Aplicativos de acessibilidade para deficientes auditivos

phone-36271_960_720Em meio a grande oferta atual de aplicativos que ampliam as funções de celulares e tablets, existem aqueles cuja missão é totalmente voltada para a promoção da acessibilidade para as pessoas com deficiências sensoriais. Tais aplicativos podem ser encontrados, de forma gratuita ou em versão paga, nas lojas de App’s ou até por meio de uma rápida busca na internet. Mas o problema é que eles não são muito conhecidos pela grande maioria da população.

A ADAP então fez uma pesquisa e listou a seguir os aplicativos que encontrou e que podem ser úteis às pessoas com deficiência auditiva, ao facilitarem algum aspecto do seu dia a dia com a promoção da acessibilidade. A lista terá um caráter aberto e colaborativo, ou seja, basta vocês nos escreverem se conhecerem mais algum aplicativo desse tipo, que adicionaremos a sugestão aqui.

Além disso, alguns dos app’s acessíveis já ganharam matérias próprias, como essa com os melhores aplicativos que substituem a função das chamadas telefônicas. Outros app’s mencionados aqui podem não terem sido criados exclusivamente para a promoção da acessibilidade, mas oferecem opções que muito auxiliam as pessoas com deficiência auditiva, como o famoso WhatsApp e seus concorrentes de envio de mensagens textuais instantâneas, ou o app do serviço Netflix, que oferece muitos filmes com legendas.

E há também marcas de aparelhos auditivos ou de Implante Coclear que possuem seus próprios aplicativos de treinamento auditivo (nesses casos, consulte a marca de seus aparelhos para conhecer a disponibilidade desses produtos).

Agora, chega de mais delongas! Confira a seguir a lista de aplicativos acessíveis:

Play It Down – App feito para todos, independentemente de se ter ou não deficiência auditiva. Simula como uma pessoa surda ouve uma música de acordo com o grau de perda auditiva, e também funciona como medidor de decibéis para alertar sobre ambientes muito barulhentos e nocivos aos ouvidos. Disponível gratuitamente para iPhone e iPad.

TuneWiki – App que também não foi feito só para deficientes auditivos, mas, assim como o Netflix (que fornece legendas para filmes), o TuneWiki nos apresenta a letra da música que estamos ouvindo, auxiliando quem não tem compreensão auditiva sem leitura labial. Disponível gratuitamente para celulares que tenham Android ou o sistema iOS na versão 5.0.

Dragon Dictation – Outro aplicativo que não foi feito só para pessoas com deficiência sensorial, mas que funciona como um transcritor de palavras: escreve na tela tudo que está sendo dito por alguém ao alcance do celular e, com isso, pode ajudar deficientes auditivos a compreender os sons. Disponível gratuitamente para iPhone e iPad.

VoxTraining – App de treino de voz, por meio de um jogo lúdico, com vários ajustes e opções. Custa   quinze dólares e está disponível no iTunes para iPhone, iPad and iPod Touch.

MovieReading – App que fornece legendas e audiodescrição para filmes. Confira matéria da ADAP sobre ele aqui. Disponível gratuitamente para celulares que tenham Android ou o sistema iOS.

WhatsCine – Tem a mesma função que o MovieReading, com a diferença de que possui acessibilidade também em LIBRAS para os filmes escolhidos. A desvantagem é que o cinema também precisa ter um equipamento para a sincronização com o aplicativo. Disponível gratuitamente para celulares que tenham Android ou o sistema iOS.

TV Louder – App que funciona como um amplificador pessoal, transmitindo o aumento do volume da TV apenas para os fones de ouvido conectados no celular. Custa dez dólares e está disponível na App Store para iPhone, iPad and iPod Touch.

TAP TAP – App que faz o celular vibrar e piscar ao detectar algum som ambiente, como o de porta batendo, campainhas e detectores de incêndio. Os alertas são reguláveis de acordo com os ajustes do usuário. Custa três dólares e está disponível na App Store para iPhone, iPad and iPod Touch.

Projeto Ludwig – App que tem por objetivo reproduzir músicas por meio de vibrações. É o único dessa lista que ainda não está disponível para compra. A previsão de lançamento é para dezembro de 2016.

HandTalk – Para os surdos que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), e também para aqueles que querem se comunicar com eles mesmo não tendo o conhecimento da LIBRAS, esse app é um tradutor simultâneo dos dois idiomas. Disponível gratuitamente no Google Play ou na Apple Store.

ProDeaf – Tradutor simultâneo de LIBRAS-Português, com funções parecidas com as do HandTalk. Confira matéria da ADAP sobre ele aqui. Disponível gratuitamente na Play Store ou na Apple Store.

Suíte VLibras – conjunto de softwares públicos, incluindo um aplicativo tradutor LIBRAS-Português, que está disponível gratuitamente na Google Play e na Apple Store.

AutoVerbal Pro Talking Soundboard – App que pode auxiliar a comunicação de pessoas com vários tipos de deficiências, através da opção de se expressar por voz eletrônica ou imagens. Custa quinze dólares e está disponível na App Store para iPhone, iPad e iPod Touch.

* Algumas sugestões de aplicativos dessa lista tiveram seus nomes retirados dos sites Crônicas da Surdez e Folha de São Paulo.

* Crédito da imagem: Pixabay.

* Por Ana Raquel Périco Mangili. Matéria cedida pela parceria com a ADAP (Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear). Confira o texto originalmente publicado aqui.

Documentário sobre Acessibilidade na Unesp conta com recurso de legendagem

AcessibiliUnespA estagiária em assessoria de imprensa da ADAP, Ana Raquel Périco Mangili, que também é estudante do último ano de Jornalismo na Unesp de Bauru/SP e colaboradora do Blog MATAV, produziu o documentário AcessibiliUnesp, um curta de 25 minutos de duração e com o recurso de legendagem para surdos e ensurdecidos.

O objetivo da produção foi apresentar um retrato das experiências de universitários com deficiência e a questão da acessibilidade em uma instituição pública de ensino superior, no caso, o campus de Bauru da Unesp. Esse produto audiovisual foi desenvolvido como atividade de uma disciplina do curso da aluna, e teve o apoio da Unesp, da ADAP e do grupo de estudos MATAV (cuja equipe produziu as legendas acessíveis e tradução de trechos legendados do espanhol para o português).

Quatro alunos com deficiência, inclusive a própria autora do documentário (Ana Raquel tem Distonia e deficiência auditiva), participaram das gravações com os seus relatos, além de professores, profissionais e demais alunos que desenvolvem projetos voltados para a acessibilidade dentro da universidade. Dessa forma, é fornecido nesse produto audiovisual um panorama a respeito de como caminha a aplicação de recursos acessíveis na educação pública superior brasileira.

Confira a seguir o documentário AcessibiliUnesp, hospedado no Youtube e com legendas para surdos e ensurdecidos: https://www.youtube.com/watch?v=rorgbPoyA9M

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

Conheça alguns blogs e páginas sobre surdez, Aparelhos Auditivos e Implante Coclear

Cochlear_implantA ADAP (Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear) reuniu, para quem quiser mergulhar no universo da deficiência auditiva e da oralização, alguns blogs e páginas, além da deles, que apresentam informações e relatos de experiências sobre a surdez, o uso de Aparelhos Auditivos e de Implante Coclear, com um breve depoimento dos próprios autores sobre a história de cada um dos blogs. Confira abaixo todos os links e suas descrições, em ordem alfabética.

Blogs sobre surdez e/ou Implante Coclear

Crônicas da Surdez, de Paula Pfeifer Moreira

“O Crônicas nasceu em 2010, época em que meu outro blog “bombava” com 400.000 acessos mensais. Decidi usar aquela audiência para falar de um assunto que ninguém comentava: deficiência auditiva! Ainda mais na área de moda e beleza… Meu objetivo inicial foi tentar me tornar para os outros a amiga que eu nunca tive para falar de surdez e seus assuntos delicados”.

Desculpe, Não Ouvi, de Lak Lobato

“Desde o momento em que a internet se tornou um meio de compartilhamento de informação, comecei a procurar pessoas que viviam em situação semelhante à minha. Que convivessem com a deficiência auditiva, mas que sua comunicação se desse através da língua portuguesa oral e a leitura labial, com ou sem apoio de próteses auditivas. Apesar de eu ter encontrado alguns fóruns de debate e grupos em redes sociais, ainda sentia falta de um site dedicado ao grupo de deficientes auditivos nessa condição, pois praticamente só havia divulgação da surdez representada pela língua de sinais, cuja realidade era bem diferente da nossa. Foi daí que nasceu o “Desculpe, não ouvi!”, um blog que fala de deficiência auditiva, sem torná-la sinônimo de comunicação por LIBRAS. Representando deficientes auditivos recém adquiridos, que tem bons resultados com próteses auditivas ou que tiveram intervenção precoce por fonoterapia. Um espaço onde eu me sentia representada e me aproximava de pessoas em condições similares”.

Igualmente Diferentes, de Diéfani Favareto Piovezan

“A ideia surgiu lendo o blog do Jairo Marques, em 2009. Como eu gostava de escrever, decidi fazer um blog sobre surdez e tentar educar um pouco as pessoas sobre o assunto”.

Marcelo de Paula IC, de Marcelo de Paula

“A criação do blog se deu em 2014 em meio a uma grande pressão. Sempre fui ativo nas redes sociais, e muitos amigos perguntavam ‘E o blog? Quando você vai criar um blog?’ Depois de tanto refletir, acabei cedendo e comecei a escrever. A ideia foi contar um pouco da minha história e de tudo que passei. Muitas pessoas desistem já no primeiro obstáculo, colocam uma expectativa muito alta ao que esperam dos resultados do IC. O bacana do blog é mostrar a realidade, que não será nada fácil, nem um pouco mesmo, e se você quiser ter sucesso, terá que batalhar (e muito) para chegar lá. Mas ciente que isso tudo pode valer a pena”.

Martelo Bigorna, de Cinara Mota

“Eu costumava desenhar umas piadinhas internas minhas sobre as situações que envolvem a surdez, pois levo tudo no maior humor, aí as pessoas começaram a pedir para eu por os desenhos em algum blog. Acabei criando um, mas, no começo, eu não estava muito feliz com a ideia, até que recebi mensagens de pessoas dizendo que meu humor fazia o dia deles, então abracei a causa”.

