Papo com Legenda. Ep. 05. Web Acessível, Entrevista com Suzeli Damaceno (Movimento Web para todos)


Transcrição:
Ana Laura Dias, Daniela Souza, Letícia Santos

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao quinto episódio do nosso podcast “papo com legenda”.

Eu sou a Lucinéa Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e encaracolados, meus olhos são castanhos também e uso óculos. Estou sentada em uma cadeira em frente à mesa de meu escritório,e estou gravando em meu notebook.

ANIELE:

E eu sou a Aniele, sou uma mulher de 27 anos de cabelos cacheados na altura do ombro, da cor castanha e olhos também castanhos. Eu meço 1,65 de altura, eu estou no meu quarto, gravando na cama em meu celular.

LUCINEA:

No episódio anterior, recebemos o Rafael Braz, que é psicólogo e consultor em audiodescrição, e que nos ajudou a colocar mais legenda no nosso papo semanal, contando um pouco sob a sua perspectiva de profissional e usuário dos recursos de acessibilidade.

ANIELE:

Isso mesmo, Lucinéa! O episódio anterior foi muito legal, porque pudemos entender mais sobre a recepção dos recursos acessíveis por parte dos usuários, inclusive, a importância de uma produção ter envolvidas pessoas que são usuárias desses recursos.

No episódio de hoje, daremos mais um passo na incrível jornada em busca da acessibilidade nas mídias. O tema desse episódio é acessibilidade na web.

LUCINEA:

Quando falamos de mídias acessíveis, falamos não apenas dos recursos para as mídias audiovisuais, que é uma especialidade do MATAV.

Por isso, para trazer mais diversidade ao nosso podcast, contaremos com a Suzeli Damaceno, jornalista, especialista e consultora em comunicação acessível e acessibilidade digital e coordenadora do Movimento Web para Todos.

A Suzeli também ajuda pessoas e empresas a eliminarem barreiras de acessibilidade em ambientes digitais e ruídos de comunicação que bloqueiam a circulação do conhecimento.

ANIELE:

A Suzeli será a nossa entrevistada no próximo bloco, mas antes disso, vamos entender um pouco mais sobre acessibilidade na web no nosso quadro Legenda aí pra mim!

ANIELE:

A acessibilidade aos conteúdos digitais é um direito de todas as pessoas com deficiência, mas na prática percebemos que a grande parte dos sites não possui acessibilidade, criando assim mais uma barreira para pessoas que não enxergam e  também para aquelas com deficiência que impedem sua navegação pela web. Atividades como comprar um ingresso online, acessar aplicativos de relacionamentos ou aplicativos de banco podem se tornar um pesadelo para quem não enxerga ou tem baixa visão.

Situações como essas já não deveriam mais acontecer devido ao W3C, que é um conjunto de diretrizes que devem ser seguidas para tornar a web acessível. Ele foi criado em 1998 e recebeu atualizações nos anos de 2008 e 2017.

No documento, há recomendações sobre o uso de contraste de cores entre o texto e o fundo de uma página web ou ainda sobre o zoom sem perda de conteúdo, utilizado por pessoas com baixa visão. Outra recomendação é a presença de descrição de imagens.

Então, para fazer valer o conjunto de recomendações do W3C, em 2017 foi criado o Movimento Web para Todos, com a proposta de mobilizar e educar pessoas para, aos poucos, transformar o ambiente virtual em um espaço acessível.

LUCINEA:

É muito importante ver o quanto o Movimento Web para Todos tem feito a diferença e colocado em prática o que muitos desenvolvedores de sites e aplicativos até pouco tempo ignoravam.

Nós do MATAV sempre buscamos contribuir com a busca pela acessibilidade em todas as mídias possíveis e por isso, reforçamos a importância da nossa parceria com o Movimento Web para Todos, que existe desde o início do projeto, lá em 2017, apoiando suas ações e compartilhando seus princípios.

ANIELE:

É isso aí, Lucinea! No próximo bloco, conheceremos um pouco mais a fundo sobre a atuação da nossa convidada no Movimento Web para Todos e sua visão sobre a acessibilidade como um todo.

LUCINEA:

Então não saia daí! Vamos para um breve intervalo e voltamos já com a Suzeli Damaceno.

Walesson:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINEA:

Estamos de volta para o nosso segundo bloco e agora conversaremos com a Suzeli.

Olá, Suzeli. Antes de mais nada, eu vou pedir que você se audiodescreva para os nossos ouvintes e, em seguida, a gente começa o nosso bate papo.

SUZELI: Oi, Lucinéa, oi, pessoal. Tudo bem? Eu sou uma mulher de pele branca, de cabelos loiros acima dos ombros e um pouco ondulado. Uso óculos de armação verde, tenho os olhos castanhos escuros e meu sinal em Libras é meu dedo indicador apontado para uma pintinha que eu tenho na bochecha e uma giradinha na mão. Tenho 46 anos. Acho que dá uma noção da idade.

LUCINÉA: Sim, da nossa geração.

SUZELI: É, eu ia falar meia idade, mas eu acho tão estranho. O que seria a meia idade? Não acho acessível.

LUCINÉA: Está ótimo, obrigada.

A gente já apresentou um pouco a história do movimento “Web para Todos” e seu protagonismo nele, inclusive nos conhecemos em 2017 no início do projeto. Mas eu queria que você falasse um pouquinho para quem está ouvindo da importância dele nesses quatro anos, tendo a missão de disseminar as regras de acessibilidade na web, e o que você tem para nos contar de mais marcante desses anos todos dentre as ações implementadas pelo movimento.

SUZELI: A “Web para Todos” realmente tem essa missão de promover a cultura de acessibilidade digital pelo país e o que a gente mais fez, e vai continuar fazendo, é popularizar esse tema, tirar da “bolha” que envolve apenas pessoas da área técnica, como programação, desenvolvimento de sites, aplicativos e plataformas, e expandir para o máximo de pessoas possível. Isso é realmente o que temos mais feito desde que começamos há quatro anos.

A ação mais marcante é que introduzimos esse assunto em grandes eventos e feiras, por exemplo, de marketing digital que, teoricamente, deveria sempre ter considerado isso na pauta, mas não tinha. A gente também conseguiu que o tema fosse considerado em grandes fóruns e eventos de Recursos Humanos. Um exemplo foi o que aconteceu essa semana, fizemos uma série de eventos e painéis e envolvemos pessoas da área jurídica das empresas, compliance, comunicação, marketing, contabilidade. Então, a gente realmente está levando esse conhecimento de uma forma muito simples para todo mundo, porque, no fim das contas, todos trabalham de alguma forma ou criam algo no digital.

Outra ação que tem marcado bastante nesse período é a grande parceria que a gente tem com o Google, por exemplo, que realmente nos ajuda a impulsionar ainda mais esse tema e fazer com que ele ganhe uma escala muito maior. O Google é um super parceiro nosso que participa e cria com a gente workshops para profissionais das mais diversas áreas, está com a gente em eventos, palestras, produzindo conteúdo e guias de acessibilidade digital.

Outro ponto muito marcante foi o trabalho que a gente realizou com o Youtube, também nessa linha de sair da bolha, no qual a plataforma convidou os vinte principais criadores de conteúdo, como “Porta dos Fundos” e “Manual do Mundo”, para fazer um workshop sobre criação de conteúdos acessíveis para o Youtube. Isso já foi um marco. É claro que esses canais ainda estão fazendo as adaptações, pois a acessibilidade é uma jornada, mas isso também mostra um interesse. Essas sementinhas que o “Web para Todos” vai plantando ao longo dos anos.

Um fato que também foi super legal é uma parceira que temos com a equipe do Facebook, que engloba também o Instagram. A gente já deu várias palestras para pequenas e grandes empresas que fazem negócios nessas redes sociais para também mostrar possibilidades de como fazer e mostrar essas plataformas de uma forma muito mais acessível e que realmente inclua muito mais gente. Então eu destacaria esses pontos.

LUCINÉA: Aproveitando que você mencionou o evento desta semana que está sendo super importante, eu mesma não estou conseguindo acompanhar, seria interessante você nos falar, adiantar um pouquinho o serviço. Onde que a gente consegue assistir a isso ou quem já assistiu durante a semana e queira rever com mais calma? Eu, por exemplo, gostaria de apresentar para o meu grupo MATAV em uma reunião. A gente encontra esse conteúdo no canal do Youtube do “Web para Todos”?

SUZELI: Isso. Foram realizadas várias palestras, painéis e algumas reuniões ao longo dessa semana. As palestras e os painéis foram transmitidos via Youtube, então a gravação continua no canal do movimento “Web para Todos”. Lá tem uma playlist chamada “Descomplicando a acessibilidade digital para marcas inclusivas”, então a gente reúne nela o conteúdo que foi passado nesse evento.

As reuniões aconteceram sem gravação, então essas realmente só quem participou em tempo real teve acesso ao conteúdo. Mas a gente também vai produzir um guia que vai compilar todas as informações e principais dicas que foram passadas tanto nas reuniões como nas palestras e painéis. Ele está começando a ser produzido agora e quem tiver interesse pode se cadastrar na página do evento www.mwpt.com.br/descomplica. É só deixar o nome e e-mail que quando estiver pronto, vamos enviar gratuitamente para quem se inscreveu.

LUCINÉA: Perfeito. Continuando nosso bate papo, você com certeza tem esta informação para compartilhar conosco e com quem vai nos ouvir a respeito de identificar as principais barreiras que os usuários com deficiência enfrentam ao acessar a web. Eu acho que você tem isso muito claro, ao contrário da gente, então é bom para termos esse conhecimento, até para passar para pessoas que produzem conteúdo e não pensam nas pessoas com deficiência.

