Crônica da Surdez – Ouvindo contos infantis

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Branca de Neve e os Sete Anões foi um filme que marcou a minha infância. Até hoje não sei explicar o motivo de tanta fascinação infantil, que fazia a pequena Ana assisti-lo quase diariamente. Meus pais reviravam os olhos e exclamavam “Mas de novo?” a cada vez que ouviam a fita VHS sendo rebobinada no videocassete da sala. E minha imaginação voava solta ao pegar o conjunto dos bonequinhos dos anões e da princesa, em vinil, para brincar.

Porém, antes dos meus nove anos, ninguém (e nem eu mesma) suspeitava de minha surdez. Eu ainda não usava meus aparelhos auditivos, e os desenhos animados não possuíam a opção de Closed Caption. Somente com a descoberta de minha perda auditiva é que comecei a assistir filmes e animações com legendas, e finalmente percebi que estava perdendo muitas informações sonoras ao utilizar apenas meu sentido da audição.

O tempo passou, eu cresci, minhas fitas VHS foram dadas embora, mas nunca esqueci a influência da história da princesa e dos anõezinhos sobre mim. E, dia desses, uma reflexão sobre contos infantis com minha irmã provocou uma curiosidade crescente em mim. Como ainda me lembro de cena por cena do filme, nomes e ordem exata dos sete anões indo em fileira para casa, se faz mais de dez anos que não vejo esse filme? E o detalhe: eu o via sem legendas, algo considerado hoje por mim uma prática impossível e aterrorizante, ver uma história na tela e só conseguir pescar algumas parcas palavras por vez! Será mesmo que me lembro de tudo exatamente como era, apesar de ter adquirido essas informações através de meu fraco sentido auditivo?

Então, um impulso me dominou noite passada, durante minha ida à locadora da cidade. Fui até a seção dos filmes infantis em DVD e encontrei o que estava procurando inconscientemente. E, dessa vez, eu poderia optar por assisti-lo legendado. Não tive dúvidas: aluguei-o junto com outro filme que também escolhi.

Antes de por o DVD no aparelho da sala, já estava preparada com uma expectativa mediana. “Se o filme confirmar, em minha memória, que me lembro de pelo menos uns 40, 50% de informações corretas, principalmente os diálogos entre os personagens, já ficarei contente”, pensei. Ao começar a assisti-lo, tive uma grande surpresa! Bem mais da metade das falas me trazia uma sensação de déjà vu. Eu as lia através das legendas e tinha a sensação auditiva de já tê-las ouvido antes. Poucos foram os diálogos que me soaram estranhos, havia uma coesão próxima da totalidade dos discursos que ouvira perfeitamente há mais de uma década, sem legendas, aparelhos auditivos ou leitura labial na ocasião.

A única exceção se deu nas músicas, obviamente por elas exigirem uma habilidade auditiva maior do que as usadas para compreender os diálogos. O que antes era para mim apenas melodias e palavras indistinguíveis, agora com as legendas pude finalmente entender as letras das canções da Branca de Neve e dos sete anões. E confesso que elas me decepcionaram um pouco, porque talvez eu esperasse letras mais elaboradas e tenha esquecido que este é um filme para crianças.

Esta experiência me fez refletir sobre a capacidade de resiliência das crianças com surdez. Minha perda auditiva é estável desde a infância, e de grau moderado, mas se acentua muito nas frequências sonoras da fala, de modo que eu raramente consiga acompanhar um diálogo sem o apoio da leitura labial, mesmo utilizando aparelhos. Então é óbvio que eu não compreendi de primeira todos os diálogos do filme quando era pequena. O que explica os grandes resultados de hoje com certeza foi a minha busca inconsciente de adaptação. Um comportamento normal da criança se fixar em um desenho e assisti-lo várias vezes, para mim adquiriu também outro sentido. Mesmo sem saber sobre a minha surdez, eu buscava compensá-la vendo repetitivamente a mesma história até minha audição captar a maioria das palavras, e também lendo os livros de contos infantis e conhecendo os vocábulos através da escrita.

A surdez não tem o poder de nos impedir totalmente de desfrutar e possuir lembranças calorosas de nossas infâncias. É o que prova o bonequinho do anãozinho Dunga guardado até hoje em meu baú cor-de-rosa.

Ana Raquel Périco Mangili

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Conheça a Libras – Língua Brasileira de Sinais

Por Ana Raquel Périco Mangili. Matéria adaptada e cedida pela parceria com a ADAP (Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear). Confira o texto na íntegra em http://adap.org.br/site/index.php/artigos/91-implante-coclear-e-libras-uma-parceria-benefica

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De acordo com o Censo IBGE de 2010 e o Portal de Notícias Terra, dos 9,7 milhões (5,1% da população) de brasileiros que possuem algum tipo de deficiência auditiva, 2,5 milhões não compreendem o idioma materno e não fazem uso da Língua Portuguesa. Apesar de não haver dados exatos do número de usuários de Libras, a Língua Brasileira de Sinais, estima-se que grande parte desses 2,5 milhões de brasileiros optou por adotar exclusivamente este idioma. A esse número soma-se os adeptos do bilinguismo, ouvintes ou deficientes auditivos que conhecem o Português escrito e/ou falado e também a Libras. Saiba mais sobre a fascinante língua de sinais brasileira a seguir!

A Língua Brasileira de Sinais é um idioma de modalidade gesto-visual que combina movimentos gestuais e expressões faciais com a finalidade de transmitir uma mensagem. A Libras teve sua origem na Língua de Sinais Francesa, que foi trazida ao Brasil em 1856 pelo conde francês Ernest Huet, e a partir daí foi adotada pelas comunidades surdas brasileiras, que incorporaram expressões locais a essa língua e possibilitaram a ela uma evolução própria, independentemente de sua origem francesa.

