ENTREVISTA COM DANIELA REIS, IDEALIZADORA DO PROJETO ENXERGANDO O FUTURO

Por Daniela C. de Carvalho Souza

Descrição de imagem: Fotografia em cores claras. No centro da imagem, Daniela está sentada em um banco de madeira escura e à sua frente há uma mesa de madeira retangular escura. Suas mãos estão sobre uma cela pré-braille nas cores preta, vermelha, azul e verde. Ela é magra, possui pele clara, cabelos castanhos claros, longos e ondulados com mechas loiras. Ela usa um vestido estampado nas cores azul, rosa e branco com alças finas. Está maquiada. Atrás do banco de madeira, na parede de fundo, há uma cortina branca e à direita da imagem há um vaso grande com uma vegetação com flores rosas.

Neste mês a entrevistada do blog MATAV é a empresária Daniela Reis Frontera, de Duartina, interior de SP. Aos 23 anos foi diagnosticada com retinose pigmentar e soube que perderia grande parte da visão. Mesmo em meio às dificuldades, nunca desanimou, buscou maneiras de se adaptar a sua nova realidade e foi aprender Braille. A partir daí, imaginou que além de aprender, também poderia ensinar o método a outras pessoas com deficiência visual e transformar as vidas dessas pessoas, pois acredita que poder ler é também uma forma de inclusão, e o Braille é o caminho para isso. E assim foi criado o projeto Enxergando o Futuro. Na entrevista, ela conta um pouco a história do projeto e sua paixão pelo esporte.

MATAV: Como surgiu a ideia deste projeto?

DANIELA: A ideia surgiu do momento em que resolvi aprender o método Braille e senti muita dificuldade em encontrar um profissional que me ensinasse, mesmo pagando pelas aulas. E isso ficou em meu coração, pois imaginei como seria com aquelas pessoas que realmente necessitam dessa alfabetização e não encontram profissionais suficientemente capacitados.

Então, quando encontrei uma professora que me ensinasse Braille, eu disse a ela que, quando estivesse pronta, gostaria de ser instrutora deste método. E com o seu apoio e suporte técnico, em novembro de 2019, nasceu o “Enxergando o Futuro”. Começamos em minha cidade, com apenas 10 alunos e com aulas presencias. Porém, com a pandemia, tivemos vários desafios, mas superamos e hoje, esse projeto tornou-se mundial.

MATAV: Qual o grande propósito do Enxergando o Futuro?

DANIELA: Nosso propósito é alcançar cada vez mais as pessoas com deficiência visual e levá-las a aprenderem o método Braille, além de tentar conscientizá-las que o Braille é importante na vida da gente; que o Braille é nossa cartilha. Portanto, nosso objetivo é Brailletizar essas pessoas e transformar o Braille numa língua nacional. Também, queremos levar a todos os municípios do nosso país uma consultoria para que possamos capacitar profissionais de tal forma que, se nascer uma criança cega naquele município, a prefeitura tenha um profissional capacitado pelo Enxergando o Futuro, capaz de alfabetizar essa criança.

MATAV: Você poderia dar detalhes sobre como essas as aulas acontecem?

DANIELA: São aulas a distância, por meio da nossa plataforma on-line gratuita e com acessibilidade para as pessoas com deficiência visual. Na plataforma, vamos liberando as aulas para que os alunos possam fazer as atividades dos módulos. Depois, devem postar essas atividades no grupo de WhatsApp de alunos. E, somente depois da correção e análise das atividades é que liberamos outro módulo. Se o aluno tiver dificuldade, nós o chamamos e tiramos dúvidas e ele tem a oportunidade de fazer a correção. Se necessário, fazemos chamada de vídeo com as nossas pedagogas voluntárias que enxergam. E, aleatoriamente, fazemos aulas on-line pelo aplicativo Zoom com a pedagoga vidente que me auxilia na correção.

Logo no início do curso, ensinamos nossos alunos a confeccionarem uma cela pré-Braille, com material reciclável, que vão usar para a alfabetização. E essa é a primeira etapa do curso. A segunda é a reglete negativa, e a terceira é a leitura.

MATAV: Como tem sido a adesão das pessoas ao projeto?

DANIELA: A adesão tem sido muito boa. Estamos atingindo quem gostaríamos, mas queremos muito mais. Nós somos 6 milhões e meio de pessoas com deficiência visual, então ainda temos muita gente para alcançar. Então, pedimos que todos os meios de comunicação se manifestem e abracem a nossa causa para que realmente cheguemos até essas pessoas que não tiveram oportunidade de se alfabetizarem no Braille e possam ser alfabetizados em casa. Só precisa ter a Internet, do restante a gente cuida. Atualmente, estamos com alunos em outros países como Portugal e África do Sul. E no Brasil, já chegamos em 25 estados, totalizando mais de 180 alunos. E queremos transformar nossa plataforma em multilíngue para que também possamos ensinar o Braille em espanhol e inglês.