SUZELI: Olha, são várias as barreiras, inúmeras. Eu vou citar alguns exemplos que são bem comuns e até são relativamente bem simples de serem resolvidos, pelo menos para termos uma ideia. Um deles são sites que tem problemas nos links. Sabe aqueles textos cheios de referências e que se usa links para que o usuário clique para ter mais informação em alguma página externa ou dentro do próprio site? A gente observa que tem muitos problemas ali, como o que chamamos de link quebrado, ou seja, que ao se clicar nele não direciona para página nenhuma; e de uma falta de descrição no texto onde o link está embutido ou não é suficiente para ser compreendido fora daquele contexto, por exemplo, a pessoa que está usando o leitor de telas muitas vezes vai querer navegar pelos links, então, se ele estiver só no termo “leia mais”, a pessoa vai navegar por links e só vai aparecer esse termo e ela não vai saber do que se trata. Esse é um problema tão simples que poderia ter colocado, por exemplo, “leia sobre a reportagem tal”, “aprenda mais sobre a promoção que está acontecendo”.

LUCINÉA: É uma questão simples de redação e de consciência de quem está redigindo o conteúdo, não da técnica em si de criar o link, não é?

SUZELI: Exatamente!

LUCINÉA: Não precisa nem entender de um comando. Qualquer pessoa que vai redigir aquele conteúdo, sabendo disso, pode facilitar.

SUZELI: Sim, selecionar o trecho do texto que passa a informação e colocar nele o link e não apenas em uma palavra. Pensar sempre que se a pessoa só ler a frase ou uma parte dela, vai saber para onde será levada.

Outro problema também bem comum, que envolve mais a equipe de programação, é quando o site não está preparado para a navegação por teclado. De novo, pessoas que fazem a leitura com leitor de telas e com deficiência motora, em sua maioria, usam apenas o teclado como forma de navegação: pela tecla Tab e também pelas setas, Enter, etc. Se a programação desse site, os códigos, não estão “conversando” com essa tecnologia assistiva, seja pelo teclado ou pelo leitor de telas, a pessoa simplesmente não consegue circular pela página.

Outra barreira também muito comum são formulários que não funcionam, ou porque os campos não são lidos e editáveis para quem está fazendo a navegação por leitor de telas, não está rotulando ou não tem escrito direitinho as instruções para o preenchimento em cada campo: onde colocar nome, e-mail. Também, quando a pessoa preenche errado alguma parte e aparece a mensagem que deve corrigir o que está em vermelho, pode ser um problema para quem tem algum tipo de daltonismo e tenha dificuldade de enxergar uma cor específica. Então, são detalhes importantes, especialmente formulários que apresentam problemas em uma quantidade muito alta de sites.

LUCINÉA: Então, por exemplo, se é o “forms”? A gente usa muito do pacote Office, pois é o que temos acesso pela universidade. Ele não é acessível se eu não pensar em dar comandos claros. Você tem alguma orientação sobre esse especificamente?

SUZELI: Geralmente, tanto o Google Forms quanto outros formulários da Microsoft, que é uma empresa que investe e aposta muito em acessibilidade, os próprios arquivos e programas como Word, Excel, PowerPoint, tem verificador de acessibilidade que auxilia ao fazer um documento e mostra em tempo real se está seguindo o mínimo de regras para torná-lo acessível.

A base da Microsoft e a do Google é a acessibilidade, mas se o texto, a foto ou vídeo que você editar, não for pensado de forma acessível, se a informação não propuser a acessibilidade, de nada adianta ter esse recurso. Pode até usar o formulário, mas se colocar o link para a pessoa com leitor de tela acessá-lo em um site, ela pode não conseguir identificar que é um formulário.

LUCINÉA: Complexo, mas é bom ouvirmos para entender como o outro não está tendo o mesmo acesso como todo cidadão.

SUZELI: E existem vários outros, como não ter contraste suficiente entre a letra e o fundo, entre as cores de uma imagem e sites que não permitem o aumento de tela (Control +), ficando difícil de ser lido. Isso também é um problema grave em não estar seguindo as diretrizes da acessibilidade.

Os banners pop up,com aquele X minúsculo para fechar, tratam-se de uma barreira muito complicada para quem faz a navegação com o leitor de tela, quem tem alguma deficiência cognitiva ou motora, que não tem o movimento “fino” do mouse para chegar naquele X, ou não consegue fechar naquele pop up com o comando do teclado, acaba inviabilizando toda a navegação neste site.

Outra barreira que é fácil de ser resolvida é a descrição de imagem. Fizemos uma pesquisa recentemente e, mais de 70% dos sites ativos do Brasil não descrevem imagens. E isso é muito simples de ser resolvido, pois quando se posta a imagem, já há um campo de descrição. Se não houver, então a função da equipe de programação é incluir esse recurso. Porém, sem a descrição das imagens, não é possível, por exemplo, que a pessoa com cegueira reconheça produtos em uma loja virtual para que possa escolher.

LUCINÉA: Temos uma grande ação de vendas anual, agora comum no Brasil, que é a Black Friday. Deve ser frustrante para o comprador que tenha alguma deficiência e queira comprar por meio das plataformas, pois o site não apresenta a descrição. Não é possível navegar.

SUZELI: Ou de conseguir fazer isso com muito esforço, e não conseguir finalizar a compra.

E, geralmente, esses sites colocam essas promoções nesses banners, que raramente são lidos pelo leitor de tela, ou seja, quem faz a navegação desse tipo nem vai saber que aquele produto está na promoção.

LUCINÉA: No Brasil, temos a diferença entre uma empresa privada e uma pública. A pública tem uma qualidade de atendimento, mas não de investimento na tecnologia. Então, no geral, empresas privadas e públicas possuem uma verba, anual ou trienal, para implantar a acessibilidade em seus sites? E, pensando de forma otimista, você poderia dar um exemplo de site brasileiro que seja bastante acessível?

SUZELI: Importante lembrar que, desde 2016, temos a Lei Brasileira de Inclusão. Nela, há o artigo 63 que determina que organizações com representações no Brasil são obrigadas a fornecerem sites e aplicativos com acessibilidade para a navegação de pessoas com deficiência. Ou seja, existe essa obrigação legal, mas que não é cumprida por 99% de sites ativos no nosso país.

Observamos que há muita coisa a ser melhorada, mas se dividimos por categorias, o governamental é o que está caminhando com um pouco mais de preocupação com a questão da acessibilidade. São os que possuem mais sites acessíveis.

Sabemos que o Ministério Público tem aplicado medidas educativas em algumas empresas, com o intuito de estimular. E vários editais públicos possuem essa determinação de contratarem somente com acessibilidade.

Contudo, ainda é muita coisa para resolver. Essa pesquisa que fizemos, por exemplo, conseguiu varrer quase que os 17 milhões de sites ativos no Brasil, e menos de 1% deles tem acessibilidade. Então, ainda tem muita coisa para acertar!

Sobre a questão da verba, se o site é planejado considerando a acessibilidade, ele não vai custar mais por isso. As regras de acessibilidade são: incluir a foto com a descrição; fazer a programação com códigos acessíveis; pensar numa escrita de texto acessível; produzir vídeos com legendas. Então, isso tudo não tem um custo extra. Mas, se tiver que adequar, terá um custo a mais.

Sempre fazemos uma analogia com a construção de uma casa. Se você constrói uma casa acessível, já fará sem os degraus, um banheiro e portas mais largos para que uma cadeira de rodas possas atravessar. E isso não vai ter um custo extra na obra.

LUCINÉA: No audiovisual, sempre falo para os meus alunos que se pensarmos na acessibilidade na pré-produção, não haverá problemas na pós-produção. Então, para acrescentar uma audiodescrição depois que um documentário ou um musical está pronto, sempre a qualidade vai ficar a desejar, embora seja possível.

SUZELI: Em relação ao exemplo de sites, gostaria de citar o Movimento Web para Todos. A acessibilidade digital é algo vivo e deve ser cuidado a cada postagem, e a cada nova inserção.

Eu corro o risco de citar outro site aqui que até o momento desta entrevista está acessível e, quando estiver nas plataformas para todos, alguém possa checar e encontrar problemas de acessibilidade. E isso acontece muito, especialmente, por causa das pessoas que não têm esse conhecimento e incluem a matéria, a foto, ou um conteúdo novo sem seguir as regras da acessibilidade. Portanto, esse site já não será mais acessível.

Já o site Movimento Web para Todos posso garantir, pois é um cuidado que temos todos os dias com tudo o que publicamos.

LUCINÉA: Teria que ser fluxo contínuo. Tudo o que entra, passa para uma equipe especializada, o que só 1% tem e vocês estão incluídos nele.

SUZELI: E mesmo com esse menos de 1%, fazemos uma análise automática. Verificamos o mínimo para que este site tenha acessibilidade. Se fizermos uma análise manual, ou seja, disponibilizar pessoas para verificar a qualidade do conteúdo, o tamanho da fonte, se está adequando para que a pessoa com alguma deficiência na visão tenha uma boa experiência ou se há algum vídeo no site e está com legenda, Libras, audiodescrição, neste caso, se analisarmos tudo isso, o problema será muito maior e o número de sites acessíveis seria ainda menor.

Para isso acontecer, não requer tanta especialização como as pessoas imaginam, com um Curso Superior. Pelo contrário, existem algumas regras para fazer a descrição, que quando aprendidas, já é possível realizá-la. Então, muitas coisas podem ser resolvidas com o mínimo de conhecimento em acessibilidade.