Meu Implante Coclear, de Deborah Batalha

“Criamos uma página no Facebook “Implante Coclear – Nosso filho ouvindo e falando: Desejo e Desafio”, e depois veio a proposta do site “www.meuimplantecoclear.com.br”, com o objetivo de compartilhar um pouco da história do nosso filho com o Implante Coclear ao longo desses anos, pois, nesse período, famílias e usuários têm entrado em contato para saber como tem sido a reabilitação auditiva do Alexandre e, principalmente, perguntando a respeito do uso e da manutenção do Implante Coclear e de seus acessórios no seu dia a dia. Neste espaço, trocamos experiências, informações, postamos vídeos, dicas, novidades e tudo mais relacionado ao uso do Implante Coclear. Tudo o que está escrito lá é a nossa experiência no dia a dia com o nosso filho em todos os momentos de sua vida. Acredito que estes canais sejam úteis para troca e divulgação de informações entre pais e usuários”.

O Milagre da Audição, de Alessandra Carolina Cristofano Drumond

“Em 2012, quando soube da existência do IC, fiquei um bom tempo pensando se fazia ou não no ouvido esquerdo, sem audição desde pequena, sendo que no outro usava AASI. Quando me decidi em fazer, eu tinha muitas dúvidas e não tinha conhecimento nenhum de blog sobre o assunto, embora já existissem alguns na época. As únicas fontes de informação que eu tinha eram meu médico e minha fono. Não conhecia sequer alguém implantando e achava que era raro o Implante Coclear. Aí tomei a decisão de escrever no blog contando minha experiência desde a minha decisão até atualmente, desejando que assim ajudasse outros a esclarecerem dúvidas sobre o IC, como eu tive. Aos poucos fui frequentando encontros e conhecendo outros implantados. Vários amigos implantados me deram muita força na minha adaptação do IC, uma amiga me incentivou a criar uma página no Facebook e um amigo ajudou a criar o logo do blog. Com isso tudo, tive cada vez mais certeza que tinha tomado a decisão certa”.

Roner IC, de Roner Dawson Barbosa

“Meu blog surgiu em 2003, quando eu fazia palestras sobre o IC em varias cidades do Brasil. Muita gente me perguntava mais sobre minha experiência. Então, para não ficar repetindo a historia várias vezes, publiquei o blog”.

SULP – Surdos Usuários da Língua Portuguesa, de Sônia Ramires

“O blog surgiu em novembro de 2008 para divulgar o Manifesto dos Surdos Usuários da Língua Portuguesa. O manifesto começou com um grupo do Orkut, e depois criamos o blog. Conseguimos umas 200 assinaturas e eu entreguei a cópia do manifesto para a deputada Mara Gabrilli, antes da redação final da Lei que começou a vigorar neste ano de 2016. Tenho contato com grupos da Argentina e leio notícias internacionais para sempre renovar o conteúdo do blog. A página é muito consultada por quem deseja informação e é diferente dos outros blogs que contam experiências pessoais sobre a surdez. Escolhemos o nome SULP para não deixar de fora os surdos sinalizados que podem ler e escrever em português”.

Surdez Silêncio em Voo de Borboleta, de Patrícia Rodrigues Witt

“O blog tem como objetivo compartilhar conhecimentos acerca da deficiência auditiva (desde perda leva à profunda, incluindo também os usuários de Aparelhos Auditivos e de Implante Coclear), motivando os leitores na troca de ideias, apoios e incentivos com histórias de superação, como também divulgar livros no mesmo tema. O público alvo é bem amplo: deficientes auditivos/surdos oralizados e sinalizados, familiares, amigos, intérpretes de LIBRAS, fonoaudiólogos(as), pedagogos(as), psicopegagos(as), psicólogos(as), Terapeutas Ocupacionais, outros profissionais e educadores da área, e claro, a todos os interessados!”.

Páginas no Facebook e Youtube sobre Implante Coclear

Canal Coclexplica!, de Bianca Arraes e Julianna Fagundes

“Eu já tinha essa ideia bem antes de fundar o Coclexplica!, porque eu participava de uns encontros onde tinham os surdos usuários de LIBRAS e eles são curiosos, me perguntavam sobre o IC, tipo “pode tomar banho depois de implantar?”. E também, desde que descobri o mundo anti-IC, pessoas que inventam mentiras cabeludas sobre o implante, ficava pasma quando ouvia as mentiras, e ao mesmo tempo me entristecia. Então pensei sobre esse projeto com o objetivo para esclarecer, desmentir o que diziam, tirar as dúvidas e o medo dos candidatos ao IC. Conheci uma implantada, a Julianna, e ela é craque em edição de vídeos, aí a chamei para fundar esse projeto. Em abril de 2015 criamos o Coclexplica! com vídeos legendados, pois os surdos usuários de LIBRAS não compreendem a Língua Portuguesa nos blogs sobre IC, e por essa razão eles ignoram as informações. Então, para ajuda-los a entender, tive a ideia de mostrar através de vídeos” – Bianca Arraes.

Canal Larahcocle, de Daniely Thmes Pinho

“Tenho uma filha linda, de 3 anos, que se chama Larah. Ao nascer, realizamos alguns testes, como de costume, porém, ela não passou no teste da orelhinha! Disseram que deu ausente. De princípio, eu não tinha entendido muito bem o que aconteceu, porém fazia tudo o que os médicos pediam. Até que, em um dos exames mais detalhados, foi diagnosticado que ela realmente tinha um grau profundo de surdez bilateral. Na hora eu fiquei quieta, mas, no meio do caminho, comecei a pensar nas palavras da médica e a ficha caiu. Comecei a me desesperar e pensar ‘E agora, o que eu faço? Porque com ela? O que fiz de errado? Vou ser uma boa mãe? Como será a vida dela? E as pessoas vão rir dela?’

Mas, com o passar do tempo, procurei respostas na internet e não via nada que pudesse me orientar, não via experiências já passadas por mães para me ajudar em minhas dúvidas, pois não sabia como correr atrás das informações. Depois que minha filha fez o Implante Coclear, as pessoas começaram a perguntar o que era aquele aparelho na cabecinha dela, e eu sempre respondia. Reparei que muitas pessoas não tinham acesso a esta informação e que muitas mães de crianças surdas também não. Resolvi então, expor nossas lutas, conquistas e felicidades. A Larah é o nosso maior presente e é impressionante o tanto de coisas boas que ela nos ensina a cada dia. Eu fui a mãe mais sortuda do mundo! Meu intuito é ajudar algumas mães a acabar com possíveis preconceitos e, principalmente, mostrar que nossos “cloquezinhos” (como falo nos vídeos) podem levar uma vida normal”.

Fotografia Implante Coclear, de Léo Negromonte

“Em 16 de outubro de 2013, quando eu tinha 17 anos de idade, fiz a cirurgia do Implante Coclear bilateral. A ativação foi em 28 de novembro de 2013. Neste dia, ouvi o primeiro som do meu mundo. Quando estou no metrô, as pessoas ficam olhando o meu IC, ninguém sabe o que é. Todos os meus amigos falavam que eu tiro fotos muito bem, por isso fiz a página do Facebook, Fotografia Implante Coclear. Para as pessoas saberem o que é o IC ou para quem tem dúvidas e está ansioso para usar o Implante Coclear. No dia 17 de fevereiro desse ano, vou começar a Faculdade de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda. Eu gosto muito de postar todas essas fotos incríveis! A página ajuda na autoestima e na valorização do implantado através da fotografia”.

Implante Coclear. Você sabe o que é?, de Fabiane Pereira

“Durante minha formação acadêmica sempre participei de projetos de pesquisa em um laboratório de estudo do comportamento da UFPA – Universidade Federal do Pará. Neste laboratório, as pesquisas são desenvolvidas para compreender os processos de aprendizagem e são realizadas com macaco-prego. Fiz muitas pesquisas com diversos objetivos. Quando me formei e iniciei o mestrado, quis aplicar os procedimentos que tiveram sucesso em não-humanos com humanos com alguma necessidade de ensino, foi então que fizemos a parceria com o Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza, da UFPA, que estava iniciando o projeto de Implante Coclear, com suas primeiras cirurgias. Através dessa parceria, elaboramos uma pesquisa para compreender o processo de aprendizagem dos novos sons para os usuários de IC (minha dissertação pode ser vista neste link).

Conclui o mestrado e fui convidada por uma equipe que realiza cirurgia de IC em Belém para compor a equipe realizando avaliação psicológica para a cirurgia de IC. Com a conclusão do mestrado, iniciei o doutorado e fiz parceria com o HRAC (Centrinho de Bauru – referência em IC no Brasil) onde fiz meu doutorado sanduíche, também estudando pessoas com IC, contudo crianças. O meu objetivo no doutorado é ensinar habilidades verbais de falante e ouvinte em crianças que receberam o IC. Atualmente estou de volta a Belém, retornando a pesquisa no Hospital Universitário e no próximo ano concluo o doutorado. Fiz a página no Facebook sem grandes interesses inicialmente. Minha intenção foi compartilhar, de algum modo, tudo que estava aprendendo durante a vigência do mestrado, mas alguns usuários de IC me procuram pela página para tirar dúvidas, o que me deixa muito feliz em poder ajudar com os conhecimentos que tenho obtido ao longo desses anos de estudos”.

Mundo Implante Coclear, de Netinho

“Após dois anos da minha ativação, senti o desejo de falar sobre o IC para as demais pessoas, mas não tinha uma ideia pronta de como seria isso. Pensei em fazer um blog, criar um grupo ou uma página que abordasse assuntos sobre a tecnologia, trazendo informações, dicas para implantados, etc. Mas depois pensei: há blogs muito bons que já falam sobre isso.

Um dia alguém me disse que daria tudo certo com o meu “transplante” coclear. Toda vez que eu falo do implante para alguém que ainda não o conhece, a reação é bem interessante. Quando a minha bateria acaba, fico perdido, literalmente. Não, e quando a Fono desliga o processador para realizar novos mapas? Dói, não é, caros colegas? Então parei e pensei: “É isso. Eu quero falar de algo que nos faça rir de modo saudável destas situações”. Particularmente, gosto de umas boas risadas. Então resolvi criar a página Mundo Implante Coclear no Facebook, onde abordo situações ou episódios conforme citei acima. Nada inventado, mas retratado com um pouco de graça, com um pouco de humor. Compartilho notícias e faço publicações sérias também, ou seja, uma variedade de assuntos no que tange a este universo sonoro”.

Os Jovens e o Implante Coclear, de Carminda Marçal, Marcelo de Paula, Letícia Nascimento e Melissa Peres

“Conheci a Carminda Marçal e ela tinha um objetivo com a juventude implantada. E contatou eu e a Melissa. Tivemos a ideia de criar a página Os Jovens e o Implante Coclear. E fomos por em prática esta ideia. O Marcelo de Paula nos ajudou e chamamos ele para ser administrador também. A página foi criada no dia 7 de Fevereiro de 2015” – Letícia Nascimento.

 

* Imagem: National Institutes of Health, part of the United States Department of Health and Human Services.