MATAV:  Como os interessados podem se inscrever e participar deste projeto?

DANIELA: Quem quiser se inscrever pode entrar no nosso site enxergandoofuturo.com.br; nas nossas mídias sociais (Facebook, Instagram, LinkedIn); no nosso canal do YouTube Enxergando o Futuro ou pelo WhatsApp (14) 997408217. É só deixar uma mensagem que já enviamos o link para a inscrição.

MATAV:  Como o projeto é mantido e como voluntários podem ajudar de alguma forma?

DANIELA: Vivemos de doações, de campanhas, de rifas, de lives solidárias. Como o projeto cresceu muito, existem gastos. Então, procuramos empresas que queiram ser parceiras. Já temos empresas e pessoas físicas que contribuem mensalmente. Em breve, vamos transformar o Projeto em Fundação, para que também possamos oferecer outros benefícios aos deficientes visuais. E todos que quiserem contribuir com o Enxergando para o Futuro, podem entrar em contato conosco e para empresas maiores com responsabilidade social, temos formas bem interessantes para que possam participar das mídias.

Aqueles voluntários videntes, ou seja, os que enxergam, também sempre são bem-vindos para nos ajudar e podem entrar em contato pelo WhatsApp.

MATAV: Além de todo esse trabalho e dedicação em ajudar pessoas com deficiência visual, você ainda é paratleta?

DANIELA: Pois é. Quando era criança, eu praticava o paratambor, pois já tinha  dificuldade para enxergar, mas depois acabei parando. Eu sempre gostei muito de esportes. Eu corro, pedalo na bicicleta Tandem. Este ano, descobri a Ecoterapia em meu município, então, entrei em contato para fazermos uma parceria com o projeto e, durante a conversa descobri que eu poderia fazer o paratambor com acessibilidade. Então, comecei as aulas. Como não tenho medo, sou arrojada, enfrentei esse desafio. E, recentemente, fui Vice-Campeã Nacional do Paratambor. Hoje, estou muito feliz e realizada em praticar um esporte que achei que nunca mais conseguiria. E isso não tem preço!

Por isso, digo sempre: você que tem qualquer tipo de limitação, não se entregue! Adapte-se a uma nova realidade de vida e não deixe seu sonho acabar!

Descrição da imagem: Fotografia de Dani Reis. Ela é uma mulher de pele clara, é magra, seus cabelos são castanhos claros, longos e ondulados com mechas loiras. Em pé, ela sorri e segura um troféu prata em forma de um cavalo. Ela veste uma camisa de manga longa azul clara, calça jeans e cinto de couro.

Para saber mais sobre o projeto visite:

https://www.youtube.com/enxergandoofuturo

https://www.linkedin.com/company/enxergando-o-futuro/

https://www.instagram.com/enxergandoofuturo/

https://www.facebook.com/projetoenxergandoofuturo

Entrevista com Emmanuelle Alkmin Projeto Cozinhando às Cegas

 

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#paracegover #pratodosverem Foto colorida de Emmanuelle em um fundo com placa de cor de madeira clara com listras verticais. Manu olha sorrindo para a câmera. Ela usa brincos, batom vermelho claro e um vestido azul de mangas curtas. Há um microfone de lapela preso no lado esquerdo do vestido. No canto direito superior da foto, há um retângulo e dentro está escrito com letras brancas e em caixa alta “brigadeiro branco”. Na parte inferior da foto, há outro um retângulo centralizado com a frase “Cozinhando às cegas #03” com letras brancas e em caixa alta. Há três figuras de brigadeiros brancos na foto, dois estão no lado esquerdo superior, próximo da cabeça de Emmanuelle, o outro brigadeiro está localizado lado direito e próximo de seu braço.

Muita gente acha que uma pessoa com deficiência visual é incapaz de ter autonomia para tarefas rotineiras, como morar sozinha, cozinhar, fazer compras etc.

A advogada Emmanuelle Alkmin rompeu várias barreiras desde sua infância e comprova mais uma vez em seu programa “Cozinhando às Cegas” que a deficiência visual pode ser superada com muita criatividade.

O blog do MATAV entrevistou Emmanuelle para saber como surgiu seu novo projeto gastronômico. Uma das curiosidades que a ativista nos relatou é que a crise financeira no país e as dificuldades de inserção no mercado de trabalho fizeram com que ela começasse a cuidar literalmente de sua casa, desde faxina até cozinhar todos os dias. Segundo Emmanuelle:  “A primeira vez que utilizei o termo “cozinhando às cegas” foi em uma foto que coloquei em uma rede social de um strogonoff que havia feito. Houve muitos comentários. Muitas perguntas”. A partir daí, surgiu a ideia do programa, leia a seguir a entrevista cheia de otimismo da nossa nova chef.

