Bauru terá feira voltada à troca de informação sobre pessoas com deficiência

Em maio, SESI-Horto abrirá seu espaço para workshops, estandes e oficinas

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#ParaCegoVer: Na imagem, a logo da REAB. Temos um origami de tsuru desenhado e, embaixo, as letras R, E, A e B – respectivamente nas cores ciano, vermelho, laranja e roxo. 

A 1ª Feira de Reabilitação de Bauru (REAB) acontecerá no fim de semana dos dias 17, 18 e 19 de maio. Ela será no SESI-Horto, que fica no mesmo quarteirão do Horto Florestal: Rua Professora Zenita Alcântara Nogueira, 1-67.

O evento, que promete ser bienal, será um ponto de convergência para pesquisadores, profissionais e todo mundo que se interessa pelas pessoas com deficiência. Além de contribuir para a formação e atualização de gente envolvidas na área, o REAB contribuirá para o debate sobre acessibilidade e a conscientização sobre o assunto no interior paulista.

A cerimônia de abertura será no dia 17, das 19h30 às 22h. Nos dias 18 e 19, os portões estarão abertos para o público das 8h30 às 18h. A programação do evento está abastecida com dezenas de atividades como palestras, workshops e oficinas. Também haverá estandes de produtos e serviços espalhados pelo SESI ao longo de todo o evento.

É possível se inscrever pelo Sympla, site especializado em eventos. A entrada é franca, mas para retirar o ingresso é preciso doar ou um quilo de alimento não perecível ou um “kit higiene”, composto por uma escova e uma pasta de dentes.

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Nem toda bengala é branca

Bengalas verdes tiram as pessoas com baixa visão da invisibilidade

Uma mulher britânica está parada no meio de uma calçada com uma bengala branca. Ela olha a tela de seu celular. Uma matéria da BBC conta como essa imagem circulou em janeiro pelas redes sociais, com a legenda: “Se você consegue ver o que está errado, diga que viu o que é.” Espocaram comentários maldosos sobre a contradição de uma pessoa supostamente cega estar utilizando um telefone celular.

#ParaCegoVer: Foto de mulher negra em uma calçada, ela está em frente à uma loja com porta e vitrines de vidro. A foto está com a imagem borrada na parte do rosto e do cabelo da mulher. Ela veste um casaco de inverno rosa, calça jeans e carrega no seu braço esquerdo uma bolsa estampada. Na sua mão direita carrega uma bengala de alumínio. A mulher está com a cabeça abaixada, olhando para seu celular que está em sua mão esquerda.

A viralização da imagem causou revolta na comunidade de deficientes visuais: uma mulher fora exposta para milhares de pessoas, tendo sua deficiência ridicularizada – por pura ignorância. Mesmo que a mulher fosse cega, ela ainda poderia utilizar um celular, pois hoje em dia os smartphones possuem diversos recursos de acessibilidade, como o Talkback (Android) e o VoiceOver (iOS). Mas pode ser que ela enxergasse, sim – o bastante para ler a tela de um celular, mas não para se locomover sem o auxílio de uma bengala. Pode ser que ela tivesse baixa visão.

A publicitária brasileira Raquel Lima, 50, nasceu com miopia congênita, e há 7 anos teve catarata. Depois da cirurgia, sua acuidade visual piorou: “Perdi a visão periférica e, como antes da cirurgia eu só tinha visão no olho esquerdo, me sobrou apenas 15% da visão.”

Ela passou a se encaixar na classificação de baixa visão, que engloba pessoas com menos de 30% da visão no melhor olho e/ou campo visual menor que 20° – mesmo com intervenções cirúrgicas e o uso de óculos. No Brasil, mais de 6 milhões de pessoas têm baixa visão, segundo site da Fundação Dorina Nowill (cerca de 500 mil são cegas). Há muitas causas da baixa visão e para cada pessoa ela se manifesta de forma diferente: alguns têm perda de visão periférica, outros de visão central; a claridade em excesso, ou a falta dela, pode atrapalhar o desempenho visual da pessoa etc.

A partir daí, Raquel teve dificuldades para se locomover com autonomia. Para se adaptar, ela teve aulas de mobilidade na Fundação Dorina Nowill para Cegos, em São Paulo, onde aprendeu a usar a bengala nos diferentes ambientes.

