As vozes Tagarellas da Audiodescrição

Todo dia quero ser os olhos de alguém. (Mimi Arágon)

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As tagarellas Kemi Oshiro, Marcia Caspary e Mimi Arágon (da esq. para a dir.) na 32ª Feira Regional do Livro de Novo Hamburgo.

Entrevista de Giovana Amorim

Revisão: Lucinéa Villela

Entre os vários e interessantes projetos sobre comunicação e acessibilidade, principalmente no que se refere ao recurso da audiodescrição, a empresa Tagarellas é uma referência em qualidade e profissionalismo no Brasil. A fundação porto alegrense foi inicialmente criada apenas para realizar produções sem utilizar do recurso de acessibilidade

Os sócios da Tagarellas Audiodescrição são produtores, jornalistas, redatores, atores, narradores, roteiristas e, acima de tudo, audiodescritores. Apaixonados pelos trabalhos que fazem e pelos seus produtos não se contentam apenas com o meio digital ou com a área cinematográfica: já audiodescreveram vídeo, danças, foto e até casamentos; participam de Feiras do Livro e com frequência participam como audiodescritores de lançamentos de filmes no Festival de Cinema de Gramados.

Levando a cultura acessível até o público em geral, a Tagarellas se coloca à disposição para fazer do mundo um espaço menos discriminador e segregador. Mimi Arágon, 43 anos, publicitária, roteirista, audiodescritora e sócia da Tagarellas deu uma entrevista para o Blog do MATAV sobre o início, os meios e os fins do seu trabalho e da sua equipe.

 

Giovana Amorim (colaboradora do Blog MATAV): Em primeiro lugar, parabéns pelo projeto. Conhecendo essa área há tão pouco tempo, eu já recebi bastante informação por meio do trabalho de vocês e isso me ajudou em muitas dúvidas. Queria que vocês falassem um pouco sobre o surgimento e consolidação da Tagarellas.

Mimi: Eu conheci o recurso [da audiodescrição] em 2010. Fiz um curso com a Lívia Mota, de São Paulo, que veio a Porto Alegre para ministrá-lo. No curso estava comigo a Márcia Caspary, dona da Tagarellas Produções que ainda não fazia audiodescrição. Depois desse curso, nós nos apaixonamos perdidamente pelo recurso e montamos um grupo de estudos.

Na época ainda não havia um curso de formação em audiodescrição como lá em Juiz de Fora, então, nós fazíamos cursos de carga horária reduzida, 40 horas por semana, e nos virávamos para estudar. Tínhamos reuniões uma vez por semana para pesquisar mais sobre as diretrizes do recurso, como era feita a audiodescrição no Brasil e nos outros países. Nós propusemos fazer algumas coisas e aí a gente fez um videoclipe com audiodescrição da Luiza Caspary.

A partir desse grupo de estudo, a gente começou a receber muita demanda de trabalho e percebemos que tínhamos uma empresa; tinha pessoal, tinha mão de obra e tinha trabalho. E então começamos a trabalhar: eu, a Márcia, a Mariana Baierle e o Felipe Mianes.

A gente já tinha a empresa da Márcia com o nome Tagarellas, passamos a usá-lo e pegou. Depois conhecemos a Kemi e formamos o time que temos de cinco sócios.

MATAV: Olhando no Blog de vocês, percebi que ministram e ministraram várias vezes cursos e oficinas sobre acessibilidade e audiodescrição. Quando surgiu a idéia de expandir a atuação para algo mais aberto a toda sociedade?

Mimi: Na verdade essa é uma demanda que surgiu porque as pessoas têm muita curiosidade sobre o recurso que é novo, no mundo existe há 35 anos e no Brasil há 15 anos. É uma novidade e desperta curiosidade, ainda mais quando passou a ter obrigatoriedade na TV, a partir de 2008. Isso deu bastante visibilidade para o assunto. As pessoas perguntam muito o que é. Nossos cursos são de sensibilização e não de formação. Eles oferecem uma introdução ao assunto. Nós recebemos sempre muitos pedidos para que façamos esses eventos e esclarecemos o que é o recurso. Embora a gente não tenha se programado para ministrar cursos, nós também fazemos porque é nossa missão de multiplicar o conhecimento, a gente precisa fazer isso para espalhar por aí. É o compromisso que temos em divulgar o conhecimento sobre a audiodescrição.

