Papo com Legenda. Ep. 05. Web Acessível, Entrevista com Suzeli Damaceno (Movimento Web para todos)


Transcrição:
Ana Laura Dias, Daniela Souza, Letícia Santos

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao quinto episódio do nosso podcast “papo com legenda”.

Eu sou a Lucinéa Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e encaracolados, meus olhos são castanhos também e uso óculos. Estou sentada em uma cadeira em frente à mesa de meu escritório,e estou gravando em meu notebook.

ANIELE:

E eu sou a Aniele, sou uma mulher de 27 anos de cabelos cacheados na altura do ombro, da cor castanha e olhos também castanhos. Eu meço 1,65 de altura, eu estou no meu quarto, gravando na cama em meu celular.

LUCINEA:

No episódio anterior, recebemos o Rafael Braz, que é psicólogo e consultor em audiodescrição, e que nos ajudou a colocar mais legenda no nosso papo semanal, contando um pouco sob a sua perspectiva de profissional e usuário dos recursos de acessibilidade.

ANIELE:

Isso mesmo, Lucinéa! O episódio anterior foi muito legal, porque pudemos entender mais sobre a recepção dos recursos acessíveis por parte dos usuários, inclusive, a importância de uma produção ter envolvidas pessoas que são usuárias desses recursos.

No episódio de hoje, daremos mais um passo na incrível jornada em busca da acessibilidade nas mídias. O tema desse episódio é acessibilidade na web.

LUCINEA:

Quando falamos de mídias acessíveis, falamos não apenas dos recursos para as mídias audiovisuais, que é uma especialidade do MATAV.

Por isso, para trazer mais diversidade ao nosso podcast, contaremos com a Suzeli Damaceno, jornalista, especialista e consultora em comunicação acessível e acessibilidade digital e coordenadora do Movimento Web para Todos.

A Suzeli também ajuda pessoas e empresas a eliminarem barreiras de acessibilidade em ambientes digitais e ruídos de comunicação que bloqueiam a circulação do conhecimento.

ANIELE:

A Suzeli será a nossa entrevistada no próximo bloco, mas antes disso, vamos entender um pouco mais sobre acessibilidade na web no nosso quadro Legenda aí pra mim!

ANIELE:

A acessibilidade aos conteúdos digitais é um direito de todas as pessoas com deficiência, mas na prática percebemos que a grande parte dos sites não possui acessibilidade, criando assim mais uma barreira para pessoas que não enxergam e  também para aquelas com deficiência que impedem sua navegação pela web. Atividades como comprar um ingresso online, acessar aplicativos de relacionamentos ou aplicativos de banco podem se tornar um pesadelo para quem não enxerga ou tem baixa visão.

Situações como essas já não deveriam mais acontecer devido ao W3C, que é um conjunto de diretrizes que devem ser seguidas para tornar a web acessível. Ele foi criado em 1998 e recebeu atualizações nos anos de 2008 e 2017.

No documento, há recomendações sobre o uso de contraste de cores entre o texto e o fundo de uma página web ou ainda sobre o zoom sem perda de conteúdo, utilizado por pessoas com baixa visão. Outra recomendação é a presença de descrição de imagens.

Então, para fazer valer o conjunto de recomendações do W3C, em 2017 foi criado o Movimento Web para Todos, com a proposta de mobilizar e educar pessoas para, aos poucos, transformar o ambiente virtual em um espaço acessível.

LUCINEA:

É muito importante ver o quanto o Movimento Web para Todos tem feito a diferença e colocado em prática o que muitos desenvolvedores de sites e aplicativos até pouco tempo ignoravam.

Nós do MATAV sempre buscamos contribuir com a busca pela acessibilidade em todas as mídias possíveis e por isso, reforçamos a importância da nossa parceria com o Movimento Web para Todos, que existe desde o início do projeto, lá em 2017, apoiando suas ações e compartilhando seus princípios.

ANIELE:

É isso aí, Lucinea! No próximo bloco, conheceremos um pouco mais a fundo sobre a atuação da nossa convidada no Movimento Web para Todos e sua visão sobre a acessibilidade como um todo.

LUCINEA:

Então não saia daí! Vamos para um breve intervalo e voltamos já com a Suzeli Damaceno.

