Entrevista exclusiva com elenco da peça “Tribos”

Bauru receberá no próximo dia 20 de fevereiro a peça Tribos. Um roteiro belíssimo da britânica Nina Raine que encantou Bruno Fagundes em 2012 quando assistiu a montagem em Nova York. Rapidamente os direitos foram adquiridos e a peça tem sido sucesso há quase um ano e meio com público de mais de 150 mil pessoas no Brasil e em Portugal.

A coordenadora do Blog MATAV (Mídia Acessível e Tradução Audiovisual) fez uma entrevista bastante esclarecedora com a Equipe Tribos. Abaixo leiam a sinopse da peça e a entrevista na íntegra.

peçatribos

Sinopse: Billy (Bruno Fagundes) nasceu surdo em uma família de ouvintes, liderada pelo pai Christopher (Antonio Fagundes) e pela mãe Beth (Eliete Cigarini), e completada pelos irmãos Daniel (Guilherme Magon) e Ruth (Maíra Dvorek). Ele foi criado dentro de um casulo ferozmente idiossincrático e politicamente incorreto. Adaptou-se brilhantemente às maneiras não convencionais de sua família, mas eles nunca se deram o trabalho de retribuir o favor. Finalmente, quando ele conhece Sylvia (Arieta Côrrea), uma jovem mulher prestes a ficar surda, Billy passa a entender realmente o que significa pertencer a algum lugar.

(fonte http://www.tribosnet.com/)

Lucinéa Villela: O excelente roteiro de Nina Raine trata de temáticas que englobam dificuldades nas relações familiares, preconceitos, aceitação das diferenças e inclusão. Poderíamos afirmar que não somente o personagem Billy é ignorado por sua família, mas que os outros membros dessa “Tribo” tão complexa não sabem como se comunicar e “ouvir” os sentimentos uns dos outros? Vocês acreditam que essa família representa toda sociedade contemporânea ou há uma caricatura necessária nas artes e ficção? Como descobriram o roteiro Tribes? Alguém do elenco teve a oportunidade de assistir a peça na Inglaterra ou nos EUA?

Equipe Tribos:  Acredito que toda forma de arte não deve ser casta. Deve trazer consigo um valor crítico e de certa forma, uma análise do nosso tempo: instigar-nos a rever nossas certezas. A família que Nina Raine expõe em “Tribos” é sem dúvida uma família bastante disfuncional. Ela carregou nas tintas exatamente para que ficasse evidente a surdez de cada um dos membros desta família. Desta forma, dividiu o tema em duas categorias: a surdez dos que são vítimas desta condição e a surdez dos que ouvem perfeitamente, mas ESCOLHEM não escutar. Acho que este é o cerne de toda a encenação. Não há nada mais contemporâneo do que a nossa “audição seletiva”. Ouvimos só o que nos é confortável e ignoramos o que nos é diferente. Ao longo do texto você percebe que o personagem que mais “escuta” ali dentro é exatamente o deficiente auditivo – ouvir é estar disponível para o outro.

Eu (Bruno Fagundes) fui para NY em setembro de 2012 e assisti à versão inglesa original de Tribes. Foi imediato: me apaixonei perdidamente pela discussão em cena, pelos personagens, pelas ideias lá expostas, me emocionei muito com esse novo universo, cheio de nuances, muito humor mas com bastante profundidade. Um ano depois estreamos em São Paulo. Agora somamos mais de 150 mil espectadores em 1 ano e 5 meses de temporada. E ainda não acabamos.

LV: Sabemos que o trabalho de vocês é primordialmente artístico e que o tema da deficiência auditiva não foi escolhido como uma agenda inclusiva. Contudo, arrisco dizer que para além da arte, esse trabalho provocou um caloroso debate sobre a inclusão dos surdos e ensurdecidos em suas famílias, escolas, ambientes de trabalho, enfim, na sociedade.  Vocês já tinham noção que haveria uma recepção tão grande e calorosa das pessoas com deficiência auditiva e de seus familiares? Eles foram relevantes para que houvesse uma turnê da peça?

Tribos: Exatamente, o que nos moveu a montar este texto foi, primordialmente, a possibilidade de bom teatro que a peça possui. Não sabíamos nada sobre surdez, acessibilidade, ferramentas, muito menos sobre a recepção do público. Fazer teatro é dar um tiro no escuro. Jogar para o mundo uma ideia e torcer para que alguém compartilhe com a mesma emoção. Sentimo-nos muito vitoriosos ao saber que não só nossa ideia foi aceita e compartilhada, como também ajudou muitas pessoas e abriu novas possibilidades de discussão sobre um assunto tão ‘morto’ no Brasil e tão necessário.

Nós somos uma cooperativa, ou seja, não recebemos nenhum financiamento do Estado ou do Governo, nem de nenhuma empresa. Dependemos única e exclusivamente do público. Portanto, sem dúvida, vimos na turnê uma oportunidade de ampliar mais ainda nossa vontade de se comunicar.