LUCINÉA: Sobre as mídias sociais, vocês têm o público que busca o Movimento Web para Todos para pedir orientação e como tornar acessível, por exemplo, o Facebook e o Twitter. Ou vocês não atuam nessa área?

SUZELI:  O “Web para Todos” prega a cultura de acessibilidade digital, então a gente está sempre disseminando esse conhecimento e ajudando a construir canais digitais acessíveis. Nós não temos o poder de mudar a programação ou de fazer alterações na plataforma de redes sociais como o Instagram e o Facebook, por exemplo, porque elas não são nossas, mas a gente tem a responsabilidade de tornar acessível o conteúdo publicado. Então, enquanto as redes sociais ainda não tinham o campo de colocar o texto alternativo, a gente colocava o texto na legenda do post mesmo, dando um jeito de fazer aquela informação ser acessível enquanto a plataforma não tinha se mexido para isso. Por exemplo, quando eu vou escolher uma imagem para publicar nas redes sociais, como uma foto ou arte, eu também tenho que ter a consciência de fazer essa arte com um bom contraste, uma combinação de cores que não passe despercebida por pessoas que tenham algum grau de daltonismo e que não tenha um tipo de fonte que seja complexa para ser percebida por pessoas com algum tipo de deficiência visual ou até mesmo com dislexia. Esses cuidados estão na responsabilidade de quem alimenta esses perfis nessas plataformas, então a gente também dá esse tipo de orientação.

É o que eu estava te falando, criar um documento no Word é o mesmo princípio: as diretrizes de acessibilidade existem há mais de 20 anos e foram criadas praticamente juntas ao surgimento da web. Elas são atemporais e vão sendo atualizadas com o tempo, como a diretriz de ter imagens com descrição, que sempre existiu, mas que passou por atualizações quando se foi criado um campo específico para que essa descrição pudesse interagir melhor com a tecnologia assistiva. Mas o princípio de sempre descrever uma imagem e dar aquela informação, não muda

LUCINÉA: Até as pessoas jovens, que usam muito o Instagram para poder divulgar conteúdo, às vezes desconhecem disso, pois é muito rápido essas mudanças nas mídias. Acho que essa inserção de legendas no Instagram foi só no começo desse ano ou no final do ano passado, possibilitando a criação de um caption diferente. Então, essas atualizações que as próprias redes fazem, como a questão da descrição de imagem, às vezes passa despercebido para uma pessoa que não tem essa sensibilidade ou que não quer alcançar esse público.

SUZELI: Com certeza. Ou a pessoa se irrita achando que é um campo a mais para ficar preenchendo à toa

LUCINÉA: Suzeli, agora vamos falar do dissabor da educação que principalmente nós, professores de universidades públicas, sofremos desde o ano passado quando essa questão da pandemia nos obrigou a fazer uma adaptação para o ensino remoto atual. Eu acho que isso tem sido uma temática que a gente até tem falado demais e tem cansado de falar sobre, mas nessa transição a qualidade de ensino não foi pensada como deveria, porque os professores de fato não têm uma abordagem do ensino virtual e nas universidades públicas ainda priorizamos o ensino presencial. E, quando passamos para o ensino a distância, pouco ou nada se pensou nas pessoas com deficiência.

Eu vou relatar uma situação que aconteceu no ano passado: uma aluna da minha universidade que tem deficiência auditiva, e que nem era aluna de algum curso para o qual eu dava aula, mas sabia que eu trabalho com essa questão da acessibilidade, me procurou junto com colegas da turma dela, porque ela não estava conseguindo ouvir as aulas no Google Meet. Ela também tinha acabado de colocar o implante coclear, o que deixava pior ainda, e os professores quiseram ajudá-la, mas de uma forma capacitista. Enfim, foi um pesadelo para a moça. Então, essas questões não foram tratadas, e a gente ficou tão traumatizado de ter que ficar no virtual que aprender a lidar com ele foi uma dificuldade, e acho que pensar na pessoa com deficiência foi anulado nesse meu contexto. E para você, que é especialista nisso, qual seria idealmente um ensino a distância com acessibilidade? Eu já deixei claro que não é a situação que nós queremos na minha universidade, mas existem projetos que nascem como ensino a distância. Então, nesse sentido, esses projetos que você conhece pensam na pessoa com deficiência? Como seria? Qual seria o jeito ideal?

SUZELI: A pandemia realmente bagunçou muita coisa e é compreensível tudo isso que foi passado. Foi muita novidade para todo mundo; era muita tensão com tudo que estava rolando no sistema de saúde como um todo, então é compreensível esse desespero de ir tentando dar um passo e se ajeitar aos poucos, aos trancos e barrancos, para chegar nesse formato minimamente ideal, ainda longe de ser realmente o benefício do presencial. Mas, ao mesmo tempo, se os docentes como um todo já tivessem essa “formação” ou uma consciência sobre acessibilidade, independente de ter ou não na sua turma algum estudante com deficiência, quando a equipe de docentes começou a levar esse conteúdo para o digital, tudo teria sido muito menos traumático e mais inclusivo. Por exemplo, se vocês tivessem que preparar uma apresentação no PowerPoint para apresentar no presencial e já tivessem na cabeça esse conceito da acessibilidade nitidamente, vocês já iam fazer esse PowerPoint com várias regrinhas de acessibilidade, como tamanho da fonte, contraste, quantidade de informação por slide, sem coisas piscantes, etc. E se você quiser passar um vídeo para todo mundo assistir na sala de aula, o pensamento com acessibilidade já vai te incluir a necessidade de colocar pelo menos a legenda.

LUCINÉA: Exatamente, a legenda, ninguém pensa nisso.

SUZELI: Então, se esse pensamento já estivesse arraigado na cabeça de todo mundo, na hora de transferir isso para o digital vocês já não sofreriam com isso. Vai ser o mesmo PowerPoint e vídeo, mas agora para o digital. Ele vai ter a legenda também, e na hora de transmitir, se não tiver a audiodescrição embutida nele, o professor já vai fazer uma audiodescrição antes de passar aquele vídeo. Então, essa parte seria menos sofrida. Se o professor também quiser fazer um documento complementar para passar para os estudantes em um PDF, por exemplo, ele pode fazer a verificação de acessibilidade que o próprio Office oferece para os assinantes. Ele vai então seguir e fazer esse documento sem aumentar o seu trabalho nessa produção, transformando o arquivo em PDF tendo a certeza de que ele também vai ser acessível para alunos que precisam acessar o documento por leitor de tela ou por algum outro canal.

As plataformas foram melhorando ao longo da pandemia, como o Teams e o Google Meet. Durante a pandemia, o Google Meet correu com essa história de incluir a legenda automática, já com uma qualidade excelente. O Teams ainda não tem esse recurso, mas o PowerPoint sim. No modo de apresentação existe a possibilidade de ativar legenda automática, que é excelente também. De novo, com o pensamento da acessibilidade a equipe de docentes vai ter essa consciência de que na hora de fazer aquela apresentação, e para que a legenda seja transmitida em tempo real, quanto mais pausadamente e claro for o jeito que eles falam, usando palavras mais conhecidas e preferencialmente frases mais curtas, a qualidade da legenda também melhora.

Suzeli, nosso tempo está acabando, mas muito obrigada por esse encontro. Mais uma colaboração sua com o MATAV e, agora, com o Papo com Legenda. Eu vou deixar o microfone para você dar algum recado final, conselho ou dica.

SUZELI: Eu que agradeço, em nome da equipe toda do Movimento Web para Todos. A nossa missão é de promover essa cultura de acessibilidade digital. Então, o recado que eu deixo é que vocês busquem mais informações sobre isso. No próprio site do movimento a gente mostra esse conceito de uma forma muito simples. Então, continuem se alimentando dessas informações com frequência. Assim, vão criar dentro do coração de vocês essa cultura da acessibilidade, porque a hora que a gente tem isso introjetado e esse pensamento vem de uma forma natural, a gente não vai mais conseguir fazer esses documentos, essas aulas e posts sem acessibilidade, vai ser algo muito natural. O recado que eu deixaria é esse, para continuar investindo nesse conhecimento, que não só você vai ganhar, mas todo mundo que te acompanha. E, a sociedade vai acabar melhorando como um todo, porque é um passo muito importante para a verdadeira inclusão. Agradeço demais pela oportunidade de vir aqui para falar um pouquinho disso com vocês.

LUCINÉA: Obrigada, Suzeli.

ANIELE:

Bom, estamos chegando ao fim do episódio de hoje e encaminhando para a reta final da primeira temporada do papo com legenda.

Se você ainda não ouviu os episódios anteriores ou se quer retomar os temas abordados nessa temporada, pode conferir acessando o link da bio no nosso Instagram: @papocomlegenda ou digitar “papo com legenda” na sua plataforma de podcasts preferida.

LUCINEA:

É isso aí, Aniele! Esse foi o nosso quinto e penúltimo episódio. E para encerrar a nossa primeira temporada com chave de ouro, vem aí o episódio especial do papo com legenda.

Para saber qual o tema do episódio especial não perca as postagens da nossa página no Instagram!

Acompanhe por lá também tudo o que a Suzeli nos contou hoje e fiquem de olho nas próximas novidades.

ANIELE:

Não deixe de conhecer a página do Instagram do movimento em @movimentowebparatodos e siga a nossa convidada em @suzeli, para ficar por dentro das novidades da acessibilidade nos meios digitais.

E falando no encerramento da primeira temporada, já estou muito ansiosa pra saber o tema da nosso próximo encontro.

LUCINEA:

Obrigada a você que nos acompanhou até aqui e até o próximo episódio! Tchau, tchau!