Walesson:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINEA:

Estamos de volta para o nosso segundo bloco e agora conversaremos com a Suzeli.

Olá, Suzeli. Antes de mais nada, eu vou pedir que você se audiodescreva para os nossos ouvintes e, em seguida, a gente começa o nosso bate papo.

SUZELI: Oi, Lucinéa, oi, pessoal. Tudo bem? Eu sou uma mulher de pele branca, de cabelos loiros acima dos ombros e um pouco ondulado. Uso óculos de armação verde, tenho os olhos castanhos escuros e meu sinal em Libras é meu dedo indicador apontado para uma pintinha que eu tenho na bochecha e uma giradinha na mão. Tenho 46 anos. Acho que dá uma noção da idade.

LUCINÉA: Sim, da nossa geração.

SUZELI: É, eu ia falar meia idade, mas eu acho tão estranho. O que seria a meia idade? Não acho acessível.

LUCINÉA: Está ótimo, obrigada.

A gente já apresentou um pouco a história do movimento “Web para Todos” e seu protagonismo nele, inclusive nos conhecemos em 2017 no início do projeto. Mas eu queria que você falasse um pouquinho para quem está ouvindo da importância dele nesses quatro anos, tendo a missão de disseminar as regras de acessibilidade na web, e o que você tem para nos contar de mais marcante desses anos todos dentre as ações implementadas pelo movimento.

SUZELI: A “Web para Todos” realmente tem essa missão de promover a cultura de acessibilidade digital pelo país e o que a gente mais fez, e vai continuar fazendo, é popularizar esse tema, tirar da “bolha” que envolve apenas pessoas da área técnica, como programação, desenvolvimento de sites, aplicativos e plataformas, e expandir para o máximo de pessoas possível. Isso é realmente o que temos mais feito desde que começamos há quatro anos.

A ação mais marcante é que introduzimos esse assunto em grandes eventos e feiras, por exemplo, de marketing digital que, teoricamente, deveria sempre ter considerado isso na pauta, mas não tinha. A gente também conseguiu que o tema fosse considerado em grandes fóruns e eventos de Recursos Humanos. Um exemplo foi o que aconteceu essa semana, fizemos uma série de eventos e painéis e envolvemos pessoas da área jurídica das empresas, compliance, comunicação, marketing, contabilidade. Então, a gente realmente está levando esse conhecimento de uma forma muito simples para todo mundo, porque, no fim das contas, todos trabalham de alguma forma ou criam algo no digital.

Outra ação que tem marcado bastante nesse período é a grande parceria que a gente tem com o Google, por exemplo, que realmente nos ajuda a impulsionar ainda mais esse tema e fazer com que ele ganhe uma escala muito maior. O Google é um super parceiro nosso que participa e cria com a gente workshops para profissionais das mais diversas áreas, está com a gente em eventos, palestras, produzindo conteúdo e guias de acessibilidade digital.

Outro ponto muito marcante foi o trabalho que a gente realizou com o Youtube, também nessa linha de sair da bolha, no qual a plataforma convidou os vinte principais criadores de conteúdo, como “Porta dos Fundos” e “Manual do Mundo”, para fazer um workshop sobre criação de conteúdos acessíveis para o Youtube. Isso já foi um marco. É claro que esses canais ainda estão fazendo as adaptações, pois a acessibilidade é uma jornada, mas isso também mostra um interesse. Essas sementinhas que o “Web para Todos” vai plantando ao longo dos anos.

Um fato que também foi super legal é uma parceira que temos com a equipe do Facebook, que engloba também o Instagram. A gente já deu várias palestras para pequenas e grandes empresas que fazem negócios nessas redes sociais para também mostrar possibilidades de como fazer e mostrar essas plataformas de uma forma muito mais acessível e que realmente inclua muito mais gente. Então eu destacaria esses pontos.

LUCINÉA: Aproveitando que você mencionou o evento desta semana que está sendo super importante, eu mesma não estou conseguindo acompanhar, seria interessante você nos falar, adiantar um pouquinho o serviço. Onde que a gente consegue assistir a isso ou quem já assistiu durante a semana e queira rever com mais calma? Eu, por exemplo, gostaria de apresentar para o meu grupo MATAV em uma reunião. A gente encontra esse conteúdo no canal do Youtube do “Web para Todos”?