LV: Os recursos de libras e legendas foram imprescindíveis para a boa recepção das pessoas com deficiência auditiva do texto de Tribos. Vocês já haviam lançado mão desses recursos em outros trabalhos? Continuarão a usá-los em novas produções? Em Portugal houve um intérprete de línguas de sinais nativo?

Tribos: Novamente, não sabíamos nada sobre acessibilidade até começarmos os ensaios. Percebemos que seria um contrassenso falar sobre a surdez universal, sobre comunicação, compreensão, tolerância, preconceito, compaixão e, claro, sobre a deficiência auditiva e não incluí-los.  Começamos a nossa pesquisa sobre as melhores ferramentas de acessibilidade e depois de muitas tentativas – e muitos erros – chegamos à forma que coube no nosso bolso e foi ideal para nossa proposta. Além das legendas e intérpretes, durante 11 meses no TUCA (em São Paulo) fizemos audiodescrição para deficientes visuais.

Em Portugal conhecemos uma pessoa iluminada chamada Maria Helena Regencio Alves, uma militante da acessibilidade no país que nos ajudou desde nosso primeiro dia em terras lusitanas. Tínhamos duas intérpretes e tradutoras de Língua Gestual Portuguesa – Ana Sofia Fernandes e Paula Teixeira – e fizemos muitas sessões com audiodescrição da Suzana Suzarte. Foi maravilhoso.

Pretendemos estender nossa proposta acessível para todos os espetáculos que fizermos de agora em diante. Especialmente os que falam sobre outros temas, além da deficiência auditiva. Nosso erro foi não ter feito isso antes. Vamos corrigir essa falha.

LV: Eu pedi para ouvir a audiodescrição em uma das sessões no TUCA, mas na oportunidade, não havia pessoas com deficiência visual na plateia. Vocês receberam cegos ou pessoas com baixa visão em outras sessões?

Tribos: Sim. Mas, infelizmente a adesão não foi tão considerável, comparada à presença dos deficientes auditivos. Nossa maior dificuldade aqui no Brasil com sessões de audiodescrição foi chegar nesse público específico. Em Portugal fomos muito ajudados por diversas associações de acessibilidade. Nossa parte nós fizemos, ou tentamos fazer. Esse é mais um reflexo da má gestão brasileira, da falta de interesse político e baixo engajamento dos poderes públicos. Algumas pessoas responsáveis pelas principais associações brasileiras – que em tese deveriam usar “Tribos” como um case de acessibilidade, ou no mínimo uma grande oportunidade – nem assistiram à peça em São Paulo em quase um ano de temporada.

LV: Em 2013, em um dos debates que participei, perguntei a vocês se levariam a montagem para outras cidades, especificamente, Bauru. Na ocasião, o Antônio Fagundes respondeu que não haveria possibilidade, pois as dificuldades de deslocamento e custeios da montagem impediriam uma turnê. Felizmente o prognóstico de Fagundes não se cumpriu! Quais fatores favoreceram a turnê nacional e internacional da peça?

Tribos: Nenhum fator favorece! Hahaha! Somos malucos mesmo. Os custos quadriplicam em uma turnê, estamos viajando semanalmente mas contando sempre com um risco altíssimo que põe em cheque a vida do projeto. Em Portugal tivemos a parceria de uma grande produtora local que arriscou conosco, dividindo os custos. Deu certo. Mas foi uma loucura.  Aqui no Brasil não é diferente, mas também encontramos alguns parceiros pelo caminho. Agora cabe ao público de Bauru fazer sua parte indo nos prestigiar. Estaremos na cidade somente por um dia e contamos com a presença de todos, estamos fazendo isso por vocês, não por nós. Nossa sede por comunicação é insaciável.

LV: Por fim, temos um projeto de acessibilidade cultural no Brasil?

Tribos: Acredito que estamos a passos lentos, mas caminhando. Senti um movimento maior em relação à acessibilidade nesses últimos tempos, acho que ajudamos fazendo nossa parte. Espero que as companhias se motivem cada vez mais com essa possibilidade, mas para isso também é importante que o público frequente. Senão toda caminhada retrocede.

Serviço:

TEATRO MUNICIPAL DE BAURU
ENDEREÇO: AV. NAÇÕES UNIDAS – QUADRA 8 – N° 9 – VILA ANTARCTICA – BAURU
datas: 20 de fevereiro – sexta-feira
Sessões: 20h e 22h (sessões iniciam pontualmente, proibida entrada após o início)
Duração: 80 minutos

Classificação: 14
Ingressos:
meia: R$ 40,00 (estudantes, idosos e professores)
clientes Porto Seguro

40,00 (clientes + 1 acompanhante: R$ 40,00 cada)
Recorte Jornal da Cidade: R$ 50,00
Inteira: R$ 80,00
Pontos de Venda: (a partir de 09/02)
– My Gloss Acessórios (piso Térreo Bauru Shopping)
– Digol Sports (Boulevard Shopping Nações)
– Roth Store (Av Getúlio Vargas, 5-9)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s