 

* Por Ana Raquel Périco Mangili. Matéria cedida pela parceria com a ADAP (Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear). Confira o texto originalmente publicado aqui.

Conheça a função do Monitor da Pessoa com Deficiência

O sistema educacional brasileiro, público ou privado, é moldado segundo critérios gerais de necessidades de crianças e jovens no aprendizado e nas dinâmicas em sala de aula. Porém, sabe-se que cada ser humano é único e, portanto, podem ser necessários ajustes individuais ou coletivos para um melhor aproveitamento desta época da vida. No caso da pessoa com deficiência, tais adaptações são imprescindíveis para garantir a igualdade de oportunidades. Dependendo do tipo e do grau de uma deficiência, seja ela física, sensorial, intelectual ou múltipla, podem existir barreiras no meio escolar que dificultem ou até mesmo impeçam a plena realização da vida estudantil. Quando tais obstáculos não podem ser contornados com ações físicas e pontuais de acessibilidade, entra em cena o profissional Monitor de Apoio à Pessoa com Deficiência (MAPD), para garantir a inclusão do aluno em classes regulares de ensino.

Como trabalha o monitor da pessoa com deficiência?

O monitor é contratado como servidor público na área magisterial, quando atua em escolas públicas de ensino fundamental e médio. No ensino superior, o contrato de trabalho varia de acordo com cada universidade estadual ou federal, assim como nas escolas e faculdades particulares. A formação exigida desse profissional é livre (com exceção do intérprete de LIBRAS, sobre o qual falaremos mais adiante), podendo a pessoa ter cursado apenas o ensino fundamental, ou ter feito pós-graduação na área educacional; os critérios de escolha, bem como os salários, variam para cada instituição contratante.

As atividades do serviço de monitoria são diversificadas de acordo com a deficiência e as necessidades de cada estudante. No atendimento às pessoas com deficiência física, as principais ações do monitor podem ser referentes à ajuda no deslocamento do aluno e nas anotações do material passado em aula. Para os estudantes com graus variados de surdez, o profissional pode ajudar na sua comunicação interpessoal. Aos alunos com baixa visão ou cegueira, o auxílio é direcionado para a leitura e transcrição dos trabalhos e provas e, finalmente, para os estudantes com deficiência intelectual ou com Transtornos Globais do Aprendizado, o monitor auxilia na mediação dos conhecimentos passados pelos professores. Quando o aluno tem mais de um tipo de deficiência, as funções do profissional são ampliadas para dar conta de todas as necessidades do educando.

O serviço de monitoria nas escolas e universidades faz parte do Atendimento Educacional Especializado, este garantido por Lei, segundo os Artigos 227, § 1º, inciso II, e 208, inciso III, da Constituição Federal: “O Estado promoverá a criação de programas de prevenção e atendimento especializado para as pessoas portadoras de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente e do jovem portador de deficiência […]”. Também a Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008, dita que “cabe aos sistemas de ensino, ao organizar a educação especial na perspectiva da educação inclusiva, disponibilizar as funções de monitor ou cuidador aos alunos com necessidade de apoio nas atividades de higiene, alimentação, locomoção, entre outras que exijam auxílio constante no cotidiano escolar”. Para saber mais sobre outras leis que garantem esse direito aos estudantes com deficiência em geral e esclarecer mais dúvidas, veja o artigo da pedagoga Sônia Aranha sobre o tema.

O monitor-intérprete de LIBRAS

O tipo de profissional monitor de alunos com deficiência auditiva mais conhecido é o intérprete da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Ele é requisitado quando o jovem surdo não tem fluência na Língua Portuguesa e possui a LIBRAS como idioma materno. A fonoaudióloga Larissa Coutinho Fonseca, especialista em LIBRAS, afirma que, nesses casos, o monitor-intérprete é obrigatório para a comunicação da criança surda sinalizada. Tanto que esta profissão é regulamentada por uma lei específica, a de nº 12.319, de 1º de setembro de 2010. Larissa complementa: “Eles precisam do intérprete de LIBRAS, sem sombra de dúvidas! Porém, é apenas um intérprete para quantos surdos houver em sala de aula. No caso do surdo-cego, precisa de um interprete exclusivo”. A profissional também comenta sobre o panorama do mercado atual na área. “O mercado é promissor, porém, acredito que o intérprete precisa ter formação superior, seja em fono, pedagogia, o que for. Precisa estudar, conhecer as questões relacionadas à surdez”, defende.

11123555_845035602246155_2142651409_nA intérprete Paloma Bueno Fernandes dos Santos, por exemplo, é formada em Gestão de RH, com pós-graduação em Interpretação da LIBRAS, mestranda em Linguística Aplicada, e com diversos cursos de formação em Tradutor Intérprete de LIBRAS. Moradora de São José dos Campos/SP, ela nos conta um pouco de sua história com esse trabalho. “Consegui meu primeiro emprego após vários anos de voluntariado em instituições religiosas e eventos, as pessoas me ajudaram mostrando vagas e oportunidades de trabalho. Trabalho em duas instituições como intérprete de LIBRAS e também em eventos. Comecei a “carreira” quando tinha 16 anos de idade, pois na época eu ajudava meu ex-namorado surdo. Na adolescência, antes mesmo de ter contato com surdos já tinha feito um curso por curiosidade. Minha rotina é basicamente trabalho diário com surdos na Universidade e em curso de capacitação, auxilio nas atividades propostas pelo professor/instrutor e na comunicação com outros alunos. Tenho contato com vários intérpretes no trabalho, na igreja e grupos regionais de intérpretes de LIBRAS. Amo muito meu trabalho. Sinto muito satisfeita e realizada na minha profissão”.

11180248_820306491391852_1632758544_nO conhecimento sobre a surdez também pode vir das próprias experiências de vida do profissional com a cultura surda brasileira. Foi o caso da intérprete e professora de LIBRAS Letícia Navero, residente de Campinas/SP, com formação em fotografia, atualmente graduanda em pedagogia e fundadora do Movimento Eu Vivo LIBRAS. “Desde criança comecei a interagir com surdos, aos 5 anos de idade. O que facilitou foi a convivência com meus familiares surdos e amigos. Comecei trabalhando como tradutora intérprete no meio religioso, até que percebi que era essa minha profissão, parti para os estudos e cursos e sigo assim até hoje. Acordo bem cedo todos os dias, trabalho na cidade vizinha, Jundiaí. Trabalho com surdos em fase de aquisição de língua, ensino todos os vocabulários programados, utilizando vários recursos visuais. Em outros momentos, atendo surdos já fluentes na LIBRAS, o trabalho fica um pouco mais fácil, mesmo assim estimulamos para o conhecimento de informações diversas”, explica.

A paixão pela profissão é algo muito presente na vida de Letícia. “O porquê de ser intérprete? Acredito muito em sonhos que se tornam reais. Desde criança, meu sonho era ser tradutora-intérprete de língua de sinais, a partir do momento que coloquei na minha cabeça que era essa minha meta e o que eu queria, nunca mais parei de estudar. A comunicação, no meu ponto de vista, hoje é a “coisa” mais importante do mundo, o fato de ser intérprete ou tradutora de LIBRAS é algo surreal, você ser a interlocutora do discurso é maravilhoso, além de possibilitar o acesso da comunicação às pessoas surdas”.

Letícia também comenta sobre a situação atual do intérprete na sociedade. “A função do tradutor intérprete de LIBRAS é pouco valorizada no Brasil, aliás, a comunidade surda é vista com incapacidade perante a sociedade. Claro que isso vem mudando conforme os anos vão passando, mas infelizmente, em “passos de tartarugas”. Tenho fé, esperanças que as políticas educacionais aos sujeitos Surdos ainda serão restauradas, aprimoradas e aceitas, temos um grande número de Surdos e apoiadores ouvintes na militância por todo esse movimento!”, completa.

Monitores para surdos oralizados?

Poucas pessoas sabem, mas há um segundo tipo de monitor que pode acompanhar alunos com deficiência auditiva nas escolas e universidades. Chamado por alguns de “intérprete oralista”, este profissional costuma atuar na transcrição das aulas no caderno do estudante ou na repetição oral do conteúdo dito pelo professor quando este estiver distante do aluno. Geralmente, este monitor só é contratado quando a pessoa com perda auditiva possui também outra deficiência associada ou quando, sendo oralizada, não consegue obter benefícios com nenhum tipo de AASI ou implantes auditivos convencionais.

Esta questão do “intérprete oralista” é polêmica e suscita debates das várias partes envolvidas no processo. Se a criança não possuir nenhuma outra deficiência além da auditiva, as escolas podem ter dificuldades de aceitar contratar um monitor apenas para este trabalho. Além disso, alguns profissionais da saúde defendem que isso prejudicaria a autonomia da criança e seus esforços auditivos para compreender as palavras por si mesma, ao depender de outra pessoa como sua mediadora auditiva. Patrícia Rodrigues Witt, terapeuta ocupacional e especialista em surdez, comenta sobre esse dilema.

“Acredito que o monitor em sala de aula poderá causar dependência, a criança se acomoda e não procura independência, e passa a ser diferente de outras crianças… Eu, com deficiência auditiva profunda, nunca tive monitor em sala de aula, pois não existia o olhar da inclusão. Na época, minha mãe criou uma espécie de sala de recursos ambulantes: a cada dois meses, havia reunião dos profissionais que trabalhavam comigo (psicóloga, pedagoga e fonoaudióloga) na minha escola e davam orientação aos meus professores e serviços de supervisão. Além de instruí-los nas minhas necessidades, eles faziam avaliação constante de como estava o meu desenvolvimento em relação a escola. Mas, em casos extremos, eu acho que o monitor pode estar na sala de aula, dependendo da necessidade do aluno, mas, ao mesmo tempo, deve incentivá-lo para a sua independência”, explica.

A psicóloga Raquel Cassoli também nos mostra a sua visão sobre essa questão. “A recomendação é de que a criança use monitores apenas em casos mais severos, no caso do deficiente auditivo, se a criança realmente não tiver desenvolvido a comunicação ou em casos que haja outra deficiência além da surdez. A recomendação dos profissionais que trabalham com crianças deficientes é de sempre estimular a comunicação e a autonomia. Vigotski, um teórico russo da Psicologia, dizia que: “o maior problema que as pessoas deficientes têm, não é o limite causado pela deficiência em si, mas sim a forma como a sociedade os trata”. Esta frase é uma das coisas mais verdadeiras que já vi, a criança não deve ser tratada diferente, deve ser dado a ela a oportunidade de desenvolvimento o melhor possível. Por isso, na escola, nenhuma criança deve ser protegida, muito menos as crianças com deficiências, a criança super protegida tem menor tolerância a frustração, e a presença de um monitor que fique para atendê-la o tempo todo não a coloca em situações reais, como quando queremos falar algo e o professor não vê que queremos atenção, ou quando não somos entendidos e somos estimulados a formular nossas perguntas e nossas dúvidas de outra forma”.