SUZELI: Isso. Foram realizadas várias palestras, painéis e algumas reuniões ao longo dessa semana. As palestras e os painéis foram transmitidos via Youtube, então a gravação continua no canal do movimento “Web para Todos”. Lá tem uma playlist chamada “Descomplicando a acessibilidade digital para marcas inclusivas”, então a gente reúne nela o conteúdo que foi passado nesse evento.

As reuniões aconteceram sem gravação, então essas realmente só quem participou em tempo real teve acesso ao conteúdo. Mas a gente também vai produzir um guia que vai compilar todas as informações e principais dicas que foram passadas tanto nas reuniões como nas palestras e painéis. Ele está começando a ser produzido agora e quem tiver interesse pode se cadastrar na página do evento www.mwpt.com.br/descomplica. É só deixar o nome e e-mail que quando estiver pronto, vamos enviar gratuitamente para quem se inscreveu.

LUCINÉA: Perfeito. Continuando nosso bate papo, você com certeza tem esta informação para compartilhar conosco e com quem vai nos ouvir a respeito de identificar as principais barreiras que os usuários com deficiência enfrentam ao acessar a web. Eu acho que você tem isso muito claro, ao contrário da gente, então é bom para termos esse conhecimento, até para passar para pessoas que produzem conteúdo e não pensam nas pessoas com deficiência.

SUZELI: Olha, são várias as barreiras, inúmeras. Eu vou citar alguns exemplos que são bem comuns e até são relativamente bem simples de serem resolvidos, pelo menos para termos uma ideia. Um deles são sites que tem problemas nos links. Sabe aqueles textos cheios de referências e que se usa links para que o usuário clique para ter mais informação em alguma página externa ou dentro do próprio site? A gente observa que tem muitos problemas ali, como o que chamamos de link quebrado, ou seja, que ao se clicar nele não direciona para página nenhuma; e de uma falta de descrição no texto onde o link está embutido ou não é suficiente para ser compreendido fora daquele contexto, por exemplo, a pessoa que está usando o leitor de telas muitas vezes vai querer navegar pelos links, então, se ele estiver só no termo “leia mais”, a pessoa vai navegar por links e só vai aparecer esse termo e ela não vai saber do que se trata. Esse é um problema tão simples que poderia ter colocado, por exemplo, “leia sobre a reportagem tal”, “aprenda mais sobre a promoção que está acontecendo”.

LUCINÉA: É uma questão simples de redação e de consciência de quem está redigindo o conteúdo, não da técnica em si de criar o link, não é?

SUZELI: Exatamente!

LUCINÉA: Não precisa nem entender de um comando. Qualquer pessoa que vai redigir aquele conteúdo, sabendo disso, pode facilitar.

SUZELI: Sim, selecionar o trecho do texto que passa a informação e colocar nele o link e não apenas em uma palavra. Pensar sempre que se a pessoa só ler a frase ou uma parte dela, vai saber para onde será levada.

Outro problema também bem comum, que envolve mais a equipe de programação, é quando o site não está preparado para a navegação por teclado. De novo, pessoas que fazem a leitura com leitor de telas e com deficiência motora, em sua maioria, usam apenas o teclado como forma de navegação: pela tecla Tab e também pelas setas, Enter, etc. Se a programação desse site, os códigos, não estão “conversando” com essa tecnologia assistiva, seja pelo teclado ou pelo leitor de telas, a pessoa simplesmente não consegue circular pela página.

Outra barreira também muito comum são formulários que não funcionam, ou porque os campos não são lidos e editáveis para quem está fazendo a navegação por leitor de telas, não está rotulando ou não tem escrito direitinho as instruções para o preenchimento em cada campo: onde colocar nome, e-mail. Também, quando a pessoa preenche errado alguma parte e aparece a mensagem que deve corrigir o que está em vermelho, pode ser um problema para quem tem algum tipo de daltonismo e tenha dificuldade de enxergar uma cor específica. Então, são detalhes importantes, especialmente formulários que apresentam problemas em uma quantidade muito alta de sites.