ANIELE:

Até lá!

WALESSON:

O “papo com legenda” é um podcast original do MATAV, o grupo de Pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual. Para ficar por dentro dos nossos lançamentos e demais novidades, acompanhem o nosso Instagram @papocomlegenda

Papo com Legenda Episódio 04 – Consultoria em Audiodescrição

Transcrição: Ana Laura Dias, Daniela Souza, Letícia Santos, Luiza Hidalgo

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao quarto episódio do nosso podcast “Papo com Legenda”. Eu sou Lucinea Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Estou sentada em frente à mesa de meu escritório, gravando em meu notebook.  

ANIELE:

E eu sou a Aniele, sou uma mulher de 27 anos de 1,65 de altura cabelos cacheados acima dos ombros na cor castanha e olhos também da cor castanha e estou no meu quarto na frente do notebook.

LUCINEA:

No episódio anterior, tivemos um papo super interessante com as nossas convidadas Mônica Moura docente do curso de Design da UNESP de Bauru e Sara Cristina, uma voluntária do projeto “Lembrei de Você” que tem 9 anos de idade e vai ganhar o seu coração.


ANIELE:

Muito bem lembrado, Lucinéa! O episódio 3 foi muito legal e não só a Mônica, mas também a Sara são super carismáticas e nos rendeu um papo muito construtivo e interessante. A Sara realmente ganhou meu coração!

No episódio de hoje, vamos falar sobre a acessibilidade pela perspectiva do usuário.

LUCINEA:

Esse tema é muito importante porque a acessibilidade não deve ser vista como algo “opcional”. Para existir uma autonomia efetiva do usuário, os recursos acessíveis têm que ser encarados como essenciais.

Por isso, o nosso convidado de hoje é o Rafael Braz, uma pessoa com deficiência visual, que faz uso dos recursos de acessibilidade e também presta consultoria para audiodescritores.

ANIELE:

O Rafael será o nosso entrevistado do segundo bloco, mas antes disso vamos a alguns dados que você precisa saber. Legenda aí pra mim!

ANIELE:

Segundo o CENSO de 2010, no Brasil há cerca de 6,5 milhões de pessoas cegas ou com baixa visão e 506 mil pessoas têm cegueira total. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a cegueira afeta 39 milhões de pessoas em todo o mundo e que 246 milhões sofram de perda moderada ou severa da visão. Só na China, 72 milhões de pessoas possuem alguma deficiência visual grave. Outro dado importante: segundo o Instituto Britânico Royal Institute for Blind, todos os dias 250 pessoas começam a perder a visão.

A autonomia para as pessoas com deficiência visual é imprescindível para que possam conviver com igualdade de direitos em nossa sociedade. Alguns recursos comunicacionais e tecnológicos que fazem parte do nosso dia a dia promovem autonomia às pessoas com deficiência visual como: smartphones, tablets e computadores. Todos os sistemas operacionais possuem ferramentas de acessibilidade. Algumas dessas ferramentas são: voice over, modo fala do conteúdo da tela, modo escuro e adaptações na tela, zoom, ajustes de fonte e lupa, assistentes de voz e as funções de reconhecimento de voz e ditado. Existem outros equipamentos como as smart tvs, ou seja, os aparelhos de tv que possuem recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual: guia de voz e a audiodescrição.

Além desses recursos em aparelhos, nós podemos garantir a acessibilidade através das leis. Como por exemplo, a lei brasileira de inclusão da pessoa com deficiência, aprovada em 2015, determina que as salas de cinema devem oferecer, em todas as sessões, recursos de acessibilidade para as pessoas com deficiência. Sabemos que, com a pandemia do corona vírus no início de 2020, essa exigência foi adiada, mas podemos dizer que é um marco histórico na conquista de igualdade das pessoas com deficiência.

LUCINEA:

Apesar de todas essas possibilidades, esses recursos ainda limitam a pessoa com deficiência em seu espaço doméstico. Embora seja necessária a acessibilidade nos lares das pessoas com deficiência visual, a autonomia completa se dá quando as pessoas saem de suas bolhas e convivem externamente com todos os outros cidadãos. Ou seja, todos os contextos externos, sejam públicos ou privados, devem também estar equipados para que as pessoas com deficiência visual circulem sem obstáculos e desfrutem dos conteúdos ali disponíveis.

ANIELE: 

Com certeza, é muito importante que todos tenham acesso a esses recursos, como é previsto legalmente. Infelizmente ainda não vemos os resultados dessas leis aplicados no dia a dia. É preciso de muito avanço nesse aspecto para exigir que elas sejam executadas.  

LUCINEA: 

Então que tal ouvir quem sente na pele a falta desses recursos? No próximo bloco, vamos receber o Rafael Braz, para uma conversa.

ANIELE: 

Vamos para um breve intervalo e voltamos já com a entrevista.

NARRADOR:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINÉA: Rafael, eu agradeço muito a sua participação no nosso episódio do Papo com Legenda. Você pode se audiodescrever e contar um pouco sobre você.

RAFAEL: Obrigado pelo convite, Lucinéa! Meu nome é Rafael Braz, tenho 42 anos, sou branco, tenho cabelos castanhos, cacheados e compridos, um pouco abaixo dos ombros, e os meus olhos são azuis. Estou vestindo um casaco de lã cinza e uma calça jeans escura. Estou sentado na minha poltrona azul, que é onde faço os meus trabalhos, as oficinas de audiodescrição e as lives das quais tenho participado nesse período de pandemia. É, também, onde faço os meus atendimentos clínicos, porque eu sou psicólogo, trabalho com clínica psicanalítica e, atualmente, especialmente com a pandemia, a maior parte dos atendimentos tem sido on-line. Tem alguns atendimentos que eu vou pessoalmente à clínica para fazer, mas no momento é mais em casa.

LUCINÉA: Perfeito! Obrigada, Rafael! Então, vamos começar. Neste episódio do Papo com Legenda, estamos tratando do acesso da pessoa com deficiência visual aos conteúdos audiovisuais acessíveis e, em geral, da autonomia do usuário que tenha deficiência visual a conteúdo que seja de entretenimento, informativo ou jornalístico. É essa nossa temática e nossa preocupação neste episódio.

Mas, antes de abordarmos sobre as suas experiências de acesso ao audiovisual no Brasil, eu queria que você falasse um pouquinho de si mesmo, como pessoa que tem deficiência visual, e nos relatasse as dificuldades que você tem enfrentado, ou já enfrentou, na rotina doméstica. Acho que isso seria algo importante para dizer a quem nos ouve. E, também, falar sobre a sua vida acadêmica, quais eram as dificuldade ou se não as tinha, como era o acesso que tinha dentro do seu ambiente acadêmico, que fica na cidade onde você mora, a capital de Porto Alegre. Então, conte um pouco sobre isso e depois passamos para a questão do audiovisual.

RAFAEL: Eu tenho deficiência visual há cerca de 30 anos. Desde o início da minha adolescência eu tenho baixa visão. Então, até mais ou menos os meus 30 anos, eu tinha um nível de baixa visão em que eu tinha mais autonomia, no sentido de não precisar usar a bengala para me deslocar. E, a partir de então, perto dos meus 30 anos, eu tive catarata, fiz cirurgia e não precisei usar mais óculos para miopia que eu usava desde criança, que era algo adicional, para além da deficiência visual. Isso mudou bastante a minha referência visual, a acuidade diminuiu e eu fui buscar fazer terapia ocupacional, aulas de orientação e mobilidade, e comecei a usar a bengala. Já faz uns 11 anos que eu tenho baixa visão e sou auxiliado pela bengala.

Então, o que acontece? Pensando um pouco nisso que você traz sobre a faculdade, esse é um ponto que, por exemplo, quando estava na minha adolescência, no final dos anos 90, eu terminei o ensino médio, fiz um curso técnico de eletrônica e, na época, não consegui trabalhar na área por falta de acessibilidade. Naquela época eu julgava que era em razão da deficiência visual, mas hoje está claro que era por falta de acessibilidade, ainda que a deficiência visual traga alguma limitação.

No fim, eu fui trabalhar, fiz concurso público, trabalhei em call center de empresa pública aqui no Rio Grande do Sul e busquei esse caminho de vagas reservadas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho, justamente por falta de oportunidade e de acessibilidade ligadas à época. E foi só depois de, aproximadamente, seis ou sete anos concursado que resolvi fazer faculdade.

Fui para a universidade perto dos meus 30 anos cursar psicologia, justamente quando eu já tinha mais possibilidades de acessar através da acessibilidade comunicacional e tecnológica, e de ter um computador com leitor de telas e celular com uma tecnologia assistiva mais apropriada para cursar. E, claro, também ter condições para pagar por isso, porque a acessibilidade é cara. A gente tem internet, tem o acesso um pouco mais democratizado, mas ela é cara. Então, nos últimos 10 anos isso já está melhor, mas até os meus 30 anos já era mais complicado.

Com relação à rotina doméstica, que você perguntou, eu moro sozinho e é bem tranquilo, mas isso também passa pela questão da acessibilidade: fazer compras por aplicativo de celular; chamar um carro por aplicativo para eu poder me deslocar. Tudo isso ajuda a facilitar. Sem esses recursos isso certamente seria bem mais complicado, porque eu precisaria contar muito mais com a acessibilidade atitudinal, ou seja, com as pessoas em geral. Eu conto com esse tipo de acessibilidade, mas a tecnologia assistiva acaba resolvendo muita coisa.