Já a fonoaudióloga Larissa defende que “cada caso é um caso” e diz que, se a intervenção de reabilitação auditiva e fonoaudiológica for tardia, a criança poderá precisar sim de um monitor, mesmo que não tenha outra deficiência associada. “Eu acredito que vá depender de cada caso. Por exemplo, uma criança que tenha tido acompanhamento fonoaudiólogico precoce e faça uso sistemático de AASI frequentemente não precisa. Mas, para que os pais solicitem um mediador/monitor, é necessário saber se a criança também faz acompanhamentos extra escola. Uma criança com diagnóstico e intervenção tardios sempre apresentará maiores dificuldades que outra com todas as intervenções realizadas no tempo adequado. O monitor é recomendado apenas em casos em que a criança, mesmo estando em terapia fonoaudiológica e fazendo uso sistemático de AASI, ainda encontre dificuldades para acompanhar o conteúdo escolar”.

Como exemplo de atuação de “intérpretes oralistas”, trago a minha própria história para ilustrar a matéria. Eu, Ana Raquel, sou surda oralizada, tenho deficiência auditiva de grau moderado. Uso AASI, mas minha perda é agravada por um quadro intenso de zumbido, piorando minha discriminação dos sons da fala. Além disso, tenho um distúrbio de movimentos raro chamado Distonia, que se configura como uma deficiência física, pois limita meus movimentos dos braços e pescoço. Assim, quando eu era criança, tive monitores que me acompanharam na escola até eu atingir uma certa idade, para me auxiliarem, principalmente, em questões físicas.

Com a entrada em uma universidade pública e de grande porte, vi que não conseguia mais copiar conteúdos das aulas e ouvir os professores ao mesmo tempo, pois isso demandava um grande esforço físico e auditivo simultaneamente. Então, com base em minhas dificuldades físicas e auditivas, a Unesp de Bauru/SP contratou duas alunas da mesma instituição para me apoiarem durante as aulas, em dias alternados. Além de me auxiliarem fisicamente, por exemplo, copiando os conteúdos passados, elas repetem oralmente o que os professores dizem quando há muito barulho na sala ou quando não dá para eu fazer leitura labial.

11216190_1051571621539647_84116212_nConvidei as duas monitoras para darem os seus depoimentos aqui na reportagem, e elas aceitaram. Amanda Tiengo, recém-formada em Jornalismo, conta sobre como conseguiu esta função de monitoria e porque se identificou com o trabalho. “Consegui por meio de uma bolsa disponível na faculdade. Sempre gostei muito de ajudar as pessoas, principalmente quanto aos estudos. Durante o tempo que exerci a função, também era monitora de acompanhamento pedagógico em um projeto de uma escola municipal de Bauru, e plantonista de redação em um cursinho pré-vestibular, também em Bauru. O trabalho me traz satisfação visto que contempla uma coisa que gosto muito que é ajudar, sobretudo nos estudos”.

1384094_553876634683748_85592462_nJá a monitora Bárbara Zaneti de Carvalho, estudante de Arquitetura, dá a sua opinião sobre a importância da função do “intérprete oralista”. “Achei a proposta da monitoria interessante, pois teria contato com uma realidade diferente da minha. É gratificante saber que nossas atividades auxiliam na formação da aluna, e que facilita seu acesso ao conteúdo apresentado em sala de aula. Acredito ser uma função muito importante, pois auxilia no processo de inclusão dos surdos oralizados”.

Monitoria às pessoas com deficiência visual

Entrevistamos também uma monitora de um aluno universitário com deficiência visual e que estuda Direito na ITE (Instituição Toledo de Ensino), de Bauru/SP. Aline Cristina Caffêo Abrão trabalha na faculdade como secretária há dez anos. Porém, com o ingresso de um aluno com deficiência visual no período noturno da instituição, há quatro anos, Aline passou a desempenhar também a atividade de monitoria. “Auxilio o aluno ocasionalmente, somente no período de provas. Faço a leitura de todas as informações contidas nas avaliações, ele interpreta e responde. Eu nunca havia trabalhado como monitora antes, e não tenho contato com nenhuma outra pessoa que seja monitora, embora, no ano passado, tenha ingressado mais um deficiente visual e uma outra funcionária o acompanha nas provas também, mas quase não conversamos sobre isso por sermos de setores diferentes”, comenta ela sobre seu trabalho.

Pela responsabilidade que a função de monitoria envolve, Aline conta que teve algumas dúvidas e receios no início do seu trabalho. “No começo, me senti um pouco insegura, pois dependia muito de mim para ele entender as questões da prova e respondê-las. Eu tinha receio de ler rápido demais, devagar demais, ler errado, o que acontece muito, pois os professores usam muito o Latim no curso de Direito, mas deu tudo muito certo no final. O aluno foi me “moldando”, pedindo para ler novamente a questão mais devagar, e eu repito quantas e quantas vezes ele achar necessário, leio pausadamente quando a questão é bem extensa. E, em alguns casos, é necessário fazer uso dos Códigos (Civil, Penal, Processual), então ele traz o notebook e tem o Código falado, o que ajuda muito. Em outros casos, usamos o livro, e mesmo assim ele me orienta quanto à página, artigo e tudo mais a ser consultado”.

11080650_878657965505906_497682425070432930_oA atividade de monitoria gerou em Aline uma genuína gratificação e despertou seu interesse pelas questões que envolvem a adaptação e o apoio às pessoas com deficiência. “Eu estou gostando muito desse trabalho, estou me sentindo muito útil e importante para o aluno. Posso ajudá-lo quando ele precisa e isso é gratificante demais. Nós ficamos amigos, conheço seus pais, sua namorada, seus irmãos e o local onde ele estagia. Tenho vontade de fazer cursos ou algum treinamento para estar mais preparada para lidar com todas as situações de deficiência, pois a qualquer momento a faculdade poderá estar recebendo novos ingressantes e, hoje, nós, monitores, não temos esses conhecimentos a mais para oferecer”.

Jorge Luís Galli, o estudante de 22 anos e com deficiência visual monitorado por Aline, relata como se deu o processo da seleção do monitor para auxiliá-lo durantes as avaliações do seu curso. Antes de entrar na universidade, ele nunca havia tido contato com esse tipo de profissional, e realizava suas provas separadamente com os próprios professores ou com a sua professora de Braille. “Quando ingressei na faculdade, fui chamado para uma conversa com o diretor da instituição, para que eu explicasse todas as minhas dificuldades por causa da minha deficiência, e dessa forma, poder ajudar a instituição a realizar as adaptações necessárias. Neste sentido, a faculdade me ofereceu a ajuda da minha então monitora Aline Caffêo para a realização das minhas avaliações”.

Como conseguir um monitor para a sua criança com deficiência

O diagnóstico que determinará se a criança precisa ou não de um monitor escolar deverá ser realizado por uma equipe multidisciplinar, com professores, psicopedagogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. Dr. Rogério Hamerschmidt, chefe do Serviço de Implante Coclear do Hospital de Clinicas da UFPR, também lembra a importância do laudo médico no processo, mas diz que só este documento não é o suficiente para conseguir o direito à monitoria. “O médico não dá laudo solicitando monitor, o médico dá o laudo atestando a surdez (ou outra deficiência). Quem vai solicitar o monitor é a própria professora, pedagoga ou a fonoaudióloga que assiste a criança”.

Segundo a pedagoga Sônia Aranha em seu site, nenhum tipo de escola, pública ou particular, pode cobrar a mais pelo serviço de monitoria, pois os custos de atendimentos especializados já devem estar inclusos entre os gastos da instituição (nas particulares, diluídos nas mensalidades de todos os alunos), o que, infelizmente, não ocorre em grande parte das vezes. A única alternativa restante mediante uma negativa da escola perante o pedido é juntar todos os documentos e procurar o Ministério Público do Estado, exigindo a sua intervenção, ou contratar um advogado e entrar diretamente na justiça contra a escola.

 

* Créditos das fotos: arquivos pessoais dos entrevistados.

* Por Ana Raquel Périco Mangili. Matéria desenvolvida inicialmente para uma disciplina do curso de Jornalismo da Unesp e publicada posteriormente também no site ADAP.

Jornada Multidisciplinar 2015 traz debate sobre Acessibilidade à comunidade universitária

Aconteceu na Unesp de Bauru/SP, nos dias 11, 12 e 13 de agosto, a XVII Jornada Multidisciplinar, Diversidade, Acessibilidade e Direitos: Diálogos com a Comunicação. O evento é caracterizado por debates de eixo transdisciplinar e tem a pretensão de reunir não só a comunidade acadêmica, mas sim todos os interessados nos temas a serem discutidos, para uma troca de experiências em geral e divulgação de conhecimentos.

A temática deste ano girou em torno dos Direitos Humanos e da representação de minorias sociais que lutam para encontrar seu espaço dentro dos ambientes universitários, como é o caso das pessoas transgêneras e dos indivíduos com deficiência. A programação nos três dias do evento foi bastante diversificada e contou com palestras, oficinas, exposição de trabalhos universitários, exibição comentada de filmes e apresentações artísticas.

015Sob a perspectiva da pessoa com deficiência, pode-se avaliar que a Jornada Multidisciplinar 2015 trouxe para a comunidade acadêmica o debate sobre a inclusão e a acessibilidade no ensino superior brasileiro, um tema que realmente necessita de maior reflexão neste meio. Emmanuelle Alkmin, responsável pela Secretaria de Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida de Campinas, e palestrante na primeira noite do evento, reforçou que a invisibilidade da pessoa com deficiência ainda persiste em praticamente todas as esferas da vida em sociedade.

Exemplificando esta realidade, Emmanuelle afirmou que, para a mídia, as pessoas com deficiência são vistas apenas como receptoras de conteúdos, e não como produtoras, o que torna visível a exclusão e a falta do espaço de representatividade desse público nos meios de comunicação. A perpetuação de estereótipos midiáticos, como o do “deficiente herói”, contribui para uma simplificação da luta pelos direitos desses indivíduos, não abrindo lugar para outras questões que precisam ser debatidas para se promover a igualdade social.

013Na segunda noite da Jornada Multidisciplinar, a Professora Doutora Lucinéa Villela iniciou os debates sobre acessibilidade falando sobre a sua própria experiência como docente e as barreiras (como a falta de legendagem e audiodescrição nos conteúdos acadêmicos) que têm observado no acesso às universidades pelas pessoas com deficiência. Também apresentou seu grupo de estudos da Unesp de Bauru, o MATAV (Mídia Acessível e Tradução Audiovisual), o qual coordena e produz conteúdos acessíveis para o público com deficiência, dentro e fora da Universidade.