LUCINÉA: Então, por exemplo, se é o “forms”? A gente usa muito do pacote Office, pois é o que temos acesso pela universidade. Ele não é acessível se eu não pensar em dar comandos claros. Você tem alguma orientação sobre esse especificamente?

SUZELI: Geralmente, tanto o Google Forms quanto outros formulários da Microsoft, que é uma empresa que investe e aposta muito em acessibilidade, os próprios arquivos e programas como Word, Excel, PowerPoint, tem verificador de acessibilidade que auxilia ao fazer um documento e mostra em tempo real se está seguindo o mínimo de regras para torná-lo acessível.

A base da Microsoft e a do Google é a acessibilidade, mas se o texto, a foto ou vídeo que você editar, não for pensado de forma acessível, se a informação não propuser a acessibilidade, de nada adianta ter esse recurso. Pode até usar o formulário, mas se colocar o link para a pessoa com leitor de tela acessá-lo em um site, ela pode não conseguir identificar que é um formulário.

LUCINÉA: Complexo, mas é bom ouvirmos para entender como o outro não está tendo o mesmo acesso como todo cidadão.

SUZELI: E existem vários outros, como não ter contraste suficiente entre a letra e o fundo, entre as cores de uma imagem e sites que não permitem o aumento de tela (Control +), ficando difícil de ser lido. Isso também é um problema grave em não estar seguindo as diretrizes da acessibilidade.

Os banners pop up,com aquele X minúsculo para fechar, tratam-se de uma barreira muito complicada para quem faz a navegação com o leitor de tela, quem tem alguma deficiência cognitiva ou motora, que não tem o movimento “fino” do mouse para chegar naquele X, ou não consegue fechar naquele pop up com o comando do teclado, acaba inviabilizando toda a navegação neste site.

Outra barreira que é fácil de ser resolvida é a descrição de imagem. Fizemos uma pesquisa recentemente e, mais de 70% dos sites ativos do Brasil não descrevem imagens. E isso é muito simples de ser resolvido, pois quando se posta a imagem, já há um campo de descrição. Se não houver, então a função da equipe de programação é incluir esse recurso. Porém, sem a descrição das imagens, não é possível, por exemplo, que a pessoa com cegueira reconheça produtos em uma loja virtual para que possa escolher.

LUCINÉA: Temos uma grande ação de vendas anual, agora comum no Brasil, que é a Black Friday. Deve ser frustrante para o comprador que tenha alguma deficiência e queira comprar por meio das plataformas, pois o site não apresenta a descrição. Não é possível navegar.

SUZELI: Ou de conseguir fazer isso com muito esforço, e não conseguir finalizar a compra.

E, geralmente, esses sites colocam essas promoções nesses banners, que raramente são lidos pelo leitor de tela, ou seja, quem faz a navegação desse tipo nem vai saber que aquele produto está na promoção.

LUCINÉA: No Brasil, temos a diferença entre uma empresa privada e uma pública. A pública tem uma qualidade de atendimento, mas não de investimento na tecnologia. Então, no geral, empresas privadas e públicas possuem uma verba, anual ou trienal, para implantar a acessibilidade em seus sites? E, pensando de forma otimista, você poderia dar um exemplo de site brasileiro que seja bastante acessível?

SUZELI: Importante lembrar que, desde 2016, temos a Lei Brasileira de Inclusão. Nela, há o artigo 63 que determina que organizações com representações no Brasil são obrigadas a fornecerem sites e aplicativos com acessibilidade para a navegação de pessoas com deficiência. Ou seja, existe essa obrigação legal, mas que não é cumprida por 99% de sites ativos no nosso país.

Observamos que há muita coisa a ser melhorada, mas se dividimos por categorias, o governamental é o que está caminhando com um pouco mais de preocupação com a questão da acessibilidade. São os que possuem mais sites acessíveis.

Sabemos que o Ministério Público tem aplicado medidas educativas em algumas empresas, com o intuito de estimular. E vários editais públicos possuem essa determinação de contratarem somente com acessibilidade.

Contudo, ainda é muita coisa para resolver. Essa pesquisa que fizemos, por exemplo, conseguiu varrer quase que os 17 milhões de sites ativos no Brasil, e menos de 1% deles tem acessibilidade. Então, ainda tem muita coisa para acertar!

