Papo com Legenda Ep. 03 – Lembrei de Você

Transcrição: Ana Laura Dias, Letícia Santos, Luiza Hidalgo

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao terceiro episódio do nosso podcast Papo com Legenda. Eu sou Lucinea Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Estou sentada em frente à mesa de meu escritório, gravando em meu notebook.

ANIELE:

E eu sou a Aniele, uma mulher de 26 anos, cabelos cacheados e curtos da cor castanho escuro. Eu visto uma camisa azul listrada e estou no meu quarto, sentada à frente de meu notebook.  

LUCINEA:

No episódio anterior falamos um pouco sobre a história da dublagem com o queridíssimo Vitor Mello! Foi uma conversa bem legal, e se você ainda não ouviu, corre lá e confira na sua plataforma digital favorita, mas só depois que esse acabar, hein?

ANIELE:

No episódio de hoje, vamos acrescentar mais um elemento à nossa jornada pelo universo da acessibilidade. Diferente dos episódios anteriores, hoje não vamos abordar um recurso de acessibilidade específico, mas sim um projeto que vem fazendo muita diferença no contexto da pandemia. Estou falando do projeto Lembrei de Você.

LUCINEA:

O projeto é coordenado pela professora Mônica Moura, do departamento de design da Unesp de Bauru, que aceitou o convite para agregar ao nosso papo no episódio de hoje. Quem também aceitou nosso convite foi uma voluntária muito querida! A Sara Cristina Gimenez de Faria, que vai conversar um pouquinho com a gente!

ANIELE:

Mas antes de chamar a entrevistada, vamos aprender um pouco sobre a origem e a importância do projeto no nosso quadro Legenda aí pra Mim.

Criado em junho de 2020, pela professora Mônica Moura, o “Lembrei de Você” é um projeto que tem como objetivo criar uma rede de comunicação para ajudar no fortalecimento da autoestima e promover a Inclusão social de minorias. O projeto age por meio de uma rede de voluntários, que organizam a leitura e produção de áudios que são enviados via WhatsApp a ouvintes idosos e pessoas com deficiências visuais, explorando as possibilidades da criação de imagens mentais por meio da ação da linguagem oral.

Isso ajuda também no despertar de memórias afetivas, que trazem bem-estar e qualidade de vida, ajudando no combate à solidão e atendendo ao escopo do Design Inclusivo no contexto da pandemia de COVID-19.

Lucinéa: Realmente, Aniele. A pandemia tem trazido à tona essa problemática do isolamento social, principalmente em relação às pessoas idosas e as pessoas com deficiência visual. Além de não serem incluídas na nossa sociedade no cotidiano, ainda sofrem com a solidão que é reflexo do distanciamento social.

ANIELE:

Com certeza, Lucinéa! A gente trouxe nos episódios anteriores a história e a atuação de recursos audiovisuais acessíveis, mas o “Lembrei de Você” vem para nos mostrar que a acessibilidade está para além do recurso. Um projeto como o da professora Mônica Moura ressalta que só existe acessibilidade quando as pessoas são incluídas. E por isso, a partir desse episódio nosso foco será o usuário desses recursos.

No próximo bloco, conversaremos com a professora Mônica e traremos mais legenda para esse papo.

WALESSON:

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LUCINÉA: Estamos de volta para o nosso segundo bloco. No bloco anterior, aprendemos um pouco mais sobre a história do projeto “lembrei de Você”, da professora Mônica Moura. Mas agora aprofundaremos nosso debate sobre acessibilidade, falaremos com a docente que é idealizadora do projeto. Antes de começar, professora Mônica, você poderia se apresentar e audiodescrever para o nosso ouvinte?

MÔNICA: Lucinéa, eu que quero agradecer o convite, estou muito feliz de poder participar com você. É um prazer e uma honra, ainda mais para falar de um projeto que a gente tem tanto carinho. Eu sou uma mulher de estatura baixa, sou morena, mas tenho cabelos ruivos e eu uso óculos. Eu sou gordinha, tenho olhos castanhos e hoje eu estou aqui, sentada em frente ao meu computador, no meu escritório, na minha casa. Eu estou usando uma camiseta azul e branca e uma saia cinza.