Raquel conta que é constantemente confundida com uma pessoa cega, mas ressalta que isso decorre da falta de informação sobre a baixa visão: “As pessoas acham que se você usa bengala é cego.” Isso melhorou quando, há três anos, começou a usar a bengala verde.

#ParaCegoVer: Imagem de uma pessoa caminhando em uma calçada com uma bengala verde com suporte preto. A pessoa veste calça verde e uma botina preta.
(Foto: Reprodução YouTube/Perla Mayo)

Origem

A educadora uruguaia Perla Mayo, que lecionava em uma escola argentina de educação especial, notou que os alunos com baixa visão tinham vários problemas particulares. Muitos se recusavam a usar a bengala branca ou fingiam ser cegos para evitar a discriminação. Ela conta uma história de 1996, quando bolou uma solução para ajudar uma garota chamada Analía: “A aluna tinha problemas de baixa visão, usava uma bengala branca e tinha certificado de deficiência visual, mas quando chegava na sala e pegava seu celular e seus livros didáticos, as pessoas perguntavam o quanto ela enxergava ou a censuravam dizendo que não era cega de verdade. Quando ela me disse que não queria mais usar a bengala branca porque era muito agredida, tive a ideia de pintar a bengala com uma tinta spray verde.”

A escolha da cor acabou assumindo vários significados: além de verde ser a cor da esperança, também vale o jogo de palavras: “ver-de novo” ou “ver-de outra maneira”. A bengala verde se torna uma nova forma de “ver” o mundo.

Essa diferenciação ajudou Analía a se sentir mais confortável com sua identidade e ampliou a compreensão das pessoas sobre sua condição. Desde então, a bengala verde percorreu um longo caminho. Ela se tornou lei na Argentina, legitimando seu uso por pessoas com baixa visão e firmando um compromisso do Estado de educar a população sobre a importância desse instrumento. A bengala verde também foi adotada em diversos outros países.

#ParaCegoVer: Foto de dezenas de pessoas em uma passeata na Avenida Paulista em São Paulo. Alguns manifestantes carregam bengalas verdes e usam óculos pretos. Na frente da imagem, três mulheres e um homem carregam uma faixa com os dizeres: “Bengala Verde: queremos que você nos veja””. No canto esquerdo da faixa, há a logomarca do movimento: um olho com traço na cor preta e ao lado um traço verde, abaixo dele cinco traços pretos em semicírculo representando cílios pretos.
(Foto: Hélcio Nagamine)

No Brasil, o movimento da bengala verde chegou em 2014, em campanha do grupo “Retina São Paulo”. Já foram instituídas leis similares à da Argentina, em municípios como Juiz de Fora (MG) e Campo Grande (MS). Em agosto de 2018, aconteceu a Caminhada Bengala Verde, na Avenida Paulista, em São Paulo. O evento reuniu mais de 400 pessoas, trazendo inclusão e visibilidade para as pessoas com baixa visão. Houve distribuição de bengalas verdes e até a própria Perla Mayo apareceu.

E as bengalas verdes seguem caminhando a todo gás.

Ruídos nas legendas do filme Roma, de Alfonso Cuarón

Legendas distribuídas pela Netflix na Espanha geram polêmica

O filme mexicano Roma, produzido pela Netflix, foi um dos destaques do Oscar, a premiação mais famosa do cinema internacional, logrando 10 indicações e sendo laureado nas categorias de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Filme em Língua Estrangeira. O drama foi um sucesso entre o público e a crítica, mas também não deixou de suscitar algumas controvérsias.

Ao ser distribuído nos cinemas e na Netflix da Espanha, parte do público se sentiu ofendida por a Netflix usar uma legenda em “Espanhol da Espanha”. O próprio diretor de Roma, o mexicano Alfonso Cuarón, manifestou seu repúdio ao ocorrido: “É ignorante e ofensivo para os próprios espanhóis”, disse ao jornal El País. “Algo de que mais desfruto é a cor e a textura de outros sotaques. É como se Almodóvar (cineasta espanhol) precisasse ser legendado”. O escritor mexicano Jordi Soler também se pronunciou, por meio do Twitter: “Roma está legendado em espanhol peninsular, que é paternalista, ofensivo e profundamente provinciano.”