Sobre a questão da verba, se o site é planejado considerando a acessibilidade, ele não vai custar mais por isso. As regras de acessibilidade são: incluir a foto com a descrição; fazer a programação com códigos acessíveis; pensar numa escrita de texto acessível; produzir vídeos com legendas. Então, isso tudo não tem um custo extra. Mas, se tiver que adequar, terá um custo a mais.

Sempre fazemos uma analogia com a construção de uma casa. Se você constrói uma casa acessível, já fará sem os degraus, um banheiro e portas mais largos para que uma cadeira de rodas possas atravessar. E isso não vai ter um custo extra na obra.

LUCINÉA: No audiovisual, sempre falo para os meus alunos que se pensarmos na acessibilidade na pré-produção, não haverá problemas na pós-produção. Então, para acrescentar uma audiodescrição depois que um documentário ou um musical está pronto, sempre a qualidade vai ficar a desejar, embora seja possível.

SUZELI: Em relação ao exemplo de sites, gostaria de citar o Movimento Web para Todos. A acessibilidade digital é algo vivo e deve ser cuidado a cada postagem, e a cada nova inserção.

Eu corro o risco de citar outro site aqui que até o momento desta entrevista está acessível e, quando estiver nas plataformas para todos, alguém possa checar e encontrar problemas de acessibilidade. E isso acontece muito, especialmente, por causa das pessoas que não têm esse conhecimento e incluem a matéria, a foto, ou um conteúdo novo sem seguir as regras da acessibilidade. Portanto, esse site já não será mais acessível.

Já o site Movimento Web para Todos posso garantir, pois é um cuidado que temos todos os dias com tudo o que publicamos.

LUCINÉA: Teria que ser fluxo contínuo. Tudo o que entra, passa para uma equipe especializada, o que só 1% tem e vocês estão incluídos nele.

SUZELI: E mesmo com esse menos de 1%, fazemos uma análise automática. Verificamos o mínimo para que este site tenha acessibilidade. Se fizermos uma análise manual, ou seja, disponibilizar pessoas para verificar a qualidade do conteúdo, o tamanho da fonte, se está adequando para que a pessoa com alguma deficiência na visão tenha uma boa experiência ou se há algum vídeo no site e está com legenda, Libras, audiodescrição, neste caso, se analisarmos tudo isso, o problema será muito maior e o número de sites acessíveis seria ainda menor.

Para isso acontecer, não requer tanta especialização como as pessoas imaginam, com um Curso Superior. Pelo contrário, existem algumas regras para fazer a descrição, que quando aprendidas, já é possível realizá-la. Então, muitas coisas podem ser resolvidas com o mínimo de conhecimento em acessibilidade.

LUCINÉA: Sobre as mídias sociais, vocês têm o público que busca o Movimento Web para Todos para pedir orientação e como tornar acessível, por exemplo, o Facebook e o Twitter. Ou vocês não atuam nessa área?

SUZELI:  O “Web para Todos” prega a cultura de acessibilidade digital, então a gente está sempre disseminando esse conhecimento e ajudando a construir canais digitais acessíveis. Nós não temos o poder de mudar a programação ou de fazer alterações na plataforma de redes sociais como o Instagram e o Facebook, por exemplo, porque elas não são nossas, mas a gente tem a responsabilidade de tornar acessível o conteúdo publicado. Então, enquanto as redes sociais ainda não tinham o campo de colocar o texto alternativo, a gente colocava o texto na legenda do post mesmo, dando um jeito de fazer aquela informação ser acessível enquanto a plataforma não tinha se mexido para isso. Por exemplo, quando eu vou escolher uma imagem para publicar nas redes sociais, como uma foto ou arte, eu também tenho que ter a consciência de fazer essa arte com um bom contraste, uma combinação de cores que não passe despercebida por pessoas que tenham algum grau de daltonismo e que não tenha um tipo de fonte que seja complexa para ser percebida por pessoas com algum tipo de deficiência visual ou até mesmo com dislexia. Esses cuidados estão na responsabilidade de quem alimenta esses perfis nessas plataformas, então a gente também dá esse tipo de orientação.