LUCINÉA: Mônica, você poderia contar para a gente como que surgiu o “Lembrei de Você”?

MÔNICA: O “Lembrei de Você” surgiu no ano passado, depois da fase de isolamento social e, por volta do dia 20 de junho, foi realizada a distância a defesa de uma tese, com o título “Design inclusivo na contemporaneidade: diretrizes ao desenvolvimento de materiais didáticos acessíveis a crianças cegas e com baixa visão”, que foi desenvolvida pelo Márcio Soares Guimarães sob minha orientação e coorientação da professora Cássia Carrara. Essa defesa foi resultado de cerca de quatro anos de pesquisa e foi a primeira pesquisa que orientei especificamente destinada ao público com deficiência visual.

A partir disso, organizamos uma mesa redonda sobre design inclusivo com o título de “Design, Educação e Inclusão” e participaram dessa mesa pesquisadores e professores que trabalham com inclusão e educação e também convidamos designers que atuam nessa área. A mesa foi muito rica, produtiva e muitas pessoas assistiram. Após isso, ficamos mais um pouquinho conversando e eu questionei ao grupo e a mim mesma: “É tudo muito bonito, a defesa de tese foi ótima, o resultado foi maravilhoso e essa mesa redonda foi incrível. Mas o que nós, que estamos envolvidos com isso, estamos fazendo para o público com o qual trabalhamos e que é fonte da nossa pesquisa? O que estamos fazendo por eles nesse momento da pandemia? Como designers, precisamos projetar alguma coisa”. Afinal, o design, principalmente o contemporâneo, não se fixa só em produção de coisas, artefatos, objetos ou de peças de comunicação e informação, ele também se destina ao desenvolvimento de ações. A partir desse momento começamos a conversar e nisso surge o projeto “Lembrei de Você”.

LUCINÉA: Mônica, quem deu o nome “Lembrei de Você”? Houve outras propostas de nome?

MÔNICA: Vários nomes foram elencados, na verdade, alguns nomes davam impressão de ser uma cantada. Às vezes ficava parecendo um nome de um filme, como “Tão Longe e Tão Perto”. Não poderíamos usar o título de um filme. Por fim, eu acredito que foi o Márcio que falou para iniciarmos a mensagem com “Lembrei de Você” e todo mundo gostou muito. Fomos ver se já existia algum nome registrado ou algo parecido nesse aspecto e não encontramos nada, então adotamos esse nome e eu acho que foi um nome muito feliz.

LUCINÉA: É lindo! Mônica, com esse sucesso e esse alcance tão grande, vocês acham que ele pode se tornar um projeto a longo prazo?

MÔNICA:  Então queremos sim dar continuidade. Inclusive o projeto que enviamos para o CNPq e tem a validação da bolsa PQ (Pesquisa Qualificada), se aplica a pessoas com deficiência visual, mas não só a elas. Há também pessoas videntes que estão em estado de solidão, temporário por conta da pandemia ou mais prolongado, pois moram ou se veem sozinhas. Também se aplica a pessoas que não estão em nenhum desses casos, porque temos muitos ouvintes que não são pessoas acometidas por alguma deficiência, mas também não estão em estado de solidão, porém, gostam muito de receber os áudios e fazem parte de um dos grupos de ouvintes. Então, na verdade, esse projeto tem como proposta abraçar diversos públicos, até porque, depois que nos aprofundamos no estudo a esse respeito, nós vimos também que essa possibilidade de levar textos de literatura, poesia, música ou relatos de vida, também possibilita uma ampliação do repertório estético e cultural às pessoas.

No caso das pessoas com cegueira, você também possibilita o desenvolvimento de imagens mentais. Claro que não são todas as pessoas cegas que continuam com a criação de imagens mentais, com forma e cor. Às vezes são só imagens de luzes, sombra ou sem cor, mas grande parte das pessoas cegas continuam com as suas imagens mentais e o fato delas ouvirem histórias diferentes, por meio dos áudios, possibilita isso.