Na legenda veiculada na Espanha, foram feitas várias traduções desnecessárias, como “ustedes” por “vosotros”, “mamá” por “madre”, “enojarse” por “enfadarse”, “checar” por “mirar” e “suave” por “tranquila”. Houve até traduções equivocadas culturalmente, como trocar uma marca mexicana de guloseimas (Gansito) por um aperitivo espanhol feito a base de milho (Ganchito). A polêmica se deu porque a tradução foi realmente paternalista, parecendo uma tentativa de colonizar o filme mexicano. Com a polêmica, a Netflix logo recuou na decisão, e atualmente as legendas de Roma em todos os países hispanofônicos são iguais – transcrições precisas das falas das personagens.

Mas o deslize foi até certo ponto bem-intencionado: a Netflix tem buscado cada vez mais trazer para seus filmes e séries opções de acessibilidade, como a legenda descritiva e a audiodescrição. O que não justifica o fato de tentarem deixar a linguagem utilizada na legenda “o mais próxima possível do uso na Espanha”, pois dessa forma, impede que o público espanhol tenha acesso a expressões e vocabulário específico da cultura mexicana. O Matav resolveu investigar a confusão, a fim de desvendar os limites da legendagem.

#ParaCegoVer: Na fotografia, em preto e branco, vê-se uma cena do filme Roma. Ao fundo uma praia, com ondas agressivas avançando até a orla. Na areia, a empregada Cleo está no centro, abraçada pela família mexicana: as crianças Pepe, Sofi, Toño, e Paco e a patroa Sofia. As crianças usam trajes de banho e têm os joelhos sujos de areia. A união dos atores assume o formato de um triângulo.

Roma não é um filme sobre a capital da Itália, mas sobre um bairro da Ciudad de México, chamado “Colonia Roma”. Passado entre 1970 (ano em que o México sediou a Copa do Mundo e o Brasil conquistou seu tricampeonato) e 1971, o filme acompanha a vida de uma família de classe média alta, composta por Antonio, o marido; Sofia, a esposa; as crianças Pepe, Sofi, Toño e Paco; as empregadas Adela e Cleo e o cachorro Borras.

Embora Cuarón tenha se inspirado em sua própria infância para produzir Roma (ele é representado por Paco), o diretor abdica do protagonismo do filme para dá-lo a Cleo, uma jovem empregada de origem indígena. O patriarca Antonio abandona a família e a família começa a desmoronar. O país também vive uma situação de tensão política, que às vezes assume uma faceta de violência escatológica. Fora do seio da família, Cleo tem seu próprio universo de desejos e frustrações para lidar. Mas ela se mantém forte e, de maneira silenciosa e gentil, está sempre presente para proteger a bolha de segurança em que viviam as crianças.

Para outros públicos que assistem Roma, como o espectador brasileiro, as legendas distribuídas pela Netflix permanecem com estranhamento linguístico. A maioria dos personagens fala em espanhol, que é legendado em letras brancas. As empregadas, Adela e Cleo, conversam entre si em mixteca, um dialeto indígena, que é legendado também em letras brancas, mas diferenciado pelo uso de colchetes. A escolha da mesma cor de legenda para as duas línguas não é um grande desafio, mas há ainda outros quatro idiomas falados no filme e nenhum deles foi legendado pela Netflix. Este tipo de filme com multilinguismo tem sido cada vez mais recorrente na indústria cinematográfica mundial. Bastardos Inglórios, dirigido por Quentin Tarantino, é um exemplo clássico de filme multilíngue contemporâneo.

Voltando a Roma, percebemos que quando Cleo está em um ônibus, os dois homens sentados à sua frente conversam em um outro dialeto indígena. Também aparecem alguns americanos no filme, que falam em inglês. Os lutadores de artes marciais, embora conversem em espanhol, repetem frases-feitas em japonês. E há até um homem que canta em nynorsk, uma das variantes da língua norueguesa. Nenhum desses trechos é traduzido, possivelmente uma escolha do diretor para que o público permaneça com o sentimento de estrangeirização pretendido no roteiro original.

#ParaCegoVer: Na foto, em preto e branco, vê-se uma cena do filme Roma. Há um homem louro, de cabelos curtos e bigode, em primeiro plano, fantasiado de um monstro peludo. Ele segura a máscara da fantasia embaixo do braço, e canta uma canção, com os olhos perdidos na escuridão da noite. Ele está em uma floresta, e no fundo há vários focos de incêndio com luminosidade intensa. Há alguns homens olhando o fogo e outros tentando contê-lo.