É o que eu estava te falando, criar um documento no Word é o mesmo princípio: as diretrizes de acessibilidade existem há mais de 20 anos e foram criadas praticamente juntas ao surgimento da web. Elas são atemporais e vão sendo atualizadas com o tempo, como a diretriz de ter imagens com descrição, que sempre existiu, mas que passou por atualizações quando se foi criado um campo específico para que essa descrição pudesse interagir melhor com a tecnologia assistiva. Mas o princípio de sempre descrever uma imagem e dar aquela informação, não muda

LUCINÉA: Até as pessoas jovens, que usam muito o Instagram para poder divulgar conteúdo, às vezes desconhecem disso, pois é muito rápido essas mudanças nas mídias. Acho que essa inserção de legendas no Instagram foi só no começo desse ano ou no final do ano passado, possibilitando a criação de um caption diferente. Então, essas atualizações que as próprias redes fazem, como a questão da descrição de imagem, às vezes passa despercebido para uma pessoa que não tem essa sensibilidade ou que não quer alcançar esse público.

SUZELI: Com certeza. Ou a pessoa se irrita achando que é um campo a mais para ficar preenchendo à toa

LUCINÉA: Suzeli, agora vamos falar do dissabor da educação que principalmente nós, professores de universidades públicas, sofremos desde o ano passado quando essa questão da pandemia nos obrigou a fazer uma adaptação para o ensino remoto atual. Eu acho que isso tem sido uma temática que a gente até tem falado demais e tem cansado de falar sobre, mas nessa transição a qualidade de ensino não foi pensada como deveria, porque os professores de fato não têm uma abordagem do ensino virtual e nas universidades públicas ainda priorizamos o ensino presencial. E, quando passamos para o ensino a distância, pouco ou nada se pensou nas pessoas com deficiência.

Eu vou relatar uma situação que aconteceu no ano passado: uma aluna da minha universidade que tem deficiência auditiva, e que nem era aluna de algum curso para o qual eu dava aula, mas sabia que eu trabalho com essa questão da acessibilidade, me procurou junto com colegas da turma dela, porque ela não estava conseguindo ouvir as aulas no Google Meet. Ela também tinha acabado de colocar o implante coclear, o que deixava pior ainda, e os professores quiseram ajudá-la, mas de uma forma capacitista. Enfim, foi um pesadelo para a moça. Então, essas questões não foram tratadas, e a gente ficou tão traumatizado de ter que ficar no virtual que aprender a lidar com ele foi uma dificuldade, e acho que pensar na pessoa com deficiência foi anulado nesse meu contexto. E para você, que é especialista nisso, qual seria idealmente um ensino a distância com acessibilidade? Eu já deixei claro que não é a situação que nós queremos na minha universidade, mas existem projetos que nascem como ensino a distância. Então, nesse sentido, esses projetos que você conhece pensam na pessoa com deficiência? Como seria? Qual seria o jeito ideal?

SUZELI: A pandemia realmente bagunçou muita coisa e é compreensível tudo isso que foi passado. Foi muita novidade para todo mundo; era muita tensão com tudo que estava rolando no sistema de saúde como um todo, então é compreensível esse desespero de ir tentando dar um passo e se ajeitar aos poucos, aos trancos e barrancos, para chegar nesse formato minimamente ideal, ainda longe de ser realmente o benefício do presencial. Mas, ao mesmo tempo, se os docentes como um todo já tivessem essa “formação” ou uma consciência sobre acessibilidade, independente de ter ou não na sua turma algum estudante com deficiência, quando a equipe de docentes começou a levar esse conteúdo para o digital, tudo teria sido muito menos traumático e mais inclusivo. Por exemplo, se vocês tivessem que preparar uma apresentação no PowerPoint para apresentar no presencial e já tivessem na cabeça esse conceito da acessibilidade nitidamente, vocês já iam fazer esse PowerPoint com várias regrinhas de acessibilidade, como tamanho da fonte, contraste, quantidade de informação por slide, sem coisas piscantes, etc. E se você quiser passar um vídeo para todo mundo assistir na sala de aula, o pensamento com acessibilidade já vai te incluir a necessidade de colocar pelo menos a legenda.

LUCINÉA: Exatamente, a legenda, ninguém pensa nisso.