MATAV: Como é a receptividade do público? Existe um tipo de público específico que participa mais ativamente desses cursos ou vocês têm variedade?

Mimi: Não, esse público na verdade passa sempre por renovação. No ano passado e neste ano (2014) nós fizemos aqui em Porto Alegre uma oficina na Feira do Livro. No ano passado (2013) tinha muita gente de muitas áreas e que chegou à oficina desconhecendo o recurso. As pessoas foram chegando por curiosidade, perguntando o que era aquilo e dizendo que tinham ouvido falar, mas não sabiam o que era. Este ano foi diferente, o público que recebemos na oficina foi para aprofundar o que já sabiam um pouco. Era gente que já trabalhava com acessibilidade de livros, libras e outros recursos, pessoas que foram para aprofundar um pouquinho mais sua noção sobre produto cultural acessível. A gente vê que aos poucos esse nosso papel de multiplicação do conhecimento tem funcionado, ou seja, o público tem se renovado e se especializado. É um público que sempre se renova e se especializa.

 

MATAV: A Tagarellas realiza também muitos eventos: já participaram de exposições, conferências e até espetáculos de dança. Qual a importância das parcerias que vocês fazem ao longo do projeto?

Mimi: Para Tagarellas e para mim pessoalmente, da maneira como eu vejo a questão da acessibilidade principalmente no Brasil, é fundamental ter parcerias. Eu acho que o nosso mercado nem está constituído, a audiodescrição e a acessibilidade são tão novas no Brasil que a gente precisa andar junto. Se a gente não andar junto, não vamos conseguir constituir esse mercado. Se a gente não for parceiro e se abraçar, não vamos conseguir construir a acessibilidade e não vamos conseguir avançar com os conceitos, práticas e políticas que precisamos. É uma das nossas bandeiras na Tagarellas. A gente acha que se não andarmos juntos, construirmos juntos, nós não vamos avançar.

Eu não acredito na questão da competição. Existem algumas poucas empresas que acham que nós somos concorrentes, mas eu não acredito que tenhamos concorrentes no mercado e, sim, aliados. Eu gostaria que todos trabalhassem sob essa lógica, mas já somos felizes de ver que a maioria não acredita na competição.

Tivemos uma experiência muito, muito bacana neste ano de 2014 que foi o filme A Despedida. Fizemos seu roteiro de audiodescrição para o Festival de Cinema de Gramado. O diretor Marcelo Galvão já é parceiro desde que fizemos a audiodescrição do seu filme Colegas em 2012.

Daí quando aconteceu a história do movie reading, que é um aplicativo da Iguale, aí de São Paulo (do Maurício Santana), o Marcelo insistiu para que nosso roteiro fosse usado pelo aplicativo. O Maurício me ligou um dia falando que o nosso roteiro estava muito bom e disse que queria passar o filme em São Paulo com o ele. Realmente o filme foi gravado com o nosso roteiro e isso foi uma prova de que a gente pode andar junto, e é assim que a gente vai construir a acessibilidade.

MATAV: Como a mídia ajuda na área de audiodescrição? Vocês sentem uma abertura grande ou até crescentenos veículos de comunicação para a pauta da acessibilidade?

Mimi: Olha, a gente tá caminhando, é um trabalho de formiguinha. Temos que trabalhar todo dia. A acessibilidade ainda é relativamente desconhecida. Quando começamos a trabalhar forte com a Tagarellas, a gente optou por divulgar bastante nosso trabalho, usar redes sociais, manter nosso blog atualizado e estabelecer relações bacanas com jornalistas e com a mídia. Porque é preciso que as pessoas conheçam o recurso, a gente precisa divulgá-lo, o público alvo às vezes não conhece o recurso, a gente precisa o tempo inteiro divulgar. E a gente precisa manter aliados, como a mídia, um aliado que todo mundo sabe que é forte e poderoso.

Quando fazemos uma divulgação do nosso trabalho e vamos atrás de um jornal, da TV, a gente não está fazendo uma propaganda da Tagarellas. Estamos divulgando o recurso, a audiodescrição, a iniciativa, um pensamento político.