Como já mencionado, a escolha de não legendar esses idiomas se deve a uma opção do diretor. Cuarón provavelmente queria que tivéssemos a mesma experiência que Cleo teve ao ser confrontada com idiomas estrangeiros (ela só é fluente em espanhol e mixteca).

Além disso, Roma é um filme quieto, que nos convida a contemplar os cenários, em vez de nos anestesiar pelo estupor da ação constante. A primeira cena do filme começa com o enquadramento de um chão de garagem sendo lavado – primeiro temos o chão, e então a tela é invadida por ondas de água ensaboada, que refletem um avião pairando no céu. São mais de três minutos com a audiência olhando para o chão, enquanto os créditos passam diante dos olhos. O que para os mais espevitados já seria o bastante para abandonar a sala do cinema (ou fechar a aba da Netflix). Mas a cena também serve para estabelecer o tom do filme, dar um tempo para desligarmos nossas mentes da vida frenética do século XXI e mergulharmos no universo da narrativa que está prestes a se desdobrar.

Quando as falas em idiomas estrangeiros não recebem legendas, nós adotamos com elas o mesmo tratamento contemplativo que despendemos ao chão. Deixamos de analisar as frases apenas em seu sentido literal, porque não as compreendemos, e nos imergimos na estética delas – atribuímos-lhes sentidos que vão além da semântica. Quando os lutadores de artes marciais contam “ite, ni, sã, chi…”, em vez de “um, dois, três, quatro…”, somos remetidos a todo um país, a toda uma história. É um sentimento diferente.

É por causa desse tom contemplativo que a legenda em “Espanhol da Espanha” incomodou tanto. A atitude da Netflix teria aviltado aquela que está sendo considerada a magnum opus do diretor Alfonso Cuarón. Seria uma afronta, não só às suas escolhas artísticas, como também à cultura mexicana. Seria uma tentativa de minguar a diversidade linguística. Porque as palavras utilizadas refletem essa cultura, elas têm um sentimento diferente das palavras que um diretor espanhol teria usado.  

O episódio me faz pensar em José Saramago, autor de livros como O homem duplicado e Ensaio sobre a cegueira. Em respeito ao escritor português, as editoras brasileiras até hoje publicam suas obras seguindo a grafia vigente em Portugal. Além das construções sintáticas diferentes, proliferam-se no texto Cs postos em lugares estranhos para os brasileiros: acção, atractivo, direcção, objectivo. E, além de o autor ter um vocabulário impressionante, ele também faz escolhas lexicais estranhas ao brasileiro: “rapariga” no lugar de “moça”, “oxalá” em vez de “tomara”, “auscultador” para a parte do telefone que levamos à orelha. Ainda assim, os livros são perfeitamente compreensíveis a um brasileiro. Só é preciso se acostumar com a forma particular com que Saramago usa a pontuação e a leitura flui como o vento por uma porta aberta. Se tentassem traduzir seus livros para o português do Brasil, eu como leitor me sentiria pessoalmente ofendido. Seria uma mutilação da cultura portuguesa e da genialidade do autor.

#ParaCegoVer: Na foto, em preto e branco, vê-se uma cena do filme Roma. A empregada Cleo, de feições indígenas, está no banco traseiro de um carro preto. Ela olha pela janela com um semblante sereno no rosto. A janela reflete as nuvens do céu. Há duas crianças dormindo abraçadas a ela, uma garota de cabelos pretos e um garoto louro. Cleo afaga a cabeça da garota com a mão.

Mas há uma diferença fundamental entre um livro e um filme, na forma como as duas mídias são consumidas: a velocidade.

No livro, você pode reler uma frase que não tenha entendido de primeira. Às vezes os olhos percorrem páginas inteiras, enquanto a cabeça está viajando em outro lugar – mas não tem problema, é só voltar a ler na frase onde a consciência tiver debandado. Dá para ler com um dicionário (ou um celular) do lado, e pesquisar prontamente o significado de qualquer palavra desconhecida. Pode-se até ler com uma caneta em mãos, grifando um trecho importante, ou fazendo anotações nas bordas das páginas.