Dando continuidade às discussões, Sandra Sartoreto, Professora Doutora do Departamento de Educação Especial da Unesp de Marília/SP, mostrou seu projeto de Acessibilidade no Ensino Superior, que tem como objetivo disponibilizar conteúdos acadêmicos acessíveis para democratizar o acesso às universidades ao público com deficiência.

Em seguida, Susana Libório Godoy, da Secretaria Municipal de Cultura de Bauru, comentou sobre os avanços na legislação e nas políticas públicas de inclusão, e também falou sobre sua experiência na Secretaria de Cultura e das iniciativas da Prefeitura da cidade para atender às necessidades de seus cidadãos com deficiência.

061A noite do dia 12 teve ainda a presença de Paolla Vicentin, estudante de Psicologia da Unesp de Bauru, que relatou a importância de se ter acessibilidade na universidade, ao usar sua própria experiência de vida com uma deficiência motora adquirida, demonstrando que todas as pessoas podem precisar deste tipo de recurso algum dia.

As palestras mencionadas acima contaram com intérpretes de LIBRAS, e a exposição de trabalhos acadêmicos na manhã do dia 12 teve sessões específicas para a apresentação e o debate sobre acessibilidade, direitos e comunicação. Os filmes exibidos durante a Jornada Multidisciplinar apresentaram a temática da deficiência com vários recursos acessíveis. No dia 13, a Prof. Dr. Lucinéa ministrou também uma oficina sobre Mídias e Acessibilidade, fechando este importante ciclo de trocas de experiências sobre a vida e a representatividade das pessoas com deficiência na mídia e nas universidades brasileiras.

Matéria por Ana Raquel Périco Mangili.

Fotos do evento por Sara Souza e Thais Viana.

Relato do intercâmbio de Ana Raquel Périco Mangili

A pedido da Professora Lucinéa, coordenadora do Grupo MATAV, trago para o Blog o meu relato de viagem, publicado originalmente no site da ADAP, nosso parceiro. Para quem não me conhece, me chamo Ana Raquel Périco Mangili, sou estagiária em assessoria de imprensa na ADAP, estudante de Jornalismo na Unesp de Bauru/SP e possuo surdez de grau moderado e também Distonia, um distúrbio de movimentos raro. Realizei no mês de julho deste ano um intercâmbio de quase quatro semanas na Universidad de Salamanca/Espanha, a fim de aprimorar os meus conhecimentos da língua espanhola. Durante essa viagem, além de testar o Aro de Indução Magnética, também visitei Portugal e levei a proposta de parceria da ADAP para a Associação OUVIR. Confira a seguir os detalhes do intercâmbio.

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Relato de um intercâmbio na Espanha – Por Ana Raquel Périco Mangili

Durante o segundo ano do ensino médio, em 2011, conheci alguns intercambistas na escola onde eu estudava, e com isso desenvolvi a curiosidade e a vontade de passar pela experiência de estudar em outro país. Tive que adiar esse plano na época, porque nenhuma agência ou ONG que promovia o intercâmbio no ensino médio oferecia ou mencionava recursos de acessibilidade para alunos com deficiência poderem viajar. Além de minha surdez moderada, eu tenho Distonia, um distúrbio de movimentos que causa incapacidade motora para algumas tarefas do dia a dia, pois afeta sobretudo a mobilidade de meus braços e pescoço. Sendo assim, a presença de uma monitora para viagens é algo indispensável para mim.

Com a entrada no curso de Jornalismo da Unesp de Bauru/SP, meu sonho foi adquirindo forças e, tendo cada vez mais ciência de meus direitos como cidadã brasileira com deficiência, no terceiro ano do curso, com 20 anos, me inscrevi no processo seletivo do Programa TOP Espanha 2015, promovido pelo Santander Universidades e divulgado pela Unesp.

Por que escolhi a Espanha para meu intercâmbio? Desde pequena, eu tinha o desejo de conhecer o continente europeu, a terra dos contos medievais e dos castelos com os quais eu sonhava. Também, tenho como segunda língua o Espanhol: comecei o curso desse idioma com nove anos, antes mesmo de receber meus primeiros aparelhos auditivos. Fiz quatro anos de curso, e mais três anos de espanhol no ensino médio. Sempre gostei dessa língua, apesar de nunca ter tido experiências de conversação fora das aulas.

Então, o Programa TOP Espanha foi uma grande oportunidade, e também contribuiu para isto o tempo de sua duração: quase quatro semanas. Para quem nunca tinha viajado para o exterior e tem sempre a família por perto, este período era perfeito para uma primeira jornada. Eu poderia tirar férias de um mês do meu estágio na ADAP, e também dar uma pausa nos meus tratamentos, sem prejudicar minha saúde. Após passar pela segunda etapa do processo seletivo, eu fui selecionada pela Unesp para a viagem. Mal pude acreditar na hora, porque a concorrência era grande e também era a primeira vez que eu tentava um intercâmbio. Minha felicidade foi imensa!

IMG_20150719_233314490 (1)Tão logo passei na seleção, meu pedido para conseguir o custeamento, pela Unesp, de uma monitora para a viagem foi aprovado, outra grande vitória. Pude escolher minha antiga professora, que me conhecia desde criança e que me ajudava nas aulas com a pronúncia do espanhol naquela época, para me acompanhar no intercâmbio. Jorgita já estava acostumada com a minha voz, que possui alterações devido às complicações da Distonia, e também com as minhas necessidades físicas, o que facilitou todo o processo de segurança e adaptação no exterior.

Os preparativos para a viagem começaram bem antes, com orientações da fisioterapeuta, aplicação de Botox para controlar a Distonia, checagem dos meus aparelhos auditivos e Sistema FM (que inicialmente se dizia que ele não funcionaria no exterior, o que me preocupou muito, mas tive a grata surpresa de chegar à Espanha e ver que esta informação estava equivocada). Também dei uma rápida revisada por conta própria no meu espanhol, pois fazia três anos que não o praticava. Minha audição apresenta variações no desempenho devido a um intenso zumbido e às contrações dos músculos da cabeça e pescoço, oriundas da Distonia, então eu quis ter a segurança de relembrar todas as regras do espanhol escrito que eu já tinha aprendido nos anos anteriores.

O intercâmbio ocorreu do dia 29 de junho ao dia 23 de julho. Os selecionados pelo Programa embarcaram no Aeroporto de Guarulhos/SP com destino à Madrid. Detalhe: no evento antes do embarque, promovido pelo Santander, havia uma intérprete de LIBRAS. Achei super bacana essa iniciativa. O voo teve duração de dez horas, e como foi a primeira vez que voei, fiquei muita ânsia e tontura durante a viagem toda (na volta foi bem mais tranquilo). E adorei sentir-me levantando do chão, ver as cidades de cima e tirar fotos das nuvens.

Chegando a Madrid, já no dia 30 de junho, na hora de pegar as bagagens, Jorgita e eu ficamos desesperadas sobre como iríamos carregar rapidamente três malas de rodinhas e quatro bolsas de mão até o ônibus (coisa de mulheres mesmo levar tanta mala assim, hehe). E então uma gentileza transformou esse momento: rapazes do nosso grupo, alunos do Exército, se ofereceram para nos ajudar. Obrigada novamente pela ajuda, meninos!

O grupo visitou um café e uma praça em Madrid antes de seguir viagem de ônibus até Salamanca, a cidade universitária. Meu jet lag após o voo foi terrível, quase dormi de pé, meus olhos queimavam e saíam lágrimas de cansaço. Mas, assim que chegamos a um dos alojamentos da Universidad de Salamanca, fiquei maravilhada. É muito parecido com os das universidades americanas vistos em filmes, com muito verde, estudantes sentados nos campos conversando em grupo, refeitório e áreas comunitárias, como academia e salas de estar, e uma energia incrível. Foi um sonho se realizando!

A Universidad de Salamanca foi a primeira a ser criada no país, é uma instituição de ensino superior pública que completará 800 anos em 2018, e oferece cursos de espanhol para estrangeiros. Fizemos a prova de nivelamento do idioma no dia primeiro de julho (em relação à minha monitora, ela e eu fomos avaliadas separadamente, claro). O teste avaliou até minha conversação em espanhol. Com um pouco de insegurança devido às minhas dificuldades auditivas e de fala, porque o curso envolvia total comunicação em outro idioma, fui surpreendida com o resultado da classificação, na tarde do mesmo dia: passei no nível Intermediário e estava pronta para cursar o nível Avançado de Língua Espanhola. Eu não poderia ter ficado mais feliz naquele momento!

11141202_929234077114961_8468345025401654746_nO curso ocorreu do dia primeiro ao dia 21 de julho, com aulas das nove ao meio-dia (duas horas de língua espanhola, e uma de cultura do país), e tarefas diariamente. Nos finais de semana, eu sempre ia a excursões para cidades próximas (Segovia, Ciudad Rodrigo) ou a Portugal. O campus universitário de lá de Salamanca não é delimitado como no Brasil, as aulas aconteciam em diferentes prédios no centro histórico da cidade e, portanto, tínhamos que caminhar certas distâncias todo dia. Eu me canso com mais facilidade ao realizar atividades físicas, mas ainda bem que os espanhóis possuem o hábito da Siesta (repouso) depois do almoço, hehe.

As aulas foram muito produtivas auditivamente. Com a leitura labial e o uso do Sistema FM, pude compreender quase tudo do que era dito em sala. Claro que, no começo, leva um tempo para você se acostumar e desapegar do português, mas até que a minha adaptação foi rápida. Os professores utilizaram alguns áudios e vídeos nas aulas, porém, a maioria era de músicas com a letra ou de atividades com roteiros, de modo que eu conseguia acompanhar tranquilamente. Eles sempre davam um jeito de me passar o conteúdo audiovisual por escrito para eu não ficar perdida nas atividades auditivas. O resultado é que retornei ao Brasil até cantando em espanhol, hihi.

Infelizmente, essa boa compreensão auditiva não ocorreu nas excursões guiadas na cidade. Com o movimento corporal constante (e as alterações musculares causadas pela Distonia na região do pescoço), o cansaço e a interferência dos sons ambientais, mesmo utilizando o FM eu entendia poucas palavras que eram ditas pelo guia. Minhas alternativas eram pedir ajuda para minha monitora sobre algumas informações e focar em aproveitar as visitas da forma mais visualmente possível.