Cada país possui sua própria língua de sinais, que independe do idioma nacional para ser estruturada (Brasil e Portugal, por exemplo, possuem línguas de sinais diferentes). Sendo assim, as línguas gesto-visuais são idiomas completos, com morfologia, sintaxe e semântica próprias, e podem ser usadas para expressar qualquer pensamento ou ideia, por mais abstratos que sejam. Assim como as línguas orais, a Libras também possui variações e dialetos regionais, e é por meio dela que a pessoa surda adquire condições para o aprendizado do Português em sua modalidade escrita, garantindo dessa forma a sua inclusão na cultura nacional.

pw-libras-2013Depois de um longo processo de lutas sociais da comunidade surda, a Libras foi oficializada no Brasil por meio da Lei 10.436, em 24 de abril de 2002, garantindo dessa forma alguns direitos básicos para esses cidadãos, como a possibilidade de solicitação de um intérprete em ambientes formais e de aprendizagem, como escolas e universidades, assim como poder contar com professores e fonoaudiólogos capacitados a lidar com as especificidades da comunidade surda, já que, a partir da referida data, a Libras se tornou uma disciplina curricular obrigatória nos cursos de Magistério e Fonoaudiologia do ensino superior brasileiro.

As vantagens de se aprender Libras vão além de conhecer outro idioma e poder se comunicar com a comunidade surda local. Segundo a linguista e pesquisadora Evani Viotti, da Universidade de São Paulo (USP), como as línguas de sinais são quadridimensionais, isto é, suas estruturas frasais são formadas pela profundidade, altura, largura e o tempo dos gestos, o aprendizado delas pode contribuir no desenvolvimento de uma alta habilidade cognitiva aos seus usuários. Porém, não são todos que conseguem se dar bem com esse idioma: quanto mais cedo se iniciar os estudos e maior for a dedicação pessoal, grandes serão as chances de sucesso e fluência nessa língua, e essa regra vale para qualquer idioma conhecido, oral ou gestual.

Onde aprender Libras?

Para os interessados em aprender esse idioma, há, além de vários cursos de Libras disponíveis na Internet, cursos presenciais da Língua Brasileira de Sinais. Em Bauru, são oferecidos pela Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (Funcraf). Para saber mais, acesse o seguinte link: http://www.funcraf.org.br/index_arquivos/Page567.htm. Porém, vale a pena lembrar que o aprendizado da Libras, assim como de qualquer outro idioma, só se torna realmente efetivo com a prática da referida língua no dia-a-dia.

Aline Vendrame Cordeiro, usuária de Libras há mais de dez anos, nos dá o seu depoimento sobre a língua de sinais. “Aprendi Libras com 15 anos, quando ingressei na escola especial para surdos, o saudoso colégio Anne Sullivan, de São Caetano do Sul”, afirma. Possuindo surdez profunda em ambos os ouvidos, Aline foi educada pelo método oralista (a prática do Português falado e escrito) antes de conhecer a Libras. “Eu prefiro conversar em Libras com um grupo. A conversa flui naturalmente, você capta tudo. É difícil ler muitos lábios [referindo-se ao método da leitura labial]. Em Libras não se tem esse problema, é tudo tão natural quanto a fala”, comenta. E, em relação ao panorama da Libras na atualidade, ela afirma que o número de usuários vem crescendo cada vez mais. “Muitos surdos, intérpretes, e até alguns oralizados estão aderindo à causa. Acho que levei uns dois meses para aprender o idioma. Convivência, não tem nada melhor do que isso. É o segredo que os cursos não fazem”, defende Aline.

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TVs por assinatura investem na audiodescrição

Desde 2011, emissoras brasileiras de TV com sinal aberto são obrigadas, por lei, a exibirem pelo menos duas horas semanais de conteúdo audiodescritivo.  Porém, até o começo de 2014, esse conteúdo raramente era disponibilizado na TV paga (via satélite). A exibição de audiodescrição na TV paga vem aumentando, permitindo que o telespectador deficiente visual possa acompanhar cada vez mais programas, como filmes, seriados e desenhos animados.

Além da audiodescrição, filmes estrangeiros precisam ser adaptados, apresentando opção de dublagem. Legendas ocultas (closed caption), essenciais para que os deficientes auditivos possam acompanhar os programas, também são obrigatórias.

Leia mais sobre o que a legislação prevê sobre o assunto e saiba quais programas de TV disponibilizam audiodescrição: http://www.bengalalegal.com/blog/?p=2773

A série Pedro e Bianca é um dos programas da TV Cultura que apresenta recurso de audiodescrição

O que é audiodescrição?

Muita gente ainda não sabe o que é exatamente audiodescrição e para quem esse recurso é importante.

Segundo as produtoras e audiodescritoras Graciela Pozzobon e Lara Pozzobon:

O recurso consiste na descrição clara e objetiva de todas as informações que compreendemos visualmente e que não estão contidas nos diálogos, como, por exemplo, expressões faciais e corporais que comuniquem algo, informações sobre o ambiente, figurinos, efeitos especiais, mudanças de tempo e espaço, além da leitura de créditos, títulos e qualquer informação escrita na tela.

A audiodescrição permite que o usuário receba a informação contida na imagem ao mesmo tempo em que esta aparece, possibilitando que a pessoa desfrute integralmente da obra, seguindo a trama e captando a subjetividade da narrativa, da mesma forma que alguém que enxerga.

As descrições acontecem nos espaços entre os diálogos e nas pausas entre as informações sonoras do filme ou espetáculo, nunca se sobrepondo ao conteúdo sonoro relevante, de forma que a informação audiodescrita se harmoniza com os sons do filme.

(Graciela Pozzobon e Lara Pozzobon – http://www.audiodescricao.com.br)