MATAV: Como foi concebida a ideia do programa “Cozinhando às Cegas”?

EMMANUELLE: Começou bem por acaso. Lembro-me de uma palestra em que falava sobre superação de limites e enfrentamento do desconhecido, utilizei como exemplo uma torta que tinha feito, a dificuldade de colocar a massa líquida na forma, separar cada uma das metades etc.

 Quando terminei, muitas pessoas vieram falar comigo sobre o exemplo da torta. Uma delas me disse: “ Você precisa falar mais sobre isso, porque o que para você é óbvio, para gente não é.”

Percebi que as pessoas que enxergam, efetivamente, desconhecem o potencial das pessoas que não têm visão, simplesmente pela falta de conhecimento, pela falta de convivência, pela falta de exposição desse potencial. Fiquei pensando sobre isso durante bastante tempo.

É difícil ir para frente de uma câmera, ainda mais totalmente fora da minha zona de conforto. Comentei com a Bia Sartori (produtora do programa), quando ela estava saindo de um café que faço em casa, e, ela começou a sonhar! Sonhar efetivamente e delinear esse sonho! Até que surgiu o canal.

MATAV: Quantos episódios e quantas receitas a série terá?

EMMANUELLE: Queremos fazer quatro episódios mensais. Um por semana, toda terça-feira. Não temos o número definido. Terei em vários outros programas pessoas me ensinando a fazer alguma receita para demonstrar as dificuldades de conversa entre esses dois mundos na cozinha que é extremamente visual.

Não temos também o número definido de receitas, porque propositalmente, pedimos para as pessoas sugerirem.

Ainda é uma categoria no YOUTUBE em teste. Essas definições ocorrerão por meio de respostas aos estímulos recebidos dos internautas.

MATAV: Onde foram feitas as gravações do programa?

EMMANUELLE: As gravações são realizadas em pelo menos dois lugares diferentes, não sendo nenhum no meu apartamento. No vídeo da omelete, por exemplo, demonstro a dificuldade de utilização do fogão que é impróprio para utilização de pessoas com deficiência visual.

MATAV: Qual tem sido a repercussão da série tanto para o público com deficiência visual como para o público em geral?

EMMANUELLE: Faz pouco tempo que o programa está no ar, ainda estamos em fase de testes. Qualquer avaliação aqui, é meramente especulativa e baseada em sensações. A repercussão tem sido bem maior entre o público sem deficiência visual, porque, aliás, é a esse público que se destina.

MATAV: Vocês pensaram em inserir audiodescrição no programa?
EMMANUELLLE: Eu sou consultora em audiodescrição, então, isso sempre foi avaliado no projeto. Há dois fatores envolvendo a AD. O primeiro é que o público alvo é o público sem deficiência em geral e, como estamos fazendo tudo em parceria, ainda não é possível fazer um programa acessível com audiodescrição e Libras. O outro aspecto é que tenho a preocupação de falar muito durante o vídeo, para dar às pessoas com deficiência visual a exata noção do que estou fazendo.

Infelizmente, no Brasil, a comunicação inclusiva ainda é inacessível economicamente. Em outras palavras, os custos de uma comunicação para todos não acompanha a velocidade da produção de conteúdo hoje. O que tem ocorrido é o barateamento da tecnologia envolvida na produção de vídeo.

Há, pois, a necessidade de se discutir seriamente essa questão no âmbito da inclusão, porque se de um lado a universalização tecnológica permite a manifestação efetiva da liberdade do pensar e do expressar-se, há, cada vez mais, pela questão econômica, a exclusão desse ‘conteúdo livre’ de parcela significativa da população com deficiência auditiva e visual.

MATAV: Há outras situações, além da gastronomia, em que a pessoa com deficiência visual consegue ser autônoma e que também merecem ser temas de novos projetos?

EMMANUELLE: Com certeza há diversas outras situações em que poderia ser mostrada a autonomia da pessoa com deficiência visual. Contudo, para que consigamos fazer com excelência o que nos propomos, fechamos o leque e recortamos para a cozinha.

Cremos que a culinária aproxima as pessoas, promove uma zona confortável para desmistificar muitas questões relativas à deficiência visual, bem como traz, assim, um ambiente de transformação pessoal para quem assiste, levando o internauta a outras percepções, sensações e à necessidade de estar presente nas situações por inteiro.

Receitas da Manu

Omelete de aveia https://www.youtube.com/watch?v=C0Luqd0GQ1E&t=43s

Brigadeiro Branco https://www.youtube.com/watch?v=JOrmKqfWWfU

Dadinho de Tapioca https://www.youtube.com/watch?v=Ody6m6LiTHQ&t=89s