Durante as refeições na área comunitária do alojamento, eu ficava observando e tentando ouvir os alunos da Universidad em suas conversas, para ver se eu conseguia entender esses sons que estavam um pouco longe e que não se dirigiam diretamente a mim. Como resultado desses esforços, eu consegui identificar pela primeira vez a sonoridade e a melodia do idioma espanhol. Como minha audição muitas vezes apresenta instabilidade, eu costumo focar apenas nas palavras que ouço, não prestando atenção no ritmo e na sonoridade dos idiomas. Portanto, essa foi uma grande experiência auditiva para mim.

Outra novidade que eu pude descobrir lá foi o Aro de Indução Magnética. Essa tecnologia existe no mundo há um bom tempo, mas no Brasil não é muito difundida. O Aro é como se fosse um “FM comunitário”, que é instalado em locais públicos e basta o usuário de AASI ou IC colocar seus aparelhos no Modo da Bobina Telefônica que ouvirá o som do microfone do palestrante diretamente nos seus ouvidos, minimizando a interferência sonora do ambiente. Eu achei o som desse sistema até mais limpo que o do FM, sem aquele chiado de fundo. O Aro só estava presente em salas de reunião e auditórios, para as salas de aula poder-se-ia utilizar o Colar de Indução Magnética individual, mas ele tem a desvantagem de ser maior e bem mais pesado que o Sistema FM. Agradeço ao profissional Lorenzo, da Unidad de Apoyo a la Comunidad Universitaria con Discapacidad, por me fornecer o Colar de Indução Magnética para testes.

Também conheci um modelo de FM comercializado em Portugal e Espanha, o Comfort Contego, fabricado pela Comfort Audio e revendido pela Amplifon. Agradeço imensamente aos amigos portugueses Ricardo Miranda e Yvo Matias pelos esforços em me disponibilizar esse equipamento em Salamanca, o qual, por fim, acabei não precisando após descobrir que as frequências de meu próprio Sistema FM estavam funcionando perfeitamente no país, ao contrário do que eu tinha ouvido falar aqui no Brasil antes da viagem.

Em relação à minha fala, eu pronunciei bem o espanhol, tanto que até paguei mico em sala de aula, ao fazer um comentário no idioma sobre uma piada interna para minha monitora, achando que não seria entendida pelos demais, mas como falo alto sem perceber, a classe toda riu junto, hehe. Porém, também passei lá por situações já vividas aqui no Brasil, como quando as pessoas não entendem o que falo e se dirigem à minha monitora para conversar, e não a mim. Mas isso é facilmente resolvido na base da conversa e da orientação.

As ruas de Salamanca são movimentadas, sobretudo à noite. Por ser uma cidade maior, o povo dificilmente fica te encarando na rua se você possui uma deficiência aparente, como ocorre rotineiramente comigo na cidade brasileira onde vivo. Inclusive, numa situação muito fofa que me ocorreu lá um dia, eu estava esperando o semáforo abrir, na calçada, junto com minha monitora, e uma menininha de uns quatro, cinco anos, que estava de mãos dadas com sua mãe, pegou na minha mão direita, que eu quase nem uso, para atravessar a rua. Own!

Mas, em relação à leitura labial, talvez os estudantes de lá não tenham muito conhecimento deste hábito. Passei por uma situação meio constrangedora, quando um aluno espanhol do alojamento veio falar comigo, e como não entendi direito o que ele disse inicialmente, foquei meu olhar em sua boca, e ele estranhou e achou que eu estava com graça ou dando em cima dele. #facepalm

Durante minha estadia em Salamanca, também avistei algumas vezes pessoas utilizando aparelhos auditivos, e até um senhor com, provavelmente, Distonia. O centro histórico da cidade possui um asfaltamento com paralelepípedos, e ainda assim vi paraplégicos transitando por lá. Aí já não tenho como dar uma avaliação exata das dificuldades enfrentadas por quem é cadeirante naquele local, porque nunca utilizei cadeira de roda, mas imagino que deve ser um desafio e tanto.

Uma situação que achei injusta foi no aeroporto de Madrid, onde apenas as pessoas que usam cadeira de roda possuem prioridade de atendimento. Eles não consideram as pessoas com mobilidade reduzida como deficientes, nós temos que ficar um tempão de pé na fila, com dores (e no meu caso, espasmos também), esperando para sermos atendidos. Realmente, isso foi algo que deixou muito a desejar, comparado com o Aeroporto de Guarulhos, em que a prioridade é válida para todos os tipos de deficiência.

11665576_923933360978366_1276551881799245923_nEu não poderia deixar de contar também sobre minha breve ida a Portugal, nos dias 04, 05 e 12 de julho (nesse último dia, fui à Praia de Aveiro em excursão). Antes de ir para a Espanha, eu já havia entrado em contato com o Sr. Ricardo Miranda, Presidente da Associação OUVIR em Lisboa, com o objetivo de estabelecer uma parceria entre essa instituição e a ADAP. Sempre quis conhecer Portugal, e o amigo Ricardo fez a grande gentileza de apresentar, para minha monitora e eu, o seu país. Lá encontrei também o amigo Sérgio Rodrigues e a encantadora Alice Inácio, uma das principais ativistas em prol do custeamento do Implante Coclear pelo governo de seu país. Amei conhecer o Rio Tejo, sobre o qual tanto se fala nos poemas portugueses que já li. Foi um prazer enorme visitar Lisboa e região e estar entre amigos, agradeço muito ao Ricardo, e também ao Sérgio e à Alice, pela oportunidade e companhia.

Em relação à Praia de Aveiro, foi um local incrivelmente bonito de se visitar. A água do mar é muito, muito fria. Mal pude entrar, porque, mesmo com sol, você acaba passando frio se ficar com a roupa de banho molhada por muito tempo. É algo típico do clima europeu. Mas, nas cidades interioranas que visitei, tanto de Portugal quanto da Espanha, o calor do verão estava até insuportável se você ficasse muito na rua. Neste aspecto, lembrei-me bastante do Brasil, hehe.

11755709_930366117001757_9191777842155073701_nBom, creio que é isso. Dia 21 de julho recebi meu certificado de nível Avançado de Espanhol, e na tarde do dia 22 o grupo embarcou de volta ao Brasil, chegando na manhãzinha do dia 23 de julho. Minha saudade da família e dos amigos era imensa, hihi. Agradeço do fundo do coração a todos que participaram e me apoiaram nessa viagem: família, profissionais que cuidam da minha saúde, a monitora Jorgita, a equipe Santander e o grupo de alunos e professores, o pessoal da Unesp, da ADAP e da Universidad de Salamanca, amigos brasileiros, portugueses e espanhóis. Sem vocês, tudo isso não teria sido possível. Meu muito obrigada!

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

MATAV disponibiliza websérie nacional E_VC? com recursos de Acessibilidade

Nós, da Equipe MATAV, produzimos mais uma amostra de recursos de acessibilidade para produtos audiovisuais. Desta vez, escolhemos a websérie nacional #E_VC? para inserir legendagem para pessoas com deficiência auditiva e audiodescrição para indivíduos com deficiência visual. #E_VC? é de autoria da 8KA, e foi lançada entre junho e dezembro de 2011.

734741_452148651515120_331428916_nA websérie conta com nove episódios, com aproximadamente quatro minutos de duração cada. Como todos os produtos desse gênero, os episódios foram disponibilizados no Youtube. O enredo da série gira em torno de diversas temáticas que angustiam os adolescentes no final do ensino médio e as decisões a serem tomadas para o início da vida adulta. Cada episódio contém belas reflexões sobre os dilemas da existência que, em um ou outro momento, já atingiram a todos nós. Assim, a websérie consegue sair dos estereótipos que circulam as produções desse gênero e se torna atrativa ao grande público em geral.

Os personagens dialogam, em alguns momentos, diretamente com a câmera, lembrando o formato popular de interação on-line em vídeos, os chamados Vlogs. #E_VC? possui no elenco os atores Flora Paulita, André Bertolini, Vitor Faria e Agatha Paulita, e foi considerada pelo canal MTV como uma das 5 melhores webséries nacionais de 2011, e ganhou o prêmio de melhor Docudrama no Los Angeles Web Festival de 2013.

Vendo o sucesso desta websérie, fizemos uma parceria com a 8KA Produções para tornar este produto acessível às pessoas com deficiência auditiva ou visual. O resultado final pode ser conferido nos vídeos que estão disponibilizados no canal do MATAV no Youtube, com legendagem e audiodescrição. Ao final desta matéria, há o link para um pequeno questionário de avaliação do nosso trabalho. Suas críticas e sugestões são muito importantes para a evolução dos nossos serviços oferecidos. Esperamos que gostem da websérie #E_VC? e aguardamos a sua opinião sobre esse trabalho acessível.

E_VC? – Episódio 1:

https://www.youtube.com/watch?v=GX4-tEAtaT8

E_VC? – Episódio 2:

https://www.youtube.com/watch?v=MXOOKn9vYRU

E_VC? – Episódio 3:

https://www.youtube.com/watch?v=FbdVGfQVfFU

E_VC? – Episódio 4:

https://www.youtube.com/watch?v=4zIFOrSkLaE

E_VC? – Episódio 5:

https://www.youtube.com/watch?v=V9MTjDIb1JE

E_VC? – Episódio 6:

https://www.youtube.com/watch?v=axIzDPVdzAE

E_VC? – Episódio 7:

https://www.youtube.com/watch?v=9hKLfwlGVZ0

E_VC? – Episódio 8:

https://www.youtube.com/watch?v=Mn1KS0qThqg

E_VC? – Episódio 9:

https://www.youtube.com/watch?v=jojj6Nix_mM

Link do questionário de avaliação: http://goo.gl/forms/jUHsqkWkrJ

 

* Imagem da matéria: divulgação.

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

Pesquisadores criam dispositivo que permite “ouvir pela língua”

tongue-stimulating-retainerPor mais que pareça mentira ou brincadeira é a mais pura ciência: pesquisadores norte-americanos da Universidade do Estado do Colorado desenvolveram um aparelho que permite que deficientes auditivos escutem através de vibrações em suas línguas. A ideia é que o aparelho seja uma alternativa ao implante coclear, já que ele serviria também para pacientes que não tenham o nervo auditivo funcional.

O dispositivo usa um receptor bluetooth para captar os sons e convertê-los em impulsos elétricos, que são entregues a um retentor cheio de eletrodos, o qual precisa ser “empurrado” pela língua dos usuários para que eles possam ouvir.

É um processo parecido com o funcionamento de um implante coclear, mas não há necessidade de cirurgia. O novo dispositivo também não requer que o nervo auditivo do usuário seja funcional, assim, ele poderá ser usado por muito mais pessoas que tenham problemas auditivos.

“Os implantes cocleares são muito efetivos e transformaram a vida de muita gente, mas nem todos são candidatos a ele. Nós acreditamos que nosso dispositivo será tão efetivo quanto o IC, mas servirá para mais pessoas e terá um custo menor”, afirmou John Williams, engenheiro mecânico e  um dos criadores do projeto.