LUCINÉA: Mônica, vocês têm uma noção de quantos usuários dos áudios vocês alcançaram que têm deficiência visual, que a gente chama de pessoas cegas ou de baixa visão, e quantos idosos?

MÔNICA: Nós temos um número aproximado. Não temos ainda essa separação, esse número exato entre cegos e baixa visão, mas sabemos que hoje o projeto atende 678 pessoas. Entre essas pessoas, temos por volta de 150 pessoas que são deficientes visuais, temos um número de idosos próximo a 50 pessoas e, por fim, temos pessoas de outras idades ou outras pessoas com baixa visão que não temos conhecimento, pois algumas não declaram.

LUCINÉA: Mônica, para terminar, eu queria que você falasse de um ou dois relatos dos usuários do Lembrei de Você que tenha te marcado.

MÔNICA: Tenho vários relatos que me marcaram de forma muito sensível e emotiva. Eu ouço todos os áudios, até porque trabalhamos em um grupo para podermos fazer a divisão desses áudios, para verificarmos se tem algum ruído ou problema neles e para classificá-los.

Então, nesse sentido de tocar, em termos de emoção, nós temos vários áudios, mas também temos situações muito engraçadas. Temos uma voluntária que se chama Patrícia e, na pandemia, ela foi para uma casa do interior e, pelo que ela contava, a gente entendia que era como um sítio ou uma casa de campo. E aí, ela não tinha nenhum livro ou revista, porque ela não levou. Então, ela contava histórias dela, coisas que aconteciam lá. Vou falar duas histórias dela que são muito engraçadas.

Primeiro, um dia ela achou um pão caseiro inteiro na porta de sua casa de presente, mas ela não descobriu quem era. Então, ela foi contando a história e a gente imaginou que nos próximos áudios ela iria contar para a gente quem deixou o pão. E a gente começou a imaginar falando: “Nossa, será que é alguém que está apaixonado por ela? Quem será?” E até hoje a Patrícia não descobriu quem foi que deixou o pão lá.

Outra história dela foi a dos lagartos. Sabe aqueles lagartos grandes, que vivem em pedras? Então, ela viu dois lagartos que ficavam pelo seu quintal e resolveu começar a alimentar eles com ovo e tudo mais. Um dia, os lagartos entraram na casa e foram para debaixo da cama dela. Então esse foi outro áudio muito divertido.

E uma coisa que também me emocionou muito, por uma questão muito pessoal, é que a Sara, com quem vocês acabaram de fazer a entrevista, é filha de uma ex-aluna minha, que também foi minha monitora e estagiária. Então, eu fui ao casamento da Débora, vi ela grávida, conheci a Sara bebê e depois nunca mais tive oportunidade de encontrar. Por isso, quando ela enviou o primeiro áudio, foi uma surpresa e, também, uma alegria muito grande em todos os sentidos: como a gente pode estabelecer esses vínculos emocionais, afetivos, e como essas coisas também podem se propagar muito além de nós. Então a gente lança uma pequena sementinha e, olha que bonito, o fato de uma mãe, ao exercitar essa questão de uma doação de tempo, de voz e de vontade, influencia a sua filha. Para mim, isso foi muito bonito.

LUCINÉA: Parabéns, Mônica! É um projeto muito lindo e desejamos um sucesso a longo prazo e que continuem alcançando mais pessoas. Parabéns pelo projeto!

MÔNICA: Eu agradeço muito! E, como essa entrevista é também uma forma de divulgação para o projeto, se alguém tiver interesse eu peço para entrar em contato via Instagram, no canal do Lab Design Contemporâneo. A pessoa pode comunicar se quer participar ou como um voluntário ou como ouvinte – seja um ouvinte individual (pessoa física) ou uma instituição – e a gente entra em contato.  

ANIELE: Gente, esta foi a primeira parte da entrevista. E vamos agora para um breve intervalo.

No próximo bloco, continuaremos nossa entrevista com a Sara Cristina Gimenez de Faria.