Já quando assistimos a um filme, nossa experiência é outra. O filme tem outro ritmo e é muitas vezes assistido com outras pessoas, ou seja, pode ser cansativo e deselegante pausá-lo para abrir o dicionário sempre que surgir uma dúvida sobre uma palavra ou expressão. Também não temos tempo de reparar em cada detalhe que aparece na tela, em cada sutileza das falas dos personagens, e são raros aqueles que têm a paciência de sentar sozinhos em frente à tela e escarafunchar um filme, pausando e rebobinando várias e várias vezes atrás de easter eggs, de erros de gravação, ou simplesmente de entender com mais profundidade uma obra complexa.

Por essa razão, os filmes precisam ser mais claros que os livros. Eles precisam acertar de primeira, se quiserem ser acessíveis, e precisam ser adaptados a todos os públicos. Faz sentido que exista alguma legenda para um filme mexicano assistido na Espanha. Afinal, as diferenças de sotaque e de vocabulário podem prejudicar a plena compreensão. Só que o espanhol, no México, na Espanha ou qualquer lugar do mundo, é um só idioma – com as mesmas regras gramaticais e a mesma grafia das palavras.

O erro da Netflix foi querer traduzir uma língua para ela mesma e acabar no processo suprimindo manifestações linguísticas e culturais próprias de um povo. Essas manifestações são parte importante de qualquer obra artística e ajudam a encurtar a distância e o preconceito que temos com esses povos. Que a Netflix, e todas as empresas ligadas ao entretenimento, continuem arriscando medidas de acessibilidade – mas com muita parcimônia, para que a tradução não ofusque a obra que a princípio pretendia fazer brilhar. 

Desfiles no Anhembi têm camarote com recursos de acessibilidade

Evento conta com audiodescrição e interpretação
dos sambas de enredo em LIBRAS.

Matéria: Bruno Ferreira
Entrevista: Lucinéa Villela

#ParaCegoVer: Na foto, as audiodescritoras Lívia Motta e Marisa Pretti estão em uma cabine de vidro no Camarote da Cidade, no Sambódromo do Anhembi. As duas estão com camisetas pretas com logotipo laranja no peito esquerdo, em forma de peão. Há um microfone e um computador à frente de cada uma. As duas olham atentamente para fora da cabine. Lívia aponta com o dedo chamando a atenção de Marisa. (Foto: Raoni Reis)

Nos dias 1 e 2 de março, as empresas “Ver com Palavras” e “As Meninas dos Olhos” se uniram numa parceria para audiodescrever os desfiles das escolas de samba em São Paulo, no Sambódromo do Anhembi. Os profissionais fizeram a audiodescrição dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial — que, em uma analogia com o futebol, é a “Série A” do Carnaval paulistano.

Os recursos de acessibilidade ficaram disponíveis no Camarote da Cidade, por meio da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED). Para os surdos, havia um telão projetando a interpretação em LIBRAS dos sambas de enredo. As pessoas com deficiência visual, por sua vez, receberam aparelhos receptores de áudio e fones de ouvido, por onde escutavam a audiodescrição. Os aparelhos funcionavam em todo o perímetro do camarote, de modo que seus usuários pudessem transitar livremente pelo espaço. A audiodescrição ainda foi transmitida ao vivo pelo Facebook, na página da SMPED, permitindo que pessoas do Brasil inteiro tivessem acesso ao desfile.

O blog do MATAV entrevistou Lívia Motta, diretora da empresa “Ver com Palavras”. Ela explica que não basta reunir profissionais experientes no dia do evento, porque a audiodescrição envolve muito mais do que simplesmente articular em palavras o que veem os olhos. É preciso um preparo especial: “O Carnaval é um evento vibrante e intenso, que, tal qual um musical ou uma ópera, exige um conhecimento específico, um mergulho no enredo de cada escola para a elaboração dos roteiros. O acesso às informações, entretanto, torna-se mais difícil devido à confidencialidade, à necessidade de absoluto sigilo. Também o dinamismo e estruturação da apresentação de cada escola impõem um ritmo diferenciado à elaboração de roteiros e narração. Com relação à narração, destacamos a importância de se colocar entusiasmo na voz para estar dentro do clima deste gênero de apresentação.”