Com treinamento, usuários de IC aprendem a converter os impulsos elétricos recebidos pelo nervo auditivo em informações sonoras. A equipe de Williams acredita que pode fazer o mesmo com a língua. Isso porque nossa língua contém milhares de nervos, e a região do cérebro que recebe esses sinais já provou ser capaz de decodificar informações extremamente complexas. Isso significa que as pessoas podem, na teoria, aprender a traduzir as vibrações em suas línguas em palavras, o que permitirá que elas escutem.

O que os usuários sentem quando empurram a língua contra esse dispositivo é apenas um formigamento ou uma sensação de vibração. Mas o cérebro deles pode ser ensinado a trabalhar em padrões específicos de impulsos elétricos e traduzir isso em palavras. É diferente de se aprender braile, por exemplo, porque os usuários não vão sentir a vibração e aí pensar em qual palavra traduzir, pelo contrário, o cérebro vai na verdade aprender a fazer isso de forma automática. A língua pode realmente aprender a ouvir. Williams acredita que será preciso usar o dispositivo de três semanas a três meses, para começar a ensinar o cérebro a interpretar os sinais automaticamente.

A equipe trabalha agora com neurocientistas para mapear os receptores na língua e verificar que padrão de eletrodos no dispositivo vai funcionar melhor. Isso vai gerar informações importantes para entender o quão consistente nossa língua é.  Por exemplo, se todas as línguas sentem os impulsos elétricos na mesma região, isso quer dizer que é possível criar um padrão único. Porém, se ficar constatado que cada pessoa tem um modo diferente de receber os impulsos pela língua, os dispositivos serão personalizados para cada usuário, o que pode encarecer o produto.

Infelizmente, vai demorar um pouco até que a tecnologia possa ser utilizada pelo público, mas a equipe já começou a testar protótipos e criou uma start-up para construir o dispositivo, já que a tecnologia já está disponível. Se tudo correr como planejado, eles esperam abrir o mundo dos sons para uma nova audiência no período mais curto possível!

 

* Com informações do site: Sciencealert.com

* Por Renan Fantinato. Matéria adaptada e cedida pela parceria com a ADAP (Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear). Confira o texto originalmente publicado aqui

Entrevista com Bruno Fagundes

O Blog MATAV apresenta o último post da série de três sobre a Peça Tribos. Segue a entrevista realizada pela estudante de Jornalismo Ana Raquel Mangiili. Ana Raquel já publicou sua resenha no Blog MATAV com relatos interessantes sobre sua experiência de surda oralizada e espectadora teatral.

Entrevista com Bruno Fagundes

O ator interpreta o personagem Billy na peça Tribos

Entrevista: Ana Raquel Périco Mangili

Transcrição: Laiza Castanhari

Revisão: Profa. Dra. Lucinéa Marcelino Villela

 

Após se apresentar em Bauru, no dia 20 de fevereiro (veja a matéria sobre a peça aqui), Bruno Fagundes, da Equipe Tribos, concedeu uma entrevista exclusiva para o Blog MATAV e para a ADAP.

Além do protagonista da peça, conheci Maíra Dvorek (que interpreta a personagem Ruth), Guilherme Magon (Daniel) e Antonio Fagundes (Christopher). Todos os atores foram gentis e atenciosos, com destaque para o Bruno e a Maíra. Ambos relataram experiências e genuíno interesse pelas questões que envolvem o universo da surdez para além da peça de teatro em que atuam. Foi um enorme prazer conhecer a Equipe Tribos.

Confira, a seguir, a entrevista com Bruno Fagundes. O ator relata sua experiência com LIBRAS, seu contato com surdos sinalizados e oralizados, o que pensa a respeito da questão da Acessibilidade no Brasil e aborda vários outros temas.

 

Ana Raquel: Como você aprendeu LIBRAS? Houve dificuldades?

A jornalista Ana Raquel com Bruno Fagundes

A jornalista Ana Raquel com Bruno Fagundes

Bruno Fagundes: Eu achei difícil, porque os outros idiomas a gente tem um inconsciente que aprendemos ouvindo. Como o inglês, a gente ouve as músicas em inglês, então, conseguimos captar um pouco dos idiomas, porque a nossa cultura é uma cultura oral e auditiva, você vai se alimentando ao longo da vida com referência e com informação. A língua gestual é uma língua completamente diferente, é radicalmente diferente da nossa cultura, da minha cultura. Foi muito difícil fazer essa transposição de forma de expressão e passar para a expressão gestual, mas foi um processo muito interessante. Acho que a língua gestual tem muito a ver com o nosso trabalho de ator, porque é uma língua muito expressiva. Foi muito interessante para mim, como ator, interpretar uma língua falando e, de repente, passar para os sinais e voltar para o português. Foi um processo muito difícil, muito desafiador, mas que me deu muito prazer em conhecer essa língua, tão bonita e expressiva.

AR: Você pretende utilizar esse idioma em sua vida pessoal, mesmo após o fim da turnê?

BF: Eu tenho interesse, fiz amigos nesses processos, amigos oralizados, outros só usam sinais e a gente ficou amigo nesse processo de composição do personagem, eles me ajudaram muito. Eu os observei muito para ver o que gostaria de usar para o meu personagem e foi muito legal. Algo que coloquei na minha cabeça, quando eu tiver tempo: quero me voluntariar para dar aulas de teatro em LIBRAS. Quero me aprofundar mais na língua, que eu não sinalizo fluentemente, então quero aprender melhor para fazer uma espécie de aula, alguma coisa que tem a ver com a minha formação para oferecer para comunidade.

AR: Demorou mais ou menos quanto tempo para você aprender a LIBRAS?

BF: A gente teve muito pouco tempo de processo, foi um mês só de processo, mas eu não parava de fazer isso. Fiquei um mês todo assistindo vídeos e saindo com eles. Fui à manifestação no MASP, houve uma manifestação que tinha um monte surdos. Eu saía com eles para jantar. Fiz uma imersão total, porque quando você vai falar sobre uma deficiência é uma responsabilidade muito grande, afinal estamos retratando a vida de pessoas que têm a vida muito parecida com o que acontece com o personagem. Tive esse cuidado, essa responsabilidade de aprender o máximo possível e de fazer parecer o mais real possível.

AR: Vocês tiveram contato com surdos sinalizados antes de montar a peça? Se sim, poderiam me contar como foi a experiência?

BF: Não, antes de fazer eu não tinha nenhum. Estudei em um colégio não inclusivo, não conhecia nenhum deficiente auditivo antes de fazer esse personagem. Para mim foi um universo novo que conheci, foi uma porta que abri na minha vida que pretendo nunca mais fechar.

AR: Vocês já ouviram falar da comunidade dos Surdos Oralizados? E do Implante Coclear? Não pensaram em colocar esses elementos na peça Tribos também?

Maíra Dvorek e Ana Raquel

Maíra Dvorek e Ana Raquel

BF: Na verdade, a gente não foi atrás de uma peça que falasse sobre qualquer tema, não foi filantropia, não quisemos fazer uma peça social. A gente queria fazer primeiro uma peça de teatro voltada para ouvintes que fala sobre esse tema, mas que fala sobre outros temas também, por acaso. A peça trata também, na verdade, sobre a surdez de todos nós, sobre a incomunicabilidade da família, sobre o preconceito, sobre a intolerância, e que depois a gente foi percebendo a profundidade desse assunto e que, por acaso, falava mais sobre a descoberta dos sinais para eles do que outras coisas, mas, na verdade, a gente não buscou o tema focado ou em Implante Coclear ou em sinais. Buscamos uma peça. Encontrei essa peça fora do Brasil e achei um texto muito forte, muito interessante e que aborda o assunto de uma maneira que não é nem tendenciosa, nem piegas, não faz apologias para nenhum lado. Ela simplesmente pega um problema e explode, e acho que é um texto universal mesmo, que pode se colocar não só para deficientes auditivos, mas para negro, para um judeu, qualquer tipo de minoria. A peça não teve esse foco, esse objetivo de falar sobre um assunto, mas de falar sobre tudo. E o meu personagem usa aparelho auditivo.

AR: Qual a sua opinião sobre os projetos de lei para acessibilidade cultural no Brasil, especificamente nas áreas de LIBRAS, Audiodescrição, legendas e leitura labial?

BF: Eu acho que o Brasil está a passos lentos, acho que é um começo de uma busca acessível, mas eu percebi na nossa peça que nós somos umas das únicas companhias que faz acessibilidade com frequência, porque o que eu vejo mais são projetos que fazem peças já para comunidade surda, não que pega uma peça convencional e deixa acessível. Então, vejo mais esse movimento do que o que nós fizemos. A gente fez, durante um ano, uma vez por mês acessibilidade e a procura e a resposta do público e da comunidade surda foi imensa, muitas e muitas pessoas foram assistir.

Eu acho que é uma via de duas mãos. Quanto mais as pessoas começarem a oferecer acessibilidade, mais vocês vão conseguir assistir. Acredito que tem que partir de algum lado, e acho que esse lado tem que partir de nós (atores). Nós reconhecemos como um erro nosso não ter feito isso antes, mas a gente pretende corrigir esse erro e fazer em todas as nossas peças pelo menos uma sessão acessível por mês, duas sessões por mês, porque também é um custo muito elevado para nós.

Temos um custo, a gente não consegue trazer acessibilidade em turnê, mas em São Paulo havia tradução em LIBRAS simultânea, tinha legenda. Era um tablet que você prendia na cadeira, tinha legenda do espetáculo inteiro para surdos oralizados e tinha Audiodescrição para cegos. Foi uma coisa inédita no Brasil, acho que algumas companhias começaram a se espelhar na gente e, depois que a gente estreou, comecei a ver um movimento maior de acessibilidade na nossa área. Não sei se fomos nós que demos esse empurrão, que a gente ajudou, ou se foi um movimento que começou a surgir mesmo agora, mas acho que está a passos lentos, mas acho que está caminhando.

AR: Como funcionava o sistema de tablet usado nos espetáculos para a exibição de legendas?

BF: Na verdade, era um sistema que usava uma espécie de tablet, mas dentro dele tem um sistema que você não pode acessar mais nada. O usuário acessa direto à legenda e ele tinha um gancho que prendia na cadeira, era um sistema próprio que está no nosso texto lá. Tinha uma pessoa que, dentro desse sistema que desenvolveram, ele que dava as deixas, cada fala ele apertava para sincronizar. Tinha uma equipe, tinha dois funcionários para distribuir esses tablets pela plateia e para recolher depois e tinha um que ficava apertando o botão para fala ir simultânea com a peça. È uma estrutura muito grande.

