Entrevista com Maurício Santana

fotoMauricio

Este mês o blog do MATAV Unesp publica a entrevista realizada com Maurício Santana, profissional da área de Publicidade e Rádio e TV, Diretor da empresa Iguale Comunicação de Acessibilidade. Na entrevista, Maurício conta um pouco de sua formação e carreira e nos relata os bastidores das tentativas de implantar acessibilidade nas salas de cinema brasileiras por meio do aplicativo Movie Reading.

MATAV: Conte um pouco de sua formação e de sua atuação profissional.

MAURÍCIO SANTANA: Sou da área de Comunicação. Formado em Publicidade, já atuei por muitos anos como monitor/técnico de laboratório de RTV do curso de Comunicação Social da UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba). Trabalhei em algumas emissoras de rádio e TV do interior de São Paulo e, posteriormente, atuei como docente da mesma universidade e também de outras instituições. Voltei pra São Paulo em 2007/2008 para o desafio de criar a Iguale e trabalhar com acessibilidade comunicacional.

MATAV- Quem criou o aplicativo Movie Reading e como e quando ele foi adotado no Brasil?

MAURÍCIO SANTANA- O MovieReading foi criado na Itália pela UMA (Universal Multimedia Access) e em 2014, depois de algumas negociações, nos tornamos representantes no Brasil e América do Sul. Fizemos muitos testes e somente em 2015 começamos a divulgar e publicar os primeiros títulos. Posteriormente, negociamos também a representação para o México e USA, mercados que ainda não iniciamos um trabalho efetivo e nem divulgação.

MATAV- Segundo a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (2015), sabemos que as salas de cinema brasileiras têm que oferecer três recursos de acessibilidade aos usuários com deficiência auditiva e visual: audiodescrição, legenda descritiva e libras. Qual a previsão de encontrarmos salas com os três recursos?

MAURÍCIO SANTANA- Não só a LBI, mas também a Instrução Normativa (IN) nº. 128, de 13 de setembro de 2016, regulamentam a oferta da acessibilidade pelas salas de exibição e a obrigatoriedade do distribuidor de filmes produzir os três recursos, e, portanto, acredito que realmente teremos esses três recursos sendo oferecidos. O problema é: quando?

 A Instrução Normativa da ANCINE já foi adiada uma vez e agora tem seu prazo para início em novembro de 2018, mas a LIBRAS ainda é um problema tecnológico a ser resolvido pelas empresas que querem ofertar comercialmente as tecnologias para os cinemas. A dificuldade é que, até novembro de 2017, data em que deveria ser iniciada a oferta de acessibilidade nas salas de cinema, apenas o MovieReading e mais outra tecnologia, também baseada em nuvem, estavam aptas a distribuir os três recursos. Porém, uma comissão da Digital Cinema Iniciative /Motion Pictures Association of America (DCI/MPAA), vinda dos USA, interferiu no processo brasileiro e sugeriu que os aplicativos não fossem adotados como tecnologia assistiva para esse fim, e que toda a distribuição de arquivos relacionados com o filme acontecesse apenas por meio do Digital Cinema Package (DCP).

Essa recomendação nos colocou fora da lista de possíveis fornecedores, mesmo sendo os únicos que poderiam imediatamente atender a Lei e incluir o público com deficiência, que já estava utilizando o MovieReading em algumas iniciativas pontuais, como o filme da Lara Pozzobom, por exemplo, “Mulheres no Poder”[1], que foi assistido com acessibilidade no país inteiro.

A proposta técnica desse grupo (DCI/MPAA), formado por representantes das Majors da indústria cinematográfica mundial, é de que se converta o arquivo de vídeo LIBRAS em um arquivo de áudio para ser inserido no DCP, já que este por formatação, só aceita um arquivo de vídeo que no caso é o próprio filme. Em seguida, um equipamento que deve ser instalado nas salas de cinema reconverta esse arquivo em vídeo para ser disponibilizado para o público.

Hoje, pelo menos que eu tenha conhecimento, existe em desenvolvimento/teste um equipamento de uma empresa do Sul, que tem a proposta de distribuir os recursos por meio de sinal de infravermelho dentro da sala, mas não sei como está esse processo de conversão.

Uma outra proposta absurda e desrespeitosa com o público é uma solução com a LIBRAS sendo realizada por AVATAR, ou seja, uma tradução produzida por um banco de dados. Na minha opinião, como se fosse a legenda do filme sendo feita pelo Google Tradutor, e lembremos que este já tem mais de 11 anos de desenvolvimento e não está nem perto de poder ser utilizado para esse fim.

MATAV- Quais são os maiores usuários do Movie Reading no Brasil?

MAURÍCIO SANTANA- Hoje temos cerca de seis mil downloads de conteúdos realizados e a audiodescrição tem sido o recurso mais procurado.

MATAV- Como vocês conseguem divulgar o aplicativo?

Maurício Santana- Estávamos com algumas estratégias sendo desenhadas para esse momento da implementação da acessibilidade nas salas de cinema, mas tivemos que abortar, como expliquei. Fizemos algumas ações em redes sociais, muitas demonstrações para distribuidores e produtores de filmes (todos ficaram bem impressionados com o MR) e também tivemos um stand na EXPOCOM 2016. Agora, estamos estudando um novo direcionamento para outras possibilidades, outras janelas de exibição, como festivais e mostras de cinema, Videos on Demand (VOD) e até a exibição em TVs (aberta e fechada), já que a potencialidade e eficácia do MovieReading, já foi testada e aprovada pelo público com deficiência.

MATAV: Os leitores interessados em saber mais sobre os projetos da Iguale Comunicação de Acessibilidade e detalhes sobre o Movie Reading podem acessar o site https://iguale.com.br/ ou https://iguale.com.br/moviereading/

[1]O filme  Mulheres no Poder pode ser visto com os recursos de acessibilidade do Movie Reading no Now.

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