A equipe, composta por seis audiodescritores e um consultor com deficiência visual, se empenhou em levantar informações sobre cada uma das catorze escolas que desfilariam nas noites de sexta e sábado. Eles tiveram cerca de quinze dias para ver os ensaios no sambódromo, falar com os dirigentes e componentes das escolas, estudar a história e a terminologia do Carnaval. A empresa “As Meninas dos Olhos” fez a audiodescrição do Carnaval nos dois últimos anos e o consultor Laercio Santanna já havia assistido ao Carnaval com acessibilidade no ano anterior, o que foi fundamental nesse estágio.

#ParaCegoVer: No Camarote da Cidade, quatro pessoas com deficiência visual estão sentadas, vestidas com camisetas amarelas e usando aparelhos receptores e fones de ouvido. Da esquerda para a direita, estão um homem sorridente de barba grisalha pressionando o fone sobre a orelha com uma das mãos, uma senhora de cabelos castanhos, um homem de boina e uma moça de tiara amarela. (Foto: Raoni Reis)

Lívia Motta relatou que este ano houve menos ingressos para o Camarote da Cidade, apenas 20 convites foram disponibilizados para as pessoas com deficiência visual: “Contamos com a presença de aproximadamente 15 pessoas com deficiência visual no primeiro e no segundo dia de desfile”, afirma a audiodescritora.

Mesmo assim, a recepção pelo público tem sido animadora. Alessandro Silva, jovem com deficiência visual, é ritmista e desfilou na bateria da Acadêmicos do Tucuruvi, na sexta-feira. Na noite seguinte, no sábado, ele esteve no Camarote da Cidade, para assistir pela primeira vez a um desfile com audiodescrição. Ele assistiu o tempo todo com o recurso e adorou. “Não sabia nem que existia isso,” disse animado. Alexandre Toco, administrador de empresas, também se empolgou com a audiodescrição: “É minha primeira experiência de muitas,” ele diz. “Totalmente diferente assistir o Carnaval aqui, é outra energia e a gente viaja com a audiodescrição. Tomara que todo mundo possa ter essa experiência. Vale a pena demais.”

#ParaCegoVer: Na foto, sete pessoas abraçadas posam sorridentes para a câmera. Elas estão no Sambódormo do Anhembi. Da esquerda para a direita: Fátima Angelo, Rosângela Fávaro, Marisa Pretti, Andréia Paiva, Laercio Santanna, Lívia Motta e César Tunas. Laercio, o consultor da equipe, usa uma camisa polo vermelha com listras horizontais brancas. Os demais integrantes do grupo usam uniforme preto com logotipo laranja em forma de peão no peito esquerdo. (Foto: Raoni Reis)

Segue o depoimento completo de Alexandre Toco:

Matav se apresenta aos calouros da Unesp

Alunos são vendados e têm experiência imersiva
com a audiodescrição

Na última quinta-feira, dia 21/02/2019, o Matav realizou uma apresentação do projeto para os calouros da Unesp de Bauru, a fim de recrutar interessados em participar. Eles foram chegando aos poucos, achando seus lugares em carteiras dispostas em um semicírculo de frente para a tela de projeção. O curso de RTVI (Rádio, TV e Internet) foi representado em peso, com dezessete primeiranistas presentes. Uma única caloura de Jornalismo compareceu. Jorge Salhani, ex-aluno de Jornalismo, também marcou presença. Ele entrou no projeto em 2013, quando o Matav estava apenas começando.


#ParaCegoVer: Na foto, uma sala de aula com chão, cortinas e paredes brancas. Há estudantes sentados em carteiras dispostas em um semicírculo voltado para a lousa. Todos olham enquanto, no centro, a professora Lucinéa expõe algum assunto.

Lucinéa Villela, coordenadora do Matav, deu início à apresentação explicando os objetivos e área de atuação do Matav. Falou também de projetos já realizados pelo Matav, como a adiodescriçao e legendagem da websérie #E_VC?, legendagem de eventos de colação de grau na universidade, uma série de minidocumentários sobre estudantes deficientes na Unesp, entre outros.