WALESSON: Para acompanhar nossos textos sobre acessibilidade e as transcrições dos episódios Papo com Legenda, acesse o blog matavunesp.wordpress.com

LUCINÉA: Estamos de volta e para dar prosseguimento a esse episódio especial. Conversaremos agora com a Sara, que é voluntária do projeto Lembrei de Você. Sara, você poderia se apresentar e se audiodescrever?

SARA: Oi! Meu nome é Sara Cristina Gimenez de Faria. Eu sou baixa, tenho 9 anos, uso óculos e tenho um cabelo marrom meio escuro meio claro. Uso saia e blusa azul com flamingo.

LUCINÉA: Sara, a gente entrou em contato com o projeto e tivemos acesso às suas locuções, e eu queria entender um pouquinho. Primeiro, eu queria saber quantos anos você tem e por que você aceitou ser voluntária nesse projeto, que é o Lembrei de Você. Conta um pouco para a gente como que foi que você começou a ajudar as pessoas por meio do Lembrei de Você.

SARA: Bom, eu tenho 9 anos e eu comecei a querer participar quando vi a minha mãe fazendo os áudios para gravar histórias; eu fiquei com vontade e pedi para participar. E foi aí que eu comecei a fazer os áudios. Na segunda à noite eu e a minha mãe sempre gravamos os áudios.

LUCINÉA: Entendi, então tem um dia da semana que vocês escolhem para fazer e aí vocês mandam, é isso?

SARA: Isso.

LUCINÉA: Perfeito! Sara, e como você escolhe o tipo de gravação que vai enviar? São coisas que você gosta de ler? São contos, poesias, histórias? Fiquei sabendo que você canta também… Então como que é? Você e a sua mãe que decidem juntas o que você vai mandar ou você pede para gravar as coisas que você mais gosta?

SARA: É, eu escolho por meio do que eu gosto. E aí eu leio histórias, poesias e uma vez eu cantei.

LUCINÉA: Foi lindo! Você sabe que eu ouvi uma música com os meus pais, que são bem velhinhos, e eles gostam. Eu coloquei para eles e eles adoraram!

SARA: E, também, a mamãe me ajuda a escolher o livro, porque às vezes ele é grande e a minha mãe já leu.

LUCINÉA: Ah, então ela ajuda para não ler inteiro. E Sara, uma última pergunta: você fica feliz em ajudar as pessoas, ou as que são idosas e mais velhas, ou as que não enxergam? Porque a gente sabe que tem pessoas cegas que ouvem esses áudios. Então eu queria saber se você fica feliz, porque a sua voz dá um conforto para essas pessoas?

SARA: Ah, eu fico feliz, porque eu ajudo as pessoas, elas se divertem e aprendem, e assim eu me sinto útil.

LUCINÉA: Ah, que legal! E você quer sempre continuar com esse projeto?

SARA: Sim, eu sempre quero continuar com esse projeto.

LUCINÈA: Então, parabéns pela colaboração! Eu tenho acompanhado os seus áudios e eles são muito confortáveis para quem está do outro lado te ouvindo!

SARA: Muito obrigada!

LUCINÉA: Parabéns, Sara!

ANIELE: Bom, e depois dessa entrevista da Sara, estamos chegando ao fim deste episódio. Mas para você que está chegando e quer conhecer um pouco mais do papo com legenda, pode conferir nossos episódios anteriores.

LUCINÉA: É isso aí, Aniele. Este foi nosso 3º episódio, mas se você não ouviu os anteriores, corre na sua plataforma de podcast favorita e ouça já. Para ficar por dentro de tudo o que a Profa. Mônica nos contou e ficar sabendo ainda mais sobre Design Inclusivo, não deixe de seguir @labdesigncontemporaneo

ANIELE: Como é importante o projeto Lembrei de Você, ainda mais no contexto de pandemia que ainda estamos passando. O trabalho da Profa. Mônica é essencial para amenizar os efeitos do isolamento e solidão dos idosos com deficiência visual e também dos idosos videntes. É claro que teria que virar um episódio. O programa de hoje fica por aqui.

WALESSON: O Papo com Legenda é um podcast original do MATAV, o Grupo de Pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual. Para ficar por dentro dos lançamentos e demais novidades acompanhe o nosso Instagram @papocomlegenda