Existe uma questão muito importante: os deficientes, historicamente, sempre foram discriminados e excluídos. Se a gente não fizer barulho por causa dos recursos acessíveis, essas pessoas vão continuar ilhadas. Também temos que procurar a parceria da mídia, mas procuramos nos manter atualizados. Quando vamos fazer um evento nós avisamos as pessoas por e-mail, mandamos mensagem, ligamos. É importante isso, saber que as pessoas receberam a informação. É difícil tirar as pessoas de casa, ainda mais em Porto Alegre, uma cidade inacessível, de difícil circulação, que não está preparada para receber as pessoas. A gente tem um trabalho muito cuidadoso, boca a boca, corpo a corpo. Não é a divulgação do trabalho da Tagarellas e, sim, do recurso acessível.

 

MATAV: Vocês já produziram audiodescrição de curtas e longas, como por exemplo, o filme Colegas, de Marcelo Galvão, mas também já fizeram audiodescrição de espetáculos de dança. Como é se aventurar por tantos modos de produção e quais são as grandes dores e delícias do processo? 

Mimi: É sempre um desafio para gente. É uma revolução. Na Tagarellas eu trabalho com produção e roteiro, eu sou roteirista, que é meu grande barato, igual às artes cênicas. Eu adoro ficar pulando de galho em galho. Adoro fazer roteiro para teatro, dança, circo e artes visuais. Quando eu comecei a fazer audiodescrição me incomodava que pessoas iguais a mim não pudessem ir ao teatro como eu, que vou desde pequenininha. Eu acho que do ponto de vista do público, quanto mais a gente puder oferecer produtos variados, melhor. Quanto mais a gente puder oferecer livro acessível, teatro acessível, filme acessível, fotografia acessível, oficina de artes e xilogravura como fizemos em Porto Alegre, enfim, quanto mais a gente variar o cardápio de produtos acessíveis, melhor. Do ponto de vista do desafio profissional, eu quero fazer tudo. Costumamos dizer nas oficinas que não existe nada que não pode ser audiodescrito. Tudo o que pode ser visto pode ser audiodescrito. E a gente quer fazer tudo. No início deste ano, nós audiodescrevemos um casamento aqui no interior do Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina. E estávamos muito inspirados pela experiência da Lívia, que não só foi nossa professora como nossa grande incentivadora. Ela é nossa “mãezona”. A gente já fez audiodescrição até de concurso de miss. Nós queremos fazer tudo! Eu sou uma super empolgada. A gente fica empolgado, queremos inventar muita coisa, queremos abrir os olhos das pessoas por aí. A gente quer fazer acontecer!

 

MATAV: Algumas exibições de trabalhos das Tagarellas foram feitas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Visto que a universidade no todo é um lugar de jovens, gerador e transformador de pensamento e comportamento, qual o papel desse espaço junto às questões da acessibilidade? Vocês acham que a educação superior brasileira hoje é receptiva a esse assunto?

 Mimi: Eu acho que a universidade é fundamental para a acessibilidade, é o grande balão de ensaio para a pesquisa, o desenvolvimento. Na verdade, a audiodescrição nasceu de uma dissertação de mestrado, de uma pesquisa nos Estados Unidos e se desenvolveu muito nesse meio. No Brasil, a audiodescrição está muito vinculada à pesquisa acadêmica. Eu sou formada em propaganda e não sou nada acadêmica, nada mesmo, mas busco muito ler e pesquisar, dependo muito da produção acadêmica, só não tenho perfil de pesquisadora. De qualquer maneira, o trabalho na academia é de fundamental importância para o desenvolvimento do recurso.

De quatro anos para cá, quando eu comecei a estudar a audiodescrição, foi impressionante ver que o número que trabalhos acadêmicos sobre a acessibilidade e audiodescrição aumentou muito de tamanho no Brasil. E isso engrandece muito nosso trabalho aqui fora. “Aqui fora” significa para gente que está no mercado trabalhando com isso, enfim. A gente tem que andar junto, como eu falei no começo da entrevista.

Essa construção da questão da acessibilidade e da audiodescrição inclui os profissionais da audiodescrição, o público, o poder público, os pesquisadores, a academia. Então, quando eu falo no coletivo, é todo mundo. Nós e vocês da academia. Se não andarmos juntos, não vamos avançar. A gente só avançou o que avançou até agora por causa, em grande parte, da pesquisa. A gente precisa muito dos estudos, por isso o que está acontecendo em Juiz de Fora é de uma riqueza impressionante (Curso de Especialização em Audiodescrição, Universidade Federal de Juiz de Fora). Tive a oportunidade de estar lá como ouvinte. E foi muito especial ver que quando a gente começou não tivemos a mesma oportunidade desses alunos em Juiz de Fora, pois eles têm todos esses professores que são, na verdade, pioneiros da audiodescrição do Brasil reunidos e sistematizando conhecimento.

