Cultural Banco do Brasil, trazendo o melhor da produção audiovisual mundial e nacional sobre o tema, com a primordial participação de pessoas com deficiências em debates e oficinas.

Toda a programação no link https://assimvivemos.com.br/2021/online/

Livro falado

Matéria de Ana Laura Dias.


#ParaCegoVer: Na imagem, um headphone vermelho, conectado a um fio vermelho e com o interior acolchoado cinza, repousa sobre um livro aberto em uma mesa de madeira.

O livro falado surgiu como um recurso eficaz para viabilizar a acessibilidade no Brasil. Ele é uma tecnologia assistiva que serve para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com baixa visão ou cegas. Seu conteúdo, ao contrário dos audiolivros, é disposto por meio de leitura branca, ou seja, objetiva e sem dramatização por parte do ledor, possibilitando diversas interpretações da obra.

Esses livros também podem fazer o uso da audiodescrição, que consiste na tradução de imagens em palavras. Desta forma, todos têm acesso às informações fornecidas durante a leitura por meio de gráficos, imagens, desenhos etc. A audiodescrição é bastante encontrada em livros infantis, que fazem o uso frequente de imagens para contar partes da história.

O pioneiro do livro falado no Brasil foi o professor cego Beno Arno Marquardt, que inicialmente organizava um pequeno grupo de leituras de livros em Braile. Algum tempo depois, com ajuda da ledora Lenora Andrada, fundou o Clube da Boa Leitura, uma biblioteca de livros em áudio com sede no Rio de Janeiro. Entretanto, essa prática só foi popularizada a partir da década de 1980, com o surgimento das fitotecas, que eram espaços dentro de uma biblioteca que disponibilizavam parte do seu acervo em fitas cassete.

Atualmente, é possível encontrar um Livro Falado no formato de CD em diversas bibliotecas e instituições, como o Instituto Benjamin Constant e a Fundação Dorina Nowill Para Cegos, que disponibilizam o livro gratuitamente e enviam para todo o território nacional por meio dos Correios. O link do acervo de ambas as bibliotecas pode ser encontrado no final da publicação.

Conceitos chave:

Audiodescrição: Recurso que traduz imagens em palavras, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão consigam compreender conteúdos audiovisuais ou imagens estáticas

Ledor: Pessoa que empresta aos cegos e deficientes visuais através de sua voz a possibilidade da leitura de diferentes textos.

Tecnologia Assistiva: Conjunto de tecnologias, dispositivos, artefatos e programas que contribuem para que a vida em sociedade da pessoa com deficiência seja facilitada, melhorando suas habilidades funcionais para que ela tenha mais autonomia e inclusão.

http://www.ibc.gov.br/images/conteudo/DTE/DPME/2020/listagem-livros-falados-2020.pdf

http://www.dorinateca.org.br/agora/doc.cfm?id_doc=2072

MATAV is back

Após um ano de muitas mudanças no mundo, o blog Matavunesp está de volta.

2020 não foi fácil para ninguém, ninguém mesmo. Logo depois do anúncio da pandemia, resolvemos realizar atividades remotas como Lives e Oficinas e colocamos nosso Instagram no ar.

Foram experiências maravilhosas, pudemos contar com convidados para lá de especiais em nossas Lives e conseguimos alcançar muita gente de fora de Bauru, de outros estados e até de fora do Brasil. Seguem algumas lembranças de nossas lives sobre acessibilidade.

O que temos para 2021?

Muitas novidades!

O MATAV voltou com suas reuniões quinzenais, sempre às quintas 17h. Estamos com novos membros: alunos dos cursos de RTVI e Tradução da UNESP, profissionais de Tradução e todos farão parte de nossos novos projetos: Podcast, Oficinas, Rodas de Conversa, produção de conteúdo para o blog e Instagram.