SUZELI: Então, se esse pensamento já estivesse arraigado na cabeça de todo mundo, na hora de transferir isso para o digital vocês já não sofreriam com isso. Vai ser o mesmo PowerPoint e vídeo, mas agora para o digital. Ele vai ter a legenda também, e na hora de transmitir, se não tiver a audiodescrição embutida nele, o professor já vai fazer uma audiodescrição antes de passar aquele vídeo. Então, essa parte seria menos sofrida. Se o professor também quiser fazer um documento complementar para passar para os estudantes em um PDF, por exemplo, ele pode fazer a verificação de acessibilidade que o próprio Office oferece para os assinantes. Ele vai então seguir e fazer esse documento sem aumentar o seu trabalho nessa produção, transformando o arquivo em PDF tendo a certeza de que ele também vai ser acessível para alunos que precisam acessar o documento por leitor de tela ou por algum outro canal.

As plataformas foram melhorando ao longo da pandemia, como o Teams e o Google Meet. Durante a pandemia, o Google Meet correu com essa história de incluir a legenda automática, já com uma qualidade excelente. O Teams ainda não tem esse recurso, mas o PowerPoint sim. No modo de apresentação existe a possibilidade de ativar legenda automática, que é excelente também. De novo, com o pensamento da acessibilidade a equipe de docentes vai ter essa consciência de que na hora de fazer aquela apresentação, e para que a legenda seja transmitida em tempo real, quanto mais pausadamente e claro for o jeito que eles falam, usando palavras mais conhecidas e preferencialmente frases mais curtas, a qualidade da legenda também melhora.

Suzeli, nosso tempo está acabando, mas muito obrigada por esse encontro. Mais uma colaboração sua com o MATAV e, agora, com o Papo com Legenda. Eu vou deixar o microfone para você dar algum recado final, conselho ou dica.

SUZELI: Eu que agradeço, em nome da equipe toda do Movimento Web para Todos. A nossa missão é de promover essa cultura de acessibilidade digital. Então, o recado que eu deixo é que vocês busquem mais informações sobre isso. No próprio site do movimento a gente mostra esse conceito de uma forma muito simples. Então, continuem se alimentando dessas informações com frequência. Assim, vão criar dentro do coração de vocês essa cultura da acessibilidade, porque a hora que a gente tem isso introjetado e esse pensamento vem de uma forma natural, a gente não vai mais conseguir fazer esses documentos, essas aulas e posts sem acessibilidade, vai ser algo muito natural. O recado que eu deixaria é esse, para continuar investindo nesse conhecimento, que não só você vai ganhar, mas todo mundo que te acompanha. E, a sociedade vai acabar melhorando como um todo, porque é um passo muito importante para a verdadeira inclusão. Agradeço demais pela oportunidade de vir aqui para falar um pouquinho disso com vocês.

LUCINÉA: Obrigada, Suzeli.

ANIELE:

Bom, estamos chegando ao fim do episódio de hoje e encaminhando para a reta final da primeira temporada do papo com legenda.

Se você ainda não ouviu os episódios anteriores ou se quer retomar os temas abordados nessa temporada, pode conferir acessando o link da bio no nosso Instagram: @papocomlegenda ou digitar “papo com legenda” na sua plataforma de podcasts preferida.

LUCINEA:

É isso aí, Aniele! Esse foi o nosso quinto e penúltimo episódio. E para encerrar a nossa primeira temporada com chave de ouro, vem aí o episódio especial do papo com legenda.

Para saber qual o tema do episódio especial não perca as postagens da nossa página no Instagram!

Acompanhe por lá também tudo o que a Suzeli nos contou hoje e fiquem de olho nas próximas novidades.

ANIELE:

Não deixe de conhecer a página do Instagram do movimento em @movimentowebparatodos e siga a nossa convidada em @suzeli, para ficar por dentro das novidades da acessibilidade nos meios digitais.

E falando no encerramento da primeira temporada, já estou muito ansiosa pra saber o tema da nosso próximo encontro.

LUCINEA:

Obrigada a você que nos acompanhou até aqui e até o próximo episódio! Tchau, tchau!

ANIELE:

Até lá!

WALESSON:

O “papo com legenda” é um podcast original do MATAV, o grupo de Pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual. Para ficar por dentro dos nossos lançamentos e demais novidades, acompanhem o nosso Instagram @papocomlegenda

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