LUCINÉA: Rafael, você tocou em um ponto muito importante: a acessibilidade também toca no socioeconômico. O próprio uso que você teve dentro da Academia, da universidade, precisaria ter esse respaldo financeiro para você ter um computador, os aplicativos. Às vezes a instituição está preparada, mas o cidadão não tem a autonomia financeira para isso.

RAFAEL: Exatamente! Essa questão socioeconômica atravessa muitas das experiências ligadas à universidade. Por exemplo, eu cursei em uma universidade privada na Grande Porto Alegre e eu pagava um transporte privado, uma Van, para me deslocar à universidade. Ou seja, se eu fosse usar o transporte público, eu já não teria a segurança de estar com o celular e com o notebook no trem, no ônibus e em tudo, porque tem risco de assalto e até de segurança, visto que as calçadas são ruins e não tem uma boa infraestrutura, além de ser muito longe. Então, isso quer dizer que o socioeconômico vai longe. Eu estava trabalhando há um tempo e tinha condições de dar conta disso financeiramente: de cursar a universidade e de pagar a universidade, o transporte e a tecnologia assistiva. Mas são poucas as pessoas com deficiência nesse país que tem condições de fazer isso.

LUCINÉA: Exatamente! O democrático perpassa isso. Focando agora na questão do audiovisual acessível, eu gostaria de saber sobre a sua experiência como consumidor a partir do momento que você já não era vidente – o seu consumo na TV, no cinema, nas plataformas de streaming. A gente queria te ouvir nesse sentido. Você sempre foi autônomo para decidir usar o equipamento? Porque acho que vai desde o uso do controle remoto até a escolha de conteúdo de sua preferência, certo? E se nesse acesso você tem frustrações ou são mais satisfações nesse consumo do audiovisual?

RAFAEL: É, eu sempre consumi muito audiovisual, desde a minha infância, quando eu não tinha deficiência visual. Por isso, eu tenho uma construção e referências de um mundo imagético bem importante. Ao longo da minha adolescência, até os meus vinte e poucos anos, quando eu passei a ter baixa visão que ainda me permitia ver bem filmes, séries de TV e ir ao cinema. Se a gente pensar em língua estrangeira, criança vê muito conteúdo dublado, porque não tem a velocidade necessária para ler legendas, já na adolescência isso muda. Quando eu comecei a ter uma leitura mais dinâmica, eu já estava no início da baixa visão, então eu não tive uma experiência com leitura de legenda de forma eficiente e segui consumindo conteúdos dublados. Com o passar do tempo, ao aprender espanhol, pude ampliar para conteúdos em espanhol, além do português, o que é muito bom e agrega bastante na audiodescrição, porque tem bastante produção da Espanha e do México. Também assisto bastante conteúdo em espanhol nas plataformas de streaming.

Pensando em satisfações e frustrações, no que diz respeito à tecnologia, eu tenho muita facilidade com o celular e o computador. No trabalho, preciso dar conta de baixar um arquivo, ou, às vezes, mudar o formato, extrair o áudio. Tudo isso para mim é bem tranquilo, tendo leitores de telas e softwares acessíveis. Quando se trata da televisão, existem aparelhos que têm o leitor de telas, meu irmão, por exemplo, que tem baixa visão tem uma e ele usa super bem. Como eu não vejo muita TV e nem tenho muito tempo para isso, não investi. Eu tinha uma Smart TV que não tinha, então eu abria um vídeo no YouTube e clicava em transmitir e ele localizava a TV que estava no ambiente pelo mesmo Wi-Fi. Mas era tudo pelo iPhone, então o que me deu acesso não foi a televisão e nem o controle remoto, que é uma incógnita, já que não tem um padrão e isso é um problema para quem tem deficiência visual.

Porém, penso que a maior frustração está na falta de conteúdos audiodescritos. Esses dias eu estava assistindo a um filme nacional de comédia com uma amiga que também tem deficiência visual, chamado “A Guerra dos Rocha”, que não tem audiodescrição. Eu já tinha visto esse filme na época em que foi lançado há uns dez anos, quando eu tinha mais visão e por isso lembrava de muita coisa. A gente assistiu no Youtube e algumas cenas eu precisava lembrar e descrever para ela, senão ficava sem entender, não tinha nexo. Em outra ocasião assistimos juntos a um filme nacional sem audiodescrição, o qual eu não tinha visto, e tinha algumas cenas que não tinha o que se fazer. Quem tem baixa visão pode se aproximar um pouco da tela e tentar entender essas partes cruciais, mas e quem tem deficiência visual? Tem muito pouco conteúdo audiodescrito e isso é muito frustrante.

LUCINÉA: Você, na verdade, audiodescreveu a partir da sua memória aquele filme. O que é errado, porque você poderia não ter isso.

RAFAEL: Exatamente! A grande maioria dos filmes eu vejo pela primeira vez e sem audiodescrição. No meu trabalho como audiodescritor, quando me perguntam a respeito do consumo de produtos audiovisuais, eu sempre digo que se a gente for esperar para consumir só com audiodescrição, vamos ter poucas experiências e referências. Então eu assisto aos filmes mesmo sem audiodescrição, porque isso acaba enriquecendo a experiência, inclusive, de trabalhar para traduzir.

LUCINÉA: Hoje você é consultor e eu fiquei sabendo que já está locutando. Como foi a sua primeira experiência como usuário e depois sua formação como consultor, as etapas e as funções que você tem desempenhado na audiodescrição?

RAFAEL: Eu trabalho com audiodescrição por cerca de seis anos. Comecei a consumir aos poucos. Eu lembro que os primeiros contatos foram por volta de 2007 e 2008. Tinha uma propaganda da Natura, eu acho, e depois vinha o filme “O Ensaio sobre A Cegueira”, o primeiro com audiodescrição, um clássico. Depois muito aos poucos, eu não lembro muito, mas acho que foi uma exposição aqui em Porto Alegre já com a Mimi Aragón e a Keni Oshiro fazendo descrição ao vivo ao longo da visitação, sem equipamento. Foi então que eu passei a me envolver bastante com a audiodescrição, principalmente em exposições com obras de arte, cerâmica, com os próprios artistas conversando sobre a obra.

Depois veio o cinema, em sessões específicas com AD aberta para chamar o público. Hoje acontece uma vez por mês, mas em 2013 era uma a cada semestre. Uma delas ocorreu no shopping, com o filme “Em Teu Nome”, da Accorde filmes da Marilaine, sobre a época da ditadura militar aqui no Rio Grande do Sul, muito interessante. Nesse momento, eu comecei a tomar contato com o pessoal que produz audiodescrição, dentre eles o Felipe Mianes e a Mimi.

Ainda em 2013 e meados de 2014, já comecei a frequentar teatro com audiodescrição e foi então que conheci a Kemi e me aproximei mais da Mimi. Em 2015, eu participei como usuário de uma pesquisa de doutorado do meu amigo Eduardo Cardoso, arquiteto e professor da UFRGS, que se especializou em AD. A tese se desenvolveu num museu de Porto Alegre, Joaquim Felizardo, com maquetes táteis e descrição de lugares da cidade. Visitei a exposição, depois houve uma entrevista e a partir disso nos aproximamos. Foi muito legal. Antes disso, eu já estava lendo por conta artigos sobre audiodescrição em e-books, numa experiência autodidata, visto que eu gosto muito de ler e de escrever, e que desde a psicanálise eu já estava imerso nisso. A Mimi acompanhou a pesquisa e percebeu meu envolvimento com o trabalho do Eduardo. Ela me chamou para uma experiência de consultoria em uma peça de teatro, um projeto no qual estavam trabalhando, e me convidou para participar do grupo, qualquer dúvida que eu tinha levava para eles. Foi assim que eu comecei: primeiro veio o estudo por conta, depois a prática e só então comecei a fazer capacitações, cursos, assistir palestras e outras atividades. Foi uma formação muito híbrida.

No início de 2016, teve um monólogo muito interessante do Cássio Scapin chamado “Eu Não Dava Praquilo”, trazendo a história da Miriam Muniz. Este foi o meu primeiro trabalho em AD. Depois de trabalhar com a Mimi, passei a trabalhar com a Letícia, a Liliana e fui fazendo outros cursos de curta e longa duração, além de assistir a defesas de Mestrado e Doutorado, que também são aulas.

No início deste ano eu fiz um curso de locução em AD, com o Charleston, no Ceará. Eu entrei para essa formação por conta da consultoria, não tinha a pretensão de gravar. Eu faço a consultoria prestando atenção em cada detalhe e etapa, não é só validar, tem toda a estética da AD. Ao fazer a gravação, me disseram que eu poderia locutar. São esses caminhos da audiodescrição se ampliam para a gente. Esse ano também tive as formações com a Eliana Franco, a gente tem feito oficinas e ministrado cursos, e também tivemos uma oficina com a Mimi na semana passada. A audiodescrição tem esse universo vasto.

LUCINÉA: Você acredita que a audiodescrição é um caminho de autonomia para tornar a acessibilidade mais democrática aos deficientes visuais, permitindo que eles tenham acesso não apenas aos recursos audiovisuais, mas também ao contexto cultural, como teatro e museu?

RAFAEL: Sim, desde que seja feita com a consultoria de um profissional com deficiência visual, e isso é fundamental, pois existem muitos trabalhos de AD sem consultoria e que não geram autonomia. Nesse caso, segue-se a premissa de que quem enxerga sabe o que precisa ser visto e como deve ser visto por quem não enxerga. E isso não funciona. Não é autonomia. É algo imposto. Não é feito o percurso necessário para construir a AD e a autonomia.