Quando eu comecei, eu tive que fazer sozinha. A Lívia facilitou bastante, mas tive que ir fazer contatos e aprendendo por minha conta. A turma de Juiz de Fora está tendo uma oportunidade incrível de ter aula com os melhores professores, dentro de uma Universidade Federal com um conhecimento bem sistematizado que só o ambiente da academia proporciona. Então é muito rico, é muito importante, a gente precisa mesmo andar todo mundo junto para conseguir avançar. É no que eu acredito, pelo menos até agora.

MATAV: A comunicação é importante para o funcionamento do mundo talvez desde quando ele foi criado e é acessada por nós todos os dias. O ativismo pela acessibilidade de vocês nos faz lembrar que ainda conhecemos muito pouco sobre ela. Como o ativismo pela acessibilidade influencia o dia a dia de vocês?

Mimi: Isso é grandioso de falar. No meu primeiro dia de aula com a Lívia eu não me dava conta de como a limitação de um sentido realmente limita o acesso à informação. Quando eu me dei conta, percebi como é importante e simples descrever uma imagem para alguém e como isso, sendo tão simples e tão básico, muda a vida das pessoas, transforma sua realidade. Tem essa história que eu sempre conto e canso as pessoas [risos], enfim, eu tenho pouco mais de 20 anos de propaganda e sempre trabalhei com criação. Sou redatora. Na verdade era, fico feliz em dizer que sou cada vez mais audiodescritora do que redatora. Quando eu conheci a audiodescrição, eu já estava insatisfeita com meu trabalho, com a propaganda, cansada de vender sabão em pó ou apartamento, aquilo não me dizia mais nada.

Nem meus melhores anúncios fizeram com que alguém agradecesse pelo meu trabalho, não fizeram diferença na vida de alguém. Com a audiodescrição todo dia chega alguém para agradecer e dizer que meu trabalho fez a diferença. É para isso que eu trabalho 16 horas por dia e estudo tanto. Não é por vaidade, é por acreditar que podemos fazer a vida de alguém mais bonita. Sou muito mais feliz por saber disso. Todo dia quero ser os olhos de alguém. Ser ativista da acessibilidade é acreditar que a gente pode fazer a diferença na vida das pessoas.

(confira o blog das tagarellas https://tagasblog.wordpress.com/)

 

Maicon Milanezi entrevista a tradutora Scheila Gomes

Por: Maicon Milanezi

Sheila Gomes, tradutora com 18 anos de experiência, especializada em localização de softwares e jogos e membro da ABRATES e da ATA, apresentou em sua entrevista para Maicon Milanezi, colaborador do Blog MATAV UNESP, um pouco sobre esse ofício que tem como objetivo adaptar culturalmente o texto em relação ao público alvo, adaptando de gírias, referências populares, até nomes de cidades e artistas. Ela também apresentou opiniões sobre o fazer tradutório nos dias de hoje e de sua importância como canal de acesso de pessoas que não dominam a língua estrangeira ao conteúdo de um o texto, produto ou empresa.    

 

Maicon: Em sua opinião, qual a maior mudança ocorrida no processo tradutório no decorrer do tempo? A contribuição da internet e dos softwares de memória alterou seu resultado final? Positiva ou negativamente?

Sheila Gomes: Comecei a traduzir nos anos 90, antes ainda do surgimento e da evolução da internet como meio de acesso e extensão de conhecimento que temos hoje, e acredito que essa foi a maior mudança. Com tantas fontes de informação e conteúdo disponibilizadas hoje, além dos vários programas de auxílio à tradução, tive que buscar qualificação tecnológica (o que fiz pela própria Internet) e ser uma pesquisadora mais criteriosa. Não vejo essas mudanças como boas ou más, mas como evolução do mercado e do próprio mundo do trabalho. As ferramentas podem oferecer um grande auxílio, se soubermos usá-las a nosso favor.

Maicon: Qual é o papel da tradução como intermediadora entre diversas culturas?

