Livro falado

Matéria de Ana Laura Dias.


#ParaCegoVer: Na imagem, um headphone vermelho, conectado a um fio vermelho e com o interior acolchoado cinza, repousa sobre um livro aberto em uma mesa de madeira.

O livro falado surgiu como um recurso eficaz para viabilizar a acessibilidade no Brasil. Ele é uma tecnologia assistiva que serve para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com baixa visão ou cegas. Seu conteúdo, ao contrário dos audiolivros, é disposto por meio de leitura branca, ou seja, objetiva e sem dramatização por parte do ledor, possibilitando diversas interpretações da obra.

Esses livros também podem fazer o uso da audiodescrição, que consiste na tradução de imagens em palavras. Desta forma, todos têm acesso às informações fornecidas durante a leitura por meio de gráficos, imagens, desenhos etc. A audiodescrição é bastante encontrada em livros infantis, que fazem o uso frequente de imagens para contar partes da história.

O pioneiro do livro falado no Brasil foi o professor cego Beno Arno Marquardt, que inicialmente organizava um pequeno grupo de leituras de livros em Braile. Algum tempo depois, com ajuda da ledora Lenora Andrada, fundou o Clube da Boa Leitura, uma biblioteca de livros em áudio com sede no Rio de Janeiro. Entretanto, essa prática só foi popularizada a partir da década de 1980, com o surgimento das fitotecas, que eram espaços dentro de uma biblioteca que disponibilizavam parte do seu acervo em fitas cassete.

Atualmente, é possível encontrar um Livro Falado no formato de CD em diversas bibliotecas e instituições, como o Instituto Benjamin Constant e a Fundação Dorina Nowill Para Cegos, que disponibilizam o livro gratuitamente e enviam para todo o território nacional por meio dos Correios. O link do acervo de ambas as bibliotecas pode ser encontrado no final da publicação.

Conceitos chave:

Audiodescrição: Recurso que traduz imagens em palavras, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão consigam compreender conteúdos audiovisuais ou imagens estáticas

Ledor: Pessoa que empresta aos cegos e deficientes visuais através de sua voz a possibilidade da leitura de diferentes textos.

Tecnologia Assistiva: Conjunto de tecnologias, dispositivos, artefatos e programas que contribuem para que a vida em sociedade da pessoa com deficiência seja facilitada, melhorando suas habilidades funcionais para que ela tenha mais autonomia e inclusão.

http://www.ibc.gov.br/images/conteudo/DTE/DPME/2020/listagem-livros-falados-2020.pdf

http://www.dorinateca.org.br/agora/doc.cfm?id_doc=2072

Entrevista com Fernando Botelho

Criador da organização F123, Fernando trabalha em função da inclusão dos deficientes visuais por meio da tecnologia

Fernando perdeu a visão ainda na adolescência e teve o privilégio de estudar sociologia nos Estados Unidos. No Brasil, criou uma empresa que produz software de baixo custo para pessoas cegas, contribuindo para a inclusão digital e social destas pessoas.

fernando

Juliana Gonzalez: Ao ler artigos sobre acessibilidade e tecnologia, esbarrei no termo “desigualdade social no acesso à informação”. Isto é uma realidade no Brasil?

 Fernando Botelho: Existe sim uma consequência grande da maior dificuldade de acesso à informação, porque a informação é importantíssima hoje em dia em todo contexto, desde a educação até o trabalho e a vida social. No caso específico das pessoas com deficiência, os fatores que contribuem para a perpetuação desse sistema desigual é incluir com um menor nível educacional. Na média, pessoas com deficiência têm uma menor escolaridade e, como consequência, menor qualificação para os ambientes de trabalho e afeta o sucesso profissional do indivíduo.

 Juliana Gonzalez: Quais fatores você acredita que perpetuam a exclusão digital, principalmente nos âmbitos comunicacionais como no jornalismo?

Fernando Botelho:  Dificuldades em acessar a informação devido à falta de tecnologia apropriada como leitores de tela para pessoas cegas, dificuldades pelo design inapropriado de páginas web e outros meios de comunicação que criam barreiras ao acesso a toda informação disponível. Então, mesmo quando a pessoa tem um leitor de tela, muitas vezes esse leitor de tela não consegue ler a informação pela forma com que foi desenhado o site. A complexidade dessas tecnologias é um impedimento também para essas pessoas.

Juliana Gonzalez: Quais mudanças você acredita que precisam ser feitas para que exista uma igualdade nesse sentido?

Fernando Botelho: Existem muitas coisas que poderiam ser mudadas e melhoradas, mas o principal seria exigir a acessibilidade na forma com que os conteúdos são criados na internet. Não é financeiramente  oneroso fazer com que todos os sites sigam as regras de acessibilidade da W3C , mas isso cria um impacto grande, porque tanto os leitores de tela mais simples, quanto os leitores mais caros poderiam ler de forma eficiente as informações nas páginas WEB. Hoje isso ainda é um problema sério.

Juliana Gonzalez: Qual a importância das Tecnologias Assistivas neste cenário?

Fernando Botelho: Tecnologias Assistivas são essenciais, elas têm que estar disponíveis. É necessário que exista competição nesse mercado, que existam várias opções, que existam versões gratuitas para que o usuário possa escolher a que se encaixa melhor nas condições e necessidades da pessoa. O governo tem que incentivar, no sentido de exigir que quem produz e quem divulga a informação cumpra com requisitos mínimos de acessibilidade. Porque, a partir daí, o resto do trabalho de disponibilizar isso fica a cargo de quem elabora as Tecnologias Assistivas. Pelo menos uma base mínima de acessibilidade tem que existir na mídia. Nesse sentido, não estou falando só de quem é cego, mas com qualquer tipo deficiência.