LUCINÉA: Na verdade, seria a audiodescrição na perspectiva do vidente e não o contrário. Aproveitando esta questão tão importante que destacou a respeito da consultoria, temos AD feita por inteligência artificial ou automaticamente, como recursos do Facebook que fazem a descrição automática de imagem. O que você pensa a respeito disso, ou seja, sobre estes recursos utilizados em textos, que não possuem uma preparação prévia ou um roteiro para a edição da AD?

RAFAEL: A inteligência artificial é algo fantástico e existem excelentes aplicativos de celular. Há poucos dias, estava em Gramado e queria pedir comida no quarto do hotel. Então, com o uso do aplicativo, eu direcionava e tirava fotos do cardápio. Ele, então, reconhecia os caracteres e lia para mim todo o cardápio. Com isso, podia selecionar o que queria antes de interfonar e fazer o pedido. É fantástico!

Essa questão da descrição das imagens nas redes sociais é muito importante, mas sempre gosto de fazer uma diferenciação que, para mim, não se trata de uma descrição da imagem, mas sim informações sobre a imagem. O que é diferente, pois para se descrever uma imagem é preciso passar por esse processo, como acabamos de comentar. Porém, na rede social isso não é possível. Há uma profusão de imagens e uma grande velocidade e quantidade. Então, precisamos da inteligência artificial para não ficarmos sem guias.

Dessa forma, se o conteúdo me interessar, vou investigar mais, procurar um audiodescritor, um colega vidente para descrever a imagem, ou seja, é um outro caminho que pode ser filtrado. Portanto, inteligência artificial não substitui, porque ela não descreve. Ela apenas identifica, informa, elenca.

Dias atrás, participei de uma pesquisa universitária em que a pesquisadora trazia um termo, o qual não me recordo agora, mas eram tags. As imagens tinham tags que eram palavras identificadas pela inteligência artificial. Então, ela me falava sobre a imagem e fazíamos uma comparação da pesquisa entre o que pensamos em termos de descrição e identificação em tags daquela imagem.

Portanto, para mim, são duas formas diferentes de lidar com o conteúdo imagético.

LUCINÉA: Pois bem, esses recursos não são excludentes, acredito que sejam complementares. E faço, também, um paralelo com a questão do uso do Google Tradutor, pois quando damos aula de idiomas, falamos para os alunos usarem esse recurso. Mas, em uma situação mais específica, precisamos desse profissional que fará uma boa contextualização desse texto, já que as palavras têm múltiplos sentidos. Contudo, se estiver na Rússia, por exemplo, e não houver ninguém para me ajudar, posso usar o Google Tradutor.

RAFAEL: Com certeza! Na Rússia, com certeza!

LUCINÉA: Rafael, acho importante pensarmos no lado positivo que a AD já alcançou no Brasil. Acredito que nos últimos 10 anos houve avanços em várias áreas e ela tem se firmado no seu status em nossa nação. Porém, temos um país muito discrepante e fico pensando nas pessoas que ainda consomem conteúdo informativo, como a notícia, com informações bastante relevantes para a vida do cidadão, além do entretenimento, como a novela. Enfim, tudo isso. Uma grande parte das pessoas com deficiência visual que vivem aqui, ainda consome esses conteúdos como uma mídia sonora, como se estivessem ouvindo um rádio e sem nenhuma descrição de imagem. Acredito que 85% da produção do conteúdo da Rede Globo ainda não tem audiodescrição. Isso ainda é uma realidade triste. Então, gostaria que você comentasse como essa realidade pode ser mudada e se você vê uma luz no fim do túnel para essa situação no Brasil.

RAFAEL: É uma situação muito complexa. Eu acredito avançamos muito. A AD em nosso país é uma das mais avançadas e desenvolvidas. Não tenho um vasto conhecimento sobre anda a audiodescrição em outros países, mas sempre estamos em contato com os colegas, e um deles que é de Buenos Aires, comenta que na Argentina estão ampliando a AD, mas nem tanto como no Brasil. A própria Eliana Franco, na Europa, sempre traz notícias sobre isso. Em suas publicações, destaca que o Brasil é referência da audiodescrição.

Mas, quando pensamos em veículo de massa, sinto que não temos como descolar essa análise do viés comercial e, talvez, até político, no sentido dos interesses, e comercial, no sentido do que vai para a massa.

Já comentei sobre a questão de filmes legendados e dublados. Se pensarmos que os filmes que passam na Globo, por exemplo, na Sessão da Tarde, no Supercine, na Tela Quente são filmes sempre dublados. Não temos a cultura de filmes legendados como na TV fechada. Isso acontece porque se construiu essa cultura ao longo dos anos. Temos uma população que, por diferentes motivos não quer, não tem essa vivência ou não tem esse acesso. É mais fácil e cômodo. E se adaptaram ao longo dos anos com a questão da dublagem. Portanto, para as empresas de televisão aberta, vale a pena investirem em dublagem. E existem muitas empresas de dublagem, aliás, o Brasil é uma referência, especialmente o Rio de Janeiro, que é o polo. Portanto, existem milhões de pessoas que se interessam por filmes dublados.

Já a audiodescrição, temos um contingente e um recorte com pessoas deficientes visuais bem menores. E o número daqueles que conhecem e exigem a AD é bem menor ainda. Então, se começarem a exibir filmes legendados na Globo, provavelmente vai cair muito a audiência.

Para assistirem aos filmes sem audiodescrição, as pessoas com deficiência visual ainda precisam de um familiar que lhes conte, e mesmo perdendo algumas informações importantes, acompanham do jeito que dá. Então acredito que tenha uma questão inegável de quantidade. Uma questão de massa.

E, claro, que se tem o viés político, temos a LBI (Lei Brasileira de Inclusão) e é um direito, mas existem as questões das barreiras da acessibilidade. Então, vejo que a lei é um dos poucos caminhos que temos para conseguirmos ampliar.

E temos o nosso trabalho. Nós, que trabalhamos com acessibilidade, que conversamos com produtores, que fazemos roda de conversa, que discutimos sobre os espaços para inserir a AD. Enfim, são esses caminhos, mas que são muito lentos. O famoso “trabalho de formiguinha”. E somos nós, profissionais, que fazemos essa ponte.

Mesmo por força de lei, ainda nos deparamos com outra barreira, pois temos a audiodescrição, mas tem-se o argumento de que se produz e investe em AD e quase ninguém assiste. Devemos lembrar que a AD não é um favor, deve estar disponível. Um filme dublado, por exemplo, pode ser passado no cinema para três ou quatro pessoas. Então, é uma questão cultural muito forte e levará muito tempo ainda. Mas, temos que continuar trabalhando.

LUCINÉA: Sim, a gente segue! Acho que sempre leva uma geração para que o conhecimento faça parte de uma comunidade mais ampla. Também acho que isso acontece por meio da educação, pois um aluno que é educado e entende que a audiodescrição e a legenda para surdos e ensurdecidos deve fazer parte do conteúdo audiovisual acaba exigindo isso, mesmo que não seja para ele.

RAFAEL: Exato! Esse ponto que você toca é fundamental! Eu não citei, mas em relação à educação, tanto nos níveis fundamental e médio, tem crescido o número de pessoas que buscam nós, audiodescritores, para fazer capacitações. A Letícia e eu estamos conversando com um pessoal lá do Pará que está interessado e quer que a gente faça um curso para os professores da rede pública, de modo que eles tenham os conhecimentos básicos de audiodescrição, principalmente para a sala de aula com alunos com deficiência visual da rede. Então, eu acho que isso é multiplicador para todo mundo, com e sem deficiência visual.

Na Academia, isso também é fundamental, como o trabalho de vocês. Aqui na UNIPAMPA eu tenho um amigo, que é o Marco Bonito, que faz pesquisas na área de Comunicação e tem alunos e orientandos sem deficiência visual produzindo conteúdos e pesquisando. Tem uma mestranda dele que está fazendo um trabalho bem interessante sobre “Meteorologia com audiodescrição”. E são multiplicadores, né? É um outro caminho também.

LUCINÉA: Já para falar sobre educação e formação, a gente tem aqui, até mesmo nessa sala, alunos da área de produção audiovisual que estão em uma escola de Rádio, TV e Internet que a gente tem aqui na UNESP de Bauru, e outros que também estão nos ouvindo e são futuros profissionais nessa área. Quais dicas você daria para que eles pensem nesse mundo mais acessível, com uma produção democrática, inclusiva e acessível?

RAFAEL: Bom, quando você me perguntou antes se a audiodescrição era mesmo o caminho para essa autonomia, eu falei que desde que tenha consultoria, e eu vou mais ou menos por esse caminho também. Eu penso que quem está pesquisando, estudando e produzindo na Academia também precisa buscar essas referências de audiodescrição, por exemplo, aquelas produzidas por profissionais que trabalham com profissionais com deficiência visual, consultores em audiodescrição e até mesmo o público, que são usuários de audiodescrição. É necessário fazer pesquisa, mas não só aquela pesquisa que circula em grupos de Whatsapp e que são muitos distanciadas, pois são preparadas já com uma distância da realidade. Então, eu penso que uma aproximação ideal seja através de associações, instituições ou grupos. Hoje em dia, com a internet, existem redes sociais como Facebook e Whatsapp que possibilitam se aproximar com abertura de pessoas com deficiência visual e conhecer a realidade dessas pessoas no que diz respeito ao consumo de notícias, filmes, documentários e do máximo de produções audiovisuais. E caso esses produtos não tenham audiodescrição, como que essas pessoas fazem? Ou quando tem audiodescrição, o que essas pessoas esperam da audiodescrição? Estar atento a isso é importante para poder aprender a ver aquilo que a visão não deixa ver. Eu penso que isso é um papel da pessoa com deficiência visual e, especialmente, do audiodescritor consultor: poder ajudar o profissional vidente a ver aquilo que a visão não deixa ele perceber, além do óbvio. Porque com a visão, às vezes, você fica muito no óbvio, sendo coisas do tipo “está pronto, é instantâneo, está explicado”, mas não está explicado, não é instantâneo e não é obvio. Às vezes é aquém do obvio. Então, só quem tem deficiência visual que pode fornecer essas experiências para quem está trabalhando ou pesquisando. A dica principal para mim é essa, é pesquisar sim produções com audiodescrição, mas também se aproximar desse público.

LUCINÉA: Eu acho perfeito isso que você falou, que combina com uma terminologia que essa geração dos nossos alunos tem usado muito e eu acho importantíssima, que é o “lugar de fala”, né? É exatamente isso, não só aprender mas aprender junto com essa pessoa que vai precisar, que vai consumir e que vai poder orientar melhor esses futuros profissionais. É bem bacana!

Rafael, eu adorei o nosso papo e esse encontro, que é a distância e que inclui muita gente. Essa também é a ideia desse podcast, poder divulgar conhecimento para não ficar só em uma bolha e, nesse sentido, eu agradeço muito a sua participação.

RAFAEL: Também agradeço muito! É muito interessante essa troca. Ela sempre produz algo novo e que a gente leva para a nossa trajetória, para o nosso trabalho e nossa experiência, não é? Com certeza, tendo algum questionamento ou alguma contribuição, a gente vai conversando.

LUCINÉA: Então, Rafael, um super obrigado e até breve. Que a gente troque mais figurinhas!

RAFAEL: Com certeza, fico sempre à disposição de vocês para a gente seguir com essas trocas, porque com toda essa tecnologia nós conseguimos estar juntos mesmo com a geografia dizendo que não! 

LUCINÉA: Perfeito, obrigada gente!

RAFAEL: Um abração para vocês! Tudo de bom.

ANIELE:

Bom, e depois dessa entrevista do Rafael vamos chegando ao fim do nosso episódio. Mas pra você que está chegando e quer conhecer um pouco mais do “papo com legenda”, pode conferir nossos episódios anteriores.

LUCINEA:

É isso aí, Aniele! Esse foi o nosso quarto episódio, mas se você ainda não ouviu os anteriores corre para sua plataforma de podcast preferida e ouça já!

E para ficar por dentro de tudo o que o Rafael nos contou, nos siga nas nossas redes sociais @papocomlegenda e para conhecer mais sobre o trabalho de consultoria de audiodescrição do nosso entrevistado, siga @rafael_braz_psi

Narrador:

O “Papo com Legenda” é um podcast original do MATAV, o grupo de pesquisa mídia acessível e tradução audiovisual. Para ficar por dentro dos nossos lançamentos e demais novidades, acompanhem o nosso Instagram @papocomlegenda

Papo com Legenda Ep. 03 – Lembrei de Você

Transcrição: Ana Laura Dias, Letícia Santos, Luiza Hidalgo

LUCINEA:

Olá! Bem-vindo, bem-vinda e bem-vinde ao terceiro episódio do nosso podcast Papo com Legenda. Eu sou Lucinea Villela, sou uma mulher de 51 anos, sou baixa, tenho cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Estou sentada em frente à mesa de meu escritório, gravando em meu notebook.

ANIELE:

E eu sou a Aniele, uma mulher de 26 anos, cabelos cacheados e curtos da cor castanho escuro. Eu visto uma camisa azul listrada e estou no meu quarto, sentada à frente de meu notebook.  

LUCINEA:

No episódio anterior falamos um pouco sobre a história da dublagem com o queridíssimo Vitor Mello! Foi uma conversa bem legal, e se você ainda não ouviu, corre lá e confira na sua plataforma digital favorita, mas só depois que esse acabar, hein?

ANIELE:

No episódio de hoje, vamos acrescentar mais um elemento à nossa jornada pelo universo da acessibilidade. Diferente dos episódios anteriores, hoje não vamos abordar um recurso de acessibilidade específico, mas sim um projeto que vem fazendo muita diferença no contexto da pandemia. Estou falando do projeto Lembrei de Você.

LUCINEA:

O projeto é coordenado pela professora Mônica Moura, do departamento de design da Unesp de Bauru, que aceitou o convite para agregar ao nosso papo no episódio de hoje. Quem também aceitou nosso convite foi uma voluntária muito querida! A Sara Cristina Gimenez de Faria, que vai conversar um pouquinho com a gente!

ANIELE:

Mas antes de chamar a entrevistada, vamos aprender um pouco sobre a origem e a importância do projeto no nosso quadro Legenda aí pra Mim.

Criado em junho de 2020, pela professora Mônica Moura, o “Lembrei de Você” é um projeto que tem como objetivo criar uma rede de comunicação para ajudar no fortalecimento da autoestima e promover a Inclusão social de minorias. O projeto age por meio de uma rede de voluntários, que organizam a leitura e produção de áudios que são enviados via WhatsApp a ouvintes idosos e pessoas com deficiências visuais, explorando as possibilidades da criação de imagens mentais por meio da ação da linguagem oral.

Isso ajuda também no despertar de memórias afetivas, que trazem bem-estar e qualidade de vida, ajudando no combate à solidão e atendendo ao escopo do Design Inclusivo no contexto da pandemia de COVID-19.

Lucinéa: Realmente, Aniele. A pandemia tem trazido à tona essa problemática do isolamento social, principalmente em relação às pessoas idosas e as pessoas com deficiência visual. Além de não serem incluídas na nossa sociedade no cotidiano, ainda sofrem com a solidão que é reflexo do distanciamento social.

ANIELE:

Com certeza, Lucinéa! A gente trouxe nos episódios anteriores a história e a atuação de recursos audiovisuais acessíveis, mas o “Lembrei de Você” vem para nos mostrar que a acessibilidade está para além do recurso. Um projeto como o da professora Mônica Moura ressalta que só existe acessibilidade quando as pessoas são incluídas. E por isso, a partir desse episódio nosso foco será o usuário desses recursos.

No próximo bloco, conversaremos com a professora Mônica e traremos mais legenda para esse papo.

WALESSON:

Acompanhe o Instagram do nosso podcast em @papocomlegenda para saber quando saem os novos episódios e no @matav_unesp para ficar por dentro das novidades e notícias sobre acessibilidade.

LUCINÉA: Estamos de volta para o nosso segundo bloco. No bloco anterior, aprendemos um pouco mais sobre a história do projeto “lembrei de Você”, da professora Mônica Moura. Mas agora aprofundaremos nosso debate sobre acessibilidade, falaremos com a docente que é idealizadora do projeto. Antes de começar, professora Mônica, você poderia se apresentar e audiodescrever para o nosso ouvinte?

MÔNICA: Lucinéa, eu que quero agradecer o convite, estou muito feliz de poder participar com você. É um prazer e uma honra, ainda mais para falar de um projeto que a gente tem tanto carinho. Eu sou uma mulher de estatura baixa, sou morena, mas tenho cabelos ruivos e eu uso óculos. Eu sou gordinha, tenho olhos castanhos e hoje eu estou aqui, sentada em frente ao meu computador, no meu escritório, na minha casa. Eu estou usando uma camiseta azul e branca e uma saia cinza.

LUCINÉA: Mônica, você poderia contar para a gente como que surgiu o “Lembrei de Você”?

MÔNICA: O “Lembrei de Você” surgiu no ano passado, depois da fase de isolamento social e, por volta do dia 20 de junho, foi realizada a distância a defesa de uma tese, com o título “Design inclusivo na contemporaneidade: diretrizes ao desenvolvimento de materiais didáticos acessíveis a crianças cegas e com baixa visão”, que foi desenvolvida pelo Márcio Soares Guimarães sob minha orientação e coorientação da professora Cássia Carrara. Essa defesa foi resultado de cerca de quatro anos de pesquisa e foi a primeira pesquisa que orientei especificamente destinada ao público com deficiência visual.

A partir disso, organizamos uma mesa redonda sobre design inclusivo com o título de “Design, Educação e Inclusão” e participaram dessa mesa pesquisadores e professores que trabalham com inclusão e educação e também convidamos designers que atuam nessa área. A mesa foi muito rica, produtiva e muitas pessoas assistiram. Após isso, ficamos mais um pouquinho conversando e eu questionei ao grupo e a mim mesma: “É tudo muito bonito, a defesa de tese foi ótima, o resultado foi maravilhoso e essa mesa redonda foi incrível. Mas o que nós, que estamos envolvidos com isso, estamos fazendo para o público com o qual trabalhamos e que é fonte da nossa pesquisa? O que estamos fazendo por eles nesse momento da pandemia? Como designers, precisamos projetar alguma coisa”. Afinal, o design, principalmente o contemporâneo, não se fixa só em produção de coisas, artefatos, objetos ou de peças de comunicação e informação, ele também se destina ao desenvolvimento de ações. A partir desse momento começamos a conversar e nisso surge o projeto “Lembrei de Você”.

LUCINÉA: Mônica, quem deu o nome “Lembrei de Você”? Houve outras propostas de nome?

MÔNICA: Vários nomes foram elencados, na verdade, alguns nomes davam impressão de ser uma cantada. Às vezes ficava parecendo um nome de um filme, como “Tão Longe e Tão Perto”. Não poderíamos usar o título de um filme. Por fim, eu acredito que foi o Márcio que falou para iniciarmos a mensagem com “Lembrei de Você” e todo mundo gostou muito. Fomos ver se já existia algum nome registrado ou algo parecido nesse aspecto e não encontramos nada, então adotamos esse nome e eu acho que foi um nome muito feliz.

LUCINÉA: É lindo! Mônica, com esse sucesso e esse alcance tão grande, vocês acham que ele pode se tornar um projeto a longo prazo?

MÔNICA:  Então queremos sim dar continuidade. Inclusive o projeto que enviamos para o CNPq e tem a validação da bolsa PQ (Pesquisa Qualificada), se aplica a pessoas com deficiência visual, mas não só a elas. Há também pessoas videntes que estão em estado de solidão, temporário por conta da pandemia ou mais prolongado, pois moram ou se veem sozinhas. Também se aplica a pessoas que não estão em nenhum desses casos, porque temos muitos ouvintes que não são pessoas acometidas por alguma deficiência, mas também não estão em estado de solidão, porém, gostam muito de receber os áudios e fazem parte de um dos grupos de ouvintes. Então, na verdade, esse projeto tem como proposta abraçar diversos públicos, até porque, depois que nos aprofundamos no estudo a esse respeito, nós vimos também que essa possibilidade de levar textos de literatura, poesia, música ou relatos de vida, também possibilita uma ampliação do repertório estético e cultural às pessoas.

No caso das pessoas com cegueira, você também possibilita o desenvolvimento de imagens mentais. Claro que não são todas as pessoas cegas que continuam com a criação de imagens mentais, com forma e cor. Às vezes são só imagens de luzes, sombra ou sem cor, mas grande parte das pessoas cegas continuam com as suas imagens mentais e o fato delas ouvirem histórias diferentes, por meio dos áudios, possibilita isso.

LUCINÉA: Mônica, vocês têm uma noção de quantos usuários dos áudios vocês alcançaram que têm deficiência visual, que a gente chama de pessoas cegas ou de baixa visão, e quantos idosos?

MÔNICA: Nós temos um número aproximado. Não temos ainda essa separação, esse número exato entre cegos e baixa visão, mas sabemos que hoje o projeto atende 678 pessoas. Entre essas pessoas, temos por volta de 150 pessoas que são deficientes visuais, temos um número de idosos próximo a 50 pessoas e, por fim, temos pessoas de outras idades ou outras pessoas com baixa visão que não temos conhecimento, pois algumas não declaram.

LUCINÉA: Mônica, para terminar, eu queria que você falasse de um ou dois relatos dos usuários do Lembrei de Você que tenha te marcado.

MÔNICA: Tenho vários relatos que me marcaram de forma muito sensível e emotiva. Eu ouço todos os áudios, até porque trabalhamos em um grupo para podermos fazer a divisão desses áudios, para verificarmos se tem algum ruído ou problema neles e para classificá-los.

Então, nesse sentido de tocar, em termos de emoção, nós temos vários áudios, mas também temos situações muito engraçadas. Temos uma voluntária que se chama Patrícia e, na pandemia, ela foi para uma casa do interior e, pelo que ela contava, a gente entendia que era como um sítio ou uma casa de campo. E aí, ela não tinha nenhum livro ou revista, porque ela não levou. Então, ela contava histórias dela, coisas que aconteciam lá. Vou falar duas histórias dela que são muito engraçadas.

Primeiro, um dia ela achou um pão caseiro inteiro na porta de sua casa de presente, mas ela não descobriu quem era. Então, ela foi contando a história e a gente imaginou que nos próximos áudios ela iria contar para a gente quem deixou o pão. E a gente começou a imaginar falando: “Nossa, será que é alguém que está apaixonado por ela? Quem será?” E até hoje a Patrícia não descobriu quem foi que deixou o pão lá.

Outra história dela foi a dos lagartos. Sabe aqueles lagartos grandes, que vivem em pedras? Então, ela viu dois lagartos que ficavam pelo seu quintal e resolveu começar a alimentar eles com ovo e tudo mais. Um dia, os lagartos entraram na casa e foram para debaixo da cama dela. Então esse foi outro áudio muito divertido.

E uma coisa que também me emocionou muito, por uma questão muito pessoal, é que a Sara, com quem vocês acabaram de fazer a entrevista, é filha de uma ex-aluna minha, que também foi minha monitora e estagiária. Então, eu fui ao casamento da Débora, vi ela grávida, conheci a Sara bebê e depois nunca mais tive oportunidade de encontrar. Por isso, quando ela enviou o primeiro áudio, foi uma surpresa e, também, uma alegria muito grande em todos os sentidos: como a gente pode estabelecer esses vínculos emocionais, afetivos, e como essas coisas também podem se propagar muito além de nós. Então a gente lança uma pequena sementinha e, olha que bonito, o fato de uma mãe, ao exercitar essa questão de uma doação de tempo, de voz e de vontade, influencia a sua filha. Para mim, isso foi muito bonito.

LUCINÉA: Parabéns, Mônica! É um projeto muito lindo e desejamos um sucesso a longo prazo e que continuem alcançando mais pessoas. Parabéns pelo projeto!

MÔNICA: Eu agradeço muito! E, como essa entrevista é também uma forma de divulgação para o projeto, se alguém tiver interesse eu peço para entrar em contato via Instagram, no canal do Lab Design Contemporâneo. A pessoa pode comunicar se quer participar ou como um voluntário ou como ouvinte – seja um ouvinte individual (pessoa física) ou uma instituição – e a gente entra em contato.  

ANIELE: Gente, esta foi a primeira parte da entrevista. E vamos agora para um breve intervalo.

No próximo bloco, continuaremos nossa entrevista com a Sara Cristina Gimenez de Faria.

WALESSON: Para acompanhar nossos textos sobre acessibilidade e as transcrições dos episódios Papo com Legenda, acesse o blog matavunesp.wordpress.com

LUCINÉA: Estamos de volta e para dar prosseguimento a esse episódio especial. Conversaremos agora com a Sara, que é voluntária do projeto Lembrei de Você. Sara, você poderia se apresentar e se audiodescrever?

SARA: Oi! Meu nome é Sara Cristina Gimenez de Faria. Eu sou baixa, tenho 9 anos, uso óculos e tenho um cabelo marrom meio escuro meio claro. Uso saia e blusa azul com flamingo.

LUCINÉA: Sara, a gente entrou em contato com o projeto e tivemos acesso às suas locuções, e eu queria entender um pouquinho. Primeiro, eu queria saber quantos anos você tem e por que você aceitou ser voluntária nesse projeto, que é o Lembrei de Você. Conta um pouco para a gente como que foi que você começou a ajudar as pessoas por meio do Lembrei de Você.

SARA: Bom, eu tenho 9 anos e eu comecei a querer participar quando vi a minha mãe fazendo os áudios para gravar histórias; eu fiquei com vontade e pedi para participar. E foi aí que eu comecei a fazer os áudios. Na segunda à noite eu e a minha mãe sempre gravamos os áudios.

LUCINÉA: Entendi, então tem um dia da semana que vocês escolhem para fazer e aí vocês mandam, é isso?

SARA: Isso.

LUCINÉA: Perfeito! Sara, e como você escolhe o tipo de gravação que vai enviar? São coisas que você gosta de ler? São contos, poesias, histórias? Fiquei sabendo que você canta também… Então como que é? Você e a sua mãe que decidem juntas o que você vai mandar ou você pede para gravar as coisas que você mais gosta?

SARA: É, eu escolho por meio do que eu gosto. E aí eu leio histórias, poesias e uma vez eu cantei.

LUCINÉA: Foi lindo! Você sabe que eu ouvi uma música com os meus pais, que são bem velhinhos, e eles gostam. Eu coloquei para eles e eles adoraram!

SARA: E, também, a mamãe me ajuda a escolher o livro, porque às vezes ele é grande e a minha mãe já leu.

LUCINÉA: Ah, então ela ajuda para não ler inteiro. E Sara, uma última pergunta: você fica feliz em ajudar as pessoas, ou as que são idosas e mais velhas, ou as que não enxergam? Porque a gente sabe que tem pessoas cegas que ouvem esses áudios. Então eu queria saber se você fica feliz, porque a sua voz dá um conforto para essas pessoas?

SARA: Ah, eu fico feliz, porque eu ajudo as pessoas, elas se divertem e aprendem, e assim eu me sinto útil.

LUCINÉA: Ah, que legal! E você quer sempre continuar com esse projeto?

SARA: Sim, eu sempre quero continuar com esse projeto.

LUCINÈA: Então, parabéns pela colaboração! Eu tenho acompanhado os seus áudios e eles são muito confortáveis para quem está do outro lado te ouvindo!

SARA: Muito obrigada!

LUCINÉA: Parabéns, Sara!

ANIELE: Bom, e depois dessa entrevista da Sara, estamos chegando ao fim deste episódio. Mas para você que está chegando e quer conhecer um pouco mais do papo com legenda, pode conferir nossos episódios anteriores.

LUCINÉA: É isso aí, Aniele. Este foi nosso 3º episódio, mas se você não ouviu os anteriores, corre na sua plataforma de podcast favorita e ouça já. Para ficar por dentro de tudo o que a Profa. Mônica nos contou e ficar sabendo ainda mais sobre Design Inclusivo, não deixe de seguir @labdesigncontemporaneo

ANIELE: Como é importante o projeto Lembrei de Você, ainda mais no contexto de pandemia que ainda estamos passando. O trabalho da Profa. Mônica é essencial para amenizar os efeitos do isolamento e solidão dos idosos com deficiência visual e também dos idosos videntes. É claro que teria que virar um episódio. O programa de hoje fica por aqui.

WALESSON: O Papo com Legenda é um podcast original do MATAV, o Grupo de Pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual. Para ficar por dentro dos lançamentos e demais novidades acompanhe o nosso Instagram @papocomlegenda