Sheila Gomes: A necessidade de comunicar-se de maneira clara e compreensível com povos em condições diversas de proficiência linguística mesmo em seu idioma nativo, o que dirá em idiomas estrangeiros, torna a tradução essencial para divulgar e vender produtos de maneira eficaz, comunicar ideias e fazer pontes entre povos, além de diminuir o isolamento que muitas vezes subjuga certas sociedades a costumes já extintos em outras culturas. E ainda que outros aspectos das culturas agora em contato com o restante do mundo também sejam afetados de maneiras não tão positivas, também há cada vez mais iniciativas de resgatar aspectos comprometidos por essa evolução, como a história e produção cultural.

Maicon: A tradução é uma forma de dar acesso a um texto para pessoas que não o compreende em sua língua original. Quais cuidados você — e qualquer outro tradutor — deve tomar para fazer com que esse leitor tenha a mesma experiência ao lê-lo?

Scheila Gomes: Trabalho com localização. Como a própria noção de localização surgiu da necessidade de adequar textos aos usos do idioma da cultura alvo, há esse cuidado em oferecer ao leitor a mesma experiência que os leitores no idioma de origem têm. Assim, há vários aspectos a levar em conta, desde normas ortográficas, costumes e outras regras de nomenclatura específicas da área do texto, até atentar para termos que não são encontrados na cultura alvo, considerados inadequados ou que possam ser interpretados de maneira diferente da intenção original.

Maicon: Como funciona o processo de localização?

Scheila Gomes: Localização é o processo de tradução cujo objetivo é adaptar culturalmente o texto em relação ao público alvo, tanto em relação às normas ortográficas (moeda, métricas, etc.) do país em questão quanto aos aspectos do uso do idioma em si: adaptação de gírias, referências populares, até nomes de cidades e artistas, por exemplo. É usada principalmente em websites e jogos, trazendo o texto/produto/empresa o mais próximo possível da realidade e do público local. Às vezes os textos vêm entremeados de comandos de programação, o que exige que o tradutor conheça um mínimo de sua sintaxe para reconhecer o que deve ser mantido igual ao original e não comprometer a integridade do programa.

Maicon: Com a difusão de cursos de idiomas, surgiram muitos diletantes e “críticos” de tradução, que pouco sabem do fazer tradutório, mas que sempre querem impor o que acham certo. Isso dificulta o trabalho do tradutor, pois o coloca como “traidor” do texto?

Scheila Gomes: As melhores traduções são aquelas em que o tradutor não “aparece” no produto final do seu trabalho, ou seja, o texto final deve parecer que foi escrito originalmente no idioma em que é lido. Mas essa “invisibilidade” acaba estendendo-se ao próprio tradutor e agindo contra nós, pois muito pouco é conhecido publicamente sobre as práticas da profissão. Algumas dificuldades criadas por essa situação são: a exigência de traduções “palatáveis” em detrimento das corretas (uma exigência de mercado, com a intenção de popularizar produtos e ideias) e o descrédito do profissional pela falta de clareza sobre os limites, exigências e condições de seu trabalho. São fatores que poderiam ser tratados com uma representação melhor dos tradutores na mídia e pela associatividade, o que poderia trazer uma compreensão melhor do seu trabalho ao público geral.

Maicon: O tradutor deve focar no público alvo de seu texto, suas exigências e expectativas, ou manter sua atenção ao que o texto base exige dele?

Scheila Gomes: Vejo o tradutor como uma ponte, que deve estabelecer uma conexão clara entre o autor e o leitor do texto. Assim, é necessário que o tradutor compreenda exatamente a intenção do autor com o texto, para tentar mantê-la na tradução, mas também leve o leitor em conta, adaptando as situações postas pelo texto original que só poderiam recriar a intenção original se forem expressas de forma talvez diversa da literalidade.

Maicon: Para finalizar, você acha que o fazer tradutório ainda tem muito a se desenvolver? Em quais aspectos?

Scheila Gomes: Sim, acredito que ainda temos muito a desenvolver, pois ainda vejo uma tendência em analisar a profissão e suas práticas por conceitos anacrônicos, que não levam em conta as condições postas pela evolução dos meios de criação e divulgação do conhecimento e da comunicação de maneira geral. Há iniciativas de uso das novas tecnologias para ampliar o alcance do trabalho do tradutor, mas creio que é preciso desenvolver uma comunicação mais ampla dentro do meio, entre os profissionais, estudantes e com o público leitor de tradução.

 

Acesse o blog no qual Sheila fala sobre a tradução e seus “nós”: https://tradutoraingport.wordpress.com/