A seguir, foi feita uma mostra de propagandas audiodescritas, como as da Natura. Por lei, as emissoras públicas de televisão precisam aumentar progressivamente seu conteúdo com audiodescrição: até 2020, todas as emissoras precisam ter 20h de sua programação com opção de audiodescrição. Embora as empresas privadas não tenham a mesma obrigação, elas têm se atentado cada vez mais ao público de pessoas com deficiências. Estima-se que haja cerca de 3,5% de brasileiros com deficiência visual, e 1,1% com deficiência auditiva. É uma fatia enorme do mercado que acaba sendo perdida, simplesmente porque as mensagens publicitárias não conseguem atingir esse público. Segundo Lucinéa, as propagandas acessíveis deverão ser um dos focos de estudo do Matav em 2019. 


#ParaCegoVer: Na foto, estudantes sentados em carteiras dentro de uma sala de aula. Eles usam máscaras cirúrgicas descartáveis cor-de-rosa para vendar os olhos. As luzes estão acesas, e alguns ainda não puseram as vendas, esperando o videoclipe audiodescrito começar.

A seguir, o Matav proporcionou uma experiência imersiva aos calouros. Foram distribuídas máscaras cirúrgicas descartáveis para que fossem usadas para vendar os olhos, e Lucinéa pôs para rodar uma versão audiodescrita do videoclipe “Flutua” (de Johnny Hooker e Liniker), produzida pelo Matav ao longo de 2018. A professora Suely Maciel emprestou sua voz para a produção, aproveitando os silêncios da música para encaixar uma narração do que era visto em tela. Sua voz se adequava ao ritmo e ao sentimento de ambas as narrativas, a lírica e a visual, se mesclando ao produto sem atrapalhá-lo. E, mesmo para aqueles que viam o videoclipe pela primeira vez, a visão acabou não fazendo falta. Suely nos conduziu pela história de um casal gay de surdos sinalizantes que, após uma noite de diversão com os amigos, acabam sofrendo uma violência movida pelo preconceito (uma forma de cegueira às vezes mais obstinada que a física). O medo da violência levou o casal a se afastar, mas acabam se reencontrando e se beijando, vencendo o medo e o ódio, sob o coro de Johnny Hooker e Liniker: Ninguém vai poder querer nos dizer como amar…


#ParaCegoVer: Na foto, o ambiente é uma sala de aula escura, exceto pela luz que penetra as frestas abertas da cortina e pela luz de um projetor. À esquerda, há vários alunos sentados em carteiras, com os olhos vendados. À direita, há uma tela onde é projetado o videoclipe audiodescrito da música “Flutua”. No momento da foto, o videoclipe mostra um close da cantora andrógina Liniker.

Com o fim do videoclipe, os alunos foram aos poucos tirando as vendas. Algumas estavam úmidas, e uma caloura admitiu estar emocionada. “Xiii”, alguém disse ao escutar a garoa lá fora. Nossos ouvidos ainda estavam aguçados. A chuva engrossou enquanto os presentes trocaram impressões sobre a experiência. A maioria dos calouros desconhecia a importância da acessibilidade para conteúdos audiovisuais. Jorge Salhani, que anda ocupado com a conclusão do mestrado, não tem podido participar ativamente do Matav, mas contou como sua passagem pelo projeto ajudou em sua formação humana e profissional, ampliando sua percepção sobre a comunicação. “Quando a gente fala de acessibilidade, geralmente se pensa sobre a estrutura dos espaços físicos, das ruas, dos transportes públicos”, comenta, “mas às vezes nos esquecemos de como os produtos culturais também devem ser acessíveis.”

Ter participado do Matav também foi um diferencial para que Jorge fosse selecionado para cobrir os Jogos Paralímpicos no Rio em 2016, como repórter dos jogos. Também despertou a sensibilidade para o assunto: conversou com os locutores da audiodescrição ao vivo e experimentou escutá-la ele mesmo. Também foi atrás de curiosidades sobre os recursos de acessibilidade no evento esportivo. Descobriu, por exemplo, que no goalball, esporte praticado por pessoas com deficiência visual, cerca de 70 dispositivos de áudio eram distribuídos a cada partida, para que o público cego pudesse ter a mesma experiência e emoção das pessoas videntes.

Finda a apresentação, os calouros e veteranos do Matav se dividiram em rodinhas para conversar, enquanto esperavam a chuva estancar. Eram conversas íntimas e agradáveis, de gente que acabara de se conhecer, e quem olhasse de fora poderia dizer que estávamos flutuando.