Com certeza, isso já foi um avanço. Essa empresa chama-se Steno do Brasil, é uma empresa que é atuante em São Paulo e o dono dessa empresa é surdo oralizado, ele desenvolveu esse método de legendagem. A gente foi para Portugal com a peça e eu falei sobre isso lá e eles não conheciam. Na Europa, vejam só. O proprietário da produtora desenvolveu esse sistema e é um sistema quase revolucionário e excelente, era muito funcional, o público amava, era muito legal. Ele tinha um sistema de luz diferenciado que não atrapalhava quem tava do lado. Não pode ser um tablet com uma luz forte, tinha essa película que deixava a luz fosca. Eles estão desenvolvendo agora uma espécie de óculos que você coloca e a legenda fica aqui embaixo.

AR: Quais são seus próximos planos em relação ao Teatro?

Ana Raquel e Antonio Fagundes

Ana Raquel e Antonio Fagundes

BF: A gente já está há um ano e meio com essa peça, nós fizemos um ano em São Paulo, depois um mês em Portugal e agora nós começamos a viajar pelo Brasil. Fizemos seis cidades já. Se tudo der certo, até agosto vamos continuar viajando. Temos um longo chão aí, se Deus quiser a gente vai conseguir concluir esses quase dois anos de espetáculo, que é um feito no Brasil, é muito difícil conseguir uma peça que dê tão certo, o público realmente elegeu o nosso espetáculo, é muito bom. Estou muito feliz com esse projeto, que ele atinja tantas pessoas e que ele modifique a vida de outras, então para mim isso é muito gratificante.

Peça Tribos sob o olhar de uma surda oralizada

10455822_779342975482453_6239374273114955694_nNo dia 20 de fevereiro de 2015, a turnê da peça teatral Tribos, com Antonio Fagundes, presenteou o município de Bauru com três sessões noturnas, antes de seguir para Botucatu e demais cidades do estado de São Paulo. Em exibição desde setembro de 2013, essa peça inovadora que traz o tema da surdez e do preconceito como destaques já recebeu diversas avaliações da crítica especializada, a qual, em geral, dá o seu aval positivo a Tribos.

Porém, sente-se que o espetáculo foi analisado até então sob critérios objetivos e exógenos, por assim dizer, ao se ter como críticos indivíduos ouvintes, e não pessoas que fazem parte da minoria social retratada na peça. Por mais que tais críticos tenham obtido êxito ao apontar o caráter conscientizador de Tribos e identificar nela uma compilação das atitudes excludentes da sociedade para com as pessoas com deficiência auditiva, não poderão descrever com precisão os sentimentos e as equivalências das representações teatrais em relação ao universo surdo justamente por não fazerem parte dele.

Sendo assim, nós da Equipe MATAV, em parceria com a ADAP (Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear), apresentaremos uma resenha crítica da peça Tribos sob a perspectiva de uma jornalista com deficiência auditiva, justamente esta que aqui escreve. Contarei a vocês, em detalhes, como foi minha experiência ao assistir a peça, e também analisarei aspectos da história de Tribos, fazendo relação com as vivências diárias pelas quais os deficientes auditivos costumam passar em nossa sociedade.

Meu nome é Ana Raquel, sou estudante de Jornalismo pela Unesp de Bauru, colaboradora do Blog MATAV e estagiária em assessoria de imprensa na ADAP. Possuo deficiência auditiva de grau moderado desde o nascimento. Ouço praticamente todos os sons ambientais, porém, minha capacidade de discriminação da fala humana é insuficiente para eu entender as palavras ouvidas sem o apoio visual (o hábito de ler lábios). Ressalto que ser surdo não é somente a ausência de toda a audição, mas sim a impossibilidade de utilizar seu sentido auditivo para tarefas sonoras funcionais do dia a dia. Pelo fato de eu não ser fluente na LIBRAS, pertenço ao grupo dos surdos oralizados, aqueles que se comunicam em português por meio da voz, da leitura labial e dos resíduos auditivos que possuem.

Assim que recebi o convite da coordenadora do Blog MATAV, Prof. Lucinea Villela, para assistir a peça, o primeiro questionamento que me veio à cabeça foi a questão da Acessibilidade. Não sou uma frequentadora assídua de teatros devido ao descaso das companhias com os deficientes auditivos, principalmente os surdos oralizados. Já ouvi falar de várias apresentações que contam com intérprete de LIBRAS no local, mas como fazem os surdos que têm como idioma materno o Português? Admito que a legendagem em teatros seja mais difícil de ser feita do que as das obras cinematográficas, mas tal recurso não é impossível. Então resolvi contatar a equipe da peça Tribos, explicar minha situação e perguntar sobre as opções de acessibilidade que o espetáculo teria em Bauru.

A Equipe Tribos foi a primeira companhia brasileira a fornecer, em São Paulo, apresentações com acessibilidade em 70% da lotação do teatro, para todas as deficiências, com intérprete de LIBRAS, audiodescrição e legendagem em tablets à disposição do público. Porém, me explicaram que, em outras cidades que recebem a turnê, eles só podem disponibilizar intérpretes de LIBRAS, devido ao alto custo de se trazer todos os demais equipamentos acessíveis.  A equipe trabalha sob a forma de uma cooperativa, ou seja, sem nenhum patrocínio ou anunciante, o que limita a verba disponível para a turnê.

Contatei-os também para confirmar a informação de que acompanhante de pessoa com deficiência também paga meia entrada, segundo a Lei Nº. 12.933, pois decidi levar uma pessoa para ser meu intérprete oralista, anotando para mim algumas informações durante a peça e me ajudando com palavras que eu perderia quando os atores estivessem longe de mim ou de costas para a plateia. E eis que fui informada que meu acompanhante não poderia pagar meia entrada. Conforme me explicaram posteriormente, esse contratempo ocorreu por causa de uma norma do próprio Teatro de Bauru, que nega esse direito das pessoas com deficiência.  Estou indignada e precisando de esclarecimentos da Secretaria de Cultura da cidade sobre este absurdo.

Mas enfim, assisti a apresentação, que durou 80 minutos. Sentei-me na segunda fileira do teatro e já fui preparada para a situação de que eu provavelmente ouviria cerca de 50% dos diálogos, mesmo com os aparelhos auditivos, então procurei ler na internet antes toda notícia e crítica relacionada à peça, pois a contextualização e o conhecimento prévio ajudam muito na prática da Leitura Labial. Obviamente, quando os atores iam mais para o fundo do palco ou se viravam de costas para a plateia, eu não conseguia entender quase nada do que ouvia, e aí nessas horas eu orientava minha intérprete para fazer anotações do que foi falado e me passar depois.

1280870_532484433501643_1888073734_nA história da peça gira em torno de Billy (Bruno Fagundes), sua família e sua namorada Sylvia (Arieta Corrêa). Billy é um surdo oralizado que faz leitura labial e usa aparelhos auditivos, mas esses recursos são insuficientes para a sua completa integração social no mundo ouvinte. Antes de conhecer Sylvia, ele não possuía nenhum contato com outros surdos, e sua família buscava esconder sua deficiência sob o manto da superproteção. “Ele não é surdo porque foi criado em uma família que ouve”, diz seu pai Christopher (Antonio Fagundes), confirmando a visão ignorante que cerca Billy diariamente. Podemos encontrar facilmente essa atitude de negação da surdez na realidade dos surdos oralizados. Pelo fato da leitura labial nos possibilitar a compreensão de parte do que ouvimos, as demais pessoas tendem a nos considerar como ouvintes normais, não compreendendo por que precisamos também de acessibilidade em algumas situações.

Na apresentação, vemos que Billy se expressa relativamente bem pela oralidade quando está conversando face a face com uma pessoa, mas basta começar um ruído de fundo ou entrar mais participantes na conversa que ele se atrapalha todo e se sente excluído do diálogo. Realmente, a leitura labial possui limitações, é preciso grande foco e também intuição para acompanhar e apreender as palavras que saem dos lábios de alguém. E muitos só conseguem eficiência nessa prática se aliarem a leitura dos lábios com o som que conseguem captar com seus resíduos auditivos. Assim, ambientes com ruídos de fundo ou com outras pessoas na conversa acabam dificultando, e muitas vezes impossibilitando, o nosso entendimento das palavras.

Já Sylvia, a namorada de Billy, é filha de pais surdos e começou recentemente a perder a audição também. Desde pequena ela teve contato com a Língua de Sinais, e acaba apresentando esse idioma ao Billy. O rapaz se sente encantado com a LIBRAS, e percebe que, para ele, é mais fácil se comunicar através dela do que empregar seus profundos esforços para ouvir o português. E então começa a se questionar sobre o porquê de seus pais nunca lhe terem ensinado essa outra língua.

Para parte dos surdos oralizados, a LIBRAS pode se constituir em uma melhor alternativa do que a Leitura Labial. Tudo depende da disposição pessoal de aprender um novo idioma e de conviver com pessoas que também o utilizem. Muitos surdos oralizados optaram pela oralização apenas pelo fato de só ter contato com indivíduos que fazem uso do português.

20214_508456702571083_1927250816_nNo jantar em que Billy apresenta Sylvia à sua família, todos os preconceitos de seus pais e irmãos são enfim revelados. “Porque ela tinha que ser surda?”, comentam seus familiares sobre a namorada de Billy. “Então, já que você está nos dois mundos, pode nos falar qual língua é melhor”, provoca Christopher, querendo dizer à Sylvia que a LIBRAS seria inferior ao Português. “O mundo é surdo”, diz o moço, ao ver a intolerância de seus entes queridos para com a Língua de Sinais. Sim, o mundo é surdo ao não querer compreender uma língua gestual, ou pior ainda, ao não conseguir entender a diversidade humana existente. Dessa forma, a peça se torna uma alegoria sobre todos os grupos sociais excluídos pela ignorância e pelo preconceito dos demais. Por esse motivo é que o enredo deixou de fora temas mais específicos do universo da surdez, como o Implante Coclear, e preferiu se focar na questão da LIBRAS, cuja segregação de seus usuários tende a ser mais acentuada do que a da comunidade dos surdos oralizados.

Trazendo ainda ao debate assuntos como a autoaceitação e as diversas faces que compõem a identidade surda, Tribos é um excelente convite à reflexão sobre como a sociedade vem tratando suas minorias e quantas oportunidades são perdidas ao escolher guiar-se somente pelo preconceito e decidir não ampliar seus horizontes para a diversidade e novas experiências.

Ana Raquel Périco Mangili.

* Com imagens cedidas pela Equipe Tribos.

Não percam, em breve, uma entrevista exclusiva com Bruno Fagundes, o Billy, protagonista da Peça Tribos!