Gravem esses nomes, pois vão aparecer como autores de algumas postagens publicadas aqui: Ana Laura, Daniela Cristina, Gabriel Leite, Isabeli Bovério, Leila Filipini, Lucas Mossato, Luiza Hidalgo, Natália Fernandes e Walesson.

Já realizamos duas Rodas de Conversas e nesta semana nossas convidadas são as idealizadoras do Podcast Euphoricas @podcasteuphoricas. Será um papo com muita descontração e com dicas sobre a criação de um Podcast. O link do evento está na bio do @matav_unesp

Sigam nossas redes sociais Instagram @matav_unesp

Facebook https://www.facebook.com/Matav-1376405212602134

Que 2021 seja um ano de muita troca de conhecimento e novas experiências em acessibilidade.

Equipe MATAV

Pioneira em audiodescrição é uma da convidadas da XXI Jornada Multidisciplinar em Bauru

Matéria de João Batista de Carvalho e Silva Signorelli

Lívia Motta apresentará palestra que destaca a importância e os desafios da acessibilidade para pessoas com deficiência visual no Brasil.

livia

#pracegover #pratodosverem: Fotografia colorida de Lívia Motta. Ela está sorridente, usa óculos, batom vermelho claro, veste uma camisa branca e um colar com várias voltas metalizadas e em pedras. 

Nos próximos dias 16 a 18 de setembro, ocorrerá no Campus de Bauru da UNESP, a XXI Jornada Multidisciplinar – 2019, que terá como tema a Crise nas Humanidades: Inclusão e Resistência em Tempos de Retrocesso. Além das diversas atividades e apresentações de Comunicações, Oficinas e Projetos, a FAAC receberá convidados especiais que em palestras e conferências irão destacar diferentes facetas do tema da Jornada 2019.  

Dentre estes, destaca-se Lívia Maria Villela de Mello Motta, que além de ter mestrado e doutorado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), é audiodescritora, formadora de audiodescritores, e diretora da empresa Ver Com Palavras, que realiza audiodescrições para diversos tipos de espetáculos, eventos, e produtos audiovisuais e editoriais.

Lívia é a pioneira nesse recurso de acessibilidade no Brasil, tendo sido responsável pela primeira audiodescrição de uma peça de teatro e de ópera, além de ter organizado a primeira obra sobre audiodescrição e acessibilidade cultural no país, o livro “Audiodescrição: transformando imagens em palavras”. 

Este ano o Blog do MATAV entrevistou a audiodescritora, na ocasião em que audiodescreveu o desfile de carnaval no Sambódromo do Anhembi (link: https://matavunesp.wordpress.com/2019/03/05/desfiles-no-anhembi-tem-camarote-com-recursos-de-acessibilidade/

No evento da FAAC, apresentará a palestra “Audiodescrição e inclusão cultural: aprendendo a expandir o olhar”.

A palestra/oficina de Lívia Motta objetiva discutir e oferecer oportunidades de reflexão sobre a audiodescrição, recurso de acessibilidade comunicacional e modalidade de tradução audiovisual intersemiótica, que possibilita a expansão do olhar, transformando imagens em palavras e ampliando, desta forma, o entendimento e a experiência estética de pessoas com deficiência visual em espetáculos, eventos e produtos audiovisuais por meio de informação sonora. Além do conceito e das diferentes possibilidades de aplicação, serão apresentados também os avanços e dificuldades da implementação do recurso no Brasil.

Ela será realizada na Quarta-Feira, 18 de Setembro, às 8h30, no Auditório Adriana Chaves (Central de Salas), na Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação (FAAC), no Câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). 

 A palestra é gratuita e aberta ao público. 

Quem quiser receber CERTIFICADO deve fazer inscrição para a XXI Jornada Multidisciplinar na Secretaria do DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS (DCHU). Telefone (14) 3103-6064 

Há duas modalidades de  inscrições

Com APRESENTAÇÕES DE TRABALHOS de 22/08 a 05/09.

Para OUVINTES de 22/08 a 16/09.

Abaixo o link com todas as informações da XXI Jornada Multidisciplinar.

https://www.faac.unesp.br/?fbclid=IwAR1ABxS5QP5JCd_FtqD3P11VUHF6f0tFheo7ttrG4cXeTkAtxgMFy8WKpQ8#!/jornada-multidisciplinar-2019) .

Entrevista com Emmanuelle Alkmin Projeto Cozinhando às Cegas

 

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#paracegover #pratodosverem Foto colorida de Emmanuelle em um fundo com placa de cor de madeira clara com listras verticais. Manu olha sorrindo para a câmera. Ela usa brincos, batom vermelho claro e um vestido azul de mangas curtas. Há um microfone de lapela preso no lado esquerdo do vestido. No canto direito superior da foto, há um retângulo e dentro está escrito com letras brancas e em caixa alta “brigadeiro branco”. Na parte inferior da foto, há outro um retângulo centralizado com a frase “Cozinhando às cegas #03” com letras brancas e em caixa alta. Há três figuras de brigadeiros brancos na foto, dois estão no lado esquerdo superior, próximo da cabeça de Emmanuelle, o outro brigadeiro está localizado lado direito e próximo de seu braço.

Muita gente acha que uma pessoa com deficiência visual é incapaz de ter autonomia para tarefas rotineiras, como morar sozinha, cozinhar, fazer compras etc.

A advogada Emmanuelle Alkmin rompeu várias barreiras desde sua infância e comprova mais uma vez em seu programa “Cozinhando às Cegas” que a deficiência visual pode ser superada com muita criatividade.

O blog do MATAV entrevistou Emmanuelle para saber como surgiu seu novo projeto gastronômico. Uma das curiosidades que a ativista nos relatou é que a crise financeira no país e as dificuldades de inserção no mercado de trabalho fizeram com que ela começasse a cuidar literalmente de sua casa, desde faxina até cozinhar todos os dias. Segundo Emmanuelle:  “A primeira vez que utilizei o termo “cozinhando às cegas” foi em uma foto que coloquei em uma rede social de um strogonoff que havia feito. Houve muitos comentários. Muitas perguntas”. A partir daí, surgiu a ideia do programa, leia a seguir a entrevista cheia de otimismo da nossa nova chef.

MATAV: Como foi concebida a ideia do programa “Cozinhando às Cegas”?

EMMANUELLE: Começou bem por acaso. Lembro-me de uma palestra em que falava sobre superação de limites e enfrentamento do desconhecido, utilizei como exemplo uma torta que tinha feito, a dificuldade de colocar a massa líquida na forma, separar cada uma das metades etc.

 Quando terminei, muitas pessoas vieram falar comigo sobre o exemplo da torta. Uma delas me disse: “ Você precisa falar mais sobre isso, porque o que para você é óbvio, para gente não é.”

Percebi que as pessoas que enxergam, efetivamente, desconhecem o potencial das pessoas que não têm visão, simplesmente pela falta de conhecimento, pela falta de convivência, pela falta de exposição desse potencial. Fiquei pensando sobre isso durante bastante tempo.

É difícil ir para frente de uma câmera, ainda mais totalmente fora da minha zona de conforto. Comentei com a Bia Sartori (produtora do programa), quando ela estava saindo de um café que faço em casa, e, ela começou a sonhar! Sonhar efetivamente e delinear esse sonho! Até que surgiu o canal.

MATAV: Quantos episódios e quantas receitas a série terá?

EMMANUELLE: Queremos fazer quatro episódios mensais. Um por semana, toda terça-feira. Não temos o número definido. Terei em vários outros programas pessoas me ensinando a fazer alguma receita para demonstrar as dificuldades de conversa entre esses dois mundos na cozinha que é extremamente visual.

Não temos também o número definido de receitas, porque propositalmente, pedimos para as pessoas sugerirem.

Ainda é uma categoria no YOUTUBE em teste. Essas definições ocorrerão por meio de respostas aos estímulos recebidos dos internautas.

MATAV: Onde foram feitas as gravações do programa?

EMMANUELLE: As gravações são realizadas em pelo menos dois lugares diferentes, não sendo nenhum no meu apartamento. No vídeo da omelete, por exemplo, demonstro a dificuldade de utilização do fogão que é impróprio para utilização de pessoas com deficiência visual.

MATAV: Qual tem sido a repercussão da série tanto para o público com deficiência visual como para o público em geral?

EMMANUELLE: Faz pouco tempo que o programa está no ar, ainda estamos em fase de testes. Qualquer avaliação aqui, é meramente especulativa e baseada em sensações. A repercussão tem sido bem maior entre o público sem deficiência visual, porque, aliás, é a esse público que se destina.

MATAV: Vocês pensaram em inserir audiodescrição no programa?
EMMANUELLLE: Eu sou consultora em audiodescrição, então, isso sempre foi avaliado no projeto. Há dois fatores envolvendo a AD. O primeiro é que o público alvo é o público sem deficiência em geral e, como estamos fazendo tudo em parceria, ainda não é possível fazer um programa acessível com audiodescrição e Libras. O outro aspecto é que tenho a preocupação de falar muito durante o vídeo, para dar às pessoas com deficiência visual a exata noção do que estou fazendo.

Infelizmente, no Brasil, a comunicação inclusiva ainda é inacessível economicamente. Em outras palavras, os custos de uma comunicação para todos não acompanha a velocidade da produção de conteúdo hoje. O que tem ocorrido é o barateamento da tecnologia envolvida na produção de vídeo.

Há, pois, a necessidade de se discutir seriamente essa questão no âmbito da inclusão, porque se de um lado a universalização tecnológica permite a manifestação efetiva da liberdade do pensar e do expressar-se, há, cada vez mais, pela questão econômica, a exclusão desse ‘conteúdo livre’ de parcela significativa da população com deficiência auditiva e visual.

MATAV: Há outras situações, além da gastronomia, em que a pessoa com deficiência visual consegue ser autônoma e que também merecem ser temas de novos projetos?

EMMANUELLE: Com certeza há diversas outras situações em que poderia ser mostrada a autonomia da pessoa com deficiência visual. Contudo, para que consigamos fazer com excelência o que nos propomos, fechamos o leque e recortamos para a cozinha.

Cremos que a culinária aproxima as pessoas, promove uma zona confortável para desmistificar muitas questões relativas à deficiência visual, bem como traz, assim, um ambiente de transformação pessoal para quem assiste, levando o internauta a outras percepções, sensações e à necessidade de estar presente nas situações por inteiro.

Receitas da Manu

Omelete de aveia https://www.youtube.com/watch?v=C0Luqd0GQ1E&t=43s

Brigadeiro Branco https://www.youtube.com/watch?v=JOrmKqfWWfU

Dadinho de Tapioca https://www.youtube.com/watch?v=Ody6m6LiTHQ&t=89s

 

 

 

Junho com Arte Acessível

Resultado de imagem para audiodescrição

As férias de inverno estão quase chegando e para quem mora em algumas cidades do estado de São Paulo há boas oportunidades para assistir espetáculos com acessibilidade.

Encontrar uma peça ou exposição acessível tornou-se uma tarefa mais fácil nos sites brasileiros de divulgação cultural, basta prestar atenção em Tags ou ícones que indicam os recursos de Audiodescrição ou Libras, por exemplo.

No site do Itaú Cultural, para todos os eventos anunciados há as indicações dos recursos oferecidos para as pessoas com deficiência auditiva ou visual. Outro diferencial é a acessibilidade em LIBRAS que está disponível em todos os conteúdos da homepage por meio do aplicativo ProDeaf. A pessoa surda poderá entender todas as matérias em LIBRAS, basta clicar no ícone do aplicativo e, em seguida, selecionar trecho a trecho do texto e uma intérprete virtual traduz em Língua Brasileira de Sinais o conteúdo que está em português.

O MATAV indica duas peças com recursos de acessibilidade que estarão em cartaz em junho e que são produzidas com apoio do Itaú Cultural.

https://www.itaucultural.org.br/

Chiquita Bacana no Reino das Bananas

Fotografia colorida de cena da peça Chiquita Bacana no Reino das Bananas. Na imagem, atores a atoras vestem preto. Colocam as mãos cruzadas sobre o próprio peito e olham para o lado.

#paraCegoVer #paraTodosVerem (descrição da imagem) Foto colorida de atores do grupo Folias d’Arte. Todos os atores estão vestidos de preto, eles estão em pé em um círculo. Na frente da foto está uma atriz de cabelos curtos, de cor avermelhada, ela usa óculos e está com os braços e mãos cruzados cobrindo seu peito. A foto tem fundo preto. (fim da descrição)

A peça de Reinaldo Maia apresenta a história de uma menina que é acusada de comer uma banana no Reino das Bananas.  O reino, que é comandado pelo Rei Leonino e por seu grupo de girafas e gorilas, possui outros animais que estão perdendo suas funções sociais. O desfecho da peça é decidido pelo público.

O grupo Folias d’Arte foi formado em 1997 e seus espetáculos tratam dos problemas da sociedade contemporânea. O grupo já recebeu cerca de 50 prêmios, incluindo os prêmios Shell, APCA e Molière.

Serviço: Chiquita Bacana no Reino das Bananas [com interpretação em Libras e audiodescrição].

Itaú Cultural São Paulo

Endereço: Avenida Paulista 149 São Paulo SP – [Estação Brigadeiro do metrô]

Sábados 22 e 29 e domingos 23 e 30 de junho de 2019 às 15h [nos dias 29 e 30, o espetáculo conta com audiodescrição] [duração aproximada: 60 minutos] Sala Multiúso (piso 2) – 70 lugares

 

Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

#PraCegoVer #PraTodosVerem. (descrição da foto) Fotografia colorida com quatro atrizes encostadas na frente de um fusca branco em uma praça. Elas vestem vestidos rosa, amarelo, azul e laranja e seguram uma faixa longa feita de tecidos coloridos. Sorriem para a câmera. (fim da descrição)

Um projeto itinerante de contação de histórias que usa como base de transporte e fonte de causos um tradicional Fusca branco de 1978, chamado Joaquim. Assim é “Joaquim, o Fusca que Contava Histórias”,  projeto criado pelo gRUPO êBA!, que de 9 a 11 de junho irá percorrer as cidades de São Luiz do Paraitinga, Taubaté e São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba.

A intervenção consiste na apresentação de um espetáculo inédito, A Menina das Meias Vermelhas, seguida de um convite para que o espectador entre no Fusca e, sentado no banco do motorista, compartilhe a própria história, protesto ou o que tiver vontade de contar. A equipe artística é composta de três contadoras de histórias ouvintes que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de uma contadora surda. Todo o espetáculo será acompanhado por elementos percussivos e visuais, e narrado em Libras e português simultaneamente.

Serviço: Joaquim, o Fusca que Contava Histórias

domingo 9 de junho de 2019 às 14h30
Largo do Rosário [apresentação aberta ao público]
São Luiz do Paraitinga, SP

segunda 10 de junho de 2019 às 14h
Emief Anna dos Reis Signorini [apresentação fechada para alunos]
Jardim Jaraguá, Taubaté, SP

terça 11 de junho de 2019 às 15h30
Emef Profa Maria Aparecida dos Santos Ronconi [apresentação fechada para alunos]
R. Ana Gonçalves da Cunha, 400, Jardim Jussara, São José dos Campos, SP

[livre para todos os públicos]

“O Milagre de Anne Sullivan” e a descoberta da linguagem

Filme da década de 60 conta a infância da escritora surdocega

Resenha de João Batista Signorelli

helen keller 2

#ParaCegoVer: Foto em preto e branco de Helen Keller. Ela é uma senhora branca, de cabelos grisalhos curtos. Está em pé e olha para frente. Seu braço direito segura um livro grande em braile e com os dedos da mão esquerda lê uma palavra. Helen veste uma blusa preta com detalhes bordados na gola e usa um colar. Na parede, atrás de Helen, há uma estante com vários livros grandes e alguns enfeites decorativos.

Ela era escritora e ativista política. Escreveu 12 livros e diversos artigos e obteve um diploma de Bacharelado em Artes nos Estados Unidos. Helen Keller viajou o mundo, ministrou centenas de palestras, lutou pelos direitos das mulheres, dos trabalhadores e dos deficientes, foi surda e cega desde os 19 meses de idade.

O início de sua impressionante trajetória foi contado no cinema sob a direção de Arthur Penn (de“Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”) e com Patty Duke interpretando a protagonista em sua infância e Anne Bancroft como Anne Sullivan, tutora de Helen. O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker no original) de 1962 foi uma adaptação de uma peça de teatro com a mesma dupla nos papéis principais. Vale ressaltar que ambas atrizes receberam o Oscar de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante respectivamente. Houve ainda outras duas versões produzidas diretamente para a televisão, uma de 1979 e outra de 2000, mas ainda assim a versão de 1962 permanece sendo considerada como a versão definitiva da infância de Helen Keller.

Trata-se de uma obra prima imensurável, um filme rico em emoções, transmitidas sem cair em artifícios formulaicos de superação típicos de filmes com essa mesma temática.

A trama acompanha Anne Sullivan, uma jovem professora parcialmente cega, em sua tentativa de educar a menina Helen Keller. É por vezes uma obra incômoda e ao mesmo tempo bela, uma vez que é capaz de transmitir tanto o horror de estar no mundo, mas não estar consciente disso, quanto a beleza de descobri-lo.

O filme se inicia com os pais de Helen descobrindo a sua surdocegueira. Logo de início, a natureza incômoda se instaura, com interpretações sem nenhum tipo daquela elegância tão presente em Hollywood poucos anos antes, abraçando uma tendência mais realista e incorporada. Essa natureza crua, quase agressiva se faz presente ao longo do filme, expressa principalmente na própria Helen, que tendo crescido em absoluta escuridão e silêncio, comporta-se violentamente para com as pessoas à sua volta e vaga pela casa quase como um animal.

Os créditos de abertura devem ser analisados minuciosamente, pois já servem para estabelecer situações difíceis constantes no cotidiano da protagonista. Logo na abertura (e que se repetirá ao longo do filme),  a trilha sonora inquietante cria uma atmosfera digna de um filme de terror e a fotografia em preto-e-branco realça as sombras e a escuridão sempre que necessário, tudo com a intenção fazer o espectador sentir desta forma a situação angustiante de Helen.

No início, garota já tem desenvolvida uma linguagem bastante rudimentar, que se limita a gestos de sim e não feitos com a cabeça e sentidos com as mãos, quando realizados por outras pessoas, além de sinais se referindo a suas principais necessidades, como aquele que utiliza para se referir à sua mãe.

Com a intenção final de fazer Helen compreender o mundo por meio da linguagem, Anne, a recém chegada professora faz sua aluna sentir, através do tato, os gestos do alfabeto de sinais, que ela se mostra capaz de reproduzir, mesmo sem atribuir aos gestos significado algum. Porém, ela encontra um difícil contratempo neste processo: o comportamento de Helen. Esta, além agir como animal, é extremamente mimada por sua mãe. Dessa maneira, o primeiro desafio da professora é ensinar a menina a se comportar. Anne Sullivan se revela como a pessoa ideal para realizar tal desafio, pois teve uma infância árdua ao lado de seu irmão paraplégico e é constantemente atormentada por memórias e sonhos retratados no filme pela sobreposição de imagens em flashback que são quase borrões.

É em uma tentativa de “domesticação” e de reversão da educação mimada que Helen recebeu que entra a famosa cena de estafantes, porém fascinantes 8 minutos em que Anne literalmente luta contra a menina para que ela comesse diretamente de sua colher, pois ela sempre havia se alimentado com as mãos. Nessa cena, a ausência de trilha sonora destaca o cansaço da situação e colabora na construção de tensão, além dos próprios sons produzidos pelas personagens como a respiração progressivamente mais acelerada de Anne, os grunhidos de defesa de Helen, os passos e golpes apreensivos e os pratos se quebrando de maneira quase estridente reafirmam a natureza animalesca de Helen e o esforço insistente de Anne para revertê-la.

A partir do momento que o comportamento de Helen passa a ser mais controlado, torna-se então mais fácil para que a professora possa se dedicar a ensiná-la a língua de sinais. A família se dá por mais que satisfeita: Helen se demonstra calma e obediente, menos agressiva e capaz de se servir e comer como uma pessoa comum. Enquanto os pais se demonstram alegres com a melhora da filha, Anne não se dá por satisfeita: “obediência não é o suficiente”. A tutora quer que a menina surdo-cega possa se comunicar e entender o mundo através da linguagem, que ela seja autônoma e não apenas um animal com comportamento condicionado.

Para que isso seja possível, na visão de Anne, o primeiro passo para Helen seria entender que as coisas existentes no mundo têm nome. Essa visão é certamente condizente com os pensamentos sobre Linguagem na época: ainda faltavam alguns anos para que fosse publicado o Curso de Linguística Geral de Ferdinand Saussure. Nele, Saussure vai além da visão de que a Linguagem se resume a dar nome às coisas existentes no mundo, pois nos signos linguísticos existe uma relação mais complexa entre um conceito e uma “imagem acústica”, um Significante e um Significado. Apesar de Anne não se utilizar deste vocabulário, em uma análise mais contemporânea poderia-se dizer que Helen mais do que apenas entender que as coisas têm nome, precisa compreender as coisas ao seu redor como conceitos, e relacioná-los a significantes, no caso dela não se tratando de “imagens acústicas” pois estas não seriam possíveis no Universo de compreensão dela. Criar um termo como “imagem gestual” neste caso poderia ser mais adequado.

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#ParaCegover: Cena do filme em preto e branco “Milagre de Anne Sullivan”.  A garota Helen e sua professora Anne estão em frente de uma bomba d´água no quintal de uma de casa de fazenda. A mão esquerda de Helen está posicionada debaixo da torneira e sua mão direita toca o rosto de Anne, que segura a alavanca da bomba d´água.

Por vezes Anne sente-se frustrada, como se não tivesse sido capaz de realizar o seu trabalho. A menina parece ser um caso perdido, mas no final do filme nos surpreendemos com sua desenvoltura.

Ao relembrar do passado, de quando ainda não era surdocega e estava começando a desenvolver seu vocabulário, Helen consegue finalmente entender a relação entre o mundo e os gestos tantas vezes replicados. Trata-se de uma conclusão inesquecível, é uma experiência catártica, que alivia toda a tormenta presenciada durante a projeção, quando finalmente a aluna de Anne Sullivan experimenta sensações jamais previstas pela sociedade.

O filme não se esforça por contar mais da vida de Helen Keller, sequer traz qualquer informação seu futuro. Não faria sentido, pois o filme está preocupado em contar a história do processo de descoberta da linguagem de Helen e não criar um retrato de sua vida. Não é difícil procurar um livro ou buscar na internet para conhecer um pouco mais dessa vida fascinante. Certamente, o filme desperta bastante curiosidade e acerta ao contar apenas o essencial para sua narrativa. Narrativa que pode se enquadrar no seleto grupo de filmes que de alguma forma mudam a nossa forma de ver o mundo, iluminando e clareando a nossa visão, assim como foi para Helen. Para mim